quinta-feira, maio 31, 2012


Um bom teste.

E That´s all!



As teses, sempre elas, começam a pipocar nas inefáveis redes sociais e em textos de opinião por aí.

Até há 15 dias a gritaria era de que a seleção brasileira não tinha time, nem esquema definidos. Após duas vitórias historicamente previsíveis já se fala em esquema revolucionário, em achou o time e outras bravatas típicas do vaivém frenético que é a cabeça de torcedor.

Os 4 a 1 sobre o time do Tio Sam foram um bom teste. E that´s all, cantaria meu aposentado ídolo Phil Collins, acompanhado por Banks e Rutherford.

Deixo de lado as discussões sobre interpretação de arbitragem quanto ao pênalti e a dois gols em posição duvidosa.

Parto para o que realmente interessa.

O time brasileiro foi impetuoso, que é o que se espera de uma equipe jovem e com muitos jogadores talentosos. Esse ímpeto faz com que a equipe consiga apertar a marcação na saída de bola do adversário, a recupere no campo de ataque e fique mais perto do gol.

Para quem perdeu, uma boa sugestão seria ir ao Google e ouvir a entrevista do Guardiola após os 4 a 0 sobre o Santos em Yokohama. Ele fala sobre as facilidades de se marcar mais perto do gol adversário e de quanto tempo e espaço se ganha com isso.

Um fator importante a ser destacado: Oscar e Hulk têm grande mobilidade em campo, o que facilita muito para um jogador como Neymar, sempre muito visado pela marcação. No caso de Oscar, ele tem a mobilidade que hoje falta a Ganso. Ambos talentosos, com algumas diferenças de estilo. Oscar entra mais na área, vai com a bola. Ganso prefere despachá-la, não chega tanto na área. Ousaria dizer que seria um teste também ousado ver os dois escalados juntos no meio-campo.

Marcelo e Neymar infernizaram pelo lado esquerdo, foram complementares, se procuraram.

Hulk rende bem pelo lado direito, mas se anula quando é deslocado para o lado esquerdo do campo.

Observações sempre apresentam algo de positivo e do que precisa ser corrigido.

A impetuosa atuação brasileira, por paradoxal que pareça, terminou por ajudar o time americano no segundo tempo. O jogo ficou elétrico, veloz, intenso. Os gringos botaram correria, e a garotada brasileira aceitou. Não era preciso. Era hora de tocar a bola, esperar o espaço que apareceria.

Claro que isso pode vir com entrosamento, treinos e uma pitada de experiência.

Outros fatores a serem trabalhados são a cobertura dos laterais e a proteção da defesa. Os americanos atacaram muito nas costas de Danilo e Marcelo. Sandro e Rômulo tiveram trabalho com as aproximações de Donovan e, no segundo tempo, de Dempsey. Resultado da correria desenfreada em que a partida se transformou. Mano é esperto, certamente verificou isso.

Com Hulk, Neymar, Damião, Oscar, talvez não seja assim tão necessário que os laterais ataquem todo o tempo e o tempo todo. Pelo menos até que o entrosamento aponte quem fará as coberturas e em que ritmo. O que só virá com treinos.

Assim como o posicionamento da defesa nas jogadas de bola parada e escanteio. O goleiro Rafael, que teve uma atuação muito boa, joga com Dracena e Durval, cada um com seu tempo de bola, seu posicionamento. Com Thiago Silva e Juan ele só terá entrosamento depois de um bom período de conversa e de trabalho.

Outro bom teste deve ser o México. É um estilo de jogo que irrita o jogador brasileiro, porque tem muita posse de bola, muita troca de passe. Quando não fica a maior parte do tempo com a pelota o atleta brasileiro tende a ficar nervoso, a sair das determinações táticas.

Assim como o Brasil não estava totalmente perdido antes de ganhar de Dinamarca e EUA, também não achou o time ideal da Olimpíada nesses dois amistosos. Esporte não tem passe de mágica.

Caso Oscar


Não tem santo no futebol mundial, muito menos no Brasileiro. Entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos nesse triângulo envolvendo Oscar, Inter e São Paulo. Mas ficaram cicatrizes.

