sexta-feira, junho 28, 2013

Números furiosos

Sempre relutei em analisar o futebol pela frieza dos números. Talvez seja o único esporte coletivo em que os números podem iludir e contar uma história diferente do jogo.
Claro que eles não são inúteis, que auxiliam, indicam tendências e caminhos.
Vejamos, pois, alguns números de Espanha x Itália. Partida que provocou diversas teses de como se para a Espanha, teorias táticas etc.
A posse de bola joga a favor de quem entende que a Itália amansou a Fúria. 55% para os ibéricos, 45% para os italianos.
Mas, que diabos, esses números traiçoeiros! A Espanha não é aquele time que enrola, que é chato? Pois sabem quantas finalizações teve a Espanha? Vinte, contra 13 da Itália. Enrola um time que finaliza 20 vezes, sendo dez chances reais de gol?
A título de comparação, o Brasil teve 68% de posse de bola contra 32% do Uruguai. Os brasileiros finalizaram 14 vezes, contra sete dos uruguaios. Quem enrolou mais? Quem ficou quase 70% do tempo com a  bola e finalizou seis ocasiões a menos que uma equipe que ficou 55% do tempo com a bola? De que lado esteve o tique-taco?
Claro que cada jogo tem sua história, sua particularidade. São jogadores diferentes, temperatura, orientação tática e cultura futebolística diferentes.
Por isso eu acho que quem conta a história de um jogo de futebol ou do futebol apenas pela ótica dos números oferece uma visão míope desse esporte maravilhoso.
É preciso respeitar e entender estilos, capacidades individuais e propostas de jogo. É também uma questão cultural.

sexta-feira, junho 21, 2013

Cada vez mais Super Mario

A manchete online da Gazzetta dello Sport que reproduzo aqui mostra porque Mario Balotelli é, talvez, a grande personalidade do futebol atual.
Sua vida é roteiro de filme. Filho de imigrantes africanos abandonado e criado por italianos. A avó adotiva esteve em campo de concentração.
Um negro ídolo da Azzurra.
Mas o melhor de Balotelli é o fato de ser um maluco do bem.
Ele tem projeto social na Bahia e furou a ordem de não circular por Salvador, interagindo commos soteropolitanos.

- Não tenho medo. Sou um deles.

Mito!

quinta-feira, junho 20, 2013

A Copa e a insatisfação

A vida e o futebol permitem todas as teses.
Como o último talvez seja a melhor imitação do primeiro, permito-me pitacar minha tese de mestrado em gato-mestrice do momento atual do Brasil.
Somos uma pátria de insatisfeitos.
A insatisfação é que foi às ruas.
Mais do que um percentual ínfimo de baderneiros, mais que aqueles que pediram e conseguiram a redução da tarifa, mais do que os que protestaram conta tudo e contra nem eles sabem o que, a insatisfação entrou em campo.
Todo mundo tem um pouco de razão em tudo. Só perde a razão quem apela, quem aproveita o clima para saquear, vandalizar e roubar. 
Vi uma reportagem da tv Bandeirantes aqui de Fortaleza na qual um bando de arruaceiros invade um posto de gasolina, rouba cigarros e sorvetes, destrói equipamentos e ainda ameaça a equipe de reportagem. Esses não têm razão em nada.
Assim como os policiais despreparados e os vândalos infiltrados.
Eu me enquadro entre os insatisfeitos. Ainda que tenha sido um privilegiado graças ao trabalho duro e honesto dos meus pais, o Brasil de hoje me encheu o saco!
Um país de corrupção endêmica, de falta de respeito pelo próximo, de uma violência que já não se justifica pela desigualdade social. 
Um país que cultiva um sonho cafona de novo-riquismo mas que entrega serviços de quinta categoria, cobrando impostos aviltantes.
Eu me revolto contra isso dia após dia. O governo tunga praticamente 30% do que eu ganho todo mês e não me entrega nada que preste em termos de serviços. Meu plano de saúde quem paga somos eu e meu empregador. O resto, para ser decente, você precisa pagar, e caro.
Quem acompanha minhas opiniões aqui e naTV sabe que sempre fui a favor da Copa, mas contra os gastos públicos para construção de estádios. Essa opinião está registrada.
Achava que com a Copa o Brasil melhoraria sua infra-estrutura precária e se reapresentaria como destino turístico para o mundo.
O governo achou que a Copa seria a propaganda ideal de um Brasil grande (não importa a ideologia, sempre vem essa mania de grandeza idiota). E também aproveitaria para saldar dívidas com as empreiteiras, as grandes financiadoras das campanhas eleitorais no Brasil. Porque não existe melhor cliente para empreiteiras do que governos.
A Fifa faz negócio com o futebol, há muito tempo. Governos se envolvem nisso porque sabem a força política do esporte mais popular da Terra.
Não defendo a Fifa, mas trabalho com fatos. A Fifa não pediu ao Brasil para fazer a Copa. O Brasil concorreu, ganhou e quis fazer. A propaganda oficial usou e usa a Copa a rodo.
Quem quis fazer a Copa em 12 sedes foi a CBF, com a anuência do governo federal, não foi a Fifa.
O custo dos estádios sobe simultaneamente ao custo de qualquer obra no Brasil, onde tudo sempre é mais caro, como em passe de mágica.
São inocentes, quase bobocas, esses vídeos que circulam com menininhas bonitinhas, bem vestidas, dizendo que não vão à Copa e sugerindo o cancelamento. Se cancelar, as multas que o Brasil pagaria só aumentariam o buraco.
O que tem que ser feito é cobrar, fiscalizar e exigir punição a quem roubou.
E organizar o país para ganhar com a exposição e a chegada de turistas, para equilibrar os números.
Tem muita coisa ainda a ser feita.
Perdeu-se a oportunidade de incrementar o transporte público, as telecomunicações, os aeroportos. Mas certamente criaram-se e ainda serão criados empregos e circulará um bom dinheiro. Basta ter seriedade e fiscalização. E isso o povo pode cobrar agora e nas urnas.
Também é preciso aprender a respeitar o próximo, o cidadão. Os serviços no Brasil são péssimos. Ainda recebemos mal demais os visitantes, e eles continuam querendo vir.
Não sou hipócrita. A Copa é o maior evento esportivo e sou um jornalista que cobre esportes. Ter esse evento no Brasil é uma grande possibilidade em minha área.
Mas não vivo em uma redoma. E ao contrário do que muito babaca escreve em rede social, nunca recebi uma orientação da empresa que me paga para deixar de falar algo e jamais fui repreendido por falar alguma coisa. Mas é bom posar de revoltado usando uma vitrine grande, sem saber do que se trata.
Esse é outro problema do Brasil, a ignorância. Pior que ser burro, é ser ignorante por desconhecimento, despreparo, mesmo tendo dinheiro e condição para se informar.
Aí vira uma salada russa. Sonegador vira manifestante, funcionário público fantasma acha que pode se vestir de branco e reclamar contra ele mesmo, contra qualquer coisa. Dono de carro importado reclama do preço do metrô, a presidente acha que os protestos não são também contra ela.
Enquanto tudo isso gira, a bola rola. Com bons jogos, alguns espetaculares, como Japão e Itália. Felipão tenta dar um tom ufanista para lá de fora de moda à seleção. Mas pelo menos consegue fazer o time evoluir.
O estádio incompleto não honra o povo pernambucano. O Castelão está pronto, mas chegar e sair dele é um martírio. Quem tem de dar informação não sabe, a comida é uma ofensa de cara e ruim. Os integrantes dos tribunais esportivos gozam da boa vida de convidados da CBF. O estádio erguido no terreno onde havia o Maracanã é belíssimo, mas me pergunto quanto custará a próxima reforma até a Olimpíada?
Em Salvador, para onde vou agora, a água brota de tomadas e monitores de TV no aeroporto, mas a caríssima e até agora inútil transposição do São Francisco está emperrada e o sertão segue morrendo de sede, como sempre morreu.
Eu quero a Copa no Brasil e acho que pode ser legal. Mas quero que quem meteu a mão vá para a cadeia, que estádios erguidos com dinheiro público ofereçam serviços para o público, e que o País esteja cheio de gringos bem recebidos, em bons aeroportos, hotéis, interagindo, consumindo.
E quero que os protestos continuem, que os vândalos sejam presos, que apareçam novas lideranças antenadas com o mundo atual, que entendam que 1968 já passou faz tempo e que as ideologias antigas, de direita, centro e esquerda envelheceram mal. 
A molecada de hoje é muito mais rápida, esperta, apressada. Eles querem ser respeitados. 
Estão insatisfeitos. Eu estou com eles, mas sem violência e sem vandalismo.

