domingo, maio 10, 2015

Brasileirão: projeção só após 12 rodadas


Analista de qualquer coisa sempre se complica quando tenta dar uma de adivinho.

Fujo desse tipo de comentário como o diabo da cruz.

Comentarista não é pitonisa, diz o grande Roberto Petri.

Infelizmente, torcedores e analistas de futebol no Brasil são escravos da mania do palpite. Narradores, apresentadores e repórteres também.

Sempre tem a famigerada pergunta do palpite. Para o jogo, para o campeonato, para a zona de Libertadores e para o rebaixamento.

Palpite é chute.

Para se fazer uma análise com algum conteúdo do que pode ou não pode acontecer no Brasileirão eu trabalho com um número: 12 jogos.

Equivale a um terço do torneio de 38 partidas.

Depois de 12 jogos todos os times terão enfrentado grandes times, babas, clássicos importantes e jogado dentro e fora de casa uma quantidade de jogos que possa servir de parâmetro.

O torneio é muito equilibrado e depois de 12 jogos a Libertadores não deve ter tanto peso em relação aos times brasileiros participantes. A maioria deve estar voltada mesmo para o Brasileirão.

O que se fala sobre favoritismo tem relação com o desempenho dos times até o momento e a qualidade dos elencos.

Mas a medida certa só pode ser avaliada quando os jogos do Brasileiro começam,

Qualquer time da Série A é melhor do que a maioria dos times que participam dos estaduais. Inclusive as equipes reservas dos grandes times.

Portanto, em 10 de julho, quando estiver terminada a rodada 12 do Brasileiro, será possível ter alguma noção do que será essa disputa.

Antes disso, é puro chute.

quarta-feira, maio 06, 2015

Mando de jogo vira várzea no Brasileirão


A questão do mando de jogo no Campeonato Brasileiro virou várzea.

Quebrados financeiramente, alguns sem estádio próprio para viabilizar uma renda fixa com programas de sócios-torcedores ou vendas de carnês, alguns times vendem seus mandos de jogo.

Tal qual cambistas, dirigentes oferecem seus jogos para quem oferecer mais. Quase tudo em cima da hora.

O que poderia ser uma saída interessante para casos de perda de mando de jogo transformou-se em estratégia manca de marketing de segunda linha.

Como cobrar equilíbrio técnico em um campeonato que chuta para escanteio a ordem de jogos na sequência de mandante e visitante?

Como exigir igualdade técnica e esportiva se uma equipe enfrenta certo adversário em um estádio e outra equipe faz jogo contra este mesmo adversário em outra arena?

Citemos aqui um caso sem dar nome aos clubes.

Uma equipe do Sul vai enfrentar um adversário do Sudeste num jogo no Rio. Então uma outra equipe do Sul tem que enfrentar o mesmo adversário do Sudeste, mas o jogo é marcado para Manaus, por exemplo? Houve a tão proclamada e exigida justiça? Isonomia, igualdade de condições?

Como o cartola brasileiro sempre se acha mais esperto que a esperteza, podem apostar que já tem dirigente estudando a tabela e fazendo cálculos para saber como pode fazer para que um adversário sofra mais com viagens, deslocamentos e mudanças climáticas.

CBF e clubes maltratam o próprio produto.

Um campeonato que não têm paralelo nas ligas nacionais em termos de equilíbrio e disputa. Mas que segue sendo tratado como torneio de várzea em termos de valorização e organização.

segunda-feira, maio 04, 2015

Vem aí o Brasileirão

Vem aí o Brasileirão.

Longo, complicado, equilibrado e cheio de armadilhas. Não vejo um grande favorito e parece que após muito tempo haverá mais times na disputa pelo título. Parece, porque isso costuma mudar e depende do desempenho dos times nacionais na Libertadores.


Antes de a bola rolar, citaria três times com um pouco mais de potencial: Corinthians, Atlético Mineiro e Internacional. 


O Corinthians largou bem, mostrou um padrão tático invejável, mas foi perdendo intensidade e levantou muitas dúvidas, principalmente quando não conta com Guerrero ou quando precisa mudar seu estilo de jogo, o que não conseguiu.

O Inter demorou para engrenar, mas cresceu na hora certa e fez um jogo no qual mostrou enorme potencial contra a Universidad de Chile.

O Galo é muito forte, intenso e decisivo.
No segundo pelotão temos vários times com potencial. O Cruzeiro muito mexido, mas com um treinador mestre em remontar equipes.


