sexta-feira, julho 25, 2014

A mulher de César e a seleção brasileira


Durante muito tempo eu escrevi Seleção Brasileira assim, em caixa alta. Coisa de manuais de redação, um terreno que seduz muita gente mais preocupada com a forma do que com o conteúdo. Mas esse é tema para outro texto.

Atualmente escrevo seleção brasileira em caixa baixa, principalmente quando me refiro à de futebol,  a masculina. Ela não merece mais do que isso.

Não sei se algum manual de redação por aí conocordaria se eu passasse a escrever também cbf em caixa baixa. Acho que não, porque vem aquela velha história das siglas, sendo em três letras sempre em caixa alta, mais que três em caixa alta e baixa etc. Pura perfumaria. Sempre achei que manuais de redação foram tentativas de algumas pessoas de vencer discussões de boteco quando receberam poder para tal. Não que sejam inúteis, mas...deixa para lá.

São dias difíceis para alguém, como eu, que cresceu identificando algo de mágico, místico e intocável na camisa amarela da seleção brasileira (e na azul também, claro).

Entregue ao destino comercial que os dirigentes escolheram para ela, tem perdido essa aura ano após ano.

É um pouco aquela velha máxima imperial romana de que à mulher de César não basta ser honesta, ela precisa parecer honesta.

Em mais uma grande reportagem, o colega Lúcio de Castro, um dos nossos últimos repórteres investigativos na área esportiva, prova com documentos que Dunga, o novo velho treinador da seleção brasileira, participou de negociações de jogadores, recebendo percentuais nessas negociações. Nada criminoso ou ilegal, registre-se.

Mas e a moral e os bons costumes? Casa com o discurso pseudo patriótico-nacionalista do treinador? Em especial quando seu novo chefe é um empresário de jogadores com 14 anos de carreira? Ainda mais quando Dunga se veste de intocável apenas por ter sido campeão mundial em 1994. Sem esquecer que antes dele três seleções já tinham sido campeãs mundiais pelo Brasil.

Será que alguém ainda se surpreende com isso?

Gilmar e Dunga não são protagonistas dessa tragicomédia. A chave do circo está nas mãos de quem os contratou, a dupla Marin/Del Nero ou Del/Nero/Marin, não importa a ordem. São eles que mandam no futebol brasileiro e entenderam que para reformular a seleção brasileria a melhor ideia seria contratar um empresário de jogadores e um treinador bissexto que também enveredou por esse mercado.

Aí retorna Mauro Silva, um bom cara, bom papo, mas que ano passado desancava a CBF (ops, cbf) e agora vai trabalhar para ela. Depois de ter fugido da Copa América da Colômbia com medo de terrorismo, mesmo tendo vivido na Espanha anos e anos quando  ETA (ou eta) marcava território a bomba.

Isso posto, bom final de semana a todos, porque os fatos falam, gritam.

terça-feira, julho 22, 2014

Um museu de grandes novidades


Batuco essas linhas cerca de uma hora antes de Dunga, pelo que afirma o noticiário, ser reconduzido oficialmente ao cargo de treinador da seleção brasileira de futebol.

Algo como embarcar no De Lorean de Doc Brown e voltar no tempo até 2007. Um ano depois da desastrosa participação brasileira na Copa da Alemanha, quando o quarteto mágico se desfez em meio à adiposidade de alguns de seus integrantes.

A CBF, então presidida por Ricardo Teixeira, entendeu que para consertar o erro dela mesma, que autorizara um clima de convescote na preparação, o correto seria chamar um bedel e colocar a casa em ordem. Dunga, soldado fiel dos princípios da CBF, atendeu ao chamado prontamente.

Como parece ter atendido novamente. Tenho a impressão de que Dunga foi procurado antes de Gilmar Rinaldi. Para fazer parte do museu de grandes novidades, com a licença da citação de Cazuza, comandado agora por José Maria Marin, ele próprio uma peça de museu, de um tempo abominável.

Sobre Dunga pouco tenho a dizer. Tive raríssimos contatos com ele, quando eu era repórter e ele jogador. Também foram raras as ocasiões em que participei de entrevistas com ele quando assumiu a seleção no cargo de treinador.

Não nutro por ele simpatia pessoal, o que pouco interfere em meu trabalho, já que não avalio pessoas, avalio o trabalho das pessoas como dirigentes, treinadores, jogadores.
Tenho raríssimos amigos entre jogadores, dirigentes e treinadores. Não somam os dedos de uma mão.

Vejo o esporte de um modo que vai além da frieza dos números e das estatísticas. Discordo de quem acha que Dunga fez um bom trabalho à frente da seleção. Foi razoável. Um bom trabalho sobrevive ao resultado. Dunga é um escravo do resultado. Assim como se ufana com as vitórias, se enterra com as derrotas. Sua visão não vai além do ganhou presta, perdeu não presta. Ele se impõe essa realidade com seu comportamento e avaliação.

A pergunta que me fiz assim que o Brasil perdeu para a Holanda em Porto Elizabeth, em 2010, foi a seguinte: fica alguma coisa do que ele fez? O sucessor aproveitará algo?

A sequência dos fatos me faz crer que pouco ou nada se aproveitou.