Os dirigentes brasileiros adoram se sentir mais espertos que os outros, e criticam atitudes que eles mesmos tomam quando são adotadas por adversários.

Felizmente, para o atleta, tudo se resolveu no sentido de que ele pudesse trabalhar. Quem tem direito a receber dinheiro e ser ressarcido, receberá. As instituições, que estão acima das pessoas, se entenderam.

Não há vitoriosos, nem vencidos quando se avalia o que ficou para Inter e São Paulo. O time gaúcho certamente gastou mais do que teria gastado sem toda a encrenca. O São Paulo certamente ganhou menos do que o Inter pode ganhar numa transação futura.

As relações entre atletas e clubes no Brasil continuam estranhas, nebulosas, em virtude da ação ainda sem regras e quase sempre sem ética de todos eles e, para piorar, de agentes e empresários. Derrotado mesmo nesse imbróglio todo parece ter saído o agente de Oscar. Que blefou, jogou uma cartada altíssima e perdeu.

segunda-feira, maio 28, 2012


Façam as suas teses



Futebol aceita qualquer tese, disse-me certa vez, com sua habitual sabedoria, o amigo Walter Casagrande Jr.

E brasileiro, quando se trata de futebol, adora uma tese. Se for conspiratória, melhor. Se for definitiva, melhor ainda.

Tem torcedor que adora vaticinar, na segunda rodada, que o time dele este ano será campeão e que o maior rival será rebaixado. Aí enumera uma série de fatores para defender a sua...tese, é claro.

Alguns colegas meus também gostam desse tipo de coisa. Mas acho que aí levam mais na brincadeira, na base do palpite, não da análise com argumentos.

Entre as teses que infestam as redes sociais feito praga está uma que é a favorita de alguns, a do bairrismo. Essa atinge diretamente a nós, jornalistas que escolhemos trabalhar na cobertura esportiva. As acusações são as mais variadas, mas basicamente residem no fato de que eles acham que falamos pouco e damos menos valor ainda ao time deles, só porque vivemos num estado diferente do deles.

Aí eu me pergunto, e eles se interessam pelos times dos outros estados, a não ser quando enfrentam o dele?

Então façam-me o favor! Menos com esse papinho ultrapassado, povoado de expressões ultrapassadas tipo times do eixo etc.

No primeiro semestre isso é um pouco mais forte, porque alguns não se dão ao trabalho de fazer algo que, reconheço, exige certo esforço de algumas pessoas: pensar.

Um exemplo. Minha base operacional é São Paulo. No primeiro semestre, o canal para o qual trabalho, o SporTV, transmite o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil. Aí o sujeito diz que eu só falo de time de São Paulo. Uai, na maior parte do tempo no primeiro semestre eu só trabalho em jogos dos times de São Paulo.

Certa vez, em Porto Alegre, um dos lugares que mais gosto de visitar no Brasil e onde sou muitíssimo bem tratado, um torcedor educadíssimo me abordou em Praia de Belas. Disse que acompanhava o canal, respeitava todos, mas achava que nós éramos muito paulistas e cariocas, inclusive nos termos que usávamos.

Respeitosamente, argumentei assim:

- Meu amigo, aqui no Sul vocês falam goleira e casamata e eu nunca chamei de bairrismo. Aliás, sempre que aparecem esses termos quando trabalho, eu destaco a variação dos termos regionais no Brasil e reforço nossa riqueza cultural.

O meu interlocutor dos pampas ficou sem resposta. Resolvemos a questão tomando um café e lembrando de times históricos do Inter e do Grêmio para espantar o frio.

Raros são os casos de torcedores com cabeça mais aberta que reconhecem o valor de uma transmissão que fizemos nesta temporada, Bahia e Remo, para todo o Brasil, com o padrão de imagens e qualidade do SporTV. Felizmente, muitos torcedores dessas duas agremiações históricas reconheceram isso.

Mas não é esse o motivo do post. É tentar entender de onde sai tanta tese.

Até hoje tem gente que acredita que o Brasil vendeu a Copa de 98, por exemplo.

