sexta-feira, dezembro 28, 2012



Onde você está?




Eu atendia o chamado no telefone e vinha aquela voz potente, de trovão:

- Onde você está?

- Em casa, pai, você ligou para minha casa.

Ríamos juntos disso, incontáveis vezes.

E foi assim durante muitos anos.

Eterno desligado, meu pai sempre me telefonava em minha casa e perguntava onde eu estava, pensando que tinha ligado para o celular.

Talvez tenha sido o instinto paternal, que ele sempre teve aflorado.

Hoje sou eu que pergunto: onde você está?

Choro ao saber que não ouvirei mais aquela linda voz ao telefone, e pessoalmente.

Mas sei que ele está coberto de luz, acompanhado por seus amigos e familiares que o antecederam nesse processo.

A resposta está nas lembranças que temos e teremos aos milhares.

Fecho os olhos e o escuto me chamar de Piqueta, a solução que encontrei para a dificuldade de falar Picareta quando era criança, e ele transformou em apelido.

Vejo a relação especial que ele tem com minha mãe, um companheirismo firme e amoroso. Porque sei que ele estará sempre por aqui com sua presença.

Mas, que diabos!

Como dói saber que a voz agora está nas fitas, no Youtube, na memória afetiva de milhões.

Tantos jogos que vimos juntos, tantas férias, tantas viagens, conversas, taças de vinho, abraços, olhares.

Felizmente, ao contrário do andróide de Blade Runner, elas não se perderam no tempo, como lágrimas na chuva.

Como Diana Ross cantou para Marvin Gaye, eu tentei estar aí, mas você não me deixaria entrar.

Como Phil Collins cantou, ouvindo discos enquanto você assistia TV, não passei o tempo que poderia ter passado.

Ou melhor, passei, sim. Passei, passamos eu, você, mamãe, irmãs, família, amigos. Porque sabemos lá como passa o tempo?

Lembro de ver o Pelé tratando o Luiz como um velho amigo, do Moreno pedindo conselhos, do Marcel chamando você de senhor, do Adhemar Ferreira da Silva te abraçando como velho amigo, da Paula te dando um beijo carinhoso de filha, do Brandão telefonando em casa.

Dos churrascos em Indaiatuba, das árvores que você plantou, dos conselhos, das críticas pontuais, dos trotes que você passava nos amigos, do seu espanhol perfeito, das músicas do Alberto Cortez que você ouvia chorando, lembrando do vovô Epifanio e da sua amada Espanha.

Agora sou eu que pergunto onde você está?

Fecho os olhos e sei que você responde, com esse vozeirão maravilhoso:

- Com Deus e com vocês.

 

terça-feira, dezembro 18, 2012



Vai ser difícil segurar



Coluna publicada nesta terça no Diário de S.Paulo.


Para ler: http://www.diariosp.com.br/blog/detalhe/15613/Vai+ser+dificil+segurar+o+Corinthians

segunda-feira, dezembro 17, 2012



A Era da Fiel



Aviso aos rivais e adversários do Corinthians no fuebol brasileiro: se não abrirem os olhos, todos serão vencedores fugazes e espectadores de uma longa era de conquistas alvinegras, a Era da Fiel.

O Corinthians demorou, mas conseguiu costurar uma parceria com seus torcedores, que praticam a fidelidade como nunca antes visto, lotam os cofres do clube e viabilizam o poderio econômico.

Mas de nada adiantaria o poderio econômico se não houvesse visão administrativa e uma palavra-chave: ousadia.

O Timão bicampeão mundial não tem vergonha de sonhar longe, de voar alto, e querer sempre mais.

Em vez de chorar o complexo da superioridade européia e desfilar desculpas, o Corinthians foi à luta e mostrou que é possível fazer futebol competitivo, profissional e gerar dinheiro no Brasil.

Se souber manter a postura profissional, reduzir a dívida (que ainda é alta e cresce), o Corinthians estará trilhando o caminho para se transformar no primeiro time brasileiro verdadeiramente global e internacional.

Anotem aí e me cobrem.

quarta-feira, dezembro 12, 2012



Encontros e despedidas



Em ritmo de final de temporada, com encontros e despedidas marcando o que resta do esporte, em especial do futebol, neste 2012.

A linda festa da torcida palmeirense para Marcos mostra que ídolos e instituições estão muito acima de jogadores incapazes e dirigentes incompetentes. Os alviverdes tiveram uma noite de gala para lembrar que a Sociedade Esportiva Palmeiras está muito acima de fases, de momentos ruins, e permanecerá depois que todos nós já tivermos passado.

Marcão é uma das melhores figuras que conheci no futebol, além de ter sido um goleiro excepcional.

Outra despedida anunciada é a do garoto Lucas, revelação do São Paulo. Um menino de muito boa formação e grande talento para evoluir e se confirmar como grande jogador. Ele é a antítese do boleiro nacional de plantão. Não é marrento, não cria caso, não inventa contusão, nem tira o pé das divididas após ser negociado para a Europa.