segunda-feira, junho 17, 2013

A arte de Pirlo, e a magia hipnótica de Iniesta

A Copa das Confederações começou em alto estilo, com exibições de gala de dois dos maiores craques da atualidade. Andrea Pirlo desfilou sua arte pelo remodelado Maracanã, e Andrés Iniesta hipnotizou uruguaios e a torcida em Recife com seu futebol de dribles e passes perfeitos.
Ver Pirlo jogando futebol é como assistir a um filme clássico do cinema italiano. Ele dialoga coma bola de maneira íntima, e seus movimentos lembram ângulos revolucionários de um Fellini. 
Lembro de um tempo em que praticamente todos os grandes times brasileiros tinham um jogador como Pirlo. Gente da estirpe de um Ademir da Guia, de um Dicá, um Gérson, algo assim. Jogadores capazes de controlar um jogo, de pensar e executar jogadas que parecem simples, mas são intricadas.
Que dizer da Espanha de Iniesta, mas também de Xavi, de Fábregas.
Gosto não se discute, mas soa hilário que se proponha uma mudança de ritmo, de intensidade da Espanha, com o argumento de que é um estilo, digamos, enfadonho. 
Ora, na história da humanidade civilizações se impuseram e implantaram suas culturas. A Espanha fez isso com o futebol a partir de 2008. Ela joga como quer onde quer que esteja. Quem quiser brincar, que tente entrar no jogo. Mas quase sempre acaba entrando é na roda.
Ilude-se quem não consegue ver intensidade no futebol da seleção espanhola. Um time que troca 300 passes em meia hora e erra pouquíssimos, não é intenso? Uma equipe que joga com sete, oito jogadores no campo do adversário não é intensa?
Que dizer de Iniesta? Técnica e habilidade de craque de futsal com visão periférica de jogador de campo. Não deve ser tarefa fácil ouvir de um treinador que seu trabalho é tirar a bola de Iniesta. Que para mim é mais jogador que Cristiano Ronaldo. Melhor tecnicamente, melhor taticamente e mais decisivo.
E Pirlo? Aos 34 anos ele faz o que eu e milhões de brasileiros sonhamos que o Ganso consiga fazer um dia. Porque se Ganso viu o Pirlo jogar ontem, deveria pensar seriamente e se perguntar por que ele, com dez, doze anos menos, não consegue? Mesmo tendo nascido com o talento para isso.
Pirlo tem uma relação íntima com a bola, com o passe, com o toque.
Vida longa a Pirlo e ao estilo espanhol da Fúria e de Iniesta!

segunda-feira, junho 10, 2013


Honra e responsabilidade




De tempos em tempos somos surpreendidos com algumas situações que nos enchem de orgulho e nos fazem acreditar que é uma benção poder trabalhar com algo que gostamos. Felizmente, não é apenas através da ira de alguns fanáticos que se analisa o trabalho de um analista de esportes, notadamente de futebol.

Em meio a essa maratona que absorve a equipe do SporTV entre torneios nacionais, internacionais e a Copa das Confederações, recebi uma recompensa em forma de correspondência que me enche de orgulho.

Escrevi um livro em 2009, a realização de um sonho. Chama-se Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro. É uma obra de opinião, nunca tive a pretensão de escrever uma peça de História porque não sou historiador, não tenho formação e capacidade para isso. O livro está aí, vivo, pela Editora Contexto.

Mas volto à correspondência. Ela chega assinada pelo filósofo, professor, escritor e especialista em Motricidade Humana Manuel Sérgio. Veio acompanhada de uma elegante carta datada d´além mar, de Lisboa, em 3 de maio de 2013.

Sérgio Manuel é, entre outros, um dos mestres de José Mourinho, o genial e muitas vezes incompreendido treinador agora do Chelsea.

Pois fiquei sabendo que o professor Manuel Sérgio leu meu livro lá em Portugal, e gostou, o que me envaidece e me encoraja sobremaneira a tocar outros projetos literários que mantenho vivos.

Além da volta para casa e para o conforto da família após uma sequência de viagens, fui confortado por esse reconhecimento, que soma-se a uma enorme responsabilidade.

Parafraseando meu irmão Lédio Carmona, é muito bom fazer o que se gosta.

Se alguém reconhece, então, fica melhor ainda.

Se alguém como o professor Manuel Sérgio, fica melhor ainda.

Dormirei de ego cheio.

segunda-feira, junho 03, 2013



Maracanã



Lembro-me até hoje da primeira vez que fui ao Maracanã. Na verdade, fui ao Maracanãzinho, e acabei conhecendo o Maracanã.

Meu pai me levou com ele ao Rio para as transmissões do Campeonato Mundial Juvenil de Voleibol de 1977. O torneio foi o marco de arrancada para o sucesso do voleibol brasileiro, foi quando tudo começou. Um dia, antes de entrarmos no ginásio, meu pai me levou para conhecer o Maracanã.

É difícil descrever o impacto. Porque é algo gigantesco, que pulsa, que tem vida própria, emana uma vibração única. Ainda mais para um garoto de dez anos que respirava futebol 24 horas e só conhecia aquele colosso pelas imagens da TV.

Anos depois, o Maraca passou a ser um destino regular graças ao meu trabalho. Por pior que fosse o jogo, estivesse vazio ou lotado, o "Maior do Mundo" provocava espanto e admiração.

Certa vez, no ano 2000, o site em que eu trabalhava, o SportsJÁ!, organizou um jogo entre veteranos do Brasil e da Argentina, no Dia Nacional contra o fumo. Estiveram ali Zico, Dinamite, Renato Gaúcho, Goycoechea, Luque, Enrique, entre outros.

Estava batendo um papo com Leopoldo Jacinto Luque à beira daquele gramado que parecia interminável. Luque, um dos destaques da Argentina campeã de 1978, tem cara de bandoleiro de filme do Tarantino, mas é uma figura dócil, amável, típica do argentino do interior (ele é da província de Santa Fé).

Reparei que enquanto os outros jogadores aqueciam, Luque estava de jeans e camiseta.

- Não vai jogar? - perguntei.

- Não - respondeu. Minhas pernas já não deixam. Mas só de estar aqui e pisar nesse gramado já vale a pena - afirmou.

E aproveitou para emendar:

- Ah, você sabe onde anda o Paulo Isidoro? Esperava vê-lo aqui. Jogamos juntos no Santos. Mande um abraço para o Negrito. Ele jogava muito!!!

Esse é o efeito do Maracanã.

Algumas horas depois, jogo encerrado, goleada brasileira, estava eu, ao lado do colega Anelso Paixão, em pleno vestiário do Maraca, batendo papo com Zico, o Galinho de Quintino, estrela maior do estádio Mário Filho, que era colunista do nosso site. Privilégio para poucos ver o astro maior daquele palco em seu camarim.

Dia 16 estou escalado para comentar Itália x México pela Copa das Confederações, no SporTV. Será meu reencontro com o Maraca.

Que me lembre, a última vez em que lá estive foi no jogo final do Brasileiro de 2009, entre Flamengo e Grêmio. Talvez a memória me traia.

Mas confesso que estou ansioso para ver como está aquele velho conhecido.

Não me furto a dizer que a reforma saiu absurdamente cara, como todas as outras, e isso não pode acontecer.

Li relatos de gente que gostou e que não gostou.

A geral certamente fará falta, assim como as eternas cadeiras azuis das numeradas.

Mas o mundo mudou, é preciso mais conforto e segurança.

Claro que há muita coisa ainda a ser feita, mas não é apenas aqui. O que pega aqui é o preço sempre muito alto das obras.

Na Copa da África o Soccer City estava ainda em obras no dia da abertura, havia estádios cercados por lama gelada nos estacionamentos. Na Euro de 2012 o estádio de Gdansk foi utilizado sem que obras de acesso estivessem prontas, e os torcedores tinham que andar quilômetros ao relento, enquanto áreas enormes estavam interditadas e acumulavam material de construção.

Aqui não será diferente.

Espero que nesse reencontro o espírito do velho Maraca esteja presente, ainda que de roupa nova.

