segunda-feira, fevereiro 17, 2014

O que o dérbi aponta para o futuro?


Comentei o dérbi paulistano Corinthians e Palmeiras para o Première.

Um bom jogo, que valeu mais pela segunda etapa.

O resultado nada traz de definitivo, apenas mantém o Palmeiras virtualmente classificado em seu grupo e o Corinthians em grande dificuldade em sua chave.

O que interessa mesmo para os torcedores dos maiores rivais do futebol paulista é o que o jogo pode apontar para o futuro.

A mensagem é positiva para corintianos e palmeirenses. As duas equipes precisam evoluir e devem melhorar para as disputas mais importantes que virão, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro.

O Palmeiras está num estágio mais avançado de preparação e tem um elenco, pelo menos do meio para a frente, que oferece mais opções ao treinador Gilson Kleina.

O Corinthians patinou no início da temporada e passa por uma reformulação que, ao que tudo indica, ainda não terminou. Mas mostrou no clássico que há tempo e condição para que a equipe evolua e saia do marasmo em que estava.

Isso se os maus torcedores não atrapalharem novamente.

Clássicos são campeonatos dentro de um campeonato, e o desempenho anterior muitas vezes pouco ou nada significa quando um jogo deste tamanho acontece.

O Corinthians foi superior ao Palmeiras, em especial nos 15 primeiros minutos do segundo tempo, quando poderia ter decidido o jogo.

O Palmeiras teve o mérito de não se desorganizar após sofrer o gol e não oferecer o contragolpe ao Corinthians, o que possibilitou a busca do empate.

Foi um clássico bem diferente dos outros dois já disputados no estadual bandeirante.

No primeiro clássico, o Santos massacrou o Corinthians na etapa final. No segundo clássico, o Palmeiras subjugou o São Paulo, que não ofereceu resistência alguma.

O dérbi, embora tivesse o Corinthians com mais oportunidades, não teve um atropelamento e nem uma equipe dominando completamente a outra, como sugeriu Mano Menezes na coletiva pós-jogo, claramente preocupado em se defender das críticas que vinha sofrendo e valorizar o próprio trabalho.

A chave para a melhora corintiana passou pela mudança no meio-campo, que vinha sendo o setor mais frágil da equipe. Com três volantes, um enganche tipicamente argentino (Jadson), um atacante de lado e um homem de referência o Timão esteve mais bem distribuído em campo. Com três homens para a cobertura, os laterais puderam subir menos preocupados com a marcação, que não é o forte de Uendel e Fagner.

Se Romarinho e Guerrero não tivessem perdido as ótimas chances que tiveram, o Corinthians venceria o jogo. Mas Fernando Prass fez muito bem seu papel, principalmente na finalização de Guerrero. Romarinho é bom jogador, nada mais do que isso, mas não pode ser avaliado apenas porque faz gols contra o maior rival. O que não compensa a quantidade astronômica de oportunidades que desperdiça.

O Palmeiras joga mais aberto. Tem apenas um volante de contenção, Marcelo Oliveira, e chega geralmente com Valdívia, Wesley, Leandro e Kardec. Mazinho tem função tática de marcação no meio, para dar cobertura às subidas de Valdívia, Wesley e Juninho. Mas não tem jogado bem. Assim como Leandro, o que sobrecarrega Wesley e Valdívia (que teve uma atuação apagada) na armação.

O banco palmeirense dá mais opções ofensivas a Kleina do que os suplentes corintianos oferecem a Mano. Com Mendieta e Diogo o Verdão conseguiu ficar com a bola e buscar o empate. O Corinthians não tinha um homem de velocidade para puxar um contragolpe que pudesse ser fatal. Enquanto o Palmeiras não tinha um zagueiro no banco para uma eventual necessidade, cabendo a Marcelo Oliveira o papel de coringa. São elencos que, embora numerosos, têm buracos em determinadas posições.

O Corinthians tem uma zaga que hoje falha muito nas bolas cruzadas e carece de opções ofensivas para abastecer Guerrero. Tem um ótimo primeiro volante, mas o segundo e o terceiro homem de meio-campo não fazem a diferença.

O Palmeiras carece de laterais com mais qualidade. Wendel é competitivo e bom marcador, mas tem deficiências ofensivas. Juninho ataca bem, mas marca muito mal. Para jogar com apenas um volante de contenção, o time precisaria contar com um jogador mais qualificado do que Marcelo Oliveira, embora ele esteja jogando bem. Eguren e França são boas opções para reforçar o setor.

A vida palmeirense está mais fácil no Paulistão. O Corinthians ainda precisa tirar sete pontos de distância para o segundo colocado em sua chave, com o detalhe de que não pode fazê-lo por conta própria, precisa contar com os resultados dos outros.

O que fica do dérbi é que com tempo para evoluir as equipes podem chegar numa boa condição no Brasileiro e na Copa do Brasil. Todo mundo ainda está se acertando, não existe um supertime hoje no futebol nacional, há muito equilíbrio.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Nojento

Nojenta a manifestação de alguns torcedores peruanos contra Tinga.

Triste saber que vem da terra de Joya, Chumpitaz, Cubillas e outros grandes jogadores negros.

O Peru que tem uma louvável e fantástica miscigenação racial, a cultura Inca, Machu Pichu, uma culinária festejada.
Mais triste ainda saber que o comandante da seleção peruana em 1970 era o nosso Didi, o Príncipe Etíope, um gênio negro do futebol e um senhor de uma educação impecável.
Constrangedor ver que isso é mais comum do que se pensa em nosso continente, em nossa sociedade, em nosso País. O próprio Tinga disse que passou por isso em Caxias do Sul.
Tinga é gente da mais alta qualidade, um excelente jogador, bom papo. O apelido é referência à origem mais do que humilde, na região da Restinga, em Porto Alegre.
Deu um duro danado para vencer na vida.
E a Conmebol, fará algo? Duvido que faça alguma coisa além da multa.

Aliás, é uma entidade obcecada por multas em dinheiro, cobradas em dólar, moeda que não está em vigência em nenhum dos países sobre os quais ela tem o poder futebolístico.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Em livro, a magia dos clássicos

Capa do livro: lançamento em março

Boa notícia para os amantes da literatura esportiva de qualidade.

Os estudiosos José Renato Sátiro Santiago e Marcel Unti lançam em março o livro "Os Clássicos do Futebol Brasileiro.

Tive a honra de, a convite dos autores, escrever o prefácio da obra.

Segue abaixo o release dos autores.

Como o próprio jornalista Maurício Noriega diz na apresentação do livro: “Jogos comuns, vocês que me perdoem, mas os clássicos são fundamentais”. Pois é dentro deste cenário que Os Clássicos do Futebol Brasileiro, livro de autoria de José Renato Sátiro Santiago Jr. e Marcelo Unti, apresenta um inédito e histórico levantamento dos maiores jogos da história do futebol brasileiro, os chamados Clássicos. Uma história iniciada ainda no princípio do século passado entre São Paulo Athletic Club e o Club Athletico Paulistano e repleta de muitas curiosidades, fatos, “causos” e registros históricos que envolve o futebol de todas as 27 unidades federativas do Brasil. São mais de 200 clássicos, mais de 1.000 histórias, emoções infinitas e rivalidades que se perpetuam ainda mais o futebol brasileiro. Histórias de jogos decididos com gols de Tarzan, Ventilador, Burro Preto e, até mesmo de Purgante. Partidas em que equipes inteiras foram a delegacia, de uniforme e tudo, ou que foram invadidas por enxame de abelhas ou de uma cabra, chamada Sofia. Clássicos do Sertão, do Cacau, Pai e Filho, Vovô, Suburbano e alguns até mesmo disputados no Lixão. Uma viagem fantástica e imperdível pelo País do Futebol.
 
Livro com 356 pgs (16x23)
Lançamento: Bar São Cristovão  (Rua Aspicuelta, 533) em São Paulo
Data: 13 de março a partir das 19:00

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

É greve ou um grito de socorro?

É louvável o fato de os jogadores do futebol estarem tentando se organizar como categoria, lutando por seus direitos, expondo seus pontos de vista.

Toda categoria profissional precisa de posicionamento, de regulamentação, buscar seus direitos e cumprir seus deveres.

A greve é um direito de qualquer trabalhador. O protesto é um direito de qualquer cidadão.

A ameaça de greve por parte dos grupo Bom Senso Futebol Clube é um sinal claro de protesto. Está sendo programada e pensada desde o Brasileiro do ano passado, bateu na trave quando houve a crise de atraso de salários do Náutico. O estopim para a nova ameaça foi a absurda agressão de que foram vítimas os jogadores do Corinthians.

Por isso vejo mais como protesto do Bom Senso do que greve de categoria. Até porque o Bom Senso, embora se posicione como tal, ainda não é um movimento que seja porta-voz de toda a categoria de jogadores de futebol. Está mais voltado para questões de grande repercussão, que envolvam Série A, Brasileirão, o poder na CBF.

Acho que seria o caso de os jogadores do Corinthians fazerem greve, porque o clube onde eles trabalham não está oferecendo garantias de segurança e tampouco tomou as medidas que os atletas esperavam que fossem tomadas quanto aos bandidos disfarçados de torcedores.

Não haveria motivo para greve em outros clubes, tecnicamente. Se é que se pode falar desse assunto de forma técnica.

Os protestos e os posicionamentos são legítimos e devem continuar. Basta recordar o caso recente dos jogadores do Racing Santander, que se recusaram a jogar por causa de meses de salários atrasados e foram aplaudidos pelos torcedores (os de verdade).

Assumir posições é extremamente saudável e os jogadores demoraram a tomar essa atitude. O posicionamento político também é saudável, mas precisa ser claro, sem nebulosidade.

A discussão do calendário é positiva e os jogadores precisam ser ouvidos. Ridicularizar uma competição que ajuda a pagar seus salários é uma postura que alimenta a tese de alguns de que há um claro direcionamento político no Bom Senso e que no centro da mira está a disputa do poder na CBF.

Pelo que tenho visto, não há consenso entre os atletas quanto à greve. Os que mais sofreriam seriam os atletas de times pequenos, que dependem de jogos para sobreviver, fazem contratos de pouco tempo para os estaduais. Uma paralisação os tiraria da vitrine.
Como categoria, os atletas profissionais de futebol podem e devem se posicionar contra a perseguição estúpida de marginais. Também devem ser os primeiros a romper com essa gente, a deixar de frequentar sede de torcida, escola de samba, de comemorar onde eles estão sentados etc.

Que o posicionamento e os protestos sejam claros, diretos e frequentes. Se vier a greve, que seja bem fundamentada.

Mas sigo afirmando que vejo mais cara de protesto, de tomada de posição e demarcação de território.

No fundo, os atletas estão gritando socorro!


quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Esporte tem que ser cultura

Os tempos estão bicudos.

Fala-se cada vez menos de gols, belas jogadas, dribles, apostas divertidas e curiosas.

Há quanto tempo não se conta uma bela história de vida de algum atleta? Ou mesmo algo divertido.

O futebol está ficando chato.

Como esporte mais popular do País, espero que não contamine outras modalidades, embora entenda que já esteja contaminando.