Não tenho dúvidas que essa postura de Lucas ajudou a transformá-lo em ídolo, mesmo sem ter vivido as fases de glória do Tricolor paulista.

Mas não há apenas despedidas, há encontros marcados.

O do Corinthians com a final da Copa do Mundo de Clubes. Diante de Chelsea ou Monterrey.

A dificuldade encontrada pelos alvinegros contra o Al Ahly não me surpreendeu. Vi três semifinais de Copa do Mundo de Clubes "in loco", uma delas dentro de campo, em 2006. Era o Inter contra este Al Ahly, embora com uma equipe diferente. Foi sufoco do mesmo jeito, 2 a 1 para os gaúchos.

O jogo é mesmo tenso, porque envolve uma suposta certeza de um lado e um desejo de superação de outro. É um jogo que europeus e sul-americanos já venceram há seis meses, sem precisar jogar, na cabeça de torcedores e analistas. Essa certeza quando não se confirma facilmente, se transforma em dúvida. Mais uma vez foi o que se viu. Além de uma atuação pouco inspirada e cautelosa do Corinthians.

Cumprida a escala, a tendência é um time pelo menos mais solto na decisão, contra quem ela seja.

Mas o susto serve para tirar os torcedores e alguns analistas/torcedores do estado de euforia que viviam. Nada é fácil no futebol de nível internacional.

Sobre Marcos e Lucas, recomendo o texto do Blog do Menon.

terça-feira, novembro 27, 2012



A Seleção e o

jogo do poder




Na coluna publicada hoje no Diário de S.Paulo.

Leia aqui.

 

sexta-feira, novembro 23, 2012



Foi-se o Mano


Mano caiu. Talvez na hora errada pelo desempenho da seleção, que vinha melhorando. Mas jamais chegou a ser convincente como treinador do Brasil. Até porque quando assumiu não era a hora dele assumir. Pegou um atalho, arriscou, mas a precipitação ficou eviddnte. Mas que ninguém se engane. Com qualquer técnico, o problema da seleção é que já faz algum tempo que não somos os melhores e não temos mais os melhores jogadores do mundo. É preciso entender e saber conviver com isso como treinador. Quem assumir precisa ter isso em mente.

quarta-feira, novembro 21, 2012



Bola de dinheiro


Fala-se muito sobre o novo patrocínio do Corinthians e, consequentemente, o debate evolui para tudo que envolve investimentos no futebol brasileiro.

Parece lógico e inteligente que a Caixa Econômica Federal busque patrocinar um dos times mais populares, se não for o mais popular do Brasil. É garantia de exposição por um preço relativamente barato se for comparado a campanhas publicitárias em horário nobre de TV e afins.

Também parece lógico e inteligente que o contribuinte questione o fato de um banco estatal (ainda que de direito privado) invista em patrocínio de esporte de alto rendimento. Eu, ideologicamente, defendo que o Governo e suas empresas estatais ou mistas devam investir em esporte como parte da educação, na base, não em patrocínio de atletas olímpicos e times de futebol profissional.

Assim como penso que a Lei de Incentivo ao Esporte não pode ser usada, por atalhos, para que qualquer time de futebol capte dinheiro para obras que revertam futuramente em lucro com a venda de direitos econômicos de atletas profissionais.

Os times de futebol do Brasil já gozam de inúmeros incentivos governamentais, nas esferas municipal, estadual e federal.

As grandes equipes têm acesso a patrocínios milionários, ganham dinheiro com marcas de material esportivo, com venda de jogadores, direitos de transmissão de TV, bilheteria e outras fontes.

A bola rola cheia de dinheiro para os chamados 12 grandes clubes brasileiros. Os 4 de São Paulo, os 4 do Rio, os 2 de Minas e os dois do Rio Grande do Sul. Muito mais cheia para paulistas, pelo tamanho do mercado, seguido por cariocas. Mineiros e gaúchos ainda estão longe desse patamar. Mesmo assim, suas operações cotidianas envolvem fortunas.

O futebol tem um apelo popular, e consequentemente político, inigualável.

Poucos são os clubes que devolvem à sociedade serviços compatíveis com a quantidade de benefícios fiscais e de toda sorte que recebem dos governos. Poucos clubes têm escolas para a comunidade vizinha aos centros de treinamentos, que, em muitos casos, são áreas públicas cedidas.

Sem contar a influência politica em eleições, já que os times de massa reúnem um potencial eleitoral tremendo.

Sempre houve políticos trabalhando nos bastidores por seus times do coração. Não tem santo nessa área. Mas acho que os clubes deveriam tentar fugir desse tipo de relacionamento. Pode parecer vantajoso de forma imediata, mas traz consequências nefastas ao longo do tempo. Quem hoje é situação, amanhã pode ser oposição, e o que é ajuda vira empecilho ao final de uma eleição.