Santos e Palmeiras aproveitaram bem o estadual para armar seus times que são bons e competitivos. São Paulo, Flamengo, Fluminense, o renovado Vasco, o Grêmio remontado por Felipão com enorme dificuldade.

Todos têm condição de disputar um bom campeonato e, o principal, embolado.

Sem contar as surpresas e decepções.

Não há torneio nacional mais equilibrado que o Brasileirão.

Apostas veteranas e vencedoras

Robinho, aos 31 anos, e Ricardo Oliveira, aos 34, foram os fatores decisivos para a merecida conquista do Santos no Paulistão.

Escrevo sobre este estadual porque foi o que eu comentei no canal campeão. O que me impede de ver com profundidade os outros estaduais.


Robinho, falem o que quiserem dele, é craque, ainda é o melhor jogador brasileiro em atividade no território nacional. Ricardo Oliveira é o 9 por definição, frio e decisivo na cara do gol. 


Robinho é decisivo como Valdívia quase nunca consegue ser. Ricardo Oliveira tem a frieza que falta ao jovem e intempestivo Dudu. Detalhes que direcionam uma taça.


Se, para mim, aos 41 anos, Zé Roberto foi o melhor jogador do Palmeiras no jogo decisivo, temos um quadro preocupante.


Qual foi a jovem revelação do mais rico torneio estadual do País?

quinta-feira, abril 23, 2015

O futebol brasileiro e a malandragem


O futebol é o esporte que melhor imita a vida.

Com seus altos e baixos, reviravoltas, surpresas, justiças, injustiças, fatalidades.

Não é à toa que ocupa o Olimpo da popularidade, é o esporte rei do planeta.

No Brasil o futebol é absoluto em popularidade.

Também por isso reflete o que a sociedade brasileira tem de melhor e de pior.

A malandragem, por exemplo, é das piores manifestações da nossa cultura.

Esse comportamento associado á romântica e ultrapassada figura de terno e sapato brancos impecáveis, chapéu e lábia sedutora, que ganha a vida enganando quem passar pelo seu caminho.

O futebol brasileiro é pródigo em malandros e falsos malandros.

Dizem alguns estudiosos das ciências sociais que é possível distinguir malandros entre bons e ruins.

Segundo essa linha, eu citaria Garrincha como o exemplo supremo do bom malandro em campo. Bom porque "enganava" o marcador com sua arte. Garrincha foi um grande ilusionista, muito mais do que um malandro. Tivemos grandes ilusionistas e artistas no futebol brasileiro. Quem carrega solitariamente esta herança é Neymar.

Infelizmente, a malandragem fez escola. A cultura do futebol brasileiro celebra, protege, tenta regularizar a malandragem. Desde a tese do roubado é mais gostoso até o fato de achar bacana enganar um juiz, simular um pênalti que não houve, chorar uma agressão que não aconteceu.

Isso teve reflexos na conduta de jogadores, treinadores, dirigentes, torcedores, jornalistas e árbitros. A velha história de reclamar do pênalti mal marcado contra e fazer vista grossa e dizer que não viu quando foi mal marcado a favor.

Levar vantagem em tudo, certo?

Errado.

Arbitragem sempre vai gerar polêmica, em qualquer parte do mundo. Malandragem não existe apenas no Brasil. Vide a mão boba do Henri, educado na melhor tradição francesa, e a "mano de Dios" de Maradona.

Mas no Brasil a combinação de atletas metidos a espertos e arbitragens indecisas e com critérios desequilibrados é pura combustão.

Sandro Meira Ricci apitou o clássico Majestoso pela Libertadores. Expulsou três jogadores: dois do Corinthians (Sheik e Mendoza) e um do São Paulo (Luís Fabiano).

Não existe verdade absoluta quando se trata de opinião. As minhas foram emitidas na transmissão do SporTV. Repito-as aqui e amplio o debate.

Rafael Tolói  dá um pisão em Sheik, que se achando mais esperto que a esperteza, passa a chamada chinela, de leve, no adversário. Pelas imagens, Ricci não viu uma coisa, nem outra, mas deve ter sido alertado por um de seus auxiliares e expulsou o corintiano. Deveria ter visto e sido alertado sobre o pisão de Tolói e expulsá-lo também. Acertou em uma e errou em outra. Claro que os árbitros não podem ver tudo, mas deveriam ter visto. São oito olhos que estão ali para isso. Não se avalia intensidade, se a chinela foi leve, forte, mas sim o ato, a intenção.