Vejo o comportamento de alguns treinadores no voleibol, por exemplo, e percebo a replicação de modelos do futebol.

Lembro-me dos meus primeiros anos de repórter n Diário Popular.

A violência entre torcedores havia atingido um índice tão alarmante que era comum sermos pautados para cobrir enterros e velórios de torcedores, como se isso fosse esporte.

Recebíamos ameaças. Telefonavam na redação, às vezes até em nossas casas.

Muita gente lucrou em cima dessa violência. Alguns fizeram carreira política, outros carreira no Governo.

As torcidas organizadas foram "banidas" várias vezes e nunca saíram do lugar.

A questão não está em banir as uniformizadas. Cada um faz o que quer da vida. Fica sócio de clube, monta uma banda, entra em torcida.

A questão está em respeitar o direito do próximo, viver civilizadamente, cumprir a Lei e ser punido por não cumprir.

O futebol faz fortunas, constrói e destrói reputações, elege políticos.

Tudo isso tem contribuído para que o futebol venha perdendo cada vez mais seu lado lúdico, de diversão, de lazer e confraternização.

A paixão foi contaminada pelo ódio.

O negócio faz parte e tem que ser assim mesmo. Os jogadores movimentam milhões e merecem ganhar bem por isso. Os clubes idem.

As próprias torcidas vivem desse negócio.

Já ouvi de diretor de torcida que ele não quer saber de violência porque isso espanta os clientes dele.

Sabem do que ele vive? De vender camisas da torcida da qual faz parte.

É ótimo que os jogadores estejam se posicionando. Ainda que eu desconfie que exista um interesse político disfarçado por trás de alguns integrantes ou mentores do movimento Bom Senso, que talvez mire apenas o comando da CBF. Tomara que eu esteja errado. Até porque acredito nos propósitos de alguns dos jogadores que estão dando a cara.

O negócio gira milhões mas poderia girar bilhões. Falta organização. As entidades que comandam o futebol no Brasil são amadoras. Mais do que isso: são burras. Se o objetivo é ganhar dinheiro, poderiam ganhar muito mais.

Têm uma mina de ouro nas mãos e tratam como se fosse uma lojinha de quinquilharias.

Todo movimento gera uma reação.

Que esta seja positiva e traga resultados.

Os atletas têm razão em temer por suas vidas.

Devem cobrar melhores condições de trabalho. Por parte de quem organiza os torneios e por parte dos clubes que os contratam.

Também precisam ser mais profissionais.

Sou um otimista. Acredito que dias melhores virão.

Como pregava meu saudoso pai em suas transmissões, Esporte é Cultura. Um grande País se Forja nos Campos Esportivos.

Não podemos perder isso de vista.
 

sábado, fevereiro 01, 2014

Um convite para reconstruir o basquete brasileiro


Leio no IG que o Brasil ficou com um dos quatro convites da Fiba para a Copa do Mundo de Basquete masculino, que será realizada na Espanha, entre agosto e setembro.

Que seja bem aproveitado o convite, não apenas no sentido de buscar  uma boa campanha, o que parece bastante difícil.

Mas como reflexão pelo vexame de uma nação basqueteira com dois títulos mundiais e três medalhas olímpicas, que durante décadas ficou sempre entre as cinco maiores forças e que por picuinhas, jogos de interesses, vaidades e uma cultura absolutamente individualista deu no que deu.

Passou da hora das pessoas que fazem o basquete brasileiro, as que fizeram e as que farão pensarem apenas em um objetivo: a reconstrução da modalidade. Sem picuinhas, sem o patético chororô com ciúmes do voleibol, sem procurar inimigos que não existem.

O maior inimigo do basquete brasileiro tem sido o próprio basquete brasileiro.

Que comece uma nova era em 2014, para colhermos frutos em alguns anos.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Por uma grande Copa com uma grande fiscalização


Não engrosso as fileiras do quanto pior, melhor.

Tampouco figuro nas legiões de Polianas que acreditam que tudo está sempre bem.

Não sou hipócrita. Trabalho com jornalismo esportivo. Uma Copa do Mundo no meu País é uma grande oportunidade de trabalho.

Sou um fã de esportes. Ver alguns dos maiores atletas do esporte mais popular do planeta em nosso território também é uma grande oportunidade.

Mas também sou cidadão, pago em dia meus impostos e tenho o direito de cobrar o que se faz e, principalmente, o que não se faz.

O Brasil e seu Governo quiseram fazer a Copa. Investiram politicamente em cima disso, certamente de olho no calendário eleitoral. Houve a promessa de uma Copa do setor privado, sem dinheiro público (ou com pouco dinheiro público). Está registrado em declarações de gente da CBF e do Governo. Podemos cobrar. Devemos cobrar.

Minha postura é essa. Fazer bem meu trabalho nas transmissões dos jogos, pelo canal que me paga, e fiscalizar como cidadão. O que, aliás, a mídia, tão combatida nesse País, vem fazendo.

Torço para uma Copa que funcione dentro da realidade do Brasil.

Não adianta imaginar que tudo funcionará como na Alemanha, porque não somos a Alemanha. Não adianta sonhar com aeroportos padrão norte-americanos porque não teremos.

Perdeu-se novamente a chance de aproveitar um grande evento para catapultar ações que tirassem o Brasil do estágio jurássico de infraestrutura e apresentassem ao mundo um País capaz de receber milhões de turistas, ávidos por conhecer sua natureza exuberante. Isso está perdido, é fato.

Mas eu torço sinceramente para que seja uma boa Copa dentro de campo e uma Copa sem grandes transtornos fora dele.

Temos um patrimônio importante que é o nosso povo. Embora judiado por governantes descarados e sacanas, ainda temos uma matriz de população honesta, bondosa, que gosta e sabe receber bem os visitantes.

Não imagino uma Copa sem percalços e, infelizmente, violência. Porque somos um País muito violento.

O que é preciso agora é que o cidadão jamais deixe de fiscalizar o que foi gasto, cobre com firmeza e se manifeste nas urnas sobre o que ele considera legado ou o que lhe é negado.

Acho importante que haja espaço para quem quiser ver os jogos tranquilamente e para quem achar que deve protestar. Um não pode interferir na vontade do outro. Sei que parece utópico, mas é assim que deveria ser.

É preciso que o cidadão avalie cada cidade-sede da Copa e veja o que ficará para ele após o Mundial. Não apenas estádios.

A Copa das Confederações foi um oásis de futebol bem jogado. Teve problemas, como a Copa do Mundo terá. Como houve problemas na Copa da África e em outras Copas.

O que espero é que sejamos civilizados com os visitantes e que tenhamos uma Copa de bom futebol e paz.

Depois acertaremos as contas nas urnas.

 

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Rolezinhos em Bariri

Lembro com carinho das minhas férias de infância e adolescência em Bariri.

Juntava a molecada toda. Tinha filho de fazendeiro com filho de bóia-fria, filho de médico com filho de bancário, filho de viúva com filho bastardo.
Ninguém se importava com a marca da roupa, o salário do pai etc. Ninguém era mais do que ninguém. Democraticamente moleques em busca de diversão para passar o tempo numa cidade de 25 mil habitantes.
Éramos um bando de moleques querendo arrumar um campinho para jogar bola quando o clube estava fechado ou quando o contingente de garotos que não eram sócios do clube era grande. De vez em quando esticávamos até a beira do Tietê para tentar pescar alguma coisa.
Era o nosso rolezinho.
Aprontávamos algumas, é claro. Fazíamos nossas molecagens, exagerávamos, algumas brigas rolavam.
Tinha a turma que caçava passarinho, na qual nunca me encaixei. Eu era da turma que tocava campainha e chutava porta de garagem, uma grande idiotice, mas que nos 12, 13 anos era uma aventura e tanto.

Fico imaginando isso hoje. Uma renca de 30, 40, apertando campainha e chutando porta. Que diria disso, escandalizada, Marilena Chauí?
Pichávamos alguns muros. Quem dava o azar de ser pego em ação tinha que pintar o muro pichado.

Pichador e dono do muro conviviam normalmente depois disso.

Certa vez, tomados pelo tédio de uma tarde infernal de dia primeiro de ano, resolvemos fazer uma guerra de água em pleno centro da cidade.

Providenciamos duas camionetes, uns barris enferrujados, muitas bexigas e demos início ao combate.

Não era bem um combate, porque fizemos uma invasão fulminante, subindo a Claudionor Barbieri e distribuindo água para todos os lados. Enquanto abastecíamos nosso arsenal no Lago Municipal subestimamos a estratégia dos adversários. Sobrou pó químico de extintor de incêndio para este escriba.

A vida seguiu normal no dia seguinte, sem teses acadêmicas para explicar o ocorrido.

Certa noite de baile no Umuarama, a rivalidade Ghererê e Laboratchos era palpável. Provocações de um lado e de outro. Formou-se uma fila de pais, avós, tios e amigos separando os dois blocos que estiveram à beira de resolver as diferenças não no samba, mas no tapa. Felizmente, nada passou de provocação e no mesmo baile dançavam todos juntos.

São versões do rolezinho. Uma brincadeira que os teóricos de plantão, os curadores da verdade acadêmica e do proselitimo pseudo-político transformaram em assunto de pauta nacional.

Quem não gosta de fazer bagunça quando é moleque? Quando forem pais, os idealizadores do rolezinho versão 2014 terão medo de ver seus filhos no meio da zona. Porque é assim que a banda da vida toca.

Eu fujo de aglomeração desde sempre. Não gosto, acho que é uma situação de alta octanagem. E sempre tem um idiota que acende um palito de fósforo no depósito de combustíveis.

O Brasil é um País paupérrimo em opções esportivas e culturais para os jovens. Sejam eles de qualquer faixa social. Sempre foi assim. Embora existam, são poucos os centros esportivos, as bibliotecas, os centros culturais. Mas eles existem. Gratuitos. Deveriam existir mais, às pencas.

Recordei recentemente o projeto das Ruas de Lazer, que eram muito bacana. Ruas eram fechadas aos finais de semana e transformadas em quadras esportivas improvisadas, com redes, traves etc. Sumiu, como quase toda boa ideia some.

Sempre houve versões dos rolezinhos.

Nos anos 70 houve a praga das turmas de brigas. Em São Paulo havia algumas que se tornaram lendárias. Barão, Tubo. Como eram formadas por jovens de classe média baixa e classe média, não chamaram a atenção dos teóricos de plantão. Não dava glamour. Recentemente li belas reportagens sobre o presente dos integrantes dessas turmas do passado. Nada glamouroso, diga-se.

Arrastão também é uma versão de rolezinho com um pé na criminalidade, ou não?

Alguém escreveu sobre os flashmobs, a versão, dizem, descolada, dos rolezinhos. Apesar de eu não ter ideia alguma do que é alguém descolado, do que isso significa.

Aqui perto de casa tem um rolezinho maneiríssimo chamado Meninos do Morumbi. Uma molecada que tira um som bacana, uma batucada do bem, e que vira e mexe anda pelas ruas do bairro, já fez show em estádio de futebol etc.

Um rolezinho tradicionalíssimo de São Paulo é o das sopas do bem. Pessoas que na madrugada distribuem um pouco de calorias e calor humano para excluídos e necessitados. Também não merecem tese acadêmica porque fazem algo, o que espanta qualquer filósofo partidário.