O Maracanã é a maior catedral ecumênica do futebol. É bom tê-lo de volta.

sexta-feira, maio 31, 2013


Uma certa noite no Horto



Há jogos e jogos. Várias vezes já citei Gana e Uruguai, na Copa de 2010, como o jogo mais incrível em que tive a sorte de trabalhar num transmissão. Contarei para meus filhos e, espero, netos.

Pois a noite de 30 de maio de 2013, no Horto, na acolhedora BH, vivi outro desses momentos. Galo e Tijuana me fizeram viajar no tempo até aquela noite gelada de 2010, no Soccer City.

Assim é o futebol. Milhões pelo Brasil e pelo mundo viram um roteiro épico, de puro improviso, com um final que faria qualquer diretor de cinema ficar com fama de repetitivo.

Filhos e netos que se preparem. Além de uma noite gelada em Joanesburgo, eles vão ouvir muito o papai e vovô falando de uma certa noite no Horto.

sexta-feira, maio 24, 2013



Galo de briga (e de bola)


Quando até o mais otimista dos atleticanos poderia pensar que o melhor futebol orgânico da América do Sul sucumbiria ao gramado sintético de Tijuana, o Galo provou que é de briga. E também é de bola -e bola bem jogada.

Os 2 a 0 contrários cutucaram o time de Cuca e a resposta veio rápida. Diferentemente da maioria dos times nacionais da atualidade, que se limitam a especular com o tal do gol qualificado, o Atlético tomou duas bicadas e foi para a rinha a fim de não apenas fazer um gol, mas de buscar o resultado.

É essa postura que se cobra de um time como o Fluminense, por exemplo.

O Atlético Mineiro tem sido fiel a sua proposta de ganhar jogos, sem o papo de regulamento embaixo do braço.

É por isso que dá gosto ver o Galo em campo. Porque é um time que quer jogar, que assume os riscos dessa postura.

Fora isso, tem Diego Tardelli numa grande fase, um sistema de jogo definido e um bom banco, capaz de transformar Luan em nome do jogo. É a tal da contratação feita pensando no time. Ainda que não se equipare tecnicamente a Bernard, Luan taticamente exerce a mesma função.

O Tijuana não é um time para ser desprezado, mas só mesmo um acaso, uma falha como a do palmeirense Bruno, por exemplo, para tirar o Galo do prumo da semifinal. Até porque, mesmo que essa falha ocorra, o Atlético é muito mais time que o Palmeiras e o Tijuana juntos e pode se recuperar.

Afinal, como pregam os eufóricos atleticanos, caiu no Horto...

quinta-feira, maio 16, 2013

Riquelme, Bianchi,

Amarilla e Pato

  
 
Não tem jeito, o Boca Juniors, sua mística, sua camisa e sua história são uma pedra no sapato dos times brasileiros. Santos, Grêmio, Palmeiras e agora novamente o Corinthians provaram desse sabor amargo. Mesmo com um time que talvez seja o mais fraco dos últimos tempos, o Boca e seu invejável portfólio de títulos é sempre um adversário indesejável.

O jogo do Pacaembu, palco de duas eliminações seguidas de grandes brasileiros, teve muitos personagens.

Riquelme foi o grande destaque. Preparou-se para jogar esta partida e foi decisivo. Jogou como atacante e desfilou sua técnica e visão tática enquanto as pernas deixaram. Ainda que esteja em fim de carreira, era, disparado, o jogador com mais currículo e qualidade em campo. 

O retorno de Carlos Bianchi ao Boca potencializou a capacidade do time. É um treinador fantástico, que inspira seus jogadores e conhece todos os atalhos da Libertadores. Seu time não teve vergonha de assumir a inferioridade técnica e marcou o Corinthians com grande dedicação. Conhece profundamente o futebol brasileiro, o jogador brasileiro e sabe como ninguém anular as virtudes do adversário. O primeiro tempo do Boca foi estrategicamente perfeito.

A arbitragem de Carlos Amarilla foi um desastre. Ele e seus auxiliares erraram em lances capitais. O pior deles foi o pênalti não marcado no lance em que Marín meteu a mão na bola escandalosamente. Além da penalidade, o jogador argentino seria expulso, o que mudaria radicalmente o cenário tático. O paraguaio estava mal posicionado e perdeu o ângulo correto para observar o lance, por isso não conseguiu ver a mão na bola. A interrupção da jogada que Romarinho completou para o gol (não foi gol anulado porque o lance parou antes da conclusão) está na conta do bandeira Rodney Aquino. O outro lance de gol em que a arbitragem interrompe é mais polêmico, mas pode-se dizer que a marcação de falta de Paulinho em Orion não é absurda. De qualquer modo, foi uma arbitragem ruim de Amarilla.

Destaco a grandeza dos jogadores do Corinthians após a partida, ao não jogar nas costas da arbitragem a culpa pelo resultado. Postura digna e rara nos tempos atuais.

Por fim, puxo Pato para falar do Corinthians. Pato não conteve o desabafo ao final da partida e disse, respeitosamente, que voltou ao Brasil para jogar e queria jogar mais. 

Não é fácil deixar no banco um jogador-celebridade, bom de bola e caro. Tite o fez com boa dose de razão, mas em algumas ocasiões Pato poderia, sim, ser efetivado como titular.

O fato é que o Timão não foi intenso na Libertadores 2013 como fora em 2012. Houve queda de rendimento. O nervosismo de ontem e o péssimo jogo da Bombonera pesaram. Algumas peças não renderam, como Guerrero e Romarinho. Faltou uma opção de velocidade no ataque. Certamente haverá uma avaliação e mudanças, naturais, podem ocorrer.

A questão fundamental, apesar dos erros de arbitragem, é que o Boca é um time cujo cartel os brasileiros apenas sonham ter. Com Riquelme e Bianchi inspirados, não se brinca com os xeneizes. 


 

quarta-feira, maio 15, 2013



Quando um frango

não engole o homem



O futebol é cruel como a própria vida. Por isso é tão popular e apaixonante.

Bruno, goleiro do Palmeiras, papou um frango histórico, de almanaque, na eliminação de sua equipe da Libertadores.

Mas o frango não engoliu o homem.

Ao assumir publicamente o erro, ainda no intervalo, e posteriormente ao dar a cara para bater após o jogo, sem fugir de perguntas e questionamentos, alguns até descabidos, Bruno mostrou que tem caráter, hombridade e personalidade.

Nos tempos do velho estádio Palestra Itália, hoje em transformação radical, existia uma passagem secreta para jogadores e dirigentes fugirem da mídia e do torcedor em dias de vexame. Muitos medalhões e dirigentes pegaram esse túnel da vergonha. Bruno preferiu abrir suas feridas publicamente, sem procurar desculpas como iluminação, gramado, bola etc.

Como goleiro acho Bruno de razoável para bom. Erra mais do que acerta. Tecnicamente, tem alguns defeitos que saltam aos olhos. Embora seja muito alto, é inseguro para sair do gol e sai mal. Não consegue aproveitar a ótima envergadura porque sua impulsão lateral é ruim.

Mas é preciso ser justo.

O Palmeiras só chegou vivo ao jogo de ontem contra o Tijuana porque Bruno fechou o gol no México. Mais ainda: se o Verdão jogou a Libertadores de 2013 foi porque nas finais ante o Coritiba, Bruno teve destacada atuação. No jogo de Barueri, suportou um massacre imposto pelo Coxa na primeira etapa, quando o Palmeiras escapou de uma goleada definitiva. Depois garantiu em Curitiba.

Isso tudo não anula sua falha. Que foi cometida pouco tempo depois de outra partida desastrosa, coincidentemente contra um adversário com as mesmas cores do Tijuana, o Ituano. Na transmissão do SporTV, disse, em tom de brincadeira, que Bruno merecia uma estátua em Itu porque foi o responsável direto pela permanência da equipe na Série A-1 paulista.

Contra o Tijuana, Bruno abriu o caminho para a vitória mexicana, sem dúvida. Sua falha apagou o fogo mágico da torcida palmeirense, que é a única integrante do universo alviverde que atualmente merece o rótulo de primeira divisão.

Sejamos realistas: a Libertadores de 2013 foi um sonho de uma noite de verão para os palmeirenses. Um último suspiro na vida de elite, antes de encarar a dura rotina da Série B. É como curtir o último final de semana das férias e gastar os tubos mesmo sabendo que se está endividado até o pescoço. A segunda-feira (sem trocadilhos) é o choque de realidade.

