terça-feira, novembro 10, 2009

Juiz de futebol tem

que ser profissional



Faz tempo que bato nessa tecla. Já passou da hora de se profissionalizar a arbitragem de futebol. Tem que ter lá na carteria de trabalho o seguinte: árbitro profissional de futebol.

Não adianta cobrar, gastar milhões em preparação se o sujeito, em última análise, faz isso como bico. Carlos Eugênio Simon, por exemplo, é jornalista profissional e árbitro amador de futebol.

Tudo no esporte mais popular do planeta evoluiu. A medicina aplicada ao esporte, a preparação física, a capacidade tática. Gramados melhoraram, os estádios caminham para isso. Há mais gente cobrindo o dia-a-dia do futebol, o que aumenta a visibilidade, melhora os valores de patrocínio e cota de TV. Enfim, está cada vez mais profissional.

Só a arbitragem que não. O sujeito vai lá e trabalha por cachê. Alguns são muito bons, sem dúvida. Apitar uma Copa do Mundo enche o bolso de qualquer juiz. Jogos internacionais idem. O problema é que não existe 100% de compromisso, é uma atividade paralela.

Já ouvi histórias de árbitros que apitam sem qualquer condição física, fora de forma, escondendo lesões musculares para não perder o cachê. Porque ele sabe que se estiver machucado não tem cachê, não tem seguro, não tem garantia alguma.

Quem cuida da preparação física de um árbitro de futebol? É cada um por si. Não sei se ainda é assim, mas até há bem pouco tempo, quem pagava a cota do árbitro era o time mandante. Se esse time perdia, muitas vezes o árbitro voltava para casa sem cota e ainda por cima ameaçado de porrada por parte dos dirigentes e torcedores adversários.

Também funcionava assim - e me perdoem se já mudou, pois não tenho essa confirmação - quanto às viagens. Os árbitros procuravam os próprios hotéis, para economizar algum. Isso não existe, é absurdo.

Erros sempre existirão. Sempre. Todo mundo falha. Jogador perde gol feito, juiz não marca pênalti claro e anula gol legítimo. O que precisa ser feito é diminuir a margem de erro. Circula uma quantidade inacreditável de dinheiro no futebol. O que se gasta com mala preta e mala branca, com bicho pago via caixa 2, talvez pudesse ser investido na qualificação profissional dos árbitros de futebol. Na transformação dessa atividade em uma carreira, em uma profissão.

Os homens de preto (hoje de azul, laranja, amarelo) merecem e precisam ter plano de carreira, de saúde, seguro de vida, férias, décimo-terceiro, cursos de reciclagem, acompanhamento de preparação física profissional.

A politicagem precisa sair de campo para entrar a qualificação e o profissionalismo. Arnaldo Cezar Coelho que me perdoe, mas seu bordão caiu em desuso. A regra é tudo, menos clara. Se cada um interpreta de uma maneira, é preciso neutralizar essa variável de interpretação dando uma diretriz, uma linha de conduta.

No voleibol são 12 atletas em quadra, com dois árbitros e quatro auxiliares. No basquete são dez atletas em quadra e dois árbitros. Tudo num espaço reduzido, sem sol escaldante, sem chuva e frio, ginásios geralmente climatizados. No futebol são 22 atletas numa área muito maior, para três árbitros. É pouco.

O futebol anda confundindo tradição com atraso. O que provoca reações desmedidas e condenáveis, pelo exagero embutido, como a do presidente Belluzzo, do Palmeiras. Porque ele representa uma tentativa de modernização e profissionalismo na administração, mas acaba protestando no pior estilo amador. Isso tudo motivado pelo fato de que os times de futebol que têm técnico e jogadores profissionais têm seus destinos decididos por amadores.

Não há e não haverá nunca um time que não tenha sido ajudado e prejudicado por uma arbitragem. Há os erros que são pura e simplesmente erros. E há, sim, a má-fé. É do ser humano. Se reis e imperadores foram derrubados, mandatários foram assassinados, vocês acham que não teve nunca um esquemazinho num jogo de futebol, algum dia, em alguma época? Vide as máfias do apito espalhadas pelo mundo.

Quanto mais forem profissionais, menos os árbitros serão atacados. Seus erros continuarão acontecendo e eles trabalharão especificamente para melhorarem como profissionais do apito. O que não dá mais para aguentar é juiz que no dia seguinte vai se preocupar com a lojinha, o cartório, o curso da PM, a fábrica de bonecas.

5 comentários:

Stéfano disse...

Ótimo texto.
De fato a arbitragem precisa ser profissionalizada, pois estamos num nível muito fraco. Porém, o que também não se pode aceitar é colocar todos os problemas de jogo em cima de juízes. O Palmeiras não jogou nada domingo, independente do erro do Simon.

Marcelo disse...

