terça-feira, agosto 19, 2014

Neymar tomou gosto pelo gol agora ou sempre teve, Dunga?

Dunga disse em coletiva, ao convocar a seleção pela primeira vez em sua segunda passagem como técnico, que Neymar tomou gosto pelo gol.

É preciso cuidado com certo tipo de colocação, porque muitas informações podem desmentir certo tipo de análise.

Dunga não levou Neymar à Copa de 2010 e agora sabe que depende dele.

Mas vamos ao que foi dito.

Ao afirmar que Neymar tomou gosto pelo gol, entende-se que, na avaliação de Dunga, ele não tinha gosto antes. Resumindo: não fazia muitos gols ou não tinha gosto por fazer.

Fui à página oficial de Neymar buscar números.

Em 2010 ele fez 44 gols.

Em 2011 foram 40.

2012? 56.

2013 a marca foi de 37.

Neste ano de 2014 o craque fez apenas 14 gols.

Ou seja: Neymar já surgiu com gosto pelo gol, ele sempre fez muitos gols. Inclusive mais gols no início da carreira do que no momento atual.

Questão de gosto.

segunda-feira, agosto 18, 2014

Palestras extremos

O Brasileirão 2014 expõe duas realidades dramaticamente opostas no grupo dos times históricos.

Dois irmãos de origem, que nasceram das colônias italianas para capturar paixões pelo País e se transformar na preferência de milhões de torcedores.

Construíram belas histórias cultivando uma tradição comum: o gosto pelo bom futebol e a formação de grandes times.

As semelhanças entres os Palestras, que há alguns anos eram muitas, atualmente ficam por aí. 

O que virou Palmeiras e foi seguramente o grande time do País entre o final dos anos 60 e início dos anos 70 do século passado entrou numa espiral de decadência que soa irreversível. O que adotou o Cruzeiro e deixou um pouco de lado as raízes italianas ensaia um domínio que pode sinalizar a ocupação do espaço em termos de repercussão nacional que já foi do antigo xará. Sempre fiel ao seu estilo de futebol bem jogado.

Os números atuais gritam.

O Palestra mineiro desfila superioridade. Vem da conquista com facilidade do Nacional de 2013 e já soma 33 pontos em 2014, com 32 gols marcados, 13 sofridos, dez vitórias em 15 jogos, sendo três triunfos e dois empates nas cinco partidas mais recentes.

O Palestra paulista veio da Série B e soma esquálidos 14 pontos em 15 jogos, tomou 21 gols e fez apenas 12, tendo vencido somente 4 jogos em 15. Nas últimas cinco partidas perdeu quatro e empatou uma.

A questão macro parece ainda mais promissora para os mineiros e desesperadora para os paulistas.

O Cruzeiro é um clube politicamente moderno, apaziguado, com um programa de sócio-torcedor que cresce diariamente, um patrimônio modernizado, centros de treinamento de excelência e um trabalho de base que abastece frequentemente e com qualidade o time principal. Fora isso, estabeleceu-se como clube poliesportivo, com um grande time de vôlei e equipes de corrida de rua e de pista competitivas.

O Palmeiras vive uma confusão política perene, com uma orquestra de corneteiros, divisões políticas históricas. Nunca soube trabalhar a base, acumula dívidas, comlra mal e vende pior, fez uma parceria para reformar seu velho e ultrapassado estádio mas vive  às turras com o parceiro. Até suas jovens lideranças manifestam pensamentos mofados e ultrapassados pelo passar do tempo. A tradição poliesportiva tenta ser retomada por um time de basquete que apenas luta na parte do meio das tabelas.

O Palestra paulsta recita de cor e salteado aquele velho mantra popular do Pai Rico, Filho Nobre e Neto Pobre.

O Palestra mineiro não vive dos devaneios do passado como o irmão de sangue italiano, que vive lutando por reconhecimento de títulos que a história já havia reconhecido, apenas por questão de nomenclatura.