Não existe problema legal algum em uma empresa estatal fazer propaganda ou marketing com o futebol. Afinal, elas concorrem no mesmo mercado que outras empresas. A questão moral cabe a cada um avaliar, além da questão filosófico-ideológica. Eu tenho minha visão ideal de projeto esportivo para o País. Cada um que tiver a paciência de ler esse texto terá a sua. Todas merecem respeito.

O futebol e o poder sempre tabelaram descaradamente no Brasil. Seja poder oficial ou paralelo, como acontecia no auge do jogo do bicho no Rio.

Políticos apaixonados por seus times do coração sempre tentaram dar uma ajuda mundo afora. O italiano Mussolini era Lazio. O espanhol Franco empurrava o Real Madri com sua mão de ferro. O argentino Perón amava o Racing. Todos eram ditadores, totalitários, criavam suas próprias regras.

Acho uma covardia algumas absurdas comparações que fazem com o ex-presidente Lula, por causa de sua declarada paixão pelo Corinthians. Lula foi eleito democraticamente duas vezes, tem uma biografia que está milhares de pontos acima de gente como aquela citada no parágrafo acima.

Fala-se abertamente que foi de Lula o empurrão providencial para a construção do novo estádio do Corinthians, quando ainda era presidente. Assim como muita gente tem comentado que partiu dele o apoio fundamental para o patrocínio da Caixa.

Não sei se os fatos realmente aconteceram dessa maneira.

Mas posso opinar que, se foram assim, não parecem condizentes com a postura de um presidente da importância de Lula. Nem de um ex-presidente com seu peso e liderança. Porque ele é um presidente e ex-presidente de todos os brasileiros, acima de qualquer paixão clubística, independentemente de qual seja essa paixão.

Assim como posso afirmar que o Corinthians é suficientemente grande e popular para ser cobiçado por qualquer empresa que queira expor sua marca. Sem para isso precisar de ajuda oficial.

O Corinthians não é o único time na história do Brasil a ter um político poderoso como seu torcedor fanático. Mas o que penso vale para qualquer equipe. As instituições futebolísticas e esportivas devem pairar sempre acima da questão política. Porque, como diz o ditado popular, pau que bate Chico, bate em Francisco. Um dia é da caça, outro do caçador. 

terça-feira, novembro 20, 2012



Sobre a segunda

queda do Verdão


Texto publicado neste dia 20/11/2012 em minha coluna no Diário de S.Paulo.

http://www.diariosp.com.br/blog/detalhe/14661/Resposta+real+e+imediata

sexta-feira, novembro 09, 2012



Copa da frescura



Saiu a lista das cidades da Copa das Confederações. Sempre que a Fifa confirma algo, seja para a Copa das Confederações ou a Copa do Mundo, reforça aquela ladainha de obras atrasadas, de exigências de estádios e uma série de cobranças.

Faz parte de um bem ensaiado jogo de cena que ajuda a justificar o negócio milionário.

Nada é tão perfeito num evento como a Copa do Mundo. Embora a organização seja muito boa.

A questão é que, ao contrário do que ocorreu na África do Sul, quando havia uma boa vontade mundial em relação ao continente-mãe da nossa raça, no caso do Brasil isso não ocorre. Somos "potência emergente", queridinhos da economia Mundial, a bola da vez. E mundialmente conhecidos pela fama de deixar tudo para a última hora.

Longe de mim querer ser ufanista e patriota nesses assuntos. Inclusive abomino aquele anúncio boboca de marca de cerveja que tenta vender uma ilha da fantasia. Acho que vão gastar demais com estádios que serão inúteis e obras que mereceriam ser chamadas de legado deixarão de ser feitas.

O tema aqui é outro, é uma certa frescura da Fifa em relação a obras e estádios, o tal jogo de cena. Tudo precisa estar 100%, pede a dona da bola. Balela. Em 2010 o entorno e mesmo a parte interna do Soccer City estavam em obras com a Copa em andamento. Havia pedra solta, barro e pedaços de pau por toda a parte. O terminal de ônibus do estádio só foi funcionar do meio para o final da Copa, e o de trem bem no finalzinho.

Os aeroportos de cidades como Plokwane e Bloomfontein são piores do que muitos dos nossos piores.

Quando se fala da Uefa, que costuma ser tão rigorosa quanto a Fifa, também há buracos, e muitos. Na Euro 2012 o estádio de Gdansk, na Polônia, também não estava 100% concluído, o entorno era cheio de obras interrompidas, buracos transformados em lagos pela chuva. Torcedores tinham que caminhar quilômetros ao relento para encontrar transporte.

Se acontecer algo aqui, a gritaria será enorme. Se acontece na Europa, o tom da crítica dos europeus é outro. Entra em campo o sentimento comunitário velho-continental. Aqui é Europa, meu filho! Isso se for o que o europeu considera Europa.