Outros adoram disparar teorias de que o time x fez corpo mole para derrubar o técnico porque perdeu na primeira rodada do Brasileiro. Ou, então, descobrem planos mirabolantes para reduzir o espaço de exposição de certa equipe na mídia por causa de motivos escusos. Meu Deus!!!!! Só para citar o amigo Milton Leite.

Acho espetacular a maneira como a maioria dos torcedores vê e sente o futebol no Brasil. Mas confesso que me assusta um certo aumento do fanatismo e da intolerância com o torcedor rival, com treinador, diretoria, jogadores e mídia.

Há uma revolta constante, por exemplo, contra o fato de jogadores de futebol ganharem bem. Mas essa revolta não se reproduz contra políticos que roubam, por exemplo. E sou capaz de apostar que a maioria dos torcedores que reclama dos salários dos jogadores não contribui em nada com o clube a não ser com a compra de ingressos em dias de jogos. Isso sem falar naqueles que entram de graça graças à conivência política de certas diretorias. Devem, inclusive, comprar camisa pirata.

Cada vez mais me convenço que brasileiro gosta pouco de futebol. Também acho que não gosta muito do time dele. Só gosta quando o time ganha.

Sei lá, é apenas mais uma tese.

sexta-feira, maio 25, 2012



Copa do Brasil com

 

final em um jogo?



Tem pairado por aí essa discussão. Transformar a decisão da Copa do Brasil em partida única, em local estádio previamente determinados antes do início da competição. Prática comum em eventos como o Super Bowl, a Champions League e a Superliga.

Vejo prós e contras nessa ideia. Mas vale ser estudada.

O lado positivo é o da promoção, do marketing, da organização do evento. Da centralização de audiência para a TV, da divulgação das marcas dos patrocinadores do clube na semana anterior ao evento. Tudo que vemos acontecer desde sempre no Super Bowl e na Champions. Funciona bem por lá. Será que funcionaria bem por aqui?

Existem enormes diferenças culturais e de infraestutura em relação a Brasil e Estados Unidos/Europa. A facilidade de acesso na América do Norte e no continente europeu é inversamente proporcional à dificuldade encontrada no Brasil. Europeus e norte-americanos têm um conceito de evento esportivo um pouco diferente do nosso. Existe o público torcedor das equipes finalistas, os fanáticos, mas existe também um público que acompanha o espetáculo, independentemente de quem esteja jogando.

Pensando em nossa condição de País emergente e que está gastando os tubos para construir alguns estádios que pouca ocupação terão após a Copa de 2014, pode ser uma ideia interessante a final única. Utilizar estádios em cidades como Manaus e Cuiabá inicialmente para as finais das Copas do Brasil. Seria interessante para recuperar algo do que está sendo investido e trazer recursos para as cidades.

Agora, pensemos no deslocamento de torcedores para essas localidades. O custo para sair de Porto Alegre, por exemplo, e assistir uma final com Grêmio ou Inter na Amazônia. Ou mesmo um torcedor do Recife que vá acompanhar um dos integrantes do trio de ferro pernambucano em Cuiabá.

Não é tão simples como nos EUA, onde há voo para toda parte e a toda hora, ou na Europa, onde o sistema ferroviário dá conta do recado com sobras e as distâncias, tirando a Rússia, não chegam a ser assustadoras.

Há, ainda, a questão do torcedor local. Que pagou ingresso para incentivar seu time em todas as fases da Copa do Brasil e perderia o direito de ver justamente a final em sua casa. Além do velho conceito de justiça esportiva, do jogo de 180 minutos, do equilíbrio de forças etc.

Admito que essa ideia me parece digna, pelo menos, de estudo ou debate. Pode gerar um costume, uma prática capaz de criar um novo conceito de torneios e criar novas receitas.

Como a Copa do Brasil será alongada a partir de 2013, com jogos de março a novembro, o torneio também terá mais exposição comercial.

Enfim, é preciso pensar, discutir, avaliar possibilidade. Faz parte do negócio.

E vocês, o que acham?

quarta-feira, maio 16, 2012



Brasileiro, o Nacional mais

equilibrado do mundo, certo?