O Cruzeiro, sete anos mais jovem, vislumbra o futuro no horizonte.

O Palmeiras centenário olha para o passado e nele fica, nostálgico, letárgico.

Pouca coisa sugere que este cenário seja alterado em curto prazo. Parece mais provável que num prazo de dez anos o Cruzeiro esteja ocupando o lugar que hoje é do Palmeiras no G-4 dos times mais populares do Brasil.

A conferir.








quinta-feira, agosto 14, 2014

Nosso futebol premia a derrota

O mérito é algo que deve ser sempre premiado quando se fala em esporte de alto rendimento.

É preciso buscar o resultado pensando em algo que possa realmente ser considerado um prêmio. Quando uma derrota na Copa do Brasil, uma competição nacional, "classifica" uma equipe para uma competição internacional, portanto hierarquicamente superior, o mérito vai para a lata do lixo.

Essa é uma das muitas correções mais importantes a serem feitas no calendário do futebol brasileiro, muito mais importante do que o mantra patoteiro de adequação de calendário às grandes ligas da Europa.

Repito o meu mantra sobre o tema, sem querer agredir gratuitamente. O patoteiro é uma provocação brincalhona.

O futebol brasileiro tem que se adequar à vida brasileira, ao calendário nacional, às particularidades do País.
A solução do calendário deve passar por um estudo nesse sentido, penso eu.

Como sempre digo, será que vai melhorar a segurança do trânsito no Brasil se adotarmos a mão inglesa?

Os clubes deixarão de vender jogador se o calendário nacional for macaca de auditório dos grandes campeonatos europeus?

Agora, faz todo sentido racionalizar, desinchar estaduais (não sou favorável à extinção dos mesmos, mas a uma adequação, aí, sim, à realidade de cada região), criar uma janela para torneios internacionais realizados aqui ou excursões.

Enfim, há muito o que ser discutido e não existe solução definitiva. A verdade não tem dono.
Mas enquanto a derrota for premiada fica difícil pensar em algo melhor no futuro.

sexta-feira, agosto 08, 2014

Brandão Eterno

Não sou escritor. Sou um jornalista que se aventurou a escrever livros. Foram quatro até agora. O mais recente deles, uma ousadia: um perfil biográfico de Oswaldo Brandão.
Não chamo de biografia porque não tenho formação para escrever uma biografia, não estudei História, não domino as técnicas dos historiadores.
Sou jornalista, gosto de escrever e tento aprender desde que comecei nisso, há bastante tempo para ter aprendido melhor.
O sonho de todo jornalista é contar bem histórias.
Confesso que por ser um autor pouco conhecido, não ser um escritor celebridade e nem mesmo uma celebridade, meu temor era de que o livro não sobrevivesse ao lançamento.
Porque lançamento de livro é um "me engana que eu gosto".
Graças a Deus, tenho muitos amigos, e amigos é para essas coisas tipo lançamento de livro de amigo.
Uma boa oportunidade de rever a turma, dar boas risadas, recordar histórias. O livro serve como desculpa. Não me iludo quanto a isso.
Fico feliz em saber que Oswaldo Brandão-Libertador Corintiano, Herói Palmeirense sobreviveu ao lançamento.
Fui informado pela editora que o livro, lançado em abril, vendeu mais do que o dobro do que foi vendido no lançamento desde então. Quase o triplo. O que não considero pouco, porque o lançamento estava bem cheio.
Para um sobrevivente dessa profissão seriamente ameaçada de extinção que é o Jornalismo, fico sinceramente lisonjeado.
Espero que o livro continue vivo para que eu possa, numa segunda edição, reparar alguns erros que foram impressos por terem passado por minha revisão e por algumas fontes equivocadas que consultei. Também espero que esses vacilos desse autor não tenham maculado a história desse personagem fantástico que foi Oswaldo Brandão.

segunda-feira, agosto 04, 2014

A torcida dos sem-time

Se houvesse vontade dos dirigentes do futebol brasileiro em debater o futuro do esporte, eles olhariam com atenção para a pesquisa recém-divulgada pelo Data Folha sobre as torcidas dos clubes do País.