Bruno falhou feio, é verdade, mas o que fez o Palmeiras no jogo? Kléber, um centroavante assustadoramente limitado, não matou uma bola. Fez um gol mal anulado, é verdade, mas será esse o camisa 9 que uma instituição como o eterno Palestra merece?

A verdade que dói nos palmeirenses é que o elenco atual é formado basicamente por um tipo de jogador: aquele que não acontece nada.

Valdívia sequer joga para ser avaliado. Wesley é de uma nulidade irritante. Márcio Araújo corre, corre e sempre chega atrasado. Vinícius e Maikon Leite esbanjam velocidade mas não conseguem acertar chutes e cruzamentos. O futebol de Souza certamente não vale o que pede seu empresário. Tiago Real não consegue executar um pensamento. Juninho, Marcelo Oliveira, Ayrton, todos correm, se esforçam, são profissionais corretos, mas em 90% de suas atuações é aquilo: não acontece nada.

Numa análise fria, tecnicamente, o elenco atual tem raros jogadores com capacidade. Henrique, Léo Gago, Leandro, Vilson, Charles e o eterno ausente Valdívia. Numa peneira mais rigorosa, talvez somente Henrique seja um jogador que tivesse espaço assegurado numa boa equipe de Série A.

A prova cabal disso veio no jogo contra o Tijuana. Quando o Palmeiras precisava de um mínimo de técnica e inteligência, entrou com doses extras de vontade e a chamada pilha. Caiu no jogo que interessava ao time mexicano. Tanto que em momento algum do jogo o Verdão se impôs e seguiu o diapasão proposto por sua fanática torcida.

Muito da pilha vinha do banco. Visivelmente nervoso, Gilson Kleina não transmitiu segurança aos jogadores. É jovem, tem capacidade, mas ainda não desencarnou do papel de técnico de time pequeno. Qualquer coletiva de Kleina começa com a inevitável reclamação de arbitragem. Ontem falou do escandaloso pênalti sofrido por Welsey em Tijuana, mas passou batido pelo pênalti inexistente dado a favor do Palmeiras no Pacaembu. Não era dia, nem momento para buscar refúgio na arbitragem.

Taticamente, Kleina sabe das limitações de seu time, mas parece ainda não ter compreendido que time grande, de camisa, de massa, muitas vezes passa por cima dessas limitações quando se tem uma certa dose de coragem.

Coragem que não faltou a Bruno para expor sua falha, classificada de grotesca por ele próprio.

Ao despertar do sonho da Libertadores e acordar na realidade dura e de cimento frio da Série B, o Palmeiras e sua nova direção têm uma rara chance de avaliar o momento e pensar na reconstrução de forma séria. Ao ganhar uma Copa do Brasil improvável em 2012, o Palmeiras acreditou que tinha um time melhor do que os fatos mostravam. Alguns jogadores pensaram assim.

Embora a situação financeira seja caótica e o peso de décadas de administração amadora e política canibal esteja cobrando seu preço, a força da marca e do patrimônio formados pela história e pela torcida gigantes impõe um desafio maior: dotar a camisa de jogadores com, pelo menos, perspectiva de qualidade melhor. O grupo atual tem condições de passar pela provação da Série B, mas não sem turbulências.

É preciso ser realista, duro e tomar medidas impopulares. Reavaliar contratações como Valdívia, Maikon Leite, Welsey e Kléber, que foram caras e são pouco produtivas. Zerar dívidas com os atletas é primordial para poder dispensá-los, negociá-los, envolvê-los em trocas.

O primeiro passo para isso é ter a hombridade de Bruno, mesmo que falte qualidade.

sexta-feira, maio 10, 2013




Cuca, Ceni e Gaúcho



Três personagens do futebol brasileiro vivem momentos distintos, cada um em sua particularidade, mas que ilustram perfeitamente a gangorra que é o mundo do esporte de alto rendimento, suas cobranças, a competitividade até certo ponto desumana.

Começo por Cuca, treinador do Atlético Mineiro. Bom jogador, atacante de importantes passagens por vários clubes, ele tem se mostrado há tempos um treinador capaz de armar boas equipes, de dar a famosa cara de time aos clubes que treina. Mas também ficou marcado por derrotas em momentos importantes, perdas de classificações e títulos que pareciam certos e por uma fama de supersticioso que até certo pronto prejudica a avaliação de alguns dirigentes, jogadores e analistas.

Uma cena me chamou a atenção na impiedosa goleada aplicada pelo Galo no São Paulo. Quando o jogo ainda estava 1 a 0, no começo da segunda etapa, houve um momento de confronto aberto, cerca de 5, 8 minutos em que foi lá e cá, tudo poderia ter acontecido. O São Paulo teve uma grande chance, em jogada na qual a bola circulou pela pequena área do Galo e Silvinho quase marcou. As câmeras do SporTV mostraram um Cuca com olhar petrificado, acompanhando lance a lance, esperando pelo pior que, felizmente para ele, não veio.

Essa imagem mostra muito do que ainda parece circundar a mente de Cuca. Talvez ele conviva com aquele questionamento: "de novo comigo? Por que perder sendo o melhor time?"

Acho que Cuca, vencendo ou não a Libertadores na qual o Atlético é o grande favorito, já não precisa se preocupar com isso. Ele é, de fato, um dos melhores treinadores do Brasil. Não apenas pelo que faz no Galo, mas porque sempre consegue montar boas equipes por onde passa. Seus times têm um perfil definido, geralmente são ofensivos sem deixar de ser competitivos. Atacam sem esquecer de defender, e ostentam algo que parece ficção científica para muitas das equipes nacionais: aquilo que se convencionou chamar de padrão de jogo.

Convivo com o Cuca desde seus tempos de jogador. Mais agora como treinador. É um sujeito boa praça, simples. Chega até a ser engraçado por causa da superstição. Dizem alguns mais próximos a ele que tem mania de perseguição, acha que sempre tem alguém querendo derrubá-lo. Quando ele assumiu o Atlético Mineiro, fui comentar um jogo em Ipatinga, contra o Corinthians. Estava fazendo check-in no hotel, e chega o Cuca. Sempre cordial, me saudou com alegria. Perguntei se ele estava chegando de uma corridinha matinal. A resposta diz tudo:

- Que nada! Fui à missa porque a fase tá brava e estamos precisando de todo tipo de ajuda - emendou, sério a ponto de nem sequer sorrir.

Relaxa, Cuca! Seu trabalho é sua maior ajuda.

No time de Cuca joga o último grande craque do futebol brasileiro. Depois de Ronaldinho Gaúcho não apareceu mais ninguém. Robinho deu pinta, mas não vingou. Adriano chegou perto, mas infelizmente está se perdendo pela vida. Neymar é o mais forte candidato. Já é o craque em atividade no País, porém, ainda não alcançou o patamar que Ronaldinho Gaúcho teve em seu auge.

Mesmo que o apogeu já tenha passado, o atual camisa 10 do Galo segue sendo um expoente. Ronaldinho tem uma característica que era a marca registrada do futebol brasileiro, mas está em extinção: ele se diverte jogando. O que pode parecer gracinha, firula e provocação para certos atletas, para ele não é. Porque o R10 ainda cultiva aquele gosto pelo aspecto lúdico do jogo de futebol, o brincar com a bola, o controle total, o drible, subjugar o adversário com base na habilidade. Fez isso a vida toda, mas contra o São Paulo ficou marcante, porque em momento algum ele deixou de ser objetivo e competitivo.

Talvez Ronaldinho já não consiga repetir em jogos internacionais entre grandes seleções o desempenho que ainda mostra no Atlético. Porque são mundos diferentes. O nível técnico de uma seleção como Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha, Argentina, Holanda está muito acima do futebol praticado entre clubes no Brasil e na América do Sul. E na maior parte do mundo, exceto algumas exceções, os maiores times do mundo. Mas ele continua intimidando adversários e impondo respeito.

Por fim, Rogério Ceni. Goleiro excepcional, histórico. Cruzei rapidamente com ele no aeroporto de Confins, em Minas. Comigo sempre foi educado, solícito e profissional. Veio até onde estávamos eu, Milton Leite e o companheiro André Plihal, da Espn. Ao contrário do que muitos bobocas fanáticos teimam em espalhar por aí, Rogério e Milton se tratam muito bem e com grande respeito. Rogério cumprimentou e abraçou Milton. Troquei com ele a tradicional saudação e perguntei se estava tudo bem, como é automático nesses casos.