Esta é a tese que defendo hoje aqui no blog. Começa sábado o campeonato nacional de clubes mais equilibrado do futebol mundial. O nosso Brasileirão. Não vejo em qualquer outra grande nação do futebol uma competição que tenha dez, às vezes doze candidatos ao título.

Pode-se argumentar que, tecnicamente, o Brasileirão deixa a desejar. Afinal, o futebol brasileiro hoje está mal tecnicamente, não é mais o melhor do mundo. Então seu principal torneio não pode refletir outra coisa que não seja esse momento técnico.

O que não significa falta de equilíbrio.

Existem muitos fatores que me fazem colocar o Brasileiro como o mais difícil torneio nacional de clubes. Trata-se de uma competição longa, disputada com variações de temperatura e distâncias às quais outras equipes de ligas importantes não estão submetidas. Um time joga quarta em Porto Alegre e quinta em Recife. Sai de 7 graus para 32. Viagens, aeroportos, deslocamentos, rivalidades regionais. Nesse ponto nossa privilegiada geografia e nossa desastrosa infra-estrutura ajudam a equilibrar as coisas.

Muitas vezes, em torneios europeus, as equipes viajam de trem e resolvem tudo em 45 minutos, sem aeroportos e filas intermináveis, atrasos e cancelamentos.

Mas a questão principal é que o Brasil, felizmente, tem uma quantidade inigualável de grandes times, de equipes tradicionais, de camisa, peso. Tratando-se apenas da Série A de 2012, para ficar nos mais fortes economicamente, temos os quatro paulistas, os quatro cariocas, os dois gaúchos e os dois mineiros. Só aí são 12 candidatos. Some-se a esses o Coritiba, o Bahia, Náutico, Sport, e forças emergentes como o Figueirense, e  tem-se um mosaico inigualável.

Há o grupo dos times de penetração nacional, as grandes forças populares regionais e equipes com perfis distintos como Ponte, Portuguesa e Atlético Goianiense.

Os números comprovam esse equilíbrio se analisarmos o Brasileiro em comparação com outras grandes ligas nacionais, usando como parâmetro as últimas dez edições de cada campeonato.

No Brasil, seis times foram campeões nas últimas dez edições. Na Alemanha, cinco. Na Inglaterra foram quatro. Na Itália, três. Na Espanha, três. Para citar um país vizinho, temos o caso da Argentina, que é um pouco distinto, por apontar dois campeões por temporada. Nas últimos dez torneios foram oito campeões diferentes.

Claro que a pergunta repetitiva feita pela maioria dos torcedores para quem trabalha comentando futebol é a de sempre: quais são os favoritos, quem você acha que vai ganhar, quem vai cair? Como se alguém tivesse bola de cristal. Na maioria das vezes quem faz essa pergunta quer usar uma eventual resposta para falar mal, acusar de bairrista etc.

Favoritismo é um conceito vago. Depende de muitos fatores. Há equipes que teoricamente são mais fortes que outras no papel. Como, por exemplo, os quatro brasileiros que seguem vivos na Libertadores. Obviamente que são candidatos ao título nacional quando se faz uma radiografia do momento, antes de o Brasileiro começar. Porque foram bem na temporada passada, mantiveram base e continuam com boa performance.

Mas ninguém sabe como será o início de Brasileiro deles. Quem seguir na Libertadores deixará o Nacional de lado por um tempo, o que impacta no rendimento. Quem for eliminado precocemente pode passar por mudanças de elenco ou direção.

O mesmo vale para as equipes que seguem na Copa do Brasil. Com disputas simultâneas, é difícil ter todos os 20 times com capacidade máxima no Brasileiro. Em 2011 o Corinthians tirou proveito disso e disparou no início, o que foi determinante para a conquista. O Santos deixou pontos preciosos pelo caminho quando priorizou a Libertadores e depois não conseguiu recuperar.

Assim foi com Vasco e Coritiba quando decidiram a Copa do Brasil.

Time por time, dentro de um cenário de equilíbrio, há um que se destaca: o Santos. Porque tem o melhor jogador, Neymar, o segundo melhor jogador, Ganso, e o melhor treinador, Muricy. Mas caso siga adiante na Libertadores não terá força máxima no Brasileiro por um bom tempo. Assim como não terá Neymar e Ganso durante a Olimpíada. O que significa perda do diferencial.