Veio Mano Menezes, a quem faltou coragem de tocar uma renovação mais firme na Copa América de 2011. Apelou a desinteressados remanescentes de 2010, preocupado com o resultado e não com um rumo.

A Copa América é muito importante, mas vencê-la não quer dizer nada em termos de Copa do Mundo. Assim como a Copa das Confederações. Vencer essas competições não pode cegar quem as vence. É preciso sabedoria para, mesmo ganhando, reconhecer defeitos e não amplificar virtudes.

O grande equívoco de Dunga, penso eu, foi ter acreditado que por vencer ele estava completamente certo. Faltou a ele, que vende uma imagem de liderança, uma qualidade essencial aos grandes líderes: observação.

Dunga tem razão ao não gostar da mídia, ou de parte dela, que usou seu apelido para carimbar um fracasso da seleção brasileira, o de 1990.

Digo parte dela porque Dunga pensa no micro para atirar no macro. Para atingir pessoas com as quais tem diferenças, cria animosidade com empresas ou setores de certas cidades da mídia.

Muita bobagem se escreveu e se divulgou sobre seus problemas com a mídia.

A desinformação é responsável por muito prejuízo no julgamento.

Vão ler e dizer que escrevo isso porque trabalho para uma empresa com a qual ele tem problema.

Será?

Na Copa América de 2007 Dunga era sorrisos e gentileza e jantava regularmente com profissionais dessa empresa que conhecia dos tempos de atleta. Até a primeira derrota. Então foi preciso encontrar inimigos para utilizar do raso recurso motivacional de nove entre dez profissionais do futebol no Brasil: vamos calar a boca deles, estão contra nós.

Fala-se muito em treinamento, que teria faltado em 2014. Dunga treinava muito em campo reduzido, o chamado treino alemão, mas utilizava a maior parte do tempo para treinamentos de bola parada. Cruzamentos, escanteios, cobranças de falta. Nada fora da cartilha.

Na África do Sul, apesar da vasta experiência em Mundiais, Dunga infringiu regras muito claras da Fifa no que se refere a empresas que compram direitos de transmissão. E tentou forjar uma imagem de independente quando na verdade sabia que estava agindo contra as regras que a sua confederação ajudara a fazer, tendo um vice-presidente da Fifa no comando.

Mas vamos à bola, que é o que interessa. Se não foi espetacular, Dunga tampouco foi um fracasso. Foi de razoável para bom como técnico de seleção. Armou um time de contragolpe e bola parada. Entupiu o meio-campo de volantes, soltou laterais e apostou na habilidade de Robinho e num centroavante. De novo recorro a Cazuza e vejo o futuro repetir o passado quando penso na seleção de Felipão em 2014.

O melhor momento de Dunga foi na fase final das Eliminatórias para a Copa de 2010. O time estava coeso, acreditava na proposta de jogo, era firme. Não por acaso se dava melhor fora de casa, com vitórias convincentes sobre Uruguai e Argentina. A tal proposta do contra-ataque. Mas em alguns jogos no Brasil a coisa enroscava. Faltavam alternativas e criatividade. Houve vaias que não vinham da tribuna de imprensa, mas das arquibancadas.

A vitória na Copa das Confederações escondeu uma série de defeitos apresentados contra times fracos. Na primeira fase, de relevante, venceu a Itália. Ganhou no sufoco do Egito e da África do Sul, e arrancou a fórceps uma vitória de virada sobre os EUA na final.

Quem ousasse afirmar que faltavam alternativas ao time, apesar da vitória, era taxado de inimigo, de espião infiltrado, de não torcer pelo Brasil. A parcela pacheca da crônica esportiva engrossava o coral.

Veio a Copa da África. O Brasil fez 7 pontos na primeira fase, diante de dois adversários fracos e um mediano. Venceu a "poderosa" Coréia do Norte por 2 a 1, fez 3 a 1 sobre a "vitoriosa" Costa do Marfim e empatou sem gols com Portugal. Em 2006, com toda a zona que foi a preparação, o Brasil fez 9 pontos na primeira fase. Em 2014, repetiu a dose de 2010, com 7 pontos. Só para situar.

Em 2006 a seleção atropelou Gana, outro adversário sem tradição, e avançou para as quartas-de-final. Enfrentou o primeiro time de respeito, a França, e voltou para casa. Em 2010 passou pelo Chile, freguês de carteirinha, e nas quartas, enfrentando o primeiro rival com hierarquia, perdeu para a Holanda. Em 2014, suou para tirar o Chile do caminho, passou pela Colômbia sem sobras e foi trucidado pelo primeiro rival importante, a Alemanha.

Ou seja: qualquer que seja o treinador, a história do Brasil nas últimas Copas tem sido muito parecida. Quando enfrenta alguém do mesmo tamanho, dança.

Então porque voltar a Dunga?

Parece-me uma decisão política, acima de tudo. Alguém afinado com os discursos e métodos da CBF. Alguém que criticou abertamente a bagunça de 2006 mas estava no voo da muamba em 1994. Partiria de alguém com esse perfil uma proposta de renovação? Ainda mais capitaneado por um ex-empresário de jogadores?

Alguém sinceramente acredita que Marco Polo Del Nero, próximo presidente da CBF, e José Maria Marin, o atual, queiram renovar o futebol brasileiro?