Mais do que a discussão rasa sobre quem tem mais torcedores, time A ou B, há um dado que é alarmante: 23% dos entrevistados não torcem para time algum.

Esse contingente é maior do que as torcidas dos dois clubes mais populares do País: Flamengo e Corinthians, que têm números de 18% e 14%, com margem de erro de 2% para mais ou para menos.

Esse contingente é muito maior do que o percentual de clubes como São Paulo, Palmeiras, Vasco, Grêmio, que convivem num empate técnico com índices que vão de 8% a 4%.

Termos como País do Futebol, Esporte das Multidões parecem cada vez mais fora de propósito.

Não que se deva desprezar números de clubes que amealham mais seguidores que a população de muitos países.

O que deveria ser estudado é porque o futebol não fala para 23% dos brasileiros.

E o que fazem os clubes para seduzir esses 23% e convencê-los de que vale a pena torcer por alguém?

Como o nível técnico atual, a violência nos estádios e a audiência em queda, se houvesse gente séria e interessada no futuro da modalidade, a pesquisa teria acendido o sinal vermelho.

Mas....

segunda-feira, julho 28, 2014

Turma da frente e turma do fundão


No meu tempo de escola era comum que as classes fossem divididas entre turma da frente e turma do fundão.

Para os professores a turma da frente era formada pelos bons alunos, que se interessavam pelas aulas. No fundão sentavam os maloqueiros, que optavam pela bagunça.

Havia também a turma do meio, que trafegava entre as outras duas conforme o interesse.

O Campeonato Brasileiro também pode ser definido desta forma, com a licença poética de recordar os tempos da aurora de nossas vidas.

A turma da frente, aquela que constantemente deve disputar título e vaga na Libertadores parece estar caminhando para se tornar uma turma de elite.

Cruzeiro, Corinthians, Internacional e Fluminense formam, hoje, o pelotão de frente.

Ao que tudo indica, parecem ser os candidatos mais fortes ao título. Têm elenco, bons treinadores, jogadores decisivos e avançaram na busca por um padrão de jogo.

O Cruzeiro caminha a passos largos para desbancar Palmeiras e Vasco da posição de grandes forças populares e se instalar ao lado de Flamengo, Corinthians e São Paulo neste patamar. Tecnicamente, sempre foi dos gigantes nacionais.

Embora não vença o Nacional há muito tempo, o Inter é sempre candidato e ganhou muita coisa desde que se reinventou, a partir de 2003. O mesmo vale para o Corinthians, que aprendeu com a queda em 2007 e voltou ainda mais forte. O Flu é um ponto fora da curva porque, ao que se sabe, tem um futebol terceirizado que vem dando certo. Enquanto a patrocinadora for forte, o time será forte.

A turma do meio é numerosa.

Santos, São Paulo, Grêmio e Atlético Mineiro parecem seduzidos pelas primeiras filas, mas ainda lhes falta qualidade para dar o pulo.

Para uns faltam jogadores em posições-chave, para outras falta jogo coletivo, sistema tática definido, boas ideias.

O Santos ainda busca regularidade. O São Paulo procura uma forma de jogar, ainda não existe como estrutura coletiva e tem feito muitas apostas, altas, em jogadores que não respondem. Ao Grêmio faltam jogadores importantes em posições decisivas, como volantes mais capacitados. O Galo ainda vive a era de remodelação pós-Libertadores.

Claro que não se pode esquecer alunos que costumam sentar no fundão mas ousam buscar uma vaguinha lá na frente. Notadamente Sport e Goiás, com belas campanhas, ainda que sem muitos recursos. O Atlético Paranaense também figura nessa lista.