Vou dar um rolezinho e aproveitar os últimos dias de férias. Porque ainda preciso trabalhar.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Menos heroísmo e mais competência


Eis que o Brasil despertou neste 23 de dezembro como o País dos entendidos e apreciadores de handebol. Pululam teses nas inefáveis redes sociais sobre o esporte, a falta de apoio, a superação, a garra e o maquiavelismo do mundo dos negócios esportivos.

Um dos muitos problemas desta Terra de Santa Cruz é a capacidade infinita de proliferação de teses. Afinal, somos todos especialistas em tudo, doutos em qualquer assunto que se apresente. Sem contar a vocação ancestral para as teorias conspiratórias.

A conquista das mulheres no handebol é daquelas que merece, sim, ser classificada como histórica nessa era em que o adjetivo é banalizado a cada final de semana de evento esportivo, com base em estatísticas quase sempre inúteis e modorrentas.

Não havia até o 22 de dezembro de 2013, na trajetória dos esportes coletivos no Brasil, caso em que uma equipe tivesse chegado pela primeira vez entre as quatro melhores e cravado a medalha de ouro. Todos que foram campeões mundiais, futebol, basquete e vôlei haviam, antes, alcançado uma semifinal, uma medalha de bronze, uma prata. O handebol feminino fez barba, cabelo e bigode nas estatísticas que realmente importam. Isso é histórico.

Entre os milhares de manifestações infestadas de termos ufanistas de ocasião e a infalível e abominável musiquinha do "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" ficam poucas análises realmente realistas.

Claro que é preciso exaltar e comemorar o feito, mas com base no que ele representa e em tudo que aconteceu para que o título mundial fosse conquistado por esse grupo especial de atletas.

Há muito mais competência e trabalho duro do que heroísmo. Houve um projeto de trabalho que visava a evolução das seleções brasileiras de handebol, visando uma mudança de quadro que progressivamente levou dos Mundiais B até uma conquista.

Talento sempre houve, desde o tempo de Santo Baldacin. Bons jogadores sempre houve. Mas não basta talento para ser vencedor em alto nível. É preciso treinar em alto nível, jogar em alto nível, perder em alto nível para poder ganhar lá na frente. Isso tudo aconteceu, basta ler e estudar, mesmo sem acompanhar o dia-a-dia do esporte. Um grupo seleto de atletas talentosas foi destacado para jogar por uma equipe austríaca, numa liga de nível elevado, com um treinador experiente e capacitado, importado de uma nação com tradição e história no esporte. Os resultados vieram em uma década de trabalho sério, capacitado e muito suor.

Não há mistério, não existe milagre.

Acontecem fenômenos esporádicos, como Maria Esther Bueno e Guga, desperdiçados em meio à incompetência e falta de visão estratégica que contaminam um esporte como o tênis, apenas para citá-lo como exemplo.

Um título mundial não significa que em 2014 haverá brasileiros jogando handebol em cada esquina e ginásios lotados para ver os jogos por aqui. Longe disso. Uma seleção forte não é sinônimo de esporte e ligas igualmente fortes.

O vôlei dos Estados Unidos é um exemplo disso. Tem seleções fortíssimas, mas na pátria do esporte como negócio nem sequer possui uma liga profissional. O que não impede o trabalho de excelência nas seleções.

O que mais me incomoda sempre que acontece uma bela e justa conquista de esporte dito amador no Brasil é a comparação fora de hora e de contexto com o futebol. A velha história de que se não gastassem tanto com o futebol tudo seria diferente com outros esportes.

Tudo conto da carochinha, choro de patota e reclamação de amiguinho.

Basta ver os patrocinadores das seleções de basquete, vôlei e handebol para saber que existe dinheiro público e boa quantia investidos nesses projetos e em outros, como natação, atletismo etc. O esporte olímpico de alto rendimento no Brasil é praticamente estatal em termos de investimentos.

Sucesso esportivo não é sinônimo de popularidade. O futebol é o rei dos esportes na maioria do planeta, não apenas no Brasil. Gera e movimenta as quantias que o envolvem porque repercute igualmente em termos de popularidade. Isso é um fato incontestável. Assim  como dá mais audiência e rende mais espaço de cobertura em jornais e internet.

Escrevo com algum conhecimento de causa porque já cobri de tudo, de boliche a Copa do Mundo, tive uma experiência saborosa em minha vida como atleta e, posteriormente, como jornalista, em Olimpíada, Pan, Mundiais de vôlei, basquete, judô. Muitas vezes a qualquer comentário eu ouvia dos próprios colegas, poucos, é verdade, uma patotinha: "xi, olha o comentário do pessoal do futebol". Ou então: "aqui não é futebol, viu".

Pior que isso é o ainda presente comportamento de alguns que à primeira derrota entoam o coro do "faltou sorte, deu azar, falta apoio, vocês são heróis, são guerreiros, não têm apoio".

Prefiro ficar com as afirmações que ouvi recentemente de um dos maiores atletas brasileiros em todos os tempos, Arthur Zanetti. Ele não usa o chororô como discurso oficial, lembra que escolheu ser atleta porque gosta e faz isso porque é o caminho que deu a sua vida. Postura que talvez ajude a explicar seu sucesso, seu nível de concentração e envolvimento.

Muitos atletas chamados amadores no Brasil enriqueceram com o esporte e graças ao seu esforço e talento. Há atletas muitíssimo bem remunerados. É preciso abandonar o discurso da falta de incentivo e apoio no que se refere aos profissionais do esporte de alto rendimento.

O que falta é projeto de base, de educação, é levar e inserir o esporte à realidade escolar e na formação do caráter do jovem.

Nunca houve tanto esporte na TV brasileira como se mostra hoje. Tem de tudo. Handebol, vôlei, rúgbi, curling, atletismo, basquete, natação, esportes de inverno, maratona, esportes radicais. Há espaço, canais e modelos de negócio distintos e para todos os gostos. Ninguém faz nada de graça ou abre sinal por caridade. Como dizem os businessmen, não tem almoço grátis.

Talento sempre houve e sempre haverá. O que falta é exaltar a competência, o trabalho duro e os projetos de longo prazo e parar de chorar sobre o dinheiro (muitas vezes público) derramado, o que é especialidade de alguns esportes. Que podem reclamar de falta de sorte e apoio, por exemplo, basquete e tênis, que tiveram todas as oportunidades e as jogaram fora por picuinhas, politicagem e amadorismo?

O handebol mostrou que é possível atingir a excelência mesmo sem popularidade, e que as duas coisas não andam juntas obrigatoriamente.

Que as pessoas que fazem o handebol no Brasil aproveitam esta oportunidade para consolidar o projeto, seja com a manutenção de seleções fortes mesmo sem popularização e liga, ou com um bom campeonato nacional e massificação. Que não aconteça com o handebol o que houve com o basquete feminino, campeão mundial em 1994 e abençoado com Paula e Hortência e hoje uma triste lembrança desses tempos.

Atleta não é soldado. Ninguém que vista a camisa do Brasil numa competição internacional atendeu um chamado às armas, nem é um brasileiro mais brasileiro do que outro brasileiro por causa disso. O governo que twitta loas às conquistas é o mesmo que há bem pouco tempo queria desregulamentar a profissão de professor de educação física.

Entender essa realidade é o primeiro passo para profissionalizar e potencializar o esporte competitivo no Brasil, sempre tendo como base a escola, a educação. Ninguém é atleta por obrigação, geralmente é por escolha e prazer. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Ruim da cabeça ou doente do pé?


Antes de mais nada é preciso afirmar que a derrota do Galo para o Raja Casablanca é, sim, uma clamorosa zebra. Como tinha sido o fracasso do Inter diante do Mazembe, em 2010. Zebras estão aí para mostrar porque o futebol é o esporte rei do planeta.

Assim como zebras também são vexames. Também é preciso ter a honestidade de afirmar que, com o perdão da redundância, não é vexame dar alguns vexames na vida. Faz parte.

Em 2010 eu estava em Abu Dhabi com os companheiros Milton Leite, Lédio Carmona e Eduarda Strebb e vimos, atônitos, o dia de glória do Mazembe. Ontem acompanhei pela TV, revi pela Internet e não tenho dúvidas em cravar que foi zebra e também foi vexame, sim.

Porque pela estrutura, pelo tamanho dos times, pelo que se espera e se envolve, uma equipe brasileira ser eliminada por qualquer uma do Congo ou do Marrocos é um acidente, mas daqueles que sempre pode ser evitado. Tem imprudência, tem erro no caminho.

O que me pergunto faz tempos, desde que cobri, in loco, meu primeiro Mundial de Clubes, em 2006, é se nosso futebol chega a esta competição ruim da cabeça ou doente do pé? Porque não me lembro de, neste formato, a partir de 2005, uma equipe do Brasil ter vencido a semifinal com facilidade, com sobras. Além das duas fatídicas derrotas. Mesmo os que foram campeões tiveram suas doses de sofrimento, em algumas situações até mesmo andaram à beira da eliminação.

Sempre coloco isso em minhas opiniões, quando perguntado sobre o Mundial de Clubes: a semifinal é traiçoeira. É o jogo que dura seis meses e já começa vencido pelo time brasileiro. Todo mundo projeta a decisão contra o gigante europeu de plantão. Tentem lembrar agora, sem pesquisar no Google, os nomes dos times que foram derrotados nas semifinais pelos brasileiros que foram ao Mundial de Clubes desde 2005. Difícil, né? Mas do Mazembe e do Raja ninguém esquecerá.

É a história do ruim da cabeça. Eu acho que os times brasileiros lidam mal com essa questão psicológica do adversário mais fraco e da final anunciada com antecedência de seis meses. Mas não é a única tese para a explicação. A principal delas é a bola jogada. E o Atlético jogou mal, muito mal. Técnica e estrategicamente. Permitiu que um adversário inferior em qualidade utilizasse do contra-ataque como arma frequente e perigosa. Isso é um erro tático. Acontece porque um time sai do seu modelo habitual de jogo, se atira sobre o adversário, com todo mundo querendo resolver individualmente um problema que é coletivo. Não foi uma, não foram duas. Foram várias vezes em que o Raja contra-atacou perigosamente.

Individualmente todos os atletas do time mineiro estiveram opacos, abaixo de seu rendimento. O pênalti do segundo gol foi Mandrake, tudo bem, mas não serve como justificativa. O Galo esteve doente do pé em Marrakesh.

Seria coincidência o fato de os europeus jamais terem sucumbido à maldição da semifinal no Mundial de Clubes? Será que o fato de nós, brasileiros, valorizarmos muito mais essa competição do que os europeus não nos leva pesados demais para os duelos? Porque os times europeus chegam mais leves. Não quer dizer que deixem de levar a sério, mas lidam melhor com essa situação do favoritismo. Até porque, sem dúvida, taticamente seus atletas são mais bem preparados. Mesmo quando perdem para equipes sul-americanas na final, não é o fim do mundo, o portal do inferno. A vida segue.