Os aeroportos e as companhias aéreas da Ucrânia fariam os brasileiros virar topo de linha se fossem o parâmetro, tamanha a ruindade. Lembro direitinho do comissário de bordo italiano, aos berros, gritando com o funcionário do aeroporto de Kiev: "Isso aqui não é a Europa!"

Enfim, haverá uma cobrança forte, que deve haver, porque no Brasil tudo é feito meio que nas coxas. Mas essa cobrança também haverá para cumprir e enfatizar a submissão do colonizado sul-americano ao chefe europeu, ao dono do negócio. Isso sem discurso apelar para discurso pelego, que eu detesto.

O que a Fifa quer que esteja funcionando direitinho é o portão de acesso e o caminho que as principais autoridades mundiais percorrerão no jogo de abertura e na final. Que o mármore esteja lá, bonitinho, que a tribuna de honra seja limpa, confortável e bem abastecida de mimos, que haja uma entrada exclusiva, subterrânea e livre de lentes e olhares curiosos.

Cabe a nós, cidadãos, cobrar o que realmente nos interessa. Além de estádios milionários, teremos alguma obra relevante de infra-estrutura que ficará? Onde, por que preço?

Depois da Copa o que será feito dos estádios de Brasília, Cuiabá, Manaus?

O resto é perfumaria.

quarta-feira, novembro 07, 2012



O modelo do campeão



Pode não ser neste domingo, mas fatalmente será antes da última rodada. O Fluminense confirmará o título que conquistou com todos os méritos em mais alguns dias, faturando o Brasileirão de pontos corridos duas vezes em três anos. Estabeleceu um domínio, portanto.

Mas quais os segredos, qual a cara, e qual é o modelo desse time que assume a ponta do futebol nacional?

É mais fácil explicar o que acontece em campo do que fora dele. O Flu de Abel Braga é um campeão simples, direto, sem frescuras. Como quase sempre são os campeões dirigidos pelo Abel. O futebol raramente se presta a grandes sofisticações, revoluções, tipo o Barcelona, o Santos de Pelé. Historicamente há bons times em profusão, dezenas de grandes times e raras equipes espetaculares.

O segredo desse Flu de Abel está na perfeita compreensão dos jogadores da proposta de seu treinador. O time é taticamente moderno, está inserido no contexto atual do futebol. Trata, primeiro, de se defender bem, de perder pouco. Depois, resolve os jogos.

Particulamente, gosto da maneira como o time do Fluminense se recompõe. São raros os gols de contra-ataque, daqueles que pegam zagueiros, laterais e volantes correndo de frente para o próprio goleiro, numa clara situação de time dessarumado. Por falar em goleiro, um dos segredos é ele, Diego Cavalieri, o melhor do campeonato. Quando o time falhou, ele esteve presente para garantir.

Mesmo sem contar com jogadores de defesa especialmente talentosos, o Fluminense sabe se defender. Isso chama-se disciplina tática. Os volantes protegem bem a defesa, cobrem os avanços dos laterais. Jean se destaca pela mobilidade. Aparece no ataque, volta para cobrir laterais, tem o pulmão e a execução de um volante moderno. Edinho contribui com experiência e conhecimento tático dentro de campo, tratando de organizar em campo o que Abel pede.

E do meio para frente entra o talento de um grupo de jogadores acima da média atual do nosso futebol. Deco, Fred, Nem, Thiago Neves, Wagner, Sóbis. Essa turma, mesmo os que ficam mais no banco do que em campo, seria titular em qualquer outro time brasileiro.

Como falei da simplicidade, no Fluminense ela se verifica pela dupla de ataque quase frequente. Wellington Nem é o jogador de lado de campo, rápido, driblados, o complemente ideal para um definidor de estilo e categoria como Fred. Mais que isso, Nem sabe entrar na área, faz gols, e volta para marcar. Porque quando não tem a bola, o Flu se fecha como poucos times sabem fazer. Diria que apenas o Corinthians se defende tão bem. Abel coordenou de maneira perfeita essa transição de sistema de jogo. Atacando, o Flu chega com Nem, Fred, Thiago Neves, Deco e até Jean. Sendo atacado, laterais e zagueiros formam uma linha de quatro, os volantes ficam à frente dessa linha, outros três atletas preenchem o espaço da linha divisória e apenas Fred fica mais à frente.

A grande diferença em relação ao Atlético Mineiro e ao Grêmio é  consistência defensiva, o fato de perder menos e conseguir vencer partidas nas quais é dominado pelo adversário. O Fluminense não teve vergonha alguma em ser dominado. Pelo contrário, soube tirar proveito dessa situação.

E fora de campo, que modelo tem esse campeão?