Caro Mauricio Noriega. Aproveitando o debate, ninguém aqui quer desmerecer a vitória do Fluminense que se jogasse assim o ano inteiro não estaria na situação que está. Vi entrevista e uma matéria sobre o Belluzzo e acredito que a reclamação exagerada dele, além da parte emocional e amadora, teve como objetivo puxar a responsabilidade desta questão para a diretoria e deixar jogadores e comissão técnica fora dela pois eles têm muitos problemas a resolver dentro de campo: não foi só o gol anulado que trouxe a derrota. Ninguém no Palmeiras esconde que o time está mal e abalado. Com os holofortes voltados pra cima do presidente sobre as polêmicas extra-campo pode ser positivo para que os jogadores se concentrem e se motivem para tentar reagir dentro de campo. A polêmica deve existir entre as diretorias dos clubes, entre os torcedores, entre os jornalistas. Comissão técnica, jogadores e juízes devem ficar fora disso. Não há complô, não há esquema, não há conspiração como alguns adversários costumam atribuir ao Palmeiras. Assim como o Palmeiras está chorando hoje, outros já choraram e bastante em rodadas passadas, todos já foram prejudicados e continuarão a ser sem a profissionalização dos juízes. Não justifica os exageros e destemperos (o que é mais comum aos rivais do Sr. Belluzzo), mas vale lembrar também que não foi o primeiro gol claramente mal anulado do Obina no campeonato.

Michel Costa disse...

Prezado Noriega,

Penso que a profissionalização pode diminuir, mas não acabar com os erros. Está provado que a visão humana não consegue acompanhar perfeitamente a velocidade atual do jogo. Assim, os erros continuarão e as polêmicas também. E poderá ser pior, pois vão questionar o grau de profissionalismo dos homens do apito.
Além disso, não sei se tem conhecimento, mas para profissionalizar os árbitros seria necessária a criação de uma legislação trabalhista específica para eles, uma vez que se aposentariam muito mais cedo do que a maioria dos profissionais. Fazer isso é bem mais complicado do que parece.
Para mim, o mais correto seria o aproveitamento dos recursos televisivos no futebol. Sempre que houvesse uma grande dúvida, as imagens poderiam ser consultadas para esclarecer a jogada em questão. Logicamente, haveria um estudo para saber como isso afetaria a dinâmica do jogo, até para fins de "dosagem" do recurso.
No entanto, é bom lembrar que a FIFA ainda segue o conceito antiquado de João Havelange que afirma até hoje que a graça do futebol está no erro. Para ele, quando as polêmicas acabarem o futebol acaba junto.
Obviamente, eu não concordo com o centenário dirigente.

Abraço.

Blog do Tavares disse...

Olá Noriega,

Estou postando aqui pela primeira vez, vou arranjar tempo para acompanhar seu blog, que é excelente!

Quero aqui postar um texto que escrevi em meu blog a respeito do mesmo assunto.

SOBRE OS ERROS DE ARBITRAGEM

Não é segredo para niguém que a arbitragem no futebol decide partidas e por consequência, títulos. Torna o jogo mais injusto do que sua própria estrutura já o faz.

Em algumas rodadas do Brasileirão, se fala mais nos árbitros que nos artilheiros. Mas ninguém pense que é um problema apenas do nosso futebol, pois a Europa por exemplo sofre bastante com isso também.

O site Futebol Finance disponibilizou um lista dos ganhos do árbitros portugueses.

Tanto lá como cá, eles não são profissionais. Infelizmente não tenho acesso à lista com ganhos dos brasileiros (se alguém tiver e quiser informar, fique à vontade), tem aqui (no post de 21 de junho), o quanto ganham por nível a cada jogo.

Para mim é bem claro que se os apitadores fossem profissionalizados, vivessem exclusivamente dos ganhos pelas sopradas, o nível das atuações deles seria bem mais alto.

Profissionalização, valorização e apoio tecnológico são algumas das medidas que diminuiriam a influência dos sopradores nos resultados dos jogos.

É assunto para muita briga e discussão, e penso que é muito válido parar para pensar à respeito.

Já imaginaram um campeonato onde a gente mal soubesse o nome dos árbitros? Como seria se eles mal aparecessem no jogo?

Seria incrível!

Abraços.

Alysson Antero disse...

Penso que o recurso eletronico seja benéfico em partes, mas até que ponto? Pq vai ter jogador em cima, treinador em cima, DIRIGENTE invadindo campo com o iphone que tem a imagem no youtube de outro angulo e quer mostrar para o juiz, voltar o lance e td mais.

se for como é no tenis, replay com trabalho gráfico está valendo, mas com a imagem da TV, vai ser uma mesa redonda no campo de futebol, no meio do jogo.

Acho que a saída, seria a profissionalização, pois se um empregado erra, advertencia, errou a segunda, suspensão, errou várias, justa causa. Ficaria td mais fácil, e não precisa de uma legislação específica, apenas um sindicato que possa fazer uma convenção coletiva, pois a legislação não especifíca se é aux de produção da fábrica ou se é o Supervisor de Manutenção que vai trabalhar as 44h semanais. O sindicato, creio que já exista, faz a convenção no moldes deles, e ele sobrepõe a CLT.

E com essa profissionalização, e com as regras sendo RÍGIDAS, sem INTERPRETAÇÕES, aí sim poderemos cobrar mais dos arbitros.

Abraço Nori.