Seguir com a vida é a missão do Galo. Mostrar que a Libertadores não foi um ponto fora da curva, que o projeto atual reposicionou o time, que entrará sempre para disputar títulos, não apenas participar.

terça-feira, dezembro 17, 2013

Futebol brasileiro atira no próprio pé


Ainda senhor absoluto da paixão popular esportiva o futebol posicionou-se em uma perigosa encruzilhada no Brasil.

Nunca antes na história deste País (sem nenhuma picardia política) se investiu tanto dinheiro em futebol como nos últimos 15 anos. As verbas advindas de TV, patrocínios de camisa e material esportivo deixaram o patamar da caridade para chegar a níveis excelentes. O valor do ingresso foi catapultado a um estrato que só agora começa a ganhar, sabe-se lá a que preço, equivalência no conforto de alguns estádios nababescos.

Tudo parecia caminhar para uma rota evolutiva consistente.

 Só faltou combinar com uma categoria fundamental: o dirigente. Aquele mesmo que odeia ser chamado de cartola mas raramente consegue se comportar como um manager, um gerente, um diretor remunerado.

Refém das décadas de amadorismo e coronelismo mascaradas pelas conquistas e pelo que parecia ser uma produção infindável de grandes jogadores, o futebol no Brasil começa agora a pagar o preço do amadorismo quase absoluto de seus dirigentes.

Embora nunca tenha entrado tanto dinheiro no mercado, os clubes acumulam dívidas que se afastam cada vez mais da casa das centenas de milhões para flertar com o bilhão.

O mercado de compra e venda de jogadores, que costumava ferver na segunda quinzena de dezembro, chafurda na penúria econômica da maioria dos clubes.

Nos últimos dez anos a praga cafona dos Novos Ricos se abateu sobre o futebol cinco vezes campeão do mundo. Jogadores medíocres cobram salários de três dígitos. Treinadores entendem que precisam receber soldos que ultrapassam a casa de meio milhão mensal e carregam a tiracolo comissões técnicas que custam o equivalente a uma diretoria de multinacional. Resultado que é bom, poucos dão.

Os calotes são frequentes. Alguns clubes se sustentam na base do mecenato, como o Fluminense com a Unimed. Outros sobrevivem antecipando receitas de patrocinadores e parceiros e incrementando as dívidas.

Os jogadores, acostumados ao patamar salarial surreal e inviável agora não aceitam propostas de redução. Afinal, precisam saciar a sede de empresários e investidores, sedentos de lucros, e das famílias que aumentam da noite para o dia, alimentadas por primos que surgem do nada e um rosário de namoradas e ex.

O quadro que se desenha, salvo um ou outro clube com números mais próximos do saudável, porém modestos, é de um futuro para lá de preocupante.

Jovens atletas sem qualquer resultado esportivos estrelam propagandas como se já fossem grandes craques. Falam de si próprios na terceira pessoa e exigem compensação financeira para algo que só conseguem prometer. Têm staff de estrela de cinema e bola de figurantes. Mas a marra, o cabelinho produzido, as fotos no Instagram e as bobagens postadas no Twitter estão lá.

Os dirigentes amadores que sustentaram durante décadas o profissionalismo da ala bandida dos torcedores enfrentam agora o dilema da rejeição pelo mercado.

O cancelamento do contrato da Nissan com o Vasco é emblemático. Motivado pela violência da torcida que o próprio Vasco insiste em ajudar financeira e juridicamente. Quem arca com o prejuízo? A instituição e o torcedor amador e verdadeiro. Quem terá coragem de, um dia, cobrar na Justiça ressarcimento?

Para completar, temos o quadro da chamada Justiça Desportiva, que no Brasil tem importância que, salvo grave engano desse modesto escriba, não encontra paralelo em qualquer outra nação boleira. Não tenho informação de que na Espanha, na Itália, na Alemanha, na Argentina procuradores e auditores tenham seus nomes conhecidos pelos torcedores e apareçam tanto na mídia como no Brasil.

Muitos campeonatos foram decididos na canetada sob o argumento da legalidade. Mas a interpretação da chamada letra fria da lei não responde ao anseio do verdadeiro dono do espetáculo, o povo, o torcedor, aquele que não recebe para fazer o futebol, mas que tira do bolso para nele buscar entretenimento, seja ao vivo no estádio ou pagando para ver na TV.

O amadorismo profissional do futebol brasileiro apresenta uma conta que agora ainda parece fácil de ser paga, mas que daqui a dez, vinte anos pode ser prenúncio de quebradeira.

Há tempos que observamos a nossa criançada correndo pelas ruas e quadras de grama sintética (a versão moderna e adaptada à insegurança vigentes dos campos de terra e de várzea) vestindo camisas do Barcelona, do Real Madrid, do Chelsea, do Bayern de Munique. Muitos já têm idade para ter medo de ir à escola com as camisas dos seus times brasileiros, o que pode ocasionar uma surra de um bando de covardes simpatizantes de algum rival. Outros são desencorajados por pais zelosos. E há aqueles que simplesmente não torcem para nenhum time brasileiro, são do Barça, do Real, do Arsenal. Não são poucos.

O nível técnico do último campeonato brasileiro foi sofrível, abaixo da crítica. O último ídolo que reverberava nacionalmente hoje brilha na Europa.

Quando um tribunal cujos integrantes afirmam ser defensores da Lei aplica penas risíveis após a Barbárie de Joinville fica difícil acreditar que algum de seus integrantes realmente se importe com o futuro do futebol. Porque esses 12 ou oito jogos em breve estarão reduzidos pela metade, serão convertidos na mágica favorita dos doutos, que transforma violência em cestas básicas ou multas se impacto algum.

Dia após dia as pessoas que dirigem o futebol no Brasil estão atirando com mira telescópica. Nunca erram o alvo: o próprio pé. Quando acordarem pode ser tarde.

 

segunda-feira, dezembro 09, 2013

UM PAÍS DE BÁRBAROS

A tragédia de Joinville, as cenas de barbárie, tudo isso só comprova a triste tese de que somos um País violento. Muito violento.

A violência faz parte da nossa cultura e se manifesta em diversas formas.

Há um culto à violência em boa parte da juventude, no desejo de ficar forte para se mostrar forte, brigar, espancar os mais fracos e marcar território, como típico selvagem. Exercitar a mente virou banalidade.

A cultura da violência está enraizada também na cultura do dinheiro fácil, da visibilidade, do ter para mostrar aos outros e, também, do mostrar aos outros mesmo sem ter.
 

O futebol é um reflexo da sociedade em todos os seus estratos. Há décadas que a violência está instalada confortavelmente nas praças esportivas.

A violência que transforma promotores públicos oportunistas em celebridades-relâmpago e, posteriormente, em legisladores.
 

Os marginais travestidos de torcedores foram legitimados por muitos clubes, são conselheiros, diretores. Até são defendidos com veemência por mandatários.
 

Mas não é apenas em estádios de futebol. As notícias estão aí. Brigas em colégio por causa de namorados e namoradas ou por causa da roupa do colega de classe.

Jovens espancando outros jovens até a morte em casas noturnas.
 

Talvez doa a alguns ler o que vou escrever agora, mas somos um PAÍS DE BÁRBAROS. Simples e direto assim.

Sem admitir isso não poderemos trabalhar para evoluir e preparar terreno para gerações melhores que possam suceder as muitas que já estão perdidas.

terça-feira, dezembro 03, 2013

O dia em que joguei com Pedro Rocha


Já faz tempo o bastante para que a memória não seja suficientemente precisa quanto a datas ou locais. Mas sou um jornalista à moda antiga, daqueles que ainda preferem a qualidade das histórias e o valor dos personagens à frieza dos números e das estatísticas.

O que me lembro bem é do fato que motivou esse texto, que ganha vida agora em forma de homenagem.

Se foi no final dos anos 80 ou no início dos anos 90 pouco importa. Também é um mero detalhe se aconteceu em Vinhedo ou Valinhos, foi por ali. E aconteceu, asseguro.

Meu pai, Luiz Noriega, era amigo do dono de uma fábrica de bolas chamada Lance.  Um dia ele me chamou para ir com ele a um churrasco (é nessa parte que não me lembro se foi em Valinhos ou Vinhedo. Está mais para Valinhos quando vasculho a memória). Seria a inauguração da iluminação de um campo de futebol na chácara do proprietário da fábrica.

- Leva uma chuteira, uma roupa porque acho que vai ter uma pelada - aconselhou.

Lá fomos nós. Papo animado, churrasco delicioso, cerveja e muitos craques do passado, a maioria da região de Campinas.

Quando foi anoitecendo chegou a hora do jogo, de testar os novos holofotes. O dono da casa me chamou e pediu que eu e um outro garoto (eu deveria ter uns 19 anos, no máximo), que se não me engano era filho ou sobrinho dele, fôssemos completar um dos times.

Pois lá fui eu. Timidamente nos apresentamos, eu e o outro cara, para completar um time em cuja escalação havia, entre outros, "apenas" esses nomes: Tuta (ex-ponta da Ponte, irmão do Zé Maria), Vanderlei Paiva, Dicá e "Dom" Pedro Rocha. Houve uma rápida reunião no meio-campo e uma voz carregada de sotaque charrúa se fez ouvir, ordenando o seguinte:

- Garotos, vocês "dos" lá na frente, não necessita voltar, tá bom?

Quem éramos nós para contrariar uma ordem do Verdugo, de um estilista, do jogador que o Rei Pelé classificou como um dos cinco melhores do mundo?

Para um fã de esportes e apaixonado por futebol como eu, ao ponto de ainda insistir com as animadas peladas com os amigos aos 46 anos e um monte de "dolores", como dizia Dom Pedro, era como visitar a Disneylândia da bola.

Sem contar Pedro Rocha, havia Dicá. Ouvir o som da batida na bola do camisa 10 da Ponte e vê-lo virar o jogo buscando a matada perfeita de Pedro Rocha vale mais do que muitas aulas e milhares de minutos de futebol pela TV ou ao vivo.

Em certo momento, Dicá virou uma bola daquelas que todos nós, simples mortais peladeiros, chamamos de "torta". É uma espécie de tradição entre os jogadores lançar esses desafios, provocar a técnica do amigo. Eu estava sozinho na área, jogo em campo de society, sem impedimento. Quando vi a bola viajando, jamais poderia imaginar que o Pedro Rocha pudesse alcançar, estava muito alta e vinha girando como um globo terrestre na aula de ciência. Pois ele tirou da cartola uma jogada de mestre. Deixou que a redonda passasse um pouco por cima de seus ombros, levou um pé à frente e com o outro, de chaleira, jogou a bola exatamente na direção em que eu estava. Meio atônito, fiquei assistindo a jogada e perdi o ponto da matada de bola.

- Garoto, presta atenção, pô! - veio a bronca!

Generosos, Pedro Rocha, Dicá e os outros craques daquela pelada brindaram a mim e ao outro jovem com muitos gols. Daqueles fáceis, de empurrar a bola para dentro, porque eles deixavam o texto pronto e editado, era só colocar o ponto final.

Hoje pela manhã ouvi no rádio que Pedro Rocha se foi. Uns dias depois de outro gênio, Nilton Santos. Não por coincidência, ambos foram amigos do meu pai. Eu tive o privilégio de conviver com essa gente desde muito cedo. Eram outros tempos de futebol e de jornalismo esportivo. Havia mais educação, mais convivência, respeito. Os jogadores eram grandes ídolos, quase intocáveis, mas não eram celebridades mimadas, narcisistas e milionárias.