A regra 12, sobre Faltas e Incorreções, prega que serão sancionadas de diversas maneiras, entre elas esta: passar ou tentar passar uma rasteira em um adversário. Tiro livre direto e o árbitro avalia se a ação foi imprudente, temerária, força desproporcional ou agressão.

Luís Fabiano foi expulso por simulação. Por fingir tere sido agredido, quando não foi. A leitura labial de Ricci deixa isso claro. A regra fala disso no tópico Advertências por conduta antidesportiva, no seguinte item: tentar enganar o árbitro simulando uma lesão ou fingindo ter sofrido uma falta (simulação). Como já tinha cartão amarelo, o atacante tricolor levou o segundo, de forma correta, penso eu.

O corintiano Mendoza foi expulso por ter tentado atingir Luís Fabiano. Volto à regra 12, que versa sobre Faltas e Incorreções. A regra concede tiro livre direto para uma série de infrações e acrescenta que o árbitro pode considerá-las imprudentes, temerárias ou com uso de força excessiva. Entre os tópicos está o seguinte: golpear ou tentar golpear um adversário. Não é preciso acertar, o verbo tentar deixa claro. Na minha visão, Mendoza tentou golpear Luís Fabiano e a tentativa foi vista pelo árbitro como passível de expulsão. Concordo.

Um erro de Ricci, penso eu, aconteceu em relação a Elias, meio-campo do Corinthians. Ele já tinha cartão amarelo e fez carga proposital em Centurión, num lance idêntico àquele em que tinha sido advertido anteriormente. Passível de novo amarelo e consequente expulsão.

Há polêmica para muitos dias.

O problema é que a maioria dos jogadores brasileiros não faz nada para ajudar a arbitragem e, consequentemente, o espetáculo. Muitas opiniões acabam contribuindo para agitar o ambiente. Existe uma mania no Brasil de se dizer que o árbitro estragou o jogo, que não se expulsa jogador no início da partida e outras bobagens. Não existe nada na regra que fale em tempo para expulsar alguém ou se preservar este ou aquele talento em campo.

Também existe o árbitro malandro, que se acha muito esperto, finge ter o controle do jogo, exala uma autoridade que não possui. Esse tipo empurra os problemas para debaixo do tapete verde, se omite em lances complicados e olha para o relógio não para conferir o tempo, mas para ver se o jogo já terminou, que é seu grande desejo.

Há o treinador malandro, que se finge de bonzinho nas entrevistas e diz que não se preocupa com a arbitragem, mas passa o jogo inteiro azucrinando e pressionando. Aqui não me refiro a um indivíduo especificamente, mas ao gênero, cuja população é grande por aqui.

Enquanto não combater a falsa malandragem o futebol brasileiro não evoluirá como produto, espetáculo e negócio.

A verdadeira malandragem é a do craque, aquele que com sua arte e inteligência escapa do zagueiro botinudo, do volante maldoso e faz a alegria do jogo.

segunda-feira, abril 13, 2015

Sua majestade, a pauta


Discute-se aqui e acolá, na maior parte do tempo, nas onipresentes redes sociais, o momento atual do Jornalismo.

Ele sobreviverá, apesar de enfrentar mais uma das muitas crises porque passa periodicamente, com o perdão do trocadilho.

Acumulo algum tempo de estrada para poder opinar sobre o tema, sem achar que tenho a solução para tudo, como muitos colegas e consumidores do Jornalismo acreditam ter.

Eu vejo um problema em uma palavra de nome simples e execução complicada: pauta.

A pauta é a majestade de uma boa redação, de um bom informativo, em qualquer meio de distribuição. Notícia não se inventa, Jornalismo não é ficção. Mas notícia se fuça, se cava, se fareja. Grandes repórteres são perdigueiros da informação, com faro privilegiado.

Mas uma boa pauta muitas vezes dá o pontapé que falta para um bom repórter.

A pauta está morrendo por uma imposição econômica, que ceifa cabeças nas redações e muitas vezes leva as pensantes.

A pauta é uma função ao mesmo tempo ingrata e gratificante para quem a executa. Por isso é preciso ter vocação e uma boa dose de abnegação. O pauteiro é quem pensa para o brilho do repórter. Egos complicam essa relação.