- Tudo bem não está - respondeu, lacônico, cabeça baixa, desanimado o camisa 1 do São Paulo.

Havia um abatimento surpreendente em Rogério. Personagem polêmico graças a sua personalidade. Muitas vezes ele se expressa como torcedor, em outras como um autêntico cartola, e propaga uma arrogância que o São Paulo equivocadamente colou em sua imagem de time vencedor, em virtude do que considero um marketing equivocado, que usa mal o termo soberano. Mas isso é tema para outra postagem.

Rogério muitas vezes é julgado como atleta em virtude de seu comportamento como personagem histórico do clube que defende. O que é injusto. Pode-se gostar ou não dele como entrevistado, de algumas atitudes que soam incoerentes - quem não as tem? Rogério não tem o carisma natural de Marcos, por exemplo, mas é um goleiro sensacional. Vive aquele momento cruel que é o da aproximação do fim da carreira. O que para alguém que se acostumou a ganhar nos níveis em que ele ganhou, deve ser muito complicado. Sem contar as limitações físicas impostas pela idade, que chegam para todos nós, atletas de alto rendimento ou meros peladeiros.

terça-feira, maio 07, 2013



Conmebol arma golpe

contra times brasileiros



Faço a seguinte leitura a respeito da proposta do novo presidente da Conmebol, o uruguaio Eugenio Figueiredo, de reduzir o número de participantes da Libertadores. Em vez de investir na melhora da qualidade técnica, como propaga em seu discurso o novo presidente, vejo uma clara intenção de atacar o domínio brasileiro no futebol sul-americano.

Segundo a ideia de Figueiredo, a Libertadores passaria a ser disputada por 24 equipes. Seriam dois times por federação nacional. Vinte equipes sul-americanas, duas mexicanas (que pagam para jogar) e mais campeão da Libertadores anterior e da Sul-americana. O que abriria uma vaga extra para o país que tivesse o campeão continental.

Não é preciso ser gênio para saber que o futebol brasileiro vive numa redoma de sucesso econômico impensável para os países vizinhos do continente. Nem mesmo os mexicanos, que têm forte injeção financeira das emissoras de TV locais, conseguem competir com o Brasil hoje em termos de recursos.
O futebol argentino virou programa de governo de Cristina Kirchner, o campeonato nacional foi estatizado e os clubes não conseguem competir de igual para igual com os brasileiros. Ainda assim, os argentinos também serão prejudicados pela medida, se ela for adotada, porque têm equipes bastante superiores à média do continente.

A partir de 1990, os clubes brasileiros venceram dez vezes a Libertadores e chegaram a nove decisões, sendo que em duas delas a final foi entre times do Brasil. Os times argentinos, que sempre foram os bichos-papões, venceram sete vezes. Baixando a estatística para os últimos dez anos, a partir de 2002, foram cinco conquistas brasileiras e três argentinas.

Enfim, Figueiredo me parece ter claras intenções eleitorais nesse sentido, porque faria um agrado às demais federações nacionais, tirando o peso de Brasil e Argentina. Talvez de olho em sua permanência no cargo nas eleições de 2015.

Não se discute o fato de que muitos times que se classificam para a Libertadores não reúnem condição técnica de participar do torneio.

A Champions League tem 32 equipes e não perdeu qualidade, poderia argumentar. Mas não há como comparar Europa e América do Sul economicamente.

Parece-me que para equilibrar tecnicamente a Libertadores a Conmebol talvez devesse pensar em aumentar a fatia do bolo econômico para os clubes, subir os valores de premiação por participação e investir em programas de incentivo ao futebol em países onde o esporte não tem as mesmas facilidades de Brasil, principalmente, e Argentina.

Outro objetivo disfarçado dessa medida seria dar algum peso à Copa Sul-americana, competição que segue sem grande prestígio entre a maioria dos clubes, em especial os brasileiros, que a tratam com certo desdém em relação à Libertadores. Reduzindo a presença brasileira na Libertadores, a Conmebol jogaria mais equipes brasileiras de peso na Sul-americana.

Enfim, essa é a minha leitura.

sexta-feira, maio 03, 2013



Libertadores: todo

mundo na parada


Não há motivo para desespero e nem para euforia entre os seis times brasileiros que jogam as oitavas-de-final da Libertadores.

Obviamente que os resultados dos jogos de ida terão impacto técnico, tático e emocional nas partidas de volta. Mas nenhum placar foi definitivo, acachapante, assim como desempenho algum fez torcidas esfregarem as mãos ou baterem a cabeça na parede por desespero.

O elemento que parece mais interessante nesse momento é o tal do gol fora de casa. Marcado ou não.

O caso do Palmeiras, por exemplo, sugere que o resultado (como a atuação do time) em Tijuana foi bom. Talvez tivesse sido ótimo se, em vez de um zero a zero, fosse 1 a 1.

Há um truque psicológico nesse tipo de situação. Embora o Verdão tenha mostrado bola suficiente para vencer e seguir adiante, ainda mais agora que sua torcida parece ter abraçado de vez a equipe, um gol sofrido no Pacaembu pode criar um drama. Embora tenha evoluído consideravelmente como equipe, o Palmeiras ainda padece de alguns erros individuais de certos jogadores em momentos-chave. Concentração e capacidade de definição devem ser as armas alviverdes.

As situações de Galo e Tricolor também devem ser avaliadas pela questão dos gols marcados ou sofridos como mandante. Tem gente que não gosta, mas esse detalhe do gol qualificado eu acredito que dê um toque dramático imprescindível para uma boa eliminatória.

Para o Atlético o quadro é muito mais convidativo, obviamente. Pode perder por 1 a 0. Cada gol que eventualmente fizer jogará mais pressão sobre o São Paulo. Fora o fato de ter uma equipe individualmente melhor e um grupo mais entrosado. Mas 2 a 1 fora de casa entre equipes dessa importância está longe de ser um placar impossível. Como o próprio Galo mostrou.

Nesse confronto me parece que o equilíbrio emocional será determinante. É exatamente o que tem faltado a jogadores experientes do São Paulo, notadamente Lúcio e Luís Fabiano. O Atlético tem se saído melhor no controle dos nervos. Em confrontos com esse nível de equilíbrio, pode decidir.

Exaltado justamente pela frieza de sua equipe, o Corinthians mostrou temperatura baixa demais ante um Boca em ebulição na Bombonera. Tem sido um pouco a cara do Timão essa confiança na capacidade de resolver os jogos na hora em que quiser. Pode valer para um Paulistão, mas na Libertadores a história é diferente. Embora não seja prudente deixar de lado a frieza e o controle, o Corinthians tem que botar alguma pimenta no jogo de volta. Tem mais time, só que não pode ser gelado (no sentido de apatia) como foi em Buenos Aires.

O Grêmio começou a mil por hora contra o Santa Fé, mas foi caindo, caindo. Elano exemplifica bem o que acontece com a equipe gaúcha. Jogador técnico, experiente, capaz, mas cujo ritmo oscila demais dentro da partida, a ponto de sumir em algumas situações. Assim como André Santos. O gol sofrido em casa é, de novo, um drama. Que pode ser minimizado pela volta de Zé Roberto, sempre regular, eficiente e jogando bem. Cris se encaixa no mesmo quadro dos são-paulinos Lúcio e Luís Fabiano. Não tem como faltar controle para alguém tão rodado. Segue faltando ao Grêmio a cara de time pronto que Luxemburgo costumava emplacar por onde passava.

Ao Fluminense faltou, em especial no primeiro tempo, um pouco do modo Abelão de ser. Faltaram atenção, intensidade, pegada. Falhas incríveis de cobertura comprometeram o rendimento da equipe, que é muito superior ao Emelec, com ou sem Fred. O golaço de Vagner vale muito pelo regulamento. Principalmente em virtude da péssima e caseira arbitragem, que inventou um pênalti Mandrake para os equatorianos.

Aliás, arbitragens péssimas e caseiras seguem sendo uma das marcas registradas da Libertadores.

Tudo sugere que dos seis brasileiros, cinco estarão nas quartas.

quarta-feira, maio 01, 2013



1/05/1994



O telefone tocou ao lado da cama. Atendi como deu para atender, após uma noite de balada da qual retornei por volta das 4h30.