Pedro Rocha foi um estilista. Um meia de técnica apurada, força e conhecimento do jogo dentro de campo. Alto, elegante, pernas longas, domínio de bola absurdo, finalização precisa. Jogou demais no Peñarol, no São Paulo, teve lampejos da velha técnica no Palmeiras.

Alguns amigos são-paulinos falam dele com reverência protocolar. Muitos torcedores de outros times nos quais ele não jogou o respeitam profundamente.

Eu guardarei para sempre na minha memória de peladeiro o dia em que pude ver de perto Pedro Rocha jogando, ainda mais ao lado de outro grande, Dicá. Porque quem jogava eram eles, eu só estava tendo raro acesso a um mundo superior, a uma espécie de Asgard futebolístico.

Que os deuses da bola recebam Pedro Rocha com todo o respeito e as homenagens que ficaram faltando em alguns momentos de sua vida.

quarta-feira, novembro 27, 2013

Seu Nilton


A missão era secreta. Precisava entrar em contato com alguns amigos de meu pai, Luiz Noriega, a fim de convidá-los para a festa na qual comemoraríamos seus 50 anos de carreira, em 1997. Desconfiado até o último fio dos poucos cabelos, ele dificilmente se deixava levar por tentativas de surpresas. O jeito era aproveitar quando ele não estava em casa para fazer os contatos.

Entre os escolhidos estava A Enciclopédia. Nilton Santos. Um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Ele e meu pai eram muito amigos. Lembro-me de uma ocasião, em 1991, quando eu fui cobrir um torneio de tênis em Brasília e meu pai pediu para que eu fizesse contato com o Nilton, que estava morando lá. Conversei com ele, pedi aos organizadores do torneio que conseguissem uma credencial especial. Mas eu telefonava e aquela voz sempre mansa, calma, respondia com uma simplicidade contagiante:

- Maurício, obrigado, mas eu não gosto disso, não. Não gosto de tratamento especial, de aglomeração. Fico aqui no meu cantinho, agradeço sua gentileza.

Seis anos depois eu telefonava de novo para o seu Nilton. A mesma simplicidade e a calma na voz que me atendeu, agora na Ilha do Governador, no Rio.

- Maurício, eu morro de medo de avião. Dê um abraço no Luiz, fale que eu telefono para ele depois para a gente conversar.

E assim ele fez. Telefonou, conversaram longamente, lembraram de viagens, jogos, da Copa de 1962, no Chile.

Ontem fez 11 meses que meu pai partiu para a sequência de sua jornada. Hoje partiu seu Nilton. Tenho certeza que meu velho estava a postos para recebê-lo e colocar o papo em dia.

Partiu fisicamente um dos grandes. Seu Nilton. De uma era que não volta mais, de estilistas, de refinamento técnico, do futebol de fundamentos perfeitos, da Era de Ouro da seleção brasileira.

Fica o legado eterno de alguém que foi figura determinante para transformar esse esporte no sucesso planetário que é hoje.
 

terça-feira, outubro 29, 2013

Seleção não é Exército e Copa do Mundo não é guerra

Seleção não é Exército e Copa do Mundo não é guerra.

Diego Costa não será menos brasileiro por ter decidido atuar como atleta profissional por outro país.

Nenhum atleta é mais cidadão ou mais patriota por ter representado seu país. Foi o caminho que ele escolheu na vida e muitos ganham fortunas nesse caminho.

Existem atletas fantásticos que não são tão fantásticos como cidadãos. E existem cidadãos fantásticos anônimos.

Deco jogou futebol pela seleção portuguesa e como cidadão brasileiro tem um projeto social exemplar em Indaiatuba, o que o faz mais patriota do que se tivesse jogado uma Copa pelo Brasil.

É o que penso.

sexta-feira, outubro 25, 2013

A dor e a delícia de ser Rogério Ceni


Rogério Ceni é um cara que venceu na vida. Chegou ao topo de sua profissão, é ídolo, tem reconhecimento profissional e foi muito bem e justamente remunerado por isso. Vive o sonho de muita gente. Mas tenho certeza que não é uma existência apenas de sonhos e sorrisos. Acordar como Rogério Ceni não deve ser nada fácil para ele muitas vezes.

Não sou amigo do Rogério. Sempre tive um ótimo relacionamento profissional com ele, fui tratado com respeito. Até porque sempre o tratei dessa forma.

Ele é um ponto fora da curva no perfil do jogador de futebol padrão. É articulado, pensa, se posiciona. Isso incomoda muita gente. Outros jogadores, treinadores, torcedores, jornalistas e dirigentes.

Nem sempre compartilho das opiniões e posturas do Rogério. Mas o que acontece com ele em algumas situações é tremendamente injusto. Há momentos em que ele não é julgado como atleta, mas como uma espécie de entidade. Existe exagero naqueles que o mitificam cegamente, como também nos que relutam em reconhecer suas muitas qualidades como goleiro profissional.

A liderança do arqueiro são-paulino é mais pragmática do que carismática. Rogério remete ao Leão, não ao Taffarel, por exemplo.

Como goleiro me parece inquestionável. Está entre os melhores do País em qualquer lista que seja produzida. Tem um bônus que é a qualidade para bater na bola, fazer gols de falta e pênalti. Diria que numa análise técnica, comparando a um contemporâneo, Rogério não tenha vivido um período de exuberância como o de Marcos entre 99 e 2002. Mas mostrou mais regularidade e longevidade, por ter sofrido menos contusões.

Quando Rogério falha, muitos tripudiam. Inclusive são-paulinos que dele não gostam. Quando emplaca uma atuação de gala, como fez diante da Católica, algumas bocas venenosas parecem estar costuradas apenas para não fazer o elogio justo e merecido.

Vá lá que Rogério de vez em quando vista a camisa de preposto (aquele cara que vai a uma ação trabalhista apenas para dar a versão da empresa). Fala como se fosse diretor do São Paulo, joga para a torcida, se comporta como se estivesse na arquibancada do Morumbi, cutuca adversários. Conheço dirigentes do clube dele que odeiam essa postura e também temem que ele entre para a política interna da entidade. Ouvi de muitos jogadores que atuaram ou atuam com ele alguns dos apelidos que eles deram, mas não falam na frente do Rogério. Coisas como Presença, Presidente, Chefia, Primeiro-ministro.

O que acho injusto e sacana é ler nas redes sociais ou mesmo em opiniões abalizadas que o Rogério (isso vale para qualquer profissional) tem que se aposentar, que já deu, está na hora de parar. Sempre que alguém me pergunta sobre isso respondo que não sou do INSS para aposentar alguém. É de uma crueldade sem tamanho querer decretar que a história de alguém chegou ao fim. Pior é ler algumas vezes as mesmas pessoas, torcedores na maioria, endeusando o Rogério uma semana depois. Falta filtro, coerência, equilíbrio.

Não se pode misturar o atleta com o ser humano em uma análise puramente futebolística. Rogério tem seus pecados, como todos nós. Na segunda metade dos anos 90 houve aquela até hoje mal explicada história do fax que um amigo dele enviou com uma inexistente proposta de um time inglês. Pegou mal no clube, assim como a loja que vendia produtos dele no Morumbi, sem conhecimento da direção. Ele ficou afastado, quase foi vendido. Errou como todos nós já fizemos um dia. Mas conseguiu se posicionar como um ídolo, talvez o maior na história de um grande clube como o São Paulo. É muita coisa.

Rogério tem respostas diversas vezes arrogantes, provocativas. Em outras é desconcertante, porque, como escrevi antes, raciocina e verbaliza o pensamento. Em campo, tem o costume de jogar para a torcida, tentar empurrar o estádio contra a arbitragem, até para encobrir alguns erros individuais. É inteligente, catimbeiro, sabe ler o jogo como poucos. Sua liderança emana e contagia o time, assim como qualquer falha também contamina a equipe, em virtude do peso que tem. E pega muito, intimida o atacante adversário. 

A questão é que, como escreveu o colega Victor Guedes, não parece correto que os cenistas de plantão o considerem à prova de erros e os anti-cenistas tenham pudor em elogiá-lo quando ele merece.

Estou solidário ao Rogério. Acho sacanagem quando o aposentam precipitadamente e misturam julgamentos extra campo ao que ele produz com as luvas. Também acho sacanagem quando babacas de plantão utilizam imagens pirateadas ilegalmente na tentativa de constranger companheiros de imprensa, como fizeram com meu amigo e companheiro de transmissões Milton Leite. Que, registre-se, tem comportamento eticamente exemplar como profissional.

Como escreveu o Caetano antes de brincar de censor: "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Como toda a fama, idolatria e fortuna, não deve ser nada fácil ser o Rogério Ceni em alguns dias. Como em muitos outros deve ser delicioso.

sexta-feira, outubro 18, 2013

O futebol brasileiro como ele é



Pipocam análises e questionamentos sobre a qualidade técnica do Brasileirão - Séries A e B.

Analiso de uma forma bem simples e direta, citando Nelson Rodrigues: vemos, analisamos e criticamos o futebol brasileiro como ele é. E atualmente é fraco, limitado tecnicamente, embora exista competitividade.

Explicações devem existir várias e cada um tem a sua. A questão do calendário é uma delas. A falta de uma pré-temporada adequada me parece a mais necessária das alterações. A quantidade de jogos disputadas no ano pode ser relativa. Há grandes equipes europeias que fazem 70 partidas em uma temporada.

Se formos puxar mais longe pela memória, o calendário brasileiro nos 50, 60 e 70 era um escândalo, e foi essa a época de ouro do futebol no País.

Claro que o mundo mudou, o jogo mudou, mas é preciso reconhecer que, tecnicamente, mudou para pior. Atualmente os jogadores correm muito mais e jogam muito menos. A dificuldade para uma dominada, uma virada de jogo, um chute de efeito, uma tabela e diretamente proporcional à capacidade respiratória, força, impulsão.

Há cada vez mais atletas e menos jogadores. O ideal seria que tivéssemos jogadores que fossem bons atletas.

Entendo e respeito todos os argumentos de que falta tempo para treinar, mas também falta qualidade de treinamento. Principalmente na base. Os jogadores chegam aos times de cima cada vez mais mal formados, com defeitos graves nos fundamentos básicos do futebol. Aprendem quase sempre a destruir com absoluta competência, mas sofrem horrores quando são chamados a criar, a pensar.

Quem quiser discutir seriamente o futebol brasileiro não pode deixar em branco esse tópico. Como diz o intelectual Toninho Neves, sempre antenado, no tempo em que diziam que os treinadores dormiam no banco mas havia craques às pencas, o Brasil ganhou três Copas do Mundo entre 1930 e 1970 (tirando o período da Segunda Guerra). Entre 1970 e 2010, na era de pranchetas e estrategistas, foram duas conquistas e muitas empacadas em quartas-de- final. No mínimo, faz pensar.