A fórmula caduca encontrada pelas pessoas que dirigem o futebol brasileiro é sempre a mesma nos momentos de aperto. Fico imaginando uma reunião na sede da CBF, numa luxuosa sala acarpetada, um belo vinho à mesa, serviçais a postos, e alguém puxa uma lista de nomes de campeões mundiais de 1994 e 2002. O Cafu, pelo jeito, não entra nessa lista, já que foi barrado no vestiário do Mineirão após os 7 a 1.

Escolhe-se um campeão mundial e a parcela pacheca da mídia se acalma. Some-se a isso alguém que disfarça rixas pessoais em questões empresariais e cria-se o perfil do falso rebelde.

O resultado é que ninguém discute a doença, fala apenas do remédio escolhido para atacar um dos sintomas. É preciso preservar o lado mais lucrativo, que é o que afeta os resultados da seleção brasileira, de onde sai o grosso do lucro da CBF.

Como analista tenho o dever se seguir sendo isento na avaliação dos trabalhos dos treinadores. Se for bem ou mal, pouco importa se é Dunga, Zangado, Feliz. O que interessa é o trabalho e o que ele deixa.

A pergunta que fica no ar é a seguinte: ganhando ou perdendo a Copa de 2018 (para a qual o Brasil precisará se classificar nas Eliminatórias, lembremos), alguém acredita que com essa turma o futebol brasileiro vai mudar?

Eu não acredito.

Truco!

quinta-feira, julho 17, 2014

Minha sugestão para o futebol brasileiro


Fala-se em mudanças no futebol brasileiro.

Torço para que aconteçam.

Mas, sinceramente, duvido.

Basta ver as pessoas que vão propor essa mudança e seguem no comando da CBF.

São fruto do sistema arcaico que ainda rege nosso futebol. Um sistema que foi apodrecendo, caducou, mas que sistematicamente se amparou em resultados que muitas vezes se mostraram enganosos.

Deixo aqui uma sugestão do que acho que poderia ser feito para repensar ou pelo menos discutir o futebol brasileiro. Não sou o dono da verdade, nem tenho a solução para problemas que se acumulam há décadas. É uma simples sugestão.

De nada adianta contratar um coordenador técnico, por mais competente e atualizado que seja, se ele terá que responder a pessoas cujo pensamento parou no tempo ou responde a outros interesses.

O primeiro passo, e sei que é inviável hoje, pela questão política, seria democratizar o acesso ao comando do futebol. Renovar o colégio eleitoral, arejá-lo, ampliá-lo.

Como isso parece impossível neste momento, parto para outra etapa.

O momento pede uma grande discussão.

O ideal seria montar um grupo de discussão, uma espécie de Conselho do Futebol Nacional. Este conselho seria formado por ex-jogadores das décadas de 50 até atletas atuantes ainda hoje e com experiência internacional. Expoentes no pensamento, na experiência e na execução. Também seriam ouvidos preparadores físicos de excelência, médicos, dirigentes históricos, gente do porte de um Francisco Horta, por exemplo. Profissionais com experiência em outras ligas e outros esportes, executivos de televisão e marketing. Não basta entregar a jogadores e ex-jogadores o futuro do futebol, porque ter jogado, bem ou mal, não fornece a chave para o sucesso em outras áreas do esporte.

Este conselho estudaria nosso futebol por um prazo de, digamos, três a seis meses, para produzir um diagnóstico preciso dos problemas e apresentar um plano de longo prazo que aponte um caminho.

O que poderia surgir deste caminho?

Uma reformulação profunda no sistema de base do nosso futebol, carcomido pela ação gananciosa de empresários, dirigentes e oportunistas.

A criação de uma Escola Nacional de Treinadores de Futebol, que até pode ser supervisionada pela CBF, mas precisa ser independente na questão política, qualificada pela meritocracia e atualização. Dessa escola surgiriam os treinadores do futuro, com estudo e preparação na base do passado glorioso do futebol nacional. Essa escola abasteceria o País de treinadores para trabalhar da base ao profissional.

É preciso resgatar a excelência técnica do futebol brasileiro, mas sem a pequenez da mal disfarçada rivalidade que existe hoje entre o boleiro empírico e o treinador científico. Esses personagens precisam caminhar juntos na busca pela recuperação da nossa identidade.

O Conselho do Futebol Nacional seria encarregado de estudar uma proposta de calendário que não seja uma simples cópia do que se faz nas grandes ligas europeias, mas um projeto que atenda às necessidades de um País do Hemisfério Sul, com dimensões continentais e inserido no contexto dessa realidade.

Desse debate pode sair um novo projeto para o futebol brasileiro, incluindo a modalidade feminina.

Ficaria feliz se desse projeto surgissem medidas como a extinção das seleções brasileiras sub-15 para baixo, que nada acrescentam. É preciso formar melhor nossos atletas e não transformá-los em mini celebridades para atender a interesses comerciais desde muito cedo.

O feudo chamado Granja Comary, cuja utilidade e funcionalidade parecem ultrapassados, representa muito da imagem negativa do futebol brasileiro atual.

A concentração tomada pela névoa que impede e prejudica treinamentos produz uma excelente figura visual e de linguagem para o momento.