Era meu chefe no Diário Popular.

- Você está vendo a corrida? - perguntou.

- Não - respondi.

- Pois ligue a TV. O Senna está morrendo. Depois me telefone.

Não liguei a TV. Só podia ser trote. Nunca fui um grande fã de automobilismo, embora quando criança, nos ano 70, acompanhasse a categoria e os grandes pilotos dos tempos românticos, época em que se falava mais das pessoas do que de pneus. Tenho em algum lugar um disco compacto de vinil com as narrações do Barão Fittipaldi na primeira conquista do filho Emerson.

Não sei quanto tempo passou, mas o telefone tocou de novo.

- Você não ligou a TV? Liga agora e veja o que aconteceu com o Senna - pediu, em tom de ordem, o chefe.

Liguei e vi imagens de uma câmera posicionada num helicóptero, um carro parcialmente destruído, ambulâncias. Aumentei o volume e a voz em tom grave do Galvão Bueno sinalizava algo realmente sério.

- Esquece toda a pauta de hoje. Vai para a sede da Torcida Ayrton Senna, em Santana. O fotógrafo encontra você lá.

De nada adiantou dizer que era minha folga, que não tinha pauta etc.

Antes de seguir com esse relato, 19 anos depois, registro alguns fatos relevantes para a compreensão do texto.

Nunca fui fã de Ayrton Senna. Sempre fui fã de Nelson Piquet e, antes, de Emerson Fittipaldi. Nunca fui especialista em automobilismo, embora tenha feito dezenas de coberturas de GP de F-1, de Fórmula Ford, Mil Milhas etc. Até vi o Nelson Piquet (à época Piket, assim mesmo, com K, ganhar do Alfredo Guaraná Menezes na Fórmula Super V).

Tomei muita patada do Piquet e do Senna em entrevistas. Até do Gugelmim e do Pedro Paulo Diniz tomávamos patada, acreditem se quiserem!

Piquet era o que era sempre. Senna era agradável com quem interessava ser, o que certamente não era meu caso, nem o do jornal em que trabalhava naquele período.

Senna era mestre em convocar a imprensa quando embarcava de madrugada para alguma corrida, pilotando seu próprio avião muitas vezes. O texto da assessoria prometia: Senna atenderá a imprensa no aeroporto. Ele só atendia a Globo e se mandava.

Tomei muita patada de coleguinha que era setorista de Fórmula 1 naquele período. Havia um fenômeno curioso. A turma que cobria F-1, salvo honrosas exceções de gente do mais alto gabarito e simpatia, como Lemyr Martins, Reginaldo Leme, Silvio Nascimento, olhava para quem não era do clubinho com ar de desprezo. Alguns ficavam mascarados apenas porque cobriam a F-1 na época do Senna. Meu Deus!!!!!

Pois segui para a sede da Torcida Ayrton Senna (TAS), que ficava em Santana, Zona Norte de São Paulo. Pelo que lembro, era uma casa que pertencera ao próprio Senna, onde havia sido seu escritório, que ele doara para os torcedores.

Havia uma grande aglomeração de repórteres e curiosos, além dos integrantes da torcida. Conheci o presidente da TAS, Adílson, se não me falhe a memória quase duas décadas depois. Ali acompanhamos os boletins de TV, rádio etc.

Quando o repórter, se não me engano era o Cabrini, anunciou a morte de Senna, vi coisas que até hoje me impressionam, mesmo o fato para mim sendo puramente jornalístico, já que não compartilhava daquela idolatria. Vi homens crescidos batendo a cabeça contra a parede. Mulheres crescidas se atirando ao chão em desespero. Jovens em estado de choque vagando pela casa.

Lúcido, embora profundamente abalado, o presidente da TAS deu uma rápida declaração.

Lá fora, a multidão crescia. Percorri a rua atrás de personagens que pudessem contar mais sobre o ídolo que morria precocemente, um outro olhar. Descobri uma senhora que tinha várias fotos de Senna, dos tempos em que ele ainda não era famoso. Imagens com suas netas, algumas dele almoçando na sala daquela simpática senhora. Colecionei depoimentos que ajudariam a humanizar o personagem.

A contar daquele dia, trabalhei sem parar até o dia do sepultamento do corpo.

Meu turno era o da madrugada, na Assembléia Legislativa de São Paulo, onde o corpo foi velado. Era mais fácil para mim, pois morava muito perto.

Esse turno me proporcionou entrevistas muito interessantes. Peguei Alain Prost praticamente sozinho, chegando de madrugada, com a ajuda da colega Betise Assumpção, assessora de imprensa de Senna e profissional de altíssimo gabarito.

Como relatei antes, o impacto talvez tenha sido diferente para mim porque não compartilhava da idolatria brasileira por Ayrton Senna, embora jornalisticamente reconhecesse nele o fenômeno de público, mídia e resultados que dificilmente se repetirá.

Hoje recordo aquele dia e fico tocado pelas manifestações de carinho do povo. A passagem do féretro pelas ruas de São Paulo foi acompanhada por um silêncio dolorosamente respeitoso.

No aspecto prático da coisa, o Brasil deixou de ser protagonista para ser a cada ano mais coadjuvante na Fórmula 1.

A mobilização de cobertura de mídia, a maneira como se respeitou a privacidade da família de Senna e, mesmo assim, se cobriu tudo, mostram como num período tão curto de tempo nossa mídia regrediu em qualidade e progrediu em futilidade.

Certo está quem diz que para os milhões de brasileiros fãs de Senna as manhãs de domingo nunca mais foram as mesmas.
 

terça-feira, abril 30, 2013


 

20 É DEMAIS!


Eis que a Federação Paulista de Futebol anuncia que reduzirá o número de datas do Campeonato Estadual de 2014. A medida foi tomada em virtude do aperto no calendário que será provocado pela realização da Copa do Mundo.

A tal redução será inócua pois, na prática, reduzirá o torneio em uma ou duas datas, se muito. O maior problema segue sendo o absurdo número de participantes. Vinte clubes para um torneio estadual é uma teimosia que só se explica porque são pelo menos 20 votos assegurados. Mais: sob a ótica das equipes que disputam as divisões de acesso e sonham com uma das quatro vagas na Série A-1 a cada ano, esse número se multiplica em termos eleitorais.

O argumento da pujança econômica de São Paulo e de seus 136 clubes, utilizado pela Federação, não dura um minuto de discussão. Nem os clubes mais tradicionais do interior têm conseguido se sustentar. Temos aí o Guarani em situação lamentável, o Paulista de Jundiaí com sérios problemas. São clubes de duas das cidades mais ricas do estado.

O que existe hoje é um núcleo de times que são bancados ou por empresários, ou por prefeituras, com claros objetivos financeiros de um lado e políticos de outro.

Mas a questão técnica nunca é vista em primeiro plano.

O problema do Paulistão não vem de hoje. Ele começou quando atingiu o auge a disputa política entre Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, e Eduardo Farah, presidente da Federação Paulista. Na disputa pelo poder no futebol brasileiro, criou-se uma típica lenda urbana, por parte de Farah, tentando vender a ideia de que o Paulistão era o torneio mais forte do País, mais até que o Brasileirão. bobagem das grossas. Estadual algum paga placê para o Brasileirão. O Paulistão foi ficando anabolizado, disforme, fora da realidade.

O torneio paulista sempre foi interessante porque realmente o interior do estado era - e é - forte economicamente e havia equipes de tradição, identificadas com suas cidades, que revelavam jogadores importantes e faziam rodar a engrenagem do futebol, abastecendo os quatro poderosos da Capital e de Santos.

Mas o mundo mudou rapidamente. O futebol encareceu, os custos subiram, jogadores são estrelas milionárias, treinadores também. Bancar um time de futebol requer orçamentos que são impossíveis de assumir para a maioria dos clubes pequenos e médios. Há casos viáveis como o da Ponte Preta, por exemplo, que se sustenta na Séria A Nacional e na A-1 Paulista, o que torna sua existência economicamente plausível.

Mas como tocar um time que joga o Paulista e fica parado no resto da temporada, ou vai jogar a Série D? A resposta mais rápida é alugar a camisa para um grupo de empresários, que cedem os jogadores esperando que uma boa campanha no estadual, com cobertura pela TV, traga interessados em contratar seus produtos para o Brasileirão em suas quatro divisões.