Por mais que o futebol tenha mudado, existem questões básicas, fundamentais, que não mudam nunca. O jogo é sucesso planetário porque é simples. Diferentemente do voleibol e do basquete, esportes nos quais é possível transformar um galalau desengonçado em grande jogador em alguns meses, no futebol isso é praticamente impossível. As técnicas aplicadas a cada jogo são muito distintas.

Formamos cada vez mais volantes combativos e corredores, e cada vez menos meias criativos e lançadores, ou pontas-de-lança dribladores e finalizadores.

Para isso também é preciso pensar com bom senso.

quarta-feira, outubro 09, 2013

A bola está com Minas, sô!


A não ser que ocorra um acidente de proporções cósmicas com o Cruzeiro, o time será o legítimo e indiscutível campeão brasileiro da temporada. O que configurará uma dobradinha mineira nos torneios mais importantes do futebol de clubes sul-americano. Galo na Libertadores e Raposa no Brasileirão.

A bola está com Minas. Sem chororô, sem reclamação de calendário, de tabela, de excursão os times mineiros.

Com a bola bem jogada, com times muito bem montados por Cuca e Marcelo Oliveira e uma característica comum: ofensividade. Cruzeiro e Atlético jogam atacando com quatro homens na maior parte do tempo. Um oásis nesses tempos de volantes botinudos, laterais com enormes dificuldades para cruzar uma bola e carência de meias armadores e finalizadores.

Os grandes rivais mineiros fizeram tudo isso mesmo sem contar com os maiores orçamentos do Páis, sem estar entre as cinco grandes torcidas de penetração nacional.

A política futebolística de hoje é a do leite com leite, deixando o café paulista na poeira.

Cuca já se firmou no grupo dos grandes treinadores ao colocar em seu currículo a Libertadores. Sabe montar times, dar coerência tática e tirar o melhor de seus jogadores. Tem um elenco de muita condição técnica, com jogadores experientes e boas revelações. Saiu Bernard, em termos de regularidade e talento o melhor do time, e o Galo segue seu diapasão.

Marcelo Oliveira tem perfil diferente. Parecia ser o eterno interino até resolver meter a cara na vida de quem ganha a vida no banco de reservas.

Mostrou-se um cara discreto, eficiente e um grande montador de times, mesmo sem contar com super estrelas.

Armou um Coritiba veloz, ofensivo e que bateu na trave da Copa do Brasil duas vezes.

Agora conseguiu fazer do Cruzeiro um time fiel às tradições do clube, que joga bem e bonito, tocando a bola, atacando, dominando o adversário. Mesmo sem grandes contratações, estrelas badaladíssimas. Dedé talvez tenha sido a aposta mais barulhenta. O corpo da equipe é muito bem distribuído, com uma série de jogadores que jamais foram unanimidades (Dagoberto, Tinga, Borges, Bruno Rodrigo) um atleta que com Marcelo joga o fino (Everton Ribeiro), um volante que vive o melhor momento da carreira (Nilton), boas revelações (Mayke, Lucas) e um grande goleiro.

O grito de gol no Brasil ecoa das Alterosas com o inconfundível sotaque mineiro.

sábado, outubro 05, 2013

Bom Senso é só para a elite?


Acompanho com interesse a formação do movimento Bom Senso Futebol Clube por parte de um grupo expressivo de jogadores de futebol.

Categoria geralmente alienada, a dos jogadores de futebol raramente se manifesta ou e posiciona no Brasil.

São poucos os exemplos de jogadores que tenham buscado algum posicionamento, casos de Sócrates, Casagrande, Afonsinho, Zé Roberto (da Máquina do Fluminense nos anos 70) e mais recentemente Paulo André, do Corinthians.

A manifestação padrão do jogador de futebol brasileiro é reclamar de atraso de salário.

Como atores principais do espetáculo, os atletas devem se manifestar e se posicionar. Além de buscarem, entre eles próprios, um comportamento mais ético e profissional, a fim de erradicar a imagem existente do boleiro inconsequente, malandro, mulherengo e maniqueísta.

Ainda vejo com certo ceticismo esse posicionamento do Bom Senso Futebol Clube, embora o receba com pensamento positivo.

É difícil saber se é um movimento nascido e criado por jogadores ou se existe algum dirigente por trás, pensando em capitalizar com o movimento.

Não podemos esquecer que estamos às portas da eleição para o comando da CBF.

A pergunta que faço nesse momento em que o Bom Senso F.C é um movimento cujo interesse principal envolve apenas as Séries A e B do Campeonato Brasileiro? Ou os times atuais da Série A e mais o Palmeiras, que estará nela em 2014?

Como ficam os atletas profissionais que são a maioria e perambulam pelos esburacados gramados das Séries C e D ou então de campeonatos regionais em troca de um salário-mínimo, quando muito?

Eles serão contemplados pelo movimento, estão sendo ouvidos e procurados para participar? Porque eles é que formam a massa do pé-de-obra (como diz o Mauro Beting) nacional. O verdadeiro futebol brasileiro é formado por esse tipo de jogador.

Considero fundamental que esse movimento demonstre interesse em ser abrangente e não apenas elitista.

Qual o posicionamento do Bom Senso em relação aos atletas que sobrevivem com o dinheiro ganho nos quatro ou cinco meses em que disputam um Paulistão, por exemplo? Porque esta também é uma realidade para o atleta profissional de futebol no Brasil.

Como abordar jogadores de times do Norte e do Nordeste que enfrentam severas dificuldades até para receber salários baixíssimos?

Qual o posicionamento em relação aos chamados empresários?

A preocupação com o que os atletas chamam de Fair Play financeiro envolve os ganhos muitas vezes abusivos deles próprios? Os pré-contratos assinados em segredo?

Quem alcançou o topo da carreira sabe como é a vida na base da pirâmide social do futebol. Passou por dificuldades, morou em alojamentos, tomou calote, caiu no conto de empresários e dirigentes picaretas.

Por isso aguardo pelo posicionamento do Bom Senso F.C sobre o mundo real do futebol, não apenas sobre a realidade de carros importados, programas de TV, mulheres espetaculares e viagens e hotéis de primeira categoria.

A bola rola para todo mundo, do rico ao pobre.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Brasileirão, suas teses e seus mistérios


Não tenho receio em afirmar que o Campeonato Brasileiro é o torneio nacional de futebol mais equilibrado em disputa no planeta bola. Não há outra competição com o mesmo perfil que se aproxime do Brasileirão em termos de paridade de forças e candidatos potenciais ao título. A qualidade pode – e deve – ser discutida, mas a competitividade do nosso Campeonato Nacional é imbatível.

Muita gente boa defende uma tese sobre o Brasileirão que o campeonato desmente. A tese, segundo seus defensores, prevê o que eles chamam de “espanholização” do futebol brasileiro. Mas o que seria esse monstrengo? Uma concentração de dinheiro nos cofres dos clubes mais populares do País, através de direitos de transmissão pela TV, que criaria uma realidade parecida com a terra do rei Juan Carlos, onde Barcelona e Real não encontram concorrência. De acordo com essa teoria, Flamengo e Corinthians se transformariam no Real e no Barça do Brasil.

Uma rápida olhada na classificação do Brasileiro serve de argumento para aqueles que discordam dessa tese. O Flamengo luta para não cair, o Corinthians está mais próximo da zona de rebaixamento que da classificação para a Libertadores (escrevo a coluna antes da rodada).  Entre os quatro primeiros classificados (que serão os mesmos, com mudança, talvez, da ordem entre terceiro e quarto) não há um dos cinco clubes mais populares do Brasil. Um desses cinco está na Série B, outro está na zona de rebaixamento da Série A, dois lutam desesperadamente para se afastar da degola, e um está mais próximo da parte debaixo da tabela.

O melhor time do torneio nacional de 2013 terminou 2012 desacreditado. Mesmo sem estar entre os líderes no quesito popularidade e dinheiro da TV, o Cruzeiro encontra um caminho para buscar receitas e montar um bom time. O Botafogo luta para sobreviver e com base na revelação de jovens jogadores vai moldando seu caminho. O Grêmio recebeu muito dinheiro do programa de sócios-torcedores e também com o negócio da construção de seu novo estádio. Que dizer o Atlético Paranaense? Sem sua maior fonte de receita e de pressão sobre os adversários, o estádio, abdicou do estadual para se concentrar no Brasileiro, e transformou-se em gratíssima surpresa.

Argumentam os defensores da tese da espanholização que o torneio desta temporada é ponto fora da curva, que a tendência é a concentração de títulos entre os clubes que receberem mais dinheiro da TV. Talvez o que falte seja capacidade administrativa e criatividade para buscar fontes alternativas de receita. Com mais de cem mil sócios, o Internacional descobriu recursos que podem compensar uma questão mercadológica e geográfica. Por estar num mercado menor que Rio e São Paulo, com menos exposição nacional, o Inter  não recebe cotas de patrocínio e TV equivalentes, mas arrecada de maneira consistente com a paixão de sua torcida.

Outra questão, esta puramente futebolística, ampara meu argumento contra a tal espanholização. Lá na terra de Barça e Real, equipes como Valência, Sevilla, Athletic de Bilbao e até mesmo o Atlético de Madri, além de todos os outros médios e pequenos, soltam fogos com uma vaga na Liga Europa e vão ao orgasmo com um lugar na Liga dos Campeões. No Brasil há pelo menos 12 times que entram no Brasileirão para disputar o título. Em alguns casos podem nem ter uma equipe que reúna essa condição técnica, mas a história, a tradição, o peso da camisa fazem com que o torcedor não aceite a mera participação.

Por isso o Brasileiro, embora esteja devendo tecnicamente, entrega muito em equilíbrio, em disputa e em emoção. Por isso não aceito as teses de que o futebol brasileiro deve se adequar ao europeu. Nosso futebol sempre foi forte e vencedor por ser diferente, por buscar seus caminhos, suas soluções e sobreviver ao amadorismo reinante entre os cartolas. Há muito mais diferença entre o futebol brasileiro e o europeu que um Oceano Atlântico possa explicar.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Scolari vai moldando a família de novo


Estive com a seleção brasileira em Boston, comentando a convincente vitória por 3 a 1 sobre Portugal.

Algumas coisas ficaram evidentes.

A primeira: Neymar amadurece a passos largos e não pipoca. É o craque, o farol do time. Se estiver bem na Copa, as chances brasileiras são boas.

A segunda: Thiago Silva é o dono da defesa. Seguro, firme, discreto. Não precisa ser espalhafatoso como David Luiz para exercer sua liderança.

A terceira: Felipão é danado. Ele mudou o clima da seleção em pouco tempo e vai criando a nova versão de sua família. Os jogadores pouco reclamam e quando reclamam é de questões que não se referem ao dia-a-dia dentro de campo.

Por exemplo: os jogadores ficaram putos com a viagem para Boston. A Gol é a transportadora oficial da seleção e destaca um de seus Boeing 737 para as viagens do time. São aviões modernos, mas nada confortáveis nem sequer para viagens curtas. Que dirá para uma viagem de mais de dez horas, com uma escala na República Dominicana.

Mesmo com uma fileira de assentos liberada para cada jogador, deitando em três assentos, o conforto passa longe. Estrelas milionárias, os atletas viajam em classe executiva ou em primeira classe, e chegaram arrebentados em Boston. Tanto que o treino de domingo foi facultativo.