A Confederação rica, que nada em propriedades e recursos, contrasta com os clubes em situação falimentar, mesmo recebendo recursos como jamais receberam em suas histórias, de TV, marketing etc.

A elitização proposta por alguns, que entendem que não há mais espaço para times médios e pequenos, é algo que abomino. Porque é uma proposta canibal, que como o tempo transformará alguns grandes em médios e eliminará alguns médios, já que os pequenos estão em processo de extinção.

Repito: não se pode encaixar a realidade da Inglaterra em um País como o Brasil. É discurso para agradar patota e nada mais.

Falar em uma Liga pode soar moderno, mas dirigida por essas pessoas que aí estão ela teria sucesso?

Intervenção do Governo Federal é outra insanidade.

A função de Brasília nisso tudo é fazer com que as leis sejam cumpridas e regulamentar melhor o esporte no País. Até porque o futebol não depende exclusivamente da injeção de recursos federais como boa parte dos esportes equivocadamente ainda chamados de amadores.

Governo tem que garantir recursos para o esporte como educação e lazer, nas escolas e praças públicas. Esporte de alto rendimento deve gozar de incentivos fiscais. É meu pensamento.

Há um grande caminho a ser percorrido.

Mas enquanto não houver amplo debate, as soluções serão sempre paliativas.

O Brasil, no que se refere ao futebol, é raso em termos de ideias. Ganhou está tudo ótimo. Perdeu nada presta. Este pensamento, historicamente, é o maior responsável pelos 7 a 1.

Muda, Brasil!

quarta-feira, julho 16, 2014

Diário do Cotidiano


A Copa de 2014 é história e a vida aos poucos vai tomando seu curso normal.

Inevitável, onipresente, o cotidiano vai reassumindo controle.

Para muitos, inclusive oportunistas de plantão, o dia-a-dia da cobertura esportiva e futebolística voltará a ser assunto de segundo plano.

A Copa atrai todo tipo de gente, inclusive aquele "especialista" que de quatro em quatro anos se arvora o direito de avaliar o trabalho e o pensamento de quem analisa, informa e, também, de quem torce para o futebol do cotidiano. Que é o futebol sem o qual não existiria a festa da qual ele participa como penetra de luxo a cada quatro anos.

Tratada ainda com enorme desprezo por alguns expoentes da própria categoria, a mídia esportiva seduz pela exposição.

Mas ninguém quer viajar na econômica da Séria A e da Séria B, dos estaduais, da primeira fase da Libertadores. Na hora de avaliar com a prepotência de sempre quem trabalha no dia-a-dia e faz girar a roda, o gostoso é embarcar na executiva da Copa do Mundo e deitar falação e textos.

Meu respeito a todos os companheiros que estiveram e que não estiveram na cobertura da Copa e que ontem retomaram o trabalho na Série B, nos treinamentos, nas coletivas. Também aos colegas que mantiveram o interesse do torcedor pelos seus times abastecido com informações durante a folia copesca.

A vida e a batalha continuam.

Vamos juntos até 2018, quando a leva de especialistas quadrienais estará de volta.

 

segunda-feira, julho 14, 2014

Diário da Copa - Hashtag é o.....!


Foi-se a Copa.

Nunca estive entre aqueles que achavam que ela não aconteceria, nem entre os que entendiam que aconteceria em meio ao caos.

A Copa teve cara de Brasil, com seus defeitos e suas virtudes.

Assim como sobrevivemos diariamente ao caos político e administrativo a que parecemos estar condenados eternamente, tocamos o Mundial adiante. Com o jeito do povo brasileiro, que sabe se adaptar às dificuldades e segue tendo uma qualidade admirável: a gentileza.

Por mais que estejamos endurecidos pelas dificuldades do dia-a-dia e uma violência descabida, ainda somos um povo gentil, cordial e que gosta de receber visitas.

O sucesso do Mundial é indiscutível.

Não caio nessa pegadinha de frases e termos antecedidos pelo sinal do jogo da velha (hashtag é o cacete!). A maior parte delas foi pensada por algum publicitário esperto ou por um diretor de marketing antenado.

Esse é o maior problema de uma Copa na era das onipresentes redes sociais: perde-se a naturalidade.

Ao ponto de jogadores da seleção brasileira terem recebido para espalhar frases de alento ao Neymar após a contusão. Isso já bastaria para desprezar esse comportamento.

A Copa do selfie tem disso. Não importa o que se diga ou se faça, importa é registrar o selfie e  o sinal do jogo da velha (hashtag é o cacete!).

Não houve o caos aéreo e nessa, felizmente, eu quebrei a cara. Mas dá para entender lendo entrevistas dos executivos da aviação comercial. Houve queda no número de passageiros em relação à média histórica do período, em cerca de 10% a 15%. Menos gente voando. Uma realocação do período de férias das pessoas, obviamente. O que facilitou as coisas.

A internet brasileira é um lixo, e manteve-se assim durante a Copa. Nenhuma surpresa.

O transporte público brasileiro é um lixo e manteve-se assim, com honrosas exceções. O esquema de transporte por trens e metrô para o estádio em São Paulo foi aprovado com louvor. Também aqui não houve surpresa, porque a Paulicéia é a única cidade brasileira com metrô decente - embora insuficiente para a demanda cotidiana.