Diria que é uma espécie de mecenato. Há um torcedor, um empresário com muitos recursos, que os canaliza para sua maior paixão, sabendo tirar proveito em favor da enorme exposição que o futebol dá a sua marca. O Fluminense pracicamente terceirizou seu futebol, em termos financeiros, para essa empresa, a Unimed, do ramo de planos de saúde. É um modelo. Pode-se contestá-lo, dizer que não vai durar para sempre, mas foi a saída encontrada por um clube que vinha acumulando problemas, ainda luta com uma dívida astronômica e não tinha capacidade de investimento.

Houve várias soluções parecidas no Brasil. O Palmeiras com a Parmalat. Parceria de sucesso que o clube paulista não soube capitalizar em termos administrativos e hoje sofre com a incompetência de seus dirigentes em administrar essa herança. O Corinthians tentou com banco, com fundo de pensão americano, com empresário de origem duvidosa mas foi se acertar por conta própria depois de tudo isso. O Cruzeiro embarcou na mesma onda do fundo de pensão que o Corinthians abraçou. Inter e Grêmio apostaram, com sucesso, em excelentes projetos de sócios-torcedores.

O São Paulo sempre foi avesso a parcerias declaradas, mas sempre as teve com empresários de jogadores, daqui e do exterior (Figger, Todé, Torcal), e segue nesse ritmo até hoje. O Flamengo ainda não encontrou uma maneira de capitalizar a força de sua gente. Deveria mirar no exemplo do Corinthians.

Mas o Flu achou seu caminho. Não é definitivo. Já esteve à beira de ser interrompido esse projeto, porque basicamente depende de uma pessoa, o mecenas. Como a política dos clubes de futebol brasileiros é canibal, uma palavra pode fazer ruir o castelo. Seria o caso de aproveitar o período de bonança e construir um projeto que possa resistir às tempestades que atingem todos os times.

A grande lição do mais que provável campeão brasileiro de 2012 está na simplicidade do jogo, na eficiência da execução da proposta e no fato de ter bons jogadores em bom número. Porque por melhor que seja a teoria na prancheta, sem bons jogadores não se faz um bom time. Pode colocar o Rinus Michels, o Telê, o Guardiola no banco. Não vinga sem gente boa de bola em campo.

terça-feira, novembro 06, 2012


Se fosse só o calendário...



Vira e mexe vem à tona a discussão sobre o calendário do futebol brasileiro. Para muita gente existe uma solução mágica: adequar o calendário brasileiro ao europeu. E aí de você se pensa diferente, porque você cai nas malhas dos intolerantes, que defendem suas teses como vacas sagradas e satanizam quem ousa pensar diferente.

Eu não ligo para patotas e panelas. Gosto de ter minha opinião, meu jeito de pensar. A diferença é que não satanizo nem abomino quem pensa diferente. Apenas respeito e tento debater com argumentos, civilidade.

Não acho que soluções que podem ser boas para a Europa, ou para algumas ligas da Europa, também sejam boas para o Brasil. Há uma parcela de torcedores, analistas e dirigentes que vê na Liga Inglesa o sonho de consumo, acha que o futebol brasileiro deveria simplesmente tornar-se súdito de Sua Majestade para encontrar o Nirvana.

A solução de um problema na Inglaterra ou na França não precisa necessariamente ser a solução de um problema no Brasil. Apenas porque o futebol, o nosso, o bretão, não é um sucesso nos Estados Unidos da América, muitas vezes deixamos de lado as lições que aquele país tem para dar em termos de organização esportiva e calendário.

Pois lá sobrevivem, e muito bem, diga-se, ligas de vários esportes, sem competir uma com a outra, respeitando condições climáticas e gerando situações econômicas e de organização que parecem inimagináveis para nosso País. Hóquei, Beisebol, Basquete e Futebol Americano têm seus calendários, seus formatos, que são adequados para a realidade norte-americana, para a personalidade norte-americana.

O futebol europeu, em especial o das grandes ligas, corre junto com a vida dos respectivos países. Experimente propor a um espanhol que façam jogos de futebol no alto verão? O calendário do esporte mais popular entre os espanhóis segue o calendário escolar e parlamentar do País, o que parece lógico, racional.

A Alemanha interrompe sua Bundesliga entre 15 de dezembro e 19 de janeiro, período que engloba as festas de Natal e Ano Novo e os piores dias do inverno.

A Inglaterra faz jogos em 26 de dezembro e primeiro de janeiro e os ingleses estão acostumados a isso.

Há casos de jogos às segundas-feiras, jogos à meia-noite, tudo por questões de contrato, acertado, e não se faz metade da chiadeira que acontece por aqui.

O que acontece é que ao querer importar um modelo é preciso, antes, avaliar as condições a que esse modelo será submetido. O que parece simples para casos clássicos como, por exemplo, automóveis. Um carro sucesso de vendas na Inglaterra pode ser um fracasso retumbante no Brasil. Será difícil perceber que essa situação também pode se repetir no futebol?