Não se trata de frescura, é uma prerrogativa para atletas de alto rendimento nesse tipo de viagem. E a CBF tem dinheiro suficiente para pagar voos e aeronaves mais confortáveis.

Os jogadores fizeram a reclamação chegar aos ouvidos da mídia, mas isso em nada afetou o trabalho. Discretamente, a comissão técnica apoiou, internamente, a reclamação.

Outro aspecto da Família Scolari em versão 2013/14 é o ambiente entre o pessoal de apoio da seleção. Ninguém faz questão de esconder o alívio em relação aos tempos de Dunga. Qualquer conversa redunda numa crítica aberta ao treinador da Copa de 2010, ao ambiente carrancudo e pesado, ao tratamento pouco ou nada polido.

No que tange ao relacionamento com a mídia, Felipão tem seus rompantes, mas faz questão de todos os dias aparecer no saguão dos hotéis para um bate-papo amigável, forma uma roda em torno dele e fala bastante.

Isso se deve aos jornalistas gaúchos que acompanham a seleção pelos veículos de seu estado. Sempre aparece alguém com um chimarrão, um termo gauchesco, e o ambiente desanuvia. Ponto para a cordialidade e para o mate. 

terça-feira, setembro 03, 2013

Manifesto aos basqueteiros

Adoro basquete, embora tenha jogado vôlei e trabalhe 90% do tempo com futebol. Meu primeiro emprego foi na assessoria de imprensa da Federação Paulista de Basquete, já cobri Mundiais e Olimpíadas acompanhando o basquete brasileiro.

Dá uma tristeza ver o que aconteceu com esse esporte maravilhoso no Brasil. Embora seja difícil, a vaga para o Mundial ainda é possível. Havia uma expectativa de que a participação olímpica no masculino após tanto tempo mudasse a cabeça do "basqueteiro" nacional.
Mas parece que nada mudou.

Existe um conflito interminável entre gerações que contaminou o basquete brasileiro, em especial o masculino, de uma má vontade crônica de todos contra todos.
Sem contar o discurso pateticamente invejoso de alguns que conseguem argumentar que o vôlei tem culpa na decadência do basquete.
O que falta é união entre as pessoas que fizeram e fazem o basquete. Há muita vaidade, muito ressentimento, muita conversinha.
O tempo foi passando, o esporte foi evoluindo e o Brasil ficou preso a esse mundinho de mentalidade canhestra, pequena.
Não estou inventando nada, basta pesquisar na internet. Existe um rancor de algumas pessoas da geração dos anos 1970 e 1980 com a turma bicampeã mundial, quando deveria haver respeito e reverência, troca de opiniões.
Assim como existe um rancor de alguns da geração bicampeã mundial pela falta de reconhecimento.
Tudo deveria ser resolvido com uma conversa, com um comando.
O basquete tem um mercado potencial enorme no Brasil, praticantes e simpatizantes apaixonados, mas a postura política de coitadinho, de primo pobre não condiz com essa realidade.
Dá mais tristeza ver o feminino, campeão mundial, prata olímpica, de Paula, Hortência, Janeth, que não engata, não dissemina sua presença pelo País.

Entre os esportes coletivos de alto rendimento no Brasil o basquete é, de longe, o de pensamento mais individualizado. Parece ser cada um por si e todos contra todos.

Acredito que o Brasil tem muitos treinadores capazes, estudiosos, ex-jogadores e jogadores de boa vontade, capazes de resgatar nossa escola ou pelo menos adaptá-la aos novos tempos.

Mas sem um projeto coletivo, como esporte, com um pensamento voltado para o sucesso de todos e não apenas de alguns, não vai andar.

Acho injusto jogar na conta dos atletas que atuam na NBA a responsabilidade por um eventual fracasso na Copa América, com perda da vaga para a Copa do Mundo de 2014.

É preciso avaliar individualmente cada caso. Existem seguros caríssimos, compromissos assumidos, e a NBA é um mundo à parte.

Além disso, com toda a franqueza, nossos jogadores da NBA não são protagonistas em nenhum time da NBA. Se formos comparar com a importância dos argentinos, por exemplo, do Scola, do Ginobili, esses, sim, protagonistas. Sempre se esperava muita coisa dos brasileiros que passaram ou passam pela NBA e poucos deles entregaram na medida dessa expectativa. Varejão, mesmo antes de ir para a NBA, sempre se destacou. Spliter agora começa a ganhar algum espaço, mas longe de ser um protagonista.

Tomara que eu esteja errado, mas parece cada vez mais que a aventura olímpica de 2012 foi sonho de algumas noites de verão londrino.

Acorda, basquete!

quinta-feira, agosto 29, 2013

A previsível rodada da Copa do Brasil

Rodada da Copa do Brasil foi marcada pela normalidade. Claro que há reclamações, como sempre, de arbitragem. Muitas delas já são muletas de conhecidos treinadores e dirigentes. Passaram as equipes que foram melhores em 180 minutos de futebol.

Permito-me algumas observações.

Falta boa vontade com o Botafogo. Ganhou do Galo sem o Seedorf, empatou sem Vitinho, sem salários, seus jogadores seguem jogando sério e bem. Querem mais o que? O Galo não foi forte e vingador e desta vez foi ele quem saiu eliminado do Horto. Mais que a verborragia de seu presidente, precisa pensar nas razões por que sofreu seis gols em dois jogos.

O Fluminense se enrolou todo, perdeu jogadores importantes e virou um time amorfo. É triste ver Luxemburgo, um dos maiores treinadores do futebol brasileiro, repetindo a mesma ladainha de arbitragem jogo após jogo. O Goiás do gordinho Walter está arrumadinho.

O Corinthians cumpriu sua obrigação ante um adversário organizado e lutador, mas perdeu intensidade, já não empolga e sufoca o adversário como antes, não se impõe com autoridade. Tite está em busca de outra forma de jogar, isso ficou evidente para mim.

Renato Gaúcho precisa ser levado mais a sério como treinador, porque tem uma característica fundamental: não quer ser mais realista que o rei. Duvido que ele goste do sistema com três volantes e três zagueiros, mas está funcionando e Renato sabe que a missão do bom técnico é não querer passar por cima da realidade. Olho no Grêmio! O Santos parece acreditar piamente que descobre um novo Neymar a cada semana. Menos!

O Furacão deixou terra arrasada no Palmeiras. O resultado era até previsível, já que o time paranaense está jogando melhor do que o paulista já faz tempo. Defesa firme, com Manoel e Luiz Alberto jogando muito bem, e um ataque velocíssimo empurram o Atlético, sob as bênçãos de "vovô" Paulo Baier. A apatia demonstrada pelo Palmeiras não combina com um grupo de jogadores que carrega uma camisa centenária e vencedora. Luta jamais pode faltar. O Furacão não está para brincadeiras, e o Verdão carece de equilíbrio. É um time bonzinho demais com os adversários, tenta jogar mas deixa os rivais soltinhos. Kleina balança.

Por fim, Vasco e Inter só precisam assinar o papel da classificação.

Deixei para o final, de propósito, o Flamengo, na análise da Copa do Brasil.

De propósito por causa de um jogador: Elias.

Ele é o tipo de jogador fundamental para o futebol moderno e que raros clubes têm e raros treinadores sabem utilizar ou descobrir.

Elias é o volante que desafoga o time, que trafega com desenvoltura entre as duas áreas, a de defesa e a de ataque. Tanto aparece tirando uma bola na área de seu goleiro, como surge na área do goleiro adversário para resolver o jogo.

Elias já tinha feito no Corinthians o que Paulinho fez e seguirá fazendo na Inglaterra.
São jogadores com a mesma característica tática para o time e diferenças individuais.
Elias é mais veloz, Paulinho mais alto e forte, tem a jogada aérea que Elias não tem. Mas o flamenguista na corrida leva vantagem.

Elias é a chave para a reconstrução do time do Flamengo.

quarta-feira, agosto 28, 2013

Uma viagem aos tempos de Esporte é Cultura!




Luiz Noriega durante o Esporte Opinião (1982)


José Maria Pereira, o mago da restauração
Caminhão da Cultura

































Hoje vivi uma emoção um tanto estranha. Ainda estou negociando com a alma e a mente que tipo de sensações foram vividas. Após mais de 25 anos voltei à sede da TV Cultura, em São Paulo, onde meu pai, Luiz Noriega, viveu seus melhores anos como jornalista. Fui buscar algumas imagens para ter no arquivo da família, graças ao trabalho fantástico, de artesão, do espetacular José Maria Pereira, companheiro de batalha do meu pai desde os tempos da TV Tupi e também na Cultura.

O poder da memória é algo inacreditável. Fui transportado aos dias em que, ainda criança, acompanhava meu pai no trabalho, corria pelas arborizadas alamedas daquela sede (em que região de São Paulo, Lapa ou Água Funda?) projetada tendo como base a BBC londrina.
Era como se eu estivesse saindo da redação, onde ficava pentelhando o Orlando Duarte, Pedro Tadeo Zorzetto, o Dudu, o Cicarelli e correndo para um estúdio, ou para a lanchonete, o restaurante.
Ali eu via nascer e ir ao ar programas como É Hora de Esporte, Esporte Opinião, Esportevisão.
A velha redação do esporte da Cultura hoje abriga um estúdio, mas muita coisa está irretocável como permanece em minha memória. A entrada antiga, pela rua Carlos Spera (outro grande nome do jornalismo) está fechada, mas eu me vi passando por ela e correndo para a sala do meu pai, buscando as revistas France Football, Don Balón, Guerin Sportivo. Posso dizer que ali fiz pós-graduação em jornalismo esportivo muito antes de completar o colegial e fazer a faculdade.
Botei o DVD para rolar e vi um Esporte Opinião apresentado pelo papai com uma escalação de craques do porte de um Ary Silva, de Flávio Iazetti, Flávio Adauto, Wanderley Nogueira. E um programa especial com o (hoje tenho a honra de dizer isso) meu amigo Zico.
Agradeço de coração ao Zé Maria e seu arquivo fantástico, que ele restaura com mãos e olhos de artista, em nome da família.

Foi uma linda viagem no tempo.   

segunda-feira, agosto 26, 2013

Gilmar e o sonho do tio Zeca


Lá pelo final dos anos 90, 97 ou 98, não me lembro ao certo, resolvemos organizar uma festa, eu minha mãe e minhas irmãs, para celebrar os 50 anos de carreira de meu hoje saudoso pai Luiz Noriega.

Fizemos uma surpresa, alugamos um salão enorme e enganamos o velho com o papo de que era um pequeno jantar para comemorar seu aniversário.

Foi um barato ver a cara de espanto dele quando abrimos a porta do salão e ele viu toda a família, amigos da rádio e da TV Tupi, da TV Cultura, companheiros de trabalho, amigos da infância em Olímpia etc.

A meu cargo ficou a missão de convidar atletas e ex-atletas com os quais ele tinha mais amizade e que sempre se referiram ao meu pai como uma pessoa fundamental para suas carreiras. Alguns não puderam ir, mas enviaram telegramas, cartas, telefonaram. Gente de caráter como William e Montanaro, Paula. Outros simplesmente desprezaram o convite, talvez porque naquele tempo, afastado da TV, meu pai não servisse mais para os propósitos interesseiros que vinham disfarçados de amizade.