O trânsito, nosso vilão do dia-a-dia em qualquer parte de um País cuja economia eleitoreira tenta se segurar na produção e venda de automóveis, também foi o vilão na Copa. De novo, nada que possa ser chamado de surpresa.

Os elefantes brancos, os estádios construídos a custos faraônicos e que até agora não se sabe que uso terão, tipo Arena da Amazônia, Arena Pantanal, Mané Garrincha estarão lá por anos a nos lembrar do absurdo de se fazer uma Copa em 12 sedes por pura ganância política e pagamento de favores eleitorais.

Assim como o mico total de se fazer uma Copa no Brasil e não colocar a seleção brasileira para jogar no Maracanã. Talvez mais um traço de arrogância e prepotência típicos das pessoas que tocam nosso futebol atualmente, acreditando que o Brasil jogaria a decisão.

Diversão houve, com algumas pitadas de arte.

Há uma geração de jovens jogadores que estreou em Copas aqui no Brasil que provavelmente estará tinindo em 2018. Rodriguez, Pogba, Neymar, Goetze, Di Maria, David Luiz, Oscar, Wijnaldum, Kroos, Balotelli e outros.

Não duvido das presenças de alguns craques já figurinhas carimbadas da Copa em mais um Mundial, tais como Robben, Sneijder, o próprio Messi, se bobear até o interminável Klose.

Por falar em diversão, claro que me diverti nesse Mundial. Esse é um dos segredos da minha profissão, saber curtir para suportar as longas ausências de casa, as viagens, os horários malucos, motoristas perdidos etc.

Minha sede favorita da Copa de 2014 foi Salvador. Primeiro porque para o meu gosto tem o estádio mais bonito, que tem mais personalidade. A Fonte Nova foge da regra atual de que, vendo pela TV, a Copa parece estar sendo jogada sempre no mesmo estádio. Sem contar o fato de que vi ali belos jogos de futebol.

Em termos de atitude, outro termo da moda, fecho com Alemanha e Holanda. Seleções de bem com a vida, que esbanjaram simpatia e humanizaram o jogador de futebol, sem ataques de estrelismo, interagindo e mostrando que são seres de carne e osso como todos.

As torcidas deram seu recado. Inclusive a nossa, mesmo sendo formada, na maioria por um tipo novo de torcedor, o de RH. Aquele que ganha de brinde o ingresso da Copa e vai na mordomia, com tudo pago. Esse é o esquema da Copa. 60% dos ingressos são comprados pelos patrocinadores, que os distribuem a seus clientes como cortesia.

Daí veio o termo torcida de condomínio. Mas que deve ser creditado apenas a 60%, pelos números do negócio.

Mesmo assim, levamos um banho dos mexicanos, dos americanos, dos argentinos e dos holandeses e alemães em termos de animação. Sem contar as aulas de cidadania dos japoneses.

O mico das arquibancadas foi a vaia ao hino chileno no Mineirão.

Felizmente compensado pela torcida de Brasília no jogo do terceiro lugar. Apoiou e vaiou na medida certa.

Mas confesso que me diverti mais na Copa da África do Sul.

Não que tenha faltado diversão aqui, mas foram situações e momentos diferentes.

De todas as sedes do Brasil eu só não conhecia Cuiabá. E sigo sem conhecer.

Na África era tudo novidade para mim. Viajei muito, comentei mais jogos do que comentei no Brasil, pude experimentar uma nova cultura, ver novas paisagens.

Sem contar o vinho deles, infinitamente melhor do que o nosso.

E a naturalidade.

O sul-africano soube viver a Copa sem sinal de jogo da velha (hashtag é o cacete!), sem música ensaiada antes, sem choro previsível. As redes sociais não tinham se transformado em praga, não havia a ditadura do selfie, o Brasil não tomou de sete. Havia uma alegria natural nos sul-africanos em estarem sendo apresentados ao mundo. E havia Nelson Mandela entrando em triunfo no Soccer City.

Como já escrevi aqui em postagens anteriores, havia também música muito melhor do que a que foi executada na nossa Copa. Teve Waka Waka, Freshlyground, Malaika, Masekela, Ladysmith Black Mambazo.

A música brasileira de primeira qualidade, riquíssima, foi jogada para escanteio nessa Copa, preterida por pagode e pop baiano comerciais, pasteurizados e repetitivos.

Falar de futebol é chover no molhado.

O brasileiro deu vexame.

Arrogante, autoconfiante, prepotente, mal treinada, tensa e raivosa, a seleção brasileira fez hora extra na Copa. Deveria ter saído nas oitavas, por desempenho. Foi até a semifinal sem ter enfrentado um adversário de hierarquia, apenas para ser humilhada. Felipão, perdido em seu mundo de eternos antagonismos, acha que foram apenas seis minutos, quando os erros são de 15, 20 anos.

Enquanto formos seduzidos pelo canto da sereia da Copa das Confederações e tivermos os dirigentes que temos à frente da CBF, mudar esse quadro será difícil.

Pior ainda é ler que existe uma corrente que acredita que a saída seja estatizar o futebol brasileiro. Uma conferida no que existe hoje na Argentina, onde algo nessa linha foi feito, deve trazer uma lufada de bom senso. O que é preciso é fiscalizar e injetar competência e preparo onde existe política e interesse.