Trabalhei com vários pauteiros. O melhor deles, de longe, foi o Nelson Nunes, nos tempos de Diário Popular. Nelsinho, como nós, os amigos, o chamamos, é um grande repórter e levava isso para suas pautas. Eu era novato na redação do velho Diário mas conhecia o Nelsinho dos tempos de Folha da Tarde e sabia de seu trabalho de excelência. Quando chegava à redação, ainda nos tempos de máquina de escrever, a pauta estava lá, afixada no quadro de recados. Detalhada e detalhista, com telefones de fontes, sugestão de perguntas, suítes e previsão do tamanho do texto e muitas vezes até a página em que seria publicada, porque o Nelsinho já antecipava o espelho para os editores.

Acredito que tenha sido um bom pauteiro quando exerci a função. Procurei usar as lições que aprendi com o Nelsinho, sempre tendo em mente que era preciso identificar os talentos dos repórteres para cada tipo de pauta. Quem tinha alma de repórter setorista, de dia-a-dia, quem gostava de fuçar, de investigar, quem sabia cavar bons perfis de entrevistados. Organização é outro requisito fundamental. Pauteiro confuso e bagunçado pode até ser um gênio, mas confunde.

A pauta é uma função solitária. Geralmente o pauteiro fica sozinho na redação, num horário em que pouca gente chegou. Também lida com o ciúme e com a ingratidão. Sempre há repórteres que acreditam estarem sendo preteridos em favor de outros repórteres - diga-se que muitos realmente têm razão. Se a edição do dia é fria e perde para a concorrência o primeiro a ser cobrado é o pauteiro.

Uma coisa que a pauta não admite é preguiça. Pauteiro preguiçoso é sinônimo de jornalismo preguiçoso. Pauteiro que não goste da função atrapalha tanto quando o preguiçoso. Se os dois tipos se unem no mesmo pauteiro, aí complica. Porque se um programa ou jornal nasce ruim ele dificilmente será salvo e terá o mesmo fim.

A recuperação do Jornalismo de mais uma crise, eu aposto, virá de boas pautas e boas reportagens.


segunda-feira, abril 06, 2015

Estaduais não são o problema. As federações é que são


A gritaria justificada contra os campeonatos estaduais me parece apenas com um problema de pontaria. A mira está nos campeonatos, quando deveria ser direcionada às federações.

Os campeonatos podem ser salvos, mas as federações não têm mais qualquer utilidade para o futebol, Servem apenas a elas próprias e a seus dirigentes.

A discussão sobre o calendário é saudável e bem vinda.

No entanto, sou contra decretar o fim dos estaduais.

Vejo uma tentativa de se encaixar uma realidade de país europeu no Brasil.

Inviável.

Ninguém é maluco de achar que atualmente os estaduais sejam torneios cobiçadíssimos.

Mas vejo como devaneio algumas propostas de limá-los do calendário e, por exemplo, liberar os clubes para excursões pelo exterior.

Os clubes brasileiros não competem pelo mesmo mercado que os grandes europeus e provavelmente jamais competirão.

Nosso futebol de clubes não é atraente e nem sequer conhecido em escala global.

Nossa praia, por enquanto, é tentar melhorar por aqui mesmo, tornar os clubes e campeonatos mais rentáveis e organizados.

Aplaudo a maioria das iniciativas do Bom Senso, mas faço essa ressalva com relação ao calendário. Claramente, e já disse isso para um executivo do Bom Senso, existe uma inspiração nos calendários de grandes nações futebolísticas europeias, notadamente a inglesa. Quem jogou lá provou dos melhores cardápios. Mas não se apresenta um menu feito ao gosto britânico para o consumidor brasileiros sem adaptações.

Vejo os estaduais como uma oportunidade jogada fora pela ganância e o amadorismo das federações. Eles deveriam ser os recepcionistas da nova temporada. Após as férias, o retorno ao futebol progressivamente, dando ritmo aos jogadores, apresentando as novas contratações, testando regras e formatos, fidelizando torcedores. Em tempo curto, permitindo, aí, sim, torneios de verão ou sendo eles próprios esses torneios.

Para que isso ocorra é preciso que os clubes entendam que são eles os donos do negócio e que os mais ricos precisam reservar uma parcela de seus ganhos para os mais pobres.

Não vejo saída a não ser que um percentual do que os gigantes recebem seja destinada aos clubes pequenos e médios para que eles sobrevivam e voltem a ser os fornecedores de matéria prima, interrompendo a maléfica atuação dos empresários mal intencionados.