Algumas presenças foram especialmente marcantes para nós, como as do eterno Adhemar Ferreira da Silva e as de dois campeões mundiais pela seleção brasileira de futebol, Hideraldo Luiz Bellini e Gilmar dos Santos Neves. Amigos de longa data do meu pai, figuras frequentes no círculo social da família. Esbanjaram simpatia durante toda a noite, sem um pingo de frescura.

Em determinado momento, meu tio materno e padrinho, Zeca Galizia, me puxa num canto e pergunta:

- Má, aquele ali é o Gilmar, o goleiro?

- Sim, ele mesmo - respondi.

Meu tio já era um senhor de quase 60 anos, mas tremia feito vara verde, com dizemos lá em Bariri.

- Rapaz, eu era fã dele. Eu me jogava nas bolas como ele quando brincava de goleiro e saía dizendo que era o Gilmar - explicou meu tio, corintiano fanático.

- Me leva lá para falar com ele?

Levei e vi meu tio com um sorriso de garotinho. Gilmar, respeitosamente, levantou-se da mesa, apresentou a esposa. Eu tinha apresentado o Bellini também, ambos ficaram conversando animadamente com meu tio, e ouviram as histórias de suas aventuras de goleiro nos campinhos enlameados de Bariri.

Entrevistei Gilmar algumas vezes em minha carreira de jornalista. Em quase todas utilizei o nome do meu pai para facilitar o acesso. E em todas Gilmar foi de uma educação impressionante, de uma elegância que refletia a maneira impecável de se vestir. Era um senhor alto, boa pinta, elegante. Dizem que as mulheres suspiravam por ele em seus anos de atleta.


Quis o destino que algum tempo depois daquele noite, Bellini e Gilmar fossem acometidos por males que limitaram suas condições físicas e mentais.

Não vi Gilmar jogar, mas para a minha geração, a da turma que está entre 45 e 50 anos, ele era um monstro sagrado. Era como não precisar ir a Lua para saber que ela esta ali. Ninguém duvidava que Gilmar era o melhor goleiro brasileiro, mesmo sem tê-lo visto jogar.

Lembro-me de meu pai chegando em casa triste, abatido após visitas a Gilmar e Bellini, ou após conversar ao telefone com familiares.

A seleção de 1958 está sendo reforçada lá no céu. De Sordi, Djalma Santos, Gilmar, todos partiram recentemente. Serão recebidos por Didi, Vavá, Garrincha, o treinador Feola.

É o tempo, inexorável, cumprindo a única certeza da vida. Seja ela gloriosa como foi a de Gilmar, ou anônima.

terça-feira, agosto 20, 2013

Xô, patológico!

Já tenho 26 anos de trabalho na área de jornalismo. Desse tempo, diria que 90% na área esportiva e 70% desses 90% especificamente com futebol. Cada vez mais tenho a certeza de que há um tipo patológico de torcedor que não escuta o que você fala, nem vê a imagem que está sendo mostrada. Ele escuta o que ele quer ouvir e vê o que ele quer ver. Com esse tipo de gente, não tem discussão, não tem debate, não tem conversa.

 Nem o benefício da ignorância eles têm, porque geralmente o mais patológico está no grupo de gente que teve a sorte e o esforço de ter estudado.

 Existe agora uma espécie de mídia ninja de torcedor de futebol, publicações dirigidas que espalham teorias conspiratórias, deturpam regras do jogo e criam campanhas.

 Trabalhar com o que se gosta é uma benção. Eu gosto de esporte, fui atleta, me divirto e me realizo fazendo o que faço.

 Mas imagino como deve ser terrível a vida de quem inventa uma realidade paralela em função do fanatismo patológico.

Seguimos em frente. Sempre acreditando que é possível se fazer bom jornalismo na área esportiva e acreditando também que os bons fãs do esporte e do futebol prevalecerão sobre os patológicos.

sexta-feira, agosto 16, 2013

Um beijo, papai!

 
 
16 de agosto será sempre o seu dia, Luiz Noriega. O dia em que começou sua jornada terrena, cumprida com garbo, dignidade e amor. Tenho honra em ser seu filho e da dona Angela, irmão da Renata Noriega De Thomaz e da Ferdi Noriega. Um beijo em sua alma aí no céu. Meu, da Isabel Urrutia, da Clara Noriega e do Rafa. Brindaremos por você hoje. Tome um Royal Salute por nós. Te amamos sempre, papai!

segunda-feira, agosto 12, 2013

Tribunal não pode apitar jogos

Reproduzo aqui coluna publicada no Diário de S.Paulo no dia 23 de outubro de 2012.

Blog do Nori

Justifica-se porque continua atual o tema e minha opinião não muda. Arbitragem de gabinete não vai melhorar o futebol.


Tribunal não pode apitar os jogos*
*Reproduzo aqui a mais recente edição da colun a que publico às terças no Diário de S.Paulo.
 
Reflexo da sociedade da qual faz parte, o futebol brasileiro é tão confuso quanto o país. Situações e personagens se misturam de tal maneira que muitas vezes é difícil apurar e apontar responsabilidades. Um exemplo é a atuação dos integrantes dos tribunais de Justiça Desportiva, que recentemente parecem dispostos a agir como árbitros de futebol.

Entendo e reconheço que as atuações de promotores, auditores e outros integrantes dos tribunais, outrora chamados de tapetão pelo irreverente torcedor brasileiro, são necessárias, porém, como disse o Filho do Homem, “a César, o que é de César”.

Em minha visão de leigo, mas interessado e estudioso, os tribunais devem julgar casos de agressão, violência e determinar punições e suspensões tendo como base a súmula de uma partida de futebol e o que foi relatado pelo árbitro.

Não acho que caiba a um tribunal formado por profissionais do direito, representando clubes, julgar interpretação das regras do jogo, como simulação e faltas. Cito dois casos recentes. A suspensão do meia-atacante Ronaldinho Gaúcho, do Atlético-MG, por falta no atacante Kléber, do Grêmio, e a denúncia contra o centroavante Luís Fabiano, do São Paulo, por suposta simulação no clássico contra o Palmeiras.

Ronaldinho foi suspenso porque o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) entendeu que ele praticou uma jogada violenta contra Kléber.

O árbitro daquele jogo, Héber Roberto Lopes, nem sequer marcou uma falta no lance. Duplo equívoco, penso eu. Houve a falta no lance, mas não foi uma jogada violenta. Além disso, o STJD tem competência para avaliar uma jogada sob a ótica da técnica de arbitragem? Acho que não.
O mesmo raciocínio vale para o clássico de 6 de outubro entre São Paulo e Palmeiras. Luís Fabiano tentou, sim, cavar um pênalti em lance com Maurício Ramos. O árbitro Paulo César de Oliveira nada marcou. Nem sequer advertiu o atacante são-paulino.

Por que haveria o STJD de acatar uma denúncia e julgar o atleta propondo suspensão de até seis jogos?

Não caberia ao juiz de futebol interpretar se houve ou não simulação ao ponto de merecer uma advertência dentro das regras, punindo com um cartão amarelo ou um vermelho?

Os tribunais esportivos são necessários, repito. Mas não podem cair em tentação e passar a atuar como paladinos ou, o que é pior, justiceiros do esporte brasileiro. O jogo começa e termina no campo, disputado por atletas e apitado por juízes.

Vídeo como prova - Há casos em que a chamada prova de vídeo pode e deve ser aceita. Como, por exemplo, agressões que são captadas pelas câmeras e não foram percebidas pelo árbitro.
Porém, um lance de jogo, que foi avaliado, de maneira correta ou não, por um juiz de futebol, dentro do direito de interpretação que a regra do jogo lhe dá, deve ser julgado por profissionais do direito e não da arbitragem?

Acho que não. E vejo um abuso de autoridade, uma intervenção em uma área à qual os promotores, relatores e auditores não pertencem.

Quantas simulações acontecem em um jogo de futebol? Toda queda é simulação? Como separar uma queda proveniente de um choque, em um esporte de contato, com uma tentativa de ludibriar a arbitragem? Quem está mais capacitado para decidir se um jogador tentou ou não simular um lance, um juiz de futebol ou um juiz do direito? Respondo sem pestanejar: o juiz de futebol.
Antes de levar a arbitragem de um jogo para os tribunais, é preciso trabalhar para capacitá-la, diminuir a margem de erro, educar jogadores e treinadores, uniformizar critérios.

Cabe aos tribunais julgar e condenar agressões, condutas antidesportivas, tumultos etc.
Apitar um jogo, bem ou mal, é atribuição dos árbitros de futebol e somente deles. O jogo acaba ali, não deve continuar num tribunal.

terça-feira, agosto 06, 2013

Perguntar não ofende



Longe de mim qualquer pretensão de ser professor de Jornalismo ou de qualquer coisa. Não tenho preparo, não tenho formação para isso, e também não tenho a intenção de ensinar nada para ninguém. Além de achar que não tenho nada para ensinar. Mas muito do que aprendi posso compartilhar.

Incomoda-me a ausência das perguntas no mundo do jornalismo esportivo atual. Esse jornalismo esportivo que já foi considerado, em outras épocas, combativo, chato, perguntador e fuçador.

Lembro que na época dos atentados de 11 de setembro de 2001, fui a um treinamento da Portuguesa, como repórter. O técnico era o Edu Marangon. Ele brincou e disse:

- Se querem achar o Bin Laden, é só escalar vocês da imprensa esportiva, porque vocês fuçam para caramba.

Claro que há um grande exagero nessa afirmação.

Mas a verdade é que a imprensa esportiva de que me recordo dos meus tempos de garoto e depois, de foca, sempre se caracterizou por perguntar sem pedir licença e sem medo. Quando em vez tomava o contra-ataque. Mas repórter bem preparado e perguntador não toma contra-ataque.

Até porque essa é uma premissa básica dessa profissão. Porque, no fundo, somos todos nós, jornalistas, repórteres. Podemos estar diretores, editores, comentaristas, mas seremos sempre repórteres.

O que me assusta é que as perguntas parecem estar em extinção. Muitas vezes o que ouvimos (e me refiro mais a rádio e TV porque esses meios estão quase sempre ao vivo, e é ao vivo que se conseguem, geralmente, os melhores depoimentos e respostas) são afirmações, ou opiniões. Nem mesmo a entonação da pergunta há.

Muitas vezes escuto algo assim:

- Que golaço, hein, fulano.

- Jogo difícil.

Comentários para que o entrevistado comente.

E, sem fazer média, não é por falta de capacidade, porque tem muito repórter bom por aí, felizmente.

Mas a pergunta é nosso ganha-pão, nossa credibilidade, ela vem sempre antes da opinião e da afirmação.

Sou meio antigo, já rodei um pouco, e acho que a fórmula básica é narrador narra, comentarista comenta, repórter reporta. Informação tem prioridade.

Pronto, acabei cagando regra, que era o que não queria fazer.

Edito o texto para uma sugestão modesta de quem perambulou muito como repórter antes de virar comentarista.

Perguntem, colegas!

Perguntar não ofende.

E boas perguntas geram boas respostas.