Tecnicamente é impossível fazer um bom campeonato estadual com vinte times, porque não há vinte bons times entre os tais 136 federados em São Paulo. Se houver 14 já é lucro. Tiremos os quatro grandes dessa disputa. Talvez haja dez, doze equipes que podem sobreviver, com projetos bem definidos, estrutura, categoria de base, planejamento e viabilidade financeira para jogar uma divisão especial.

Qual seria a saída?

Não tenho a chave para todos os problemas, até porque meu interesse não é político, não é ganhar voto de clube. Meu interesse é avaliar jogos e ter um espetáculo interessante para oferecer ao telespectador que assiste as transmissões de que participo.

E posso afirmar sem erro: a maioria das transmissões do estadual paulista tem pouco ou nenhum atrativo. Times fracos, estádios precários, iluminações e gramados péssimos. A média de público traduz o desinteresse.

Para melhorar será preciso qualificar.

A Federação tem muito dinheiro, e os grandes jogam os estaduais porque recebem ótimas cotas para isso. Mas o dinheiro que chega para médios e pequenos é irrisório.

Minha sugestão: reduzir o número de clubes para 14. Fazer com que a Série A-1 banque financeiramente as divisões de acesso, que sairão fortalecidas. Obrigar as equipes que cheguem à primeira divisão a ter categorias de base ativas por pelo menos cinco temporadas. Ampliar a premiação em dinheiro por desempenho. Exigir que os estádios sejam minimamente confortáveis, bem iluminados, com bons gramados e seguros.

Cobrar preços de ingressos compatíveis com a realidade de cada espetáculo. Não adianta cobrar preço de clássico ou de jogo de Brasileirão. Transformar o torneio numa grande festa de pré-temporada, ainda que para alguns clubes seja classificatório. Os grandes seriam vitalícios, não poderiam ser rebaixados.

Enfim, há muitas ideias, mas nem Einstein conseguiria encaixar uma sacada genial para um estadual com 20 times. É impossível.

Reduzir as datas não adianta. É como a administradora de uma estrada dizer que vai reduzir de 15 para dez o número de praças de pedágio em um trecho de 300 km. Mas ao final da viagem o preço pago será o mesmo, mas com a cobrança em dez e não mais 15 paradas.

 

quinta-feira, abril 25, 2013



Jogo veloz


Um conceito que muita gente confunde no futebol é o de velocidade. Jogo veloz não é aquele em que um cara dá um chutão lá da defesa para um maluco sair em disparada atrás da bola. Jogo veloz é o que fazem os quatro semifinalistas da Liga dos Campeões da Europa, a troca rápida de passes com o time evoluindo em volta da bola.

Até o Chile, que não tem uma grande seleção, registre-se, fez um jogo veloz contra o Brasil, que insiste em jogar na base do chutão dos zagueiros para ver se lá na frente alguém resolve sozinho.

O futebol brasileiro se perde a cada dia em busca de uma solução para um problema cuja constatação é evidente: paramos no tempo e já não produzimos tantos craques como antes.

Nosso futebol sempre foi técnico e habilidoso. Muitas vezes mais habilidoso, mas quase sempre técnico.

Atualmente o jogador brasileiro padrão tem horror a posse de bola, tem paúra de dominar e tocar. Muitos jogadores profissionais precisam de dois, três toques para controlar uma bola. Ato que deve ser automático para um profissional dessa área. Dominar e tocar redondo, um passe preciso, então, é ainda mais raro.

Sem querer ser nostálgico e já sendo, até meados dos anos 90 ainda era assim.

Mas hoje, após anos e anos, de preparação física em excesso, luta incessante pelo resultado a qualquer custo, hoje o futebol brasileiro paga um alto preço por isso.

Não quero escrever com isso que o Brasil é carta fora do baralho na Copa de 2014. Mas temos poucos coringas e a mão é fraca. Para buscar uma canastra suja será difícil, que dizer de uma real.

Até nossos melhores jogadores andam óbvios.

Para buscar um sistema de jogo, acho que o treinador não deve impor seus conceitos. Tem que usar de sua capacidade e experiência par tirar o melhor de cada jogador dentro do que ele pode render e do que está acostumado a fazer em seu clube.

Acho inócuas as tentativas de colocar um Oscar, um Jádson para atuar do lado do campo, em posição fixa o tempo todo, apenas porque na Europa se faz assim em muitos clubes e seleções.

Neymar jogando enfiado no lado esquerdo, parado, com acesso fácil para qualquer marcador, é um pecado. Melhor é que ele esteja livre para criar, para rodar o campo, tabelar, driblar em velocidade.

Ronaldinho Gaúcho rende muito mais no Galo porque existe um sistema que funciona corretamente há muito tempo e que supre as carências do meia. Bernard corre por ele, os volantes correm por ele. E em termos nacionais o jogo é mais lento.

Em jogo internacional a coisa é muito mais complicada, e a velocidade com que a bola circula já complica até para um superdotado tecnicamente como Ronaldinho.

Que a Copa das Confederações seja utilizada para buscar uma maneira de jogar, para mudar conceitos, não apenas para vencer em busca de revanchismo e um ufanismo sem propósito.

 

terça-feira, abril 23, 2013



O tal do calendário



Um dia ainda desenvolverei esse tema num texto mais elaborado. Mas jogo aqui porque sei que vem pancada dos patoteiros. Mas cabe a discussão.

Sou contra essa ideia de se adequar o calendário do futebol brasileiro ao das grandes ligas nacionais europeias.

Parece aquele tipo de solução de patota mesmo, de turminha que acha que tem a resposta para tudo. Embora existam profissionais absolutamente sérios e competentes que defendam essa tese,  como  Mauro Beting , Amir Somoggi e outros.

Eu penso diferente. Acho que não se pode comparar realidades de países que estão em hemisférios diferentes e têm culturas diferentes.

Na Espanha o futebol segue o calendário escolar e parlamentar, simples assim. Porque é o futebol espanhol, que interessa para a Espanha e é jogado na Espanha.

Sem contar a Inglaterra, menina dos olhos de muitos torcedores brasileiros.

Adequar seria a melhor solução? Acho que não.

Parece complicado pegar uma realidade e encaixar em outro país, outra cultura.

Se fácil fosse, bastaria mudar a mão de direção de automóveis para o lado direito para reduzir o número de acidentes, certo? Porque certamente na Inglaterra o trânsito é menos violento.
Muitos patoteiros dirão que defendo interesses patronais, a frase preferida de certo tipo de patrulheiro que adota a tática do morde e assopra.

Eu acho que o Brasil tem que mudar seu calendário futebolístico, sim, mas para buscar uma solução que seja boa para o Brasil, para o torcedor brasileiro, os clubes brasileiros.

Pouca gente lembra que a Alemanha interrompe seu torneio por quase um mês no alto inverno, porque é impraticável jogar em virtude da neve e do frio.

Seria de bom tom jogar no Brasil, por exemplo, em 26 de dezembro ou 2 de janeiro? No auge do verão e do período de férias escolares.

Será que na Itália não se joga no alto verão por que acham bacana? Ou é lógico dada a rotina do próprio país?

Fora isso, os atletas têm direito a passar seu período de férias com seus filhos, que também estão em férias simultaneamente.

Sinceramente, acho que não resolveria o mais grave dos problemas do futebol brasileiro, que é a péssima administração dos clubes.

Seguimos exportando jogadores como ninguém, ganhando dinheiro como nunca se ganhou com futebol (os clubes) e as dívidas só aumentam.

Enfiar a realidade europeia de datas e rotina de sopetão mudaria isso?

Claro que tem que melhorar muita coisa. Reduzir estaduais, preservar datas Fifa, etc.

Mas simplesmente copiar eu discordo. Até porque não sou partidário do modelo de alguns clubes europeus que têm proprietários que administram fortunas de origem suspeitas e deixam o dinheiro limpinho via futebol.

Ou alguém acha que para curtir o verdadeiro espírito de Natal seria preciso nevar em dezembro no Brasil?

quinta-feira, abril 18, 2013



Diversão e intensidade



Não ouvi a declaração de Ronaldinho Gaúcho afirmando que o Atlético Mineiro tinha ido ao Morumbi para se divertir.

Ouvi e li reproduções desta frase. Não acredito que repórteres sérios a inventariam apenas para polemizar. Parto da suposição de que ela foi realmente dita, até que eu encontre o áudio em alguma parte.