Em alguns casos os torneios estaduais se justificam, em especial nos estados mais ricos. Em outros, competições regionais, com etapas classificatórias, parecem mais racionais. Taí o bom exemplo da Copa do Nordeste.

Assim como os anacrônicos Tribunais de Justiça Desportiva, as federações estaduais de futebol ficaram sem propósito. O que acontece no Rio de Janeiro só não ganha eco em São Paulo, por exemplo, porque a federação paulista paga uma bela grana aos clubes grandes para que joguem seu torneio.

Mas excetuando-se as torcidas de Corinthians e Palmeiras, o torneio paulista mostrou total desinteresse dos torcedores. E, convenhamos, corintianos e palmeirenses estão animados por razões que escapam à qualidade do estadual. O alvinegro está voando na Libertadores e seu programa de sócio-torcedor tem uma bem sacada cláusula de fidelização que torna a ida aos jogos quase obrigatória. O alviverde curte seu belíssimo novo estádio e vê a formatação de um time promissor após uma temporada de filme de terror.

Mas os clubes também merecem um puxão de orelhas: assinam regulamentos que parecem não ter lido e depois reclamam. Falta a eles coragem para se posicionar, de forma uniforme. Até porque sempre existem aqueles que adoram roer a corda e pensam micro, prejudicando o macro.

domingo, março 15, 2015

Os perigos do 4-2-3-1 à brasileira

Não sou um comentarista prancheteiro. Gosto de tática, mas acho que ver o futebol só pela tática é uma visão míope.

Mas falarei um pouco de tática.

Inspirados (ou seria tentados?) pelo que costumam ver na Europa - mais precisamente na Inglaterra), muitos dos treinadores que atuam no Brasil transformaram-se em adeptos do 4-2-3-1, o tal esquema da moda.

Que em alguns casos ganha uma versão numericamente distinta, o 4-1-4-1.

Antes permito-me diferenciar esquema tático de sistema de jogo. Sistema de jogo é o que o treinador escolher, a dança dos números. Sistema tático é como o time se distribui em campo e se movimenta.

Quem avança, quem cobre, quem arma, quem desarma.

Muitas vezes o treinador "vende" o 4-2-3-1, mas leva a campo, por exemplo, um time com 4 jogadores de defesa, 4 jogadores de meio-campo e 2 atacantes.

O problema do 4-2-3-1 à brasileira é ter jogadores que possam fazer as funções que esse sistema pede. Principalmente o tal do 1. No Corinthians funciona porque Guerrero sabe fazer esse 1. Ele sabe jogar de costas para a zaga, sabe esperar a aproximação dos e que chegam do meio e sabe quando é a hora de ir para a área finalizar.

Depende mais do jogador do que do treinador, penso eu.

Não adianta tentar o 4-2-3-1 se o 1 mata de canela, não consegue virar uma jogada e fica isolado dos outros números da prancheta o tempo todo.

O esquema tático e o sistema de jogo de um time devem sempre ser adotados em função dos jogadores, não da ideia do treinador. O bom treinador é aquele que percebe quando sua ideia não dá certo porque não há jogadores capazes de executá-la. O grande treinador é aquele que consegue encontrar um esquema tático que tire o máximo da capacidade individual de seus jogadores.

Para jogar nesse 4-2-3-1 dos sonhos - ou da moda - além desse 1 qualificado, é preciso ter atacantes de lado de campo que possam voltar para marcar ou atuar como meias, ou meias que tenham velocidade suficiente para se deslocar e atuar eventualmente como atacantes pelo lado de campo.

Pelo que tenho visto pelo mundo, em times estrelados como Real Madrid, Bayern e Barcelona, há alternativas.

O Real tem esse modelo que pode ser definido como 4-2-3-1, mas tem um fora-de-série pelo lado do campo, Cristiano Ronaldo, e outro extremamente veloz e qualificado: Bale.

O Bayern tem oferecido a Lewandowski uma companhia de luxo à frente, o Thomas Muller. O Barça tem, em minha visão, uma linha de 3 atacantes.

Enfim, é papo para prancheteiros.

Só acho que muitos treinadores podem estar colocando a prancheta na frente dos bois no Brasil.

Aconteceu algo parecido após a vitória da seleção brasileira na Copa de 2002. O sucesso da linha de três defensiva de Felipão inspirou imitações de quinta categoria.