Desaprendemos a ganhar. Viramos resultadistas juramentados. Não temos a capacidade de ver o que os ianques (olho neles em 2018!) chamam de big picture. Estamos sendo engolidos pela era do selfie. Perdemos a naturalidade também dentro de campo.

Os alemães hoje têm o toque de bola que um dia foi nosso. A Holanda tem as jogadas de linha de fundo que nós sabíamos fazer. A Argentina mostrou a dignidade e a inteligência em campo que nossos jogadores costumavam ter. Exceto o Aguero, que deu um soco canalha do Scweinsteiger.

A Copa veio e foi embora, como outras virão.

A vida segue, como esporte e o Jornalismo do dia-a-dia.

Conteúdo nunca é demais.

Cada vez me sinto mais um dinossauro. Meu objetivo é conteúdo, preparo, pesquisa. Não tenho sorriso fácil, não faço selfie e não uso o sinal do jogo da velha.

Hashtag é o cacete!
 

sexta-feira, julho 11, 2014

Diário da Copa - Aos meus amigos argentinos

Sim, eu tenho amigos argentinos.

Muitos, tenho orgulho em dizer.

Estive por baixo umas 15 vezes na Argentina. Sempre fui muitíssimo bem tratado.

Mas a maioria dos amigos argentinos que tenho a alegria de manter até hoje conheci ainda na adolescência, sabem onde? No Brasil, em Santa Catarina. 

Os irmãos Oliveira, um time de futebol de salão, todos muito bons de bola e pessoas da mais elevada educação. Apaixonados pelo Brasil e pelo futebol brasileiro. Filhos de um português chamado Américo, que se casou com uma argentina chamada Zulema, depois de ter chegado ainda criança a Buenos Aires. Ambos profundos conhecedores de futebol e admiradores da bola e da gente brasileiras.

Minha quase irmã Galatea, espiritualmente mais baiana e carioca que muitos de nascimento.

Temos muito mais em comum com os argentinos do que possa fazer pensar quem leva a rivalidade futebolística a um patamar próximo da idiotice.

Você acha que gosta e entende de futebol? É daqueles que se acha craque e profundo conhecedor? Tome um táxi em Buenos Aires e você povavelmente receberá uma aula, inclusive, de futebol brasileiro. Sim, senhor especialista, o argentino adora futebol e tem profunda admiração pelo nosso. Cita times e jogadores brasileiros históricos de memória. Atreva-se a falar de tática e levará uma sova.

Claro que temos imbecis dos dois lados da fronteira. Gente que leva a sério provocações infantis que são uma das muitas expressões de rivalidade entre adversários que, no fundo, não vivem um sem o outro. 

A mão pesada de setores e pessoas da mídia potencializa essa situação.

Enquanto iso, quem sabe levar a vida sai da Argentina e se diverte em Búzios, em Porto Belo, no Nordeste, convivendo em harmonia com os vizinhos. Em resposta educada, nos embriagamos com o marvilhoso vinho deles ou com as paisagens incríveis dos Andes e o churrasco sem igual (embora os imrãos uruguaios achem que o deles é melhor).

O velho e saudoso Américo me contava que jamais esqueceu do dia em que viu Pelé matar uma bola de queixo contra o Boca Juniors dele, na Bombonera. Quando seus filhos, em especial o Javier, o provocavam sobre Maradona, ele respondia: "Tchê, boludo, el Negro es único, no me hables de Maradona".

Fernando, também quase um irmão, treinador de futebol que revela e educa muitos talentos, sempre me fala maravilhas sobre a técnica apurada dos brasileiros com a bola nos pés e limão e cachaça nas mãos. Tanto que aprendeu a fazer caipirinha.

Rodolphito, nosso motorista na Copa América de 2011, ex-combatente da Guerra das Malvinas, capaz de chorar ao se despedir da nossa equipe, arriscar um português mambembe e lamentar pela decadência do Banfield como lamentou a eliminação brasileira diante do Paraguai.

Graciela e Bernardo, argentinos que escolheram o Brasil como casa e trabalham pela cultura dos dois países incessantemente.

Sempre estive ciente da rivalidade no futebol. Afinal, são os países que mais produziram grandes jogadores. Mas, sinceramente, acho que levamos a sério demais esse papo, nós, brasileiros. 
Estive em Buenos Aires uma semana após o Brasil ganhar o tetra e, acredite, houve festa por lá. Torceram por nós e reverenciaram Romário.

Meu amigos argentinos sabem que em Copas sou um cucaracha assumido. Torço pelos latino-americanos, sempre. 

Mas desta vez estou dividido. Ainda que Messi e todos vocês, mis hermanos, me façam ver com simpatia um tri argentino, sinto-me atraído pelo toque de bola hipnotizante dos alemães e sua incrível capacidade de organização, que me faz sentir uma gostosa inveja. 

Enquanto isso, na Granja Comary....

De qualquer modo, embora eu ainda ache que a Holanda merecesse estar na final e mereça um título pelo conjunto da obra, quem for campeão no domingo fará bem ao futebol.