Também não acredito que uma frase de um jogador sirva para explicar o comportamento de um time. Principalmente quando essa frase vem à tona em um intervalo ou após uma partida.

Acredito e analiso em cima do que vejo e do que se apresenta em uma competição esportiva.

Vira e mexe nós, comentaristas, e também jogadores e treinadores utilizam a palavra intensidade para analisar um jogo, uma equipe.

Apoio-me novamente nessa palavra para escrever sobre o que vi do jogo quente disputado no frio Morumbi, entre São Paulo e Atlético Mineiro.

Desde a entrada em campo foi fácil perceber uma energia distinta entre as equipes. O São Paulo elétrico, o Atlético mais tranquilo. Muitas vezes isso não se reflete na disposição quando a bola rola. E não faltou disposição ao Atlético, nem vontade. Longe disso. É que sobrou ao São Paulo. Transbordou. A equipe jogou uma final, contra um adversário que não conseguiu reagir a essa postura.

O Atlético segue tendo uma equipe de melhor desempenho que a do São Paulo. Mas o futebol sul-americano é muito parelho, as distâncias são curtas, e ninguém sobra tecnicamente. Por isso a tal da intensidade muitas vezes decide jogos e até campeonatos.

Mas que diabos seria essa tal intensidade?

Eu a definiria como uma mistura de entrega, concentração e superação, movida a um excelente preparo físico.

A maioria das equipes profissionais brasileiras está apta a executar isso. Poucas executam, e só o fazem em algumas oportunidades. Muitas vezes conseguem na primeira etapa e não conseguem na segunda.

Numa linguagem mais direta é correr sempre mais, chegar antes nas divididas, antecipar a marcação, incomodar o adversário, tirá-lo de seu padrão normal e não deixar de disputar uma bola sequer. Além de buscar o jogo, o resultado, assumir uma postura de quem deseja ganhar e lutará por isso.

O São Paulo se comportou assim a partir do primeiro segundo do jogo. O Atlético tentou igualar, mas quando foi à luta já não dava mais tempo, a distância de intensidade aplicada ao jogo já era muito difícil de ser compensada.

Além disso - ou talvez por isso - o desempenho técnico e tático do Galo foi muito inferior à média. Ronaldinho, se estava a fim de se divertir ou não, jogou mal, não foi protagonista. Luan esteve perdido, Leandro Donizeti jogou muito menos do que pode. Claro que Bernard fez falta, assim como Tardelli.

Mas Jádson e Luís Fabiano também fizeram falta ao São Paulo. A diferença: o time não se deixou levar pelas dificuldades impostas pelas ausências técnicas e as compensou com dedicação de sobra.

Ganso jogou, pensou, roubou bolas, esteve ligado o tempo todo. Osvaldo idem.

O Atlético poderia ter resolvido em uma partida o que precisará agora de duas.

Não é bom negócio para equipe alguma enfrentar o São Paulo em um mata-mata de Libertadores. Claro que não é impossível derrota-lo. O São Paulo, assim como já ganhou, também perdeu a Libertadores em casa em mais de uma oportunidade. Classificou-se e foi eliminado.

A diferença está no fato de que o mata-mata é um torneio à parte. O Galo teve a chance de um mata. Tinha um adversário fragilizado tecnicamente em campo, jogando por um resultado que ainda poderia depender de outra partida. Mesmo assim, deixou que o São Paulo colocasse a intensidade no jogo e retornasse para uma disputa na qual o jogo está zero a zero e ninguém entra classificado.

Não tenho bola de cristal nem gosto de palpite.

Sigo entendendo que o Atlético é melhor como time, como trabalho coletivo.

Mas o São Paulo conseguiu despertar sua torcida e até mesmo alguns jogadores que andavam apáticos. O ambiente, que era tenso, desanuviou.

A realidade de um jogo se desdobrou em três, com o time paulista jogando dois seguidos em casa.

É aquela história de pagar à vista com desconto ou parcelar em dólar. O Galo optou pelo parcelamento, mesmo sabendo que poderia haver uma supervalorização da moeda. Não é impossível de pagar, claro, mas pode custar muito mais caro.

O São Paulo aplicou no mercado futuro e já conseguiu zerar o prejuízo.

Cenas dos próximos capítulos no Morumbi e no Horto.

terça-feira, abril 16, 2013


A suprema covardia


O ser humano é capaz de atos nojentos aos montes.

Mas entre todos esses dejetos da nossa condição de experiência que insiste em não dar certo, o que considero de suprema covardia é o terrorismo.

Duvido que exista entre outros animais encontrados na natureza esse tipo de atitude. Escrevo outros animais porque é isso que somos, um grupo a mais nessa escala evolutiva. Tendemos a acreditar que estamos no topo, mas alguns comportamento nos remetem ao último lugar na fila.

A covardia do ato terrorista, entre outras coisas, reside na condenação sumária de inocentes, na promulgação de mortes por atacado sem chance de defesa, unindo como alvo dessa medida abjeta homens, mulheres, crianças, jovens, idosos, independentemente de credo, raça, origem.

O terrorismo é a estupidez por atacado.

Nada justifica atitudes terroristas.

Principalmente porque os alvos quase sempre são inocentes, já que o terrorista, que no fundo é um grande covarde, teme encarar seu verdadeiro alvo de frente, e prefere espalhar o pânico entre os indefesos.

Assim como são grandes covardes os terroristas suicidas, os que pensar estar se martirizando, os que acreditam ser instrumentos de vingança, mas que não passam de peões inúteis num xadrez comandado por reis e rainhas estúpidos e ainda mais covardes.

As bombas que explodiram na Maratona de Boston remetem ao ato terrorista de Munique, em 1972.

Com uma pitada a mais de crueldade, se é que pode ser possível em casos como esse.

Programadas para explodir quando os pelotões amadores estivessem passando, muito após a chegada dos atletas de elite, as bombas tinham como objetivo a destruição em maior escala, atingindo atletas amadores e amigos, parentes e apoiadores que estivessem por perto.

Se existe algum consolo nesse caso, é saber que se existe alguma consciência em quem pratica tal ato de covardia, esse remorso o acompanhará por toda a sua existência, em qualquer forma que possa existir de vida.

 

terça-feira, abril 09, 2013



Descaso olímpico


Inaugurado em julho de 1978, homenageando o jornalista Júlio de Lamare, morto no acidente com um avião da Varig em Paris, cinco anos antes, o parque aquático anexo ao estádio do Maracanã, no Rio, era um dos raros espaços públicos voltados para o esporte olímpico no Brasil. Escrevo era porque o local está condenado, será demolido para a construção de um estacionamento para a Copa do Mundo de 2014.
O vizinho estádio de atletismo Célio de Barros também teve o mesmo fim destinado ao parque aquático Júlio de Lamare. Com essas demolições virarão pó anos de história do atletismo, natação, pólo aquático e nado sincronizado brasileiros. Mais do que isso, cerca de dez mil pessoas, entre atletas e participantes de projetos sociais, ficarão sem um espaço sagrado para treinar e buscar integração e recuperação. Existe a promessa de construção de novos espaços. Promessa.

Tombado em 2002, o espaço que abrigava os atletas foi reformado para os Jogos Pan-americanos de 2007, ao custo de R$ 10 milhões. O tombamento foi revertido, e das piscinas e pistas surgirão restaurantes e estacionamentos para o estádio de futebol.

Essa situação triste para o país sede das Olimpíadas de 2016 motivou uma rara ação conjunta de atletas, inclusive jogadores do futebol, que assinaram um manifesto protestando contra a demolição dos complexos esportivos. Rara porque atleta no Brasil pensa somente em causa própria na maior parte do tempo e só costuma reclamar de falta de patrocínio. Casos como os de Paula, Ana Moser, Flávio Canto, Raí, Cafu, Deco são, infelizmente, exceções.

Infelizmente, o governo brasileiro, em todos os níveis, teima em não entender o papel fundamental do esporte como educação e instrumento de inclusão social. Em vez de investir no fomento e na popularização da prática esportiva geral, o Brasil dedica fortunas à construção de estádios de futebol, muitos deles particulares, e demonstra uma falta de sensibilidade ímpar. É dolorida a constatação de que a política esportiva no Brasil seja voltada muito mais para empreiteiros e construtores do que para esportistas.