Qual a maior distância que um time viaja no Campeonato Inglês, que é praticamente metropolitano se comparado ao Brasileirão? Se não estou enganado, não há uma partida na Liga Inglesa em que a equipe seja obrigada de maneira incondicional a viajar um dia antes. No Brasil, dependendo da equipe em questão, um time do Nordeste para jogar no Sul pode precisar viajar com dois, até três dias de antecedência.

Há, ainda, uma questão básica que muita gente parece esquecer. São hemisférios diferentes, realidades geográficas e econômicas diferentes. Imagine o Náutico, por exemplo, jogando no dia 26 de dezembro à noite em Recife, e tendo jogo no dia 1 de janeiro em Porto Alegre. Chegaria a tempo? Encontraria hotel?

Será que algum romano admitiria partidas de calcio em pleno verão? Ou os parisienses? Ou alguém acha que os profissionais do futebol desses países também não gostam de gozar o sagrado direito das férias quando elas se apresentam mais apetitosas no chamado Velho Mundo?

Não parece racional que o futebol, esporte mais popular do Brasil, siga a lógica do calendário do próprio País? Os jogadores de futebol que também são pais não teriam o direito de estar em férias no mesmo período em que seus filhos descansam da escola? Ou parece um contrasenso? Ou apenas porque um grupo de pensadores pôs na cabeça que porque na Europa é assim a gente deve copiar?
Alguém aí realmente acha bacana jogo de futebol no feriado universal de primeiro de janeiro? Ou na antevéspera de Natal?

O que se debate pouco é a racionalização do calendário, não a macaquização de auditório proposta por alguns.

Também sou contra a demonização dos estaduais. Que, curiosamente, não eram demonizados quando eram transmitidos por quem não transmite mais. Sou, sim, a favor, da racionalização e adequação dos estaduais à nova realidade. Existe um mercado de trabalho ali, uma realidade regional que deve ser respeitada e que muitas vezes ajuda a manter vivos clubes tradicionais. Em alguns casos são muito mais racionais e viáveis que monstrengos tipo Copa Sul-Minas, por exemplo, uma aberração inclusive geográfica.

Basta botar na cabeça dos dirigentes (o que admito ser complicado) que estaduais são torneios de início de temporada, que podem servir muito bem para oferecer um bom aquecimento rumo aos torneios nacionais e continentais e, ainda assim, cumprir seu papel de entreter o público e gerar receitas quando a roda recomeça a girar após as férias.

Mas é impossível torná-los rentáveis com 20 times, 16 times, apenas para garantir votos que perpetuem dirigentes no poder.

Os torneios de verão na Argentina cumprem bem esse papel, têm tradição, rivalidade e relativa importância. Poderiam ser utilizados como exemplo.

Com estaduais menores é possível fazer uma tabela também melhor dos Brasileiros A e B, poupar os times de convocações fora de hora da seleção brasileira e encaixar uma semaninha para amistosos ou torneios.

Vejo muita gente de valor argumentar sobre excursões dos times brasileiros ao exterior, pré-temporadas em países da Ásia e do Mundo Árabe. Sinceramente, se fosse assim tão fácil, já estaria sendo feito. A dura realidade é que nossos times não existem como atração para esses mercados e duvido que alguém pague quantias que justifiquem ou viabilizem esse tipo de projeto.

A ideia da Copa do Brasil durante toda a temporada e abrigando as equipes eliminadas da Libertadores é coerente com a ideia de não matar o negócio.

Reduzindo sem exterminar os estaduais haveria espaço maior entre as decisões e o início do Brasileirão, um tempo para respirar, para organizar um jogo de abertura da temporada nacional entre o campeão da série A e o campeão da B, por exemplo. Tempo de criar expectativa.

Na hora de justificar o argumento, pouca gente recorda que a Argentina fez sua versão de adequação parcial ao calendário europeu e o futebol do país vizinho nem por isso enriqueceu ou saiu fortalecido. Longe disso, foi estatizado, está caindo aos pedaços em termos de infra-estrutura e muitos de seus jogadores sonham com a Europa ou uma boquinha no Brasileirão.

Atribuir culpa ao calendário, que hoje é muito mais organizado do que era há 15 anos, é querer fugir da responsabilidade pela má administração do negócio. Nunca circulou tanto dinheiro no futebol brasileiro, e as dívidas dos clubes geralmente só fazem crescer.

É possível fazer um modelo brasileiro de futebol, bem pensado, bem administrado, sem neuroses com janelas de transferência (que foram praticamente esquecidas, não é?). Inclusive aproveitando o fato de a nossa janela ser diferente daquela que abrange as principais ligas européias e cobrando mais pela liberação de jogadores em janeiro.

Numa comparação propositalmente esdrúxula seria como acreditar que se falássemos francês ou inglês, em vez de português, talvez tivéssemos mais educação, cultura e civilidade. Essas coisas não nascem com o idioma, não se compram como pacote e se aplicam. Boas ideias se copiam. Mas não se joga vôlei de praia no Alasca, nem se consegue organizar o campeonato brasileiro de esqui na neve em território brasileiro.