Existe uma classe de times que sempre viveu sentada na primeira fila mas parece ter caído no conto do fundão. Palmeiras, Flamengo e Botafogo estão ali. Não se contentam com o meio, por causa do passado importante, mas afundam sucessivamente em meio a péssimas administrações. Vivem hoje entre conquistas esporádicas, rebaixamentos ou luta para fugir de rebaixamentos, dívidas astronômicas e uma sucessão de dirigentes incapacitados.

O Flamengo insiste em acreditar que será salvo sempre pela força de sua torcida e de sua camisa, repetindo erros históricos. O Botafogo ensaia projetos de reconstrução que não se sustentam e soa refém da depressão de parte de sua torcida. O Palmeiras ofende seu passado com times pavorosos e dirigentes anacrônicos, independentemente de suas idades. Os três parecem fadados a sentar no fundo por um bom tempo até aprenderem suas lições.

Existe aquele pessoal da turma do fundão que luta com todas as forças para sair dessa situação, mas em condição desigual. Os catarinenses, os baianos e o Coxa. Times que não contam com os recursos financeiros dos grandes, resistem bravamente mas vivem numa eterna gangorra.

Aguardemos a sequência de jogos para ver como ficará a configuração da sala de aula.

sexta-feira, julho 25, 2014

A mulher de César e a seleção brasileira


Durante muito tempo eu escrevi Seleção Brasileira assim, em caixa alta. Coisa de manuais de redação, um terreno que seduz muita gente mais preocupada com a forma do que com o conteúdo. Mas esse é tema para outro texto.

Atualmente escrevo seleção brasileira em caixa baixa, principalmente quando me refiro à de futebol,  a masculina. Ela não merece mais do que isso.

Não sei se algum manual de redação por aí conocordaria se eu passasse a escrever também cbf em caixa baixa. Acho que não, porque vem aquela velha história das siglas, sendo em três letras sempre em caixa alta, mais que três em caixa alta e baixa etc. Pura perfumaria. Sempre achei que manuais de redação foram tentativas de algumas pessoas de vencer discussões de boteco quando receberam poder para tal. Não que sejam inúteis, mas...deixa para lá.

São dias difíceis para alguém, como eu, que cresceu identificando algo de mágico, místico e intocável na camisa amarela da seleção brasileira (e na azul também, claro).

Entregue ao destino comercial que os dirigentes escolheram para ela, tem perdido essa aura ano após ano.

É um pouco aquela velha máxima imperial romana de que à mulher de César não basta ser honesta, ela precisa parecer honesta.

Em mais uma grande reportagem, o colega Lúcio de Castro, um dos nossos últimos repórteres investigativos na área esportiva, prova com documentos que Dunga, o novo velho treinador da seleção brasileira, participou de negociações de jogadores, recebendo percentuais nessas negociações. Nada criminoso ou ilegal, registre-se.

Mas e a moral e os bons costumes? Casa com o discurso pseudo patriótico-nacionalista do treinador? Em especial quando seu novo chefe é um empresário de jogadores com 14 anos de carreira? Ainda mais quando Dunga se veste de intocável apenas por ter sido campeão mundial em 1994. Sem esquecer que antes dele três seleções já tinham sido campeãs mundiais pelo Brasil.

Será que alguém ainda se surpreende com isso?

Gilmar e Dunga não são protagonistas dessa tragicomédia. A chave do circo está nas mãos de quem os contratou, a dupla Marin/Del Nero ou Del/Nero/Marin, não importa a ordem. São eles que mandam no futebol brasileiro e entenderam que para reformular a seleção brasileria a melhor ideia seria contratar um empresário de jogadores e um treinador bissexto que também enveredou por esse mercado.

Aí retorna Mauro Silva, um bom cara, bom papo, mas que ano passado desancava a CBF (ops, cbf) e agora vai trabalhar para ela. Depois de ter fugido da Copa América da Colômbia com medo de terrorismo, mesmo tendo vivido na Espanha anos e anos quando  ETA (ou eta) marcava território a bomba.

Isso posto, bom final de semana a todos, porque os fatos falam, gritam.