O Corinthians é um time equilibrado, sem um grande craque, mas o que acontecerá em caso de sequência na Libertadores? Time alternativo no Brasileiro. Em caso de eliminação ante o Vasco? Haverá saídas de jogadores, chegadas de outros etc. Para Vasco e Corinthians. Isso vale para todos os times. Cito apenas os três que foram campeões dos principais torneios da temporada passada como exemplos.

Não faço parte do time de analistas que gostam de chegar no final do ano se gabando de que acertaram os chutes no começo. Porque afirmar em maio que alguém será campeão em dezembro não passa disso: chute, aposta.

O que imagino do torneio deste ano é um grau de dificuldade ainda maior do que o de 2011. Haverá dois times de Recife, com torcidas fanáticas e pressão enorme nos estádios. O que implica em mais viagens e deslocamentos para os times do Sul e do Sudeste, além dos enormes deslocamentos a que já são submetidos os pernambucanos e o Bahia.

Cruzeiro e Atlético jogarão novamente em Belo Horizonte, o que dá outro peso a essas equipes, inclusive financeiramente.

Isso sem falar na mazelas do nosso futebol. De alguns gramados impraticáveis e ainda assim aprovados. Do amadorismo dos dirigentes, da dança dos treinadores, das crises, dos erros de arbitragem, da janela que serve de saída e de entrada.

Enfim, será um grande Brasileiro.

No campo pessoal, marcará minha décima temporada como comentarista do SporTV. Minha estreia foi em 11 de agosto de 2002, em Araras, num empate sem gols entre União São João de Araras e Caxias. Narração de Eduardo Moreno.

Espero, assim como toda a equipe do SporTV, contar com a honra da audiência de todos para mais uma edição desse torneio maravilhoso.

segunda-feira, maio 14, 2012

sexta-feira, maio 11, 2012


Menos técnicos e

 

mais jogadores



De uns tempos para cá a mídia esportiva passou a dar um espaço desproporcional aos técnicos de futebol. É um tal de coletiva para cá, para lá. Após os jogos, eles sempre têm cadeira cativa nas salas de entrevistas.

Como se fosse absolutamente indispensável ouvir o que um técnico de futebol tem a dizer depois de cada jogo.

Olha que quem está escrevendo isso é autor de um livro chamado "Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro".

Não quero diminuir a importância dos técnicos, mas apenas equalizar. Os jogadores são as estrelas.

Muitas vezes um jogador é o nome do jogo e simplesmente não dá entrevista.

Trabalhei em um jogo da Portuguesa recentemente, não me lembro qual, e um garoto da base entrou e fez o gol da vitória. O repórter do SporTV foi entrevistá-lo e o Jorginho, hoje ex-treinador da Lusa,  entrou no meio e disse que não, que ele não daria entrevista.

Pô, qual é? O cara faz o gol da vitória e não pode dar entrevista, realizar o sonho de garoto?

Mas o treineiro tá lá todo dia, estampando a marca do seu patrocinador.

Quando comecei nessa história de jornalismo esportivo as coisas eram bem diferentes. Não sei se melhores, mas diferentes.

A gente podia conversar com os jogadores e atletas livremente, sem escalas de horários impostas pelos assessores de imprensa. Que se registre aqui que alguns desses colegas trabalham muito bem e só tentam ajudar.

Acabava o treino, a gente chegava no jogador, trocava uma ideia, fazia uma matéria mais legal, humana. Passávamos dias sem falar com o treinador.

Hoje para conversar com um atleta parcece fila de repartição pública.Tem que ver se dá, se tem hora, se é a semana da escala.

Mas entra jogo, sai jogo e a sagrada coletiva do técnico esta lá. Muitas vezes eles citam o Renato Russo e falam demais por não ter nada a dizer. O que é ruim para eles próprios.

Talvez esse seja um dos fatores da valorização dos técnicos. Dessa Mourinhozação, se é que vocês me permitem.

Até porque hoje não temos grandes personagens nos bancos, como um Brandão, um Ênio Andrade, um Yustrich, um Saldanha. Gente que valia realmente a pena ouvir, que rendia coisa boa.