Feijoada é feijoada, fish and chips é uma outra história.


 

quarta-feira, outubro 31, 2012



É ilegal, é imoral e

engorda a chatice



Confesso que não é um dos melhores momentos para ser comentarista de esportes, em especial de futebol. Porque o futebol está se superando na arte de ficar a cada dia mais chato. E todos nós que estamos envolvidos nesse jogo apaixonante temos nossa parcela de culpa. Jogadores, dirigentes, imprensa, árbitros e torcedores.

Estamos transformando algo que era lúdico em questão de vida ou morte, de discussão acadêmica de Direito, de diferença regional e cultural, de arrogância e complexo de inferioridade. Fala-se mais de arbitragens e tribunais do que de tática, técnica, habilidade, destreza. Promotores, auditores, diretores jurídicos, delegados de arbitragem, figuras que deveriam trafegar na periferia do esporte, hoje andam nas manchetes. Erro nosso, que damos manchete para isso, erro de quem provoca a manchete porque erra no aspecto moral e também no aspecto legal. Mas, principalmente, erro de quem acha que no futebol há uma ética, um código de comportamento que pode correr paralelamente aos códigos de ética da sociedade.

A arbitragem brasileira vive um momento péssimo. Fez uma renovação apressada, incoerente e vive bombardeada por imagens em alta definição, por jogadores malandros, por treinadores e dirigentes histéricos e por torcedores fanáticos. Acusa o golpe, apita acuada, pressionada, o que potencializa o despreparo de muitos árbitros.

Claro que a postagem remete ao jogo Inter e Palmeiras. Para resumir o que penso e não ficar mais do que merece esse tema de tribunais e apito, há um fato: um gol marcado com a mão. Não pode. Há uma suposição em cima de um fato: esse gol teria sido anulado com auxílio de uma pessoa que não fazia parte do quadro de arbitragem escalado para o jogo. Se a suposição for comprovada como fato, também não pode. O terceiro fato: só se anula um jogo com prova cabal de interferência externa ou manipulação de resultado. O que remete ao erro grosseiro ocorrido em 2005, coincidentemente envolvendo também o Internacional. Porque erro grosseiro? Porque não se produziram provas cabais de manipulação de resultado para que jogos fossem anulados. Não fui eu quem disse isso, foi Paulo Schmidt, procurador do Stjd. Está gravado nos arquivos do programa Arena SporTV. No campo legal, o Palmeiras tem direito de investigar se houve realmente essa interferência e tentar provar que ela realmente ocorreu.

Passo agora para a análise moral. Barcos está errado ao fazer um gol com a mão. Como estão errados todos os muitos jogadores que atuam no Brasil, brasileiros e estrangeiros, que simulam faltas, cavam pênaltis e coisas desse tipo. Como estão errados os treinadores que atuam no Brasil e se utilizam de artifícios que não estão na regra para tentar levar vantagem. Perguntam a cinegrafistas, repórteres, a assistentes técnicos e diretores que têm acesso às imagens do jogo se houve falta ou irregularidade e, munidos dessa informação, que é ilegal para efeitos do que acontece no campo de jogo, partem para o ataque covarde contra a arbitragem. Mas quando o erro é a favor de seu time, calam e, quando muito, falam no final da coletiva ou no dia seguinte. Tudo malandro de ocasião. Querem, sim, levar vantagem em tudo. Mas não assumem.

Certo está o Seedorf, que detonou essa malandragem do boleiro nacional.

Se algum repórter oferece informação para um treinador ou jogador, está errado. Repórter não trabalha para time ou para a arbitragem, trabalha para a empresa que paga seu salário e tem o dever de informar quem está vendo, ouvindo ou vai ler o jogo. Só isso.


Muita gente tem razão no episódio ocorrido no Beira-Rio. O Internacional é quem tem mais razão. Afinal, sofreu um gol ilegal e imoral, não poderia ser validado. Esse é o único fato 100% comprovado pelas imagens. Mas repito: imagem não apita jogo. Quem apita jogo são os seis árbitros que hoje estão em campo. O principal, os árbitros assistentes (bandeirinhas), os adicionais (que ficam atrás dos gols) e o quarto árbitro. Fora esses, quem se intromete na arbitragem não está fazendo Justiça, mas, sim, agindo como justiceiro.

Não posso ser leviano e afirmar o que realmente houve no Beira-Rio. Não estava lá, só tive acesso às imagens e aos depoimentos dos envolvidos. Mas algumas coisas podem ser tiradas da análise das imagens. O gol foi validado pelo árbitro principal e também pelo assistente e pelo adicional que estavam do lado do campo naquele momento defendido pelo Inter. As imagens são cristalinas quanto a isso.