A Alemanha, que soube se reinventar e jogar com talento, num prazo de 14 anos. Ou a Argentina, que mesmo sem ter um timaço como muitos que já teve na história, tem Messi, Di María e soube se reinventar em um mês, sem a arrogância e a prepotência que muita gente teima em colar na testa dos vizinhos mas anda sobrando em nossos "professores".

Pela grande quantidade de amigos argentinos apaixonados pelo Brasil que colecionei na vida, admito que, se eles terminarem o domingo felizes, abrirei um Malbec para celebrar essa gostosa vizinhança.

Sem antes deixar de lembrar que só nós temos cinco títulos e que só o Pelé fez mil gols. 

Saludos, mis queridos amigos argentinos. 

Disfrutemos.

terça-feira, julho 08, 2014

Diário da Copa - Uma derrota que começou há muito tempo


O sacode aplicado pela Alemanha numa apática e desconexa seleção brasileira não pode ser lido como um episódio isolado.

Vá lá que tomar de 7 em casa não é um resultado normal, tudo bem.

Mas é preciso dar a cara a tapa e reconhecer que o futebol brasileiro está perdendo esse jogo há muito tempo.

Diria que o primeiro gol dos 7 feitos ontem começou a ser trabalhado em 1994. Isso mesmo, no Tetra. Outros tentos foram adicionados no vice de 1998, no Penta em 2002. Aí o estrago já estava em adiantado estágio de gestação.

Mas o que virou goleada mesmo foram as vitórias na Copa das Confederações de 2005, 2009 e 2013. Essas fizeram mais mal ao futebol brasileiro que as conquistas de Copa América nesse período e as eliminações em Mundiais e na própria competição sul-americana em 2011.

Um vírus já havia tomado conta do futebol brasileiro, lá na base. A infecção era poderosa, mas as vitórias, em vez de provocarem também a reflexão necessária, cegaram.

A geração de 2002 foi a última grande geração do futebol brasileiro. Uma geração de jogadores que já estava na ativa em 1994, quando um grupo de atletas que havia naufragado em 1990 conseguiu vencer o Mundial nos Estados Unidos. A turma de Ronaldo, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos, Marcos, que seria campeã oito anos depois, já era boa em 1994.

Esse grupo que ganhou o Tetra era herdeiro da geração dos anos 80, marcada pelas derrotas em 1982 e 1986. Principalmente a de 1982, que provocou uma grande mudança de rumo na cabeça de treinadores e dirigentes do futebol nacional. Inclusive do próprio treinador de 82, Telê Santana, que foi um profissional muito diferente quatro anos mais tarde, em seu segundo Mundial. Vamos dar nome aos campeões para sentirmos o peso da diferença: Taffarel, Jorginho, Branco, Romário, Bebeto, Leonardo, Aldair, Ricardo Rocha etc.

O Brasil se transformou na Pátria do melhor futebol do mundo porque sempre foi diferente. Ganhava porque jogava diferente de todo mundo e porque tinha jogadores que fugiam do óbvio graças a uma característica: a excelência técnica. O melhor domínio de bola, o melhor toque, a habilidade, o improviso.

Nunca vencemos por termos inventado um sistema de jogo revolucionário, uma tática coletiva que fizesse a diferença. Nada disso. Nosso futebol sempre se destacou por saber encontrar uma maneira de aproveitar a qualidade técnica e a habilidade de nossos atletas.

Nossos volantes (ou cabeças-de-área) jogavam de cabeça erguida, não erravam passes, nem os mais ousados, muito menos os de cinco metros. Nossos zagueiros tinham um tempo de bola quase que científico de tão perfeito. Nossos meias, que maravilha! O toque, a tabela, os lançamentos, a visão de jogo, a leitura da partida. Atacantes havia às pencas. Rápidos, dribladores, matadores, centroavantes clássicos, raçudos.

O maior mérito de nossos treinadores, e temos e tivemos muitos grandes treinadores, sempre foi saber levar a campo os melhores e tirar deles o melhor individualmente. Por isso os gringos vinham ao Brasil, filmavam nossos treinos e jogos, tentando entender como era possível que nesse País em se jogando bola tudo dava craque.

Acontece que a vitória embriaga.

Já havia um problema sinalizado há muito tempo por jogadores de gerações de excelência e treinadores legitimamente preocupados com o futuro.

Nossa fábrica de jogadores não era eterna.

A ganância de empresários e a sede por vitórias onde elas não são fundamentais, nas categorias de base, foram minando o futebol brasileiro silenciosamente. Na base se forma jogador, não se ganha taça.

Porque acreditar num garoto de talento ainda em formação, mesmo que com enorme potencial, se é possível vencer jogos na categoria 14 anos escalando os mais altos e fortes, mesmo que não sejam os de mais qualidade? Afinal, campeão no sub-14 pode pavimentar seu caminho para o sub-17 e levar sua mediocridade até um time principal, com base na ilusão de uma vitória mentirosa.

Nisso, muitos talentos se perderam.

A ordem era formar volantes pegadores e zagueiros que soubessem "zagueirar". Ensinar um lateral a defender, sua primeira obrigação, para quê? Para isso temos os volantes, em profusão. E lá se vão nossos laterais, para voltarem quase sempre atrasados. Meia armador pensando o jogo, dando ritmo, entendendo o que se passa em campo, lançando, virando jogo? Nada disso. Melhor colocar mais um volante ali, caprichar no escanteio e jogar por uma bola.