Então talvez nós mesmos, que estamos na mídia esportiva, pudéssemos pensar em abrir mais os microfones para os jogadores do que para os treinadores.

Tô certo, ou tô errado, perguntaria Sinhozinho Malta?

quarta-feira, maio 09, 2012



Guia para (não) cornetar

 

arbitragem no Brasileiro



Arbitragem é um prato cheio de polêmica. Cada um interpreta de um jeito cada jogada. No Brasil isso ganha proporções inimagináveis, já que somos um povo que adora uma teoria da conspiração.

Mais do que a regra, que é bem clara, como diz o Arnaldo, o que é muito importante e pouco lembrado em relação ao jogo de futebol é a maneira como ela é interpretada. Ou, como está escrito no livro de regras oficiais, as diretrizes e orientações dadas aos árbitros.

Além disso, existem as orientações passadas pelas entidades que organizam os torneios. O que são elas? Orientações de como interpretar cada tipo de jogada. A Fifa usa vídeos de lances de seus torneios e os mostra aos árbitros, dizendo qual interpretação deve ser dada para cada tipo de lance, de acordo com sua orientação.

Quem participou do excelente curso de arbitragem para jornalistas dado pelo Sálvio Spínola na Aceesp, teve acesso a esses vídeos e pôde entender porque muitas vezes não se marca uma falta ou não se mostra um cartão quando até o próprio árbitro pensa diferente. São orientações. No caso da Fifa, fica claro que a entidade quer evitar ao máximo expulsões para preservar seu negócio: os jogos da Copa.

A CBF divulgou recentemente uma circular orientando árbitros sobre interpretações e diretrizes relativas à regra do jogo, visando o Brasileirão.

Separei alguns trechos para esse pequeno guia. Talvez nos ajude a entender alguns critérios que a arbitragem adotará. O que está na circular aparecerá em itálico. Meus comentários em letra normal.

Cartão amarelo - O cartão amarelo corresponde a um ultimato. Logo, ele não pode ser aplicado em lances normais, pela equivocada filosofia de "
segurar o jogo". Não há distinção entre faltas cometidas no primeiro ou no segundo tempo. A boa arbitragem tem o mesmo critério do começo ao fim da partida. As advertências verbais, sobretudo com o jogo paralisado, para que todos percebam, têm efeito muito positivo.

Ou seja, cartão amarelo não será dado para qualquer faltinha, como gostam de dizer alguns colegas.

Cartão vermelho -  É medida extrema que exige conduta proporcional. Nas situações de confronto em que um jogador empurra o outro sem brutalidade e é golpeado com força excessiva, somente o que golpeou merece ser expulso.
É importante salientar, de outro lado, que há situações que possibilitam ao árbitro, antes de punir o jogador, se certificar das consequências da falta, ou seja, se o jogador atingido sofreu lesão grave.

Aqui, claramente, há preocupação com a simulação.

Faltas -  Falta é sempre falta e sempre deve ser marcada, tanto sem preocupação com a quantidade ocorrida em uma partida, como sem prejuízo da vantagem e da ação disciplinar comportável na primeira paralisação. Dar dinâmica ao jogo não é deixar de marcar falta, tampouco conceder vantagem sem que a equipe que a sofreu tenha efetiva posse ou domínio da bola, ou seja, clara possibilidade de fazer a jogada pretendida. A CA/CBF também relembra que queda não é sinônimo de falta e que o futebol é esporte de contato. As ações que justificam marcação de falta devem ser, salvo o ato de segurar, no mínimo, imprudentes. O contato físico – carga – pela busca de espaço ou de posse da bola, sem uso dos braços para empurrar ou segurar o adversário, faz parte do jogo e, portanto, não é faltoso. Não pode ser esquecido de que o jogador que detém a posse da bola não pode procurar contato físico, salvo para "cobrir" a bola, fazendo obstrução legal, jamais para impedir que o adversário a dispute. Conhecer os movimentos próprios do futebol é ferramenta indispensável para interpretar bem esses lances.