A doença avançava silenciosamente. Os sintomas já se faziam notar, mas, praticamente exaurida, a última grande geração ainda nos deu a vitória em 2002. Muita coisa estava errada, mas acreditou-se que em 2006, depois da Copa das Confederações de 2005, ainda era possível ganhar de novo, mesmo com muitas arrobas de peso a mais, festas em vez de treinamentos, jantares num país e jogos em outro.

No meio do caminho perdeu-se uma geração, a gerada em 2002, protagonizada por Robinho e Diego. Deveriam ter chegado ao auge em 2010. Robinho até que ensaiou, mas não deu em nada do que se esperava.

Enquanto isso, a seleção brasileira se distanciava cada vez mais de seu território e perdia a identificação com sua torcida e seu estilo histórico.

Tal qual o ditado que diz que depois de morto todo mundo é santo, ganhando está sempre tudo bem, não importa como se ganhe.

Em 2010 a saída foi militarizar a seleção trazendo para o comando um jogador sem experiência como técnico mas comprovadamente eficaz na liderança: Dunga. Estilo sargento, briguento, enquanto venceu preferiu, em vez de observar e analisar, mandar todo mundo calar a boca. Teve a chance de pensar adiante, pavimentar o caminho e levar jovens jogadores, como Neymar e Ganso, para respirar uma Copa. Preferiu naufragar abraçado ao exército de volantes que salvaram seu emprego na Copa América de 2007 (com ajuda providencial do uruguaio Lugano na semifinal). Quando o roteiro enrolou diante da Holanda, em Porto Elizabeth, deixou claro quão mentirosas haviam sido algumas vitórias. Saiu esmurrando o banco, nem sequer entrou em campo para consolar seus jogadores.

Neymar, o expoente da geração que chegou às semifinais na Copa de 2014, é ponto fora da curva. O único jogador brasileiro extraclasse. Ganso deu pinta de que resgataria a mística da camisa 10, mas ainda não cumpriu. Há muitos bons jogadores, dois zagueiros espetaculares. Para 2018 a perspectiva de se montar uma seleção interessante existe.

Mas onde foram parar nossos laterais que sabiam marcar e jogar? Volantes com boa saída de bola? Aliás, que tragédia foi a saída de bola da seleção brasileira na Copa em sua casa. Meias armadores seria pedir demais? Atacantes de lado de campo que conseguissem correr e acertar o cruzamento ao final da corrida?

Não nos deixemos iludir. O mais interessante meia canhoto da Copa era colombiano. Os melhores volantes são os alemães, que tocam a bola como os brasileiros sabiam fazer. O melhor ponta é um holandês, que tem um legítimo camisa 10 jogando ao seu lado. O maior goleador das Copas é um polonês que se naturalizou alemão. O craque do momento é um argentino. Havia dribladores na Suíça, acreditem! O Chile envolveu o Brasil taticamente e por centímetros não mandou a canção do sonho do hexa uma oitava abaixo.

Cada vez  mais os estrangeiros que afirmam que nosso futebol está ultrapassado parecem ter razão.

Falta humildade, como bem disse o Ricardo Rocha, no SporTV.

Os jogadores talvez sejam os menos culpados. Em muitos casos são levados a pensar e agir como superestrelas, quando seu brilho é raro.

A direção do futebol brasileiro é um caos. Aposta sempre em repetir experiências do passado, vendo apenas resultados, sem estudar o que se passa mundo afora e no próprio quintal.

Felipão não deve ser crucificado. Até porque tem um aproveitamento invejável em Copas do Mundo. Foi a três semifinais, ganhando uma. Acontece que vinha de um rebaixamento (sim, 2/3 da campanha do rebaixamento do Palmeiras em 2012 estão na conta dele) e de uma longa estiagem de conquistas importantes. Seu maior mérito foi devolver a credibilidade à seleção brasileira, que vinha de uma Copa América pífia. Seu maior erro foi, como seus antecessores, cair no conto da Copa das Confederações.

O próprio Parreira já andava afastado do trabalho de campo, do dia-a-dia.

Não se pode apagar o passado de dois campeões mundiais, mas é preciso estudar o presente para pensar no futuro.

Por isso digo que algumas vitórias embriagam.

Em plano nacional, os treinadores se transformaram, salvo honrosas exceções, em superestrelas milionárias que não aceitam opinião em contrário e entendem que devem mandar nos clubes e não apenas nos times.

Amadores, os dirigentes aceitam condições que muitas vezes levam seus clubes ao caos financeiro e à bancarrota esportiva.

Não existem vilões, nem heróis.

Existe trabalho, tendência.

Deixemos de lado a CBF, uma entidade cada vez mais político-comercial e menos esportiva.

Pensemos no dia-a-dia, no nascedouro, na formação de jogadores.

Os 7 a 1 do Mineirão começaram no momento em que o Brasil parou de aproveitar a matéria-prima abundante para criar produto de excelência.

A bola não está mais com a gente faz tempo.

A ficha só caiu agora.

Sete não é conta de mentiroso.