É bom ler isso antes de falar que certo tipo de falta só se marca aqui etc. O Brasil não é a Inglaterra.


Simulação - Prudência na análise, sobretudo se houver contato corporal. A ADVERTÊNCIA COM CARTÃO AMARELO exige acinte e clareza da simulação. Sendo o caso, o cartão deve ser aplicado, necessariamente. Não o sendo, as ADVERTÊNCIAS VERBAIS, desde que o jogo não seja paralisado por esse motivo, também produzem efeito e são próprias do poder do árbitro. As simulações fora da área de pênalti e as de defensores, embora mais raras, também devem ser sancionadas. O conhecimento do comportamento de alguns jogadores serve para elevar o nível de atenção do árbitro e maior proximidade do lance, jamais para estabelecer preconceito.
Por tudo isso, a CA/CBF alerta que ficará bem vigilante para a hipótese de o árbitro, por não ter convicção sobre se houve ou não falta, aplicar cartão amarelo para esconder sua dúvida, pois isso é inconcebível, desleal, injusto e fere a filosófica da CA/CBF, que exige justiça, responsabilidade e imparcialidade.

Aqui cabe lembrar que jogador de futebol cai mesmo, é natural do jogo.

Mão boba - A marcação de falta em toque involuntário é tão errada como a não marcação quando há intenção. Os árbitros devem analisar todos os elementos para definir tais lances (posição do braço ou da mão: natural ou antinatural; distancia entre o local do chute e o jogador que mantém contato com a bola; velocidade da bola; e, principalmente, se o jogador, se podia, tentou evitar o toque). Feita a análise, os árbitros devem decidir com coragem, pois marcar mão só porque houve o toque é postura que fere o espírito da regra.

Essa sempre vai dar polêmica, porque analisar intenção é subjetivo demais.

Já que virou moda -  Os árbitros deverão estar atentos ao trabalho dos gandulas. Estes devem adotar o mesmo comportamento para as duas equipes. Lamentavelmente observa-se que alguns colocam a bola rapidamente para o jogador da equipe local repor a bola rapidamente em jogo, porém não adotam o mesmo procedimento para com a equipe adversária. Exigir equanimidade nas condutas.



www.aceesp.org.br

terça-feira, maio 08, 2012

Que delícia de molecagem!


Reproduzo a coluna publicada hoje nos jornais da Rede Bom Dia.

Juventus apronta mais uma travessura e nos faz lembrar da paixão genuína por um time de futebol, seu bairro, sua gente


A vitória do Santos era tão previsível quanto a próxima estação do ano. Por isso, Neymar e os santistas que me perdoem, mas o que realmente marcou o domingo de futebol foi o acesso do Juventus à Série A-2 do Paulistão.

Foi bem ao estilo juventino, fazendo travessuras com o coração de seu torcedor. O time perdeu do Grêmio Osasco (que também subiu), mas foi beneficiado pela derrota do Guaçuano para o Marília. Senha para a festa na República Popular da Mooca.

Mas por que falar do Juventus? Sou caipira, não nasci e nunca vivi na Mooca. Mas o Moleque Travesso é um digno representante da resistência nessa era de “futebol é negócio”, empresários sem escrúpulos e marqueteiros de gosto duvidoso. O Juventus é uma viagem a um tempo em que as coisas eram diferentes. Ajuda a contar um pouco da própria história do desenvolvimento do futebol no Brasil e no mundo. É o time do bairro, um modelo seriamente ameaçado de extinção por aqui.

O Juventus não tem títulos importantes nem torcida gigante ou grandes craques, mas, ainda assim, cativa um pequeno e fiel grupo de seguidores, que seguem uma liturgia e, de certo modo, ajudam a criar uma mitologia em torno do time. Fundado por imigrantes italianos e instalado numa região inicialmente habitada por eles, o Juventus é embaixador dos costumes daquele que talvez seja o mais paulistano dos bairros. Então, quando entra em campo, mais do que a algodoaria da família Crespi, o Juventus perpetua a história dos operários que ajudaram a levantar o bairro e dos costumes que hoje se confundem com o estereótipo do paulistano. Desde o sotaque até a sagrada pizza de domingo.

O time de bairro é uma instituição ainda poderosa em países como a Inglaterra e a Argentina. Foi seguindo os trilhos de trem que ele surgiram, se instalaram e foram ficando. Um passeio de trem pela Grande Buenos Aires parece a tabela do campeonato argentino sendo feita a cada estação. No Rio, também foi assim. São Paulo cresceu de outro modo, embora também com influência das estradas de ferro, com times como o Nacional.

Mas o Juventus capturou a essência do bairro. Do sotaque moquense, do jeito simpático e acolhedor de seus habitantes, dos chinelos e das bermudas, dos mercadinhos e vendinhas que sobrevivem ao avanço insensível da especulação imobiliária.

Por isso, eu me plantei em frente à TV na manhã de domingo e torci pelo acesso do Juventus. Para nos lembrarmos de que o futebol só é o futebol porque ainda existem clubes como o Juventus e pessoas como as que torcem pelo Juventus. Durante muitos anos, eu joguei futsal na quadra da Rua Javari e, uma vez, só não fui bater uma bolinha naquele gramado sagrado porque tive um acidente de automóvel no caminho.

É um espaço mágico. Deveria ser declarado patrimônio cultural, com suas arquibancadas acanhadas, os vendedores de cannoli, a torcida Ju-Jovem. Posso estar enganado, mas acho que nenhum outro time faz tanto eco em sua gente como o Juventus. Não importa quantos sejam. Talvez tenha sido por isso, até como homenagem, que o Rei Pelé tenha resolvido fazer seu gol mais espetacular na Javari. Molecagem real.

Teoria da conspiração

Circula entre alguns cardeais são-paulinos a seguinte teoria: a ideia de tirar Paulo Miranda da concentração antes do jogo contra a Ponte Preta seria uma tentativa de provocar um pedido de demissão do técnico Leão. Não colou e acabou respingando nos jogadores, que não gostaram nada do que fez a diretoria.

Sábio Muricy

A idade e as conquistas só melhoram Muricy Ramalho como treinador. Ele ainda é da escola antiga e sabe que, entre outras coisas, o bom técnico é aquele que atrapalha pouco e consegue tirar o máximo dos grandes jogadores. Por isso, Neymar joga livre para criar e o técnico quer Ganso perto da área e do gol.

Hora do apetite

O Corinthians segue sendo um time organizado, equilibrado e forte. Mas agora, quando o bicho pega na Libertadores, é hora de mostrar mais fome. Até para colocar a Fiel no jogo, o time precisa chutar mais a gol, criar mais, apertar e encurralar o adversário. Vale até deixar um pouco de lado a organização em busca da inspiração.

Nó tático

Considero o Brasileirão o torneio nacional mais equilibrado e difícil do futebol mundial. Não existe campeonato entre clubes de um mesmo país que tenha tantos candidatos ao título, possibilidades de surpresa e elementos complicadores como distâncias, variação de clima e temperatura e rivalidades locais e regionais.

Para complicar ainda mais a vida dos 20 times que disputam a Série A do Brasileiro, por aqui a temporada tem uma particularidade. Ela se divide em duas, na verdade. Porque o efeito do fracasso de algumas equipes nos estaduais é tão grande que provoca reformulações com o avião em pleno voo. Fora isso, não há tempo para pensar, se esquecer da derrota. Em uma semana, é preciso virar a chave dos estaduais e reprogramar tudo para o Brasileirão. Quem sobrevive na Copa do Brasil, geralmente, entra com o time reserva no começo do nacional.

Dois gigantes paulistas vivem esse dilema. Eliminados precocemente no estadual, Palmeiras e São Paulo ainda sonham na Copa do Brasil. O Verdão já deu início a uma grande reformulação no elenco. Que pode respingar no vizinho de CT caso o time seja eliminado pela Ponte Preta. Mas, no caso do Tricolor, a reforma deve começar pelo técnico em caso de fracasso.

terça-feira, maio 01, 2012



Máquina do Tempo



Link para a coluna publicada nesta terça, 1 de maio, no Diário de S.Paulo.

http://www.diariosp.com.br/blog/detalhe/7240/Neymar+e+uma+maquina+do+tempo