Quem assume a anulação do gol é o quarto árbitro. O que causa estranheza é ter demorado mais de seis minutos para fazê-lo. Se realmente viu, porque demorou tanto tempo? Não se trata de duvidar, mas de perguntar para esclarecer, uma regra jornalística. Seis minutos não é muito tempo para quem tem certeza do que viu?

Lamentável o fato de o presidente da Comissão de Arbitragem, Aristeu Leonardo Tavares, até agora não ter convocado uma entrevista coletiva para falar sobre o fato e tentar elucidá-lo. Assim como é inacreditável que na súmula do jogo esteja declarado que nada de anormal ocorreu. Prefere o caminho mais fácil de atacar o jogador que cometeu o ato ilegal, mas não ataca os árbitros que cometem barbaridades a cada rodada.

Duvido que o jogo seja anulado, pela dificuldade em se encontrar uma prova cabal de interferência externa. Repito: o Inter tem razão nesse momento, no aspecto moral, e o Palmeiras pode ter razão, se conseguir provar, no aspecto legal.

Se evoluirmos, cada um dentro de sua área de atuação, para comportamentos mais éticos e restritos a nossas competências, poderemos contribuir para que eventos como esse não se repitam. O jogador não deve tentar enganar alguém, sob pena de ser enganado na rodada seguinte. Instrutor de arbitragem não pode querer apitar jogo. Jornalista também não pode. Torcedor tem que amar seu clube, não odiar o adversário e ficar disparando teorias conspiratórias sem comprovação pelas cada dia mais chatas redes sociais. Porque essa coisa do roubado é mais gostoso é nojenta.

E quem sabe na próxima rodada a gente possa falar mais de dribles, chutes, defesas e gols marcados com os pés e as cabeças.

quarta-feira, outubro 24, 2012



Supetramp brinda

 

fãs com relíquia




Para toda uma geração, da qual faço parte, o disco (sim, naquela época a gente chamava assim) Paris, do Supertramp, é um ícone. Registro ao vivo de dois dos quatro shows que a banda fez entre o 29 de novembro e 2 de dezembro de 1979, no Pavillion de Paris, o álbum duplo (posteriormente relançado em CD) era presença obrigatória em qualquer estante de discos.

Ouvir a ambiciosa Fool´s Overture a todo volume fazia parte do ritual de fim de noite em muitas festas regadas a cuba libre (para quem já bebia). Isso sem falar na emblemática Logical Song, que ajudou muita gente a tirar boas notas em inglês na escola, uma esfuziante Dreamer e em outros clássicos da banda capitaneada por Rick Davies, Roger Hogdson e John Helliwell.

A engenharia de som fantástica de Russel Pope fez de Paris um dos álbuns ao vivo com a melhor qualidade sonora do pop/rock. A musicalidade e o virtuosismo do Supertramp foram captados com o que havia de melhor em termos de tecnologia em 1979, e o som do disco oferece uma experiência próxima à de assistir ao concerto ao vivo.

Os fãs mais fiéis da banda sabiam da existência de uma filmagem de um dos quatro show que o Supertramp fez em Paris naquele final de 1979, para promover o disco Breakfast in America. O Supertramp estava no auge, e o álbum colecionava números um pelo mundo afora.

O que se sabe agora, por obra da Eagle Rock Entertainment, que tem constantemente brindado fãs do bom pop/rock com DVDs e Blu-Rays de altíssima qualidade, é que o terceiro daqueles quatro shows do Supertramp foi filmado em 16 milímetros, com extravagantes - para a época - quatro câmeras. O conteúdo de quase todo o show foi remasterizado e editado em alta definição e empacotado em DVD e Blu-Ray, com o som também remasterizado das fitas originais pelo engenheiro Russel Pope e o produtor-assistente Pete Henderson.

Situações inimagináveis hoje, mas prosaicas para a época, fizeram com que cinco das canções daquele show não tivessem sido filmadas. Os rolos de filme eram insuficientes para as duas horas e meia de espetáculo, e o orçamento não permitia extravagâncias.

Para suprir essa ausência, a Eagle Rock e o Supertramp oferecem as cinco músicas (Ain´t Nobody But Me, You Started Laughing, A Soap Box Opera, From Now On e Downstream) remasterizadas com imagens produzidas especialmente para o DVD. O resultado é o ponto fraco do pacote. Lembra muito vídeos amadores que estão no Youtube ou apresentações em Power Point. Mas a qualidade do áudio compensa.

As imagens capturadas em película são o registro fiel da época e não se mostram artificiais quando convertidas para o formado em HD. Algumas perdas de foco dão o tom realista ao projeto.

O que mais interessa é a performance afiadíssima da banda. Rotulado como progressivo e rock-arte por alguns, o Supertramp desafiava carimbos por ser apenas e tão somente uma grande banda, integrada por músicos de grande categoria, capazes de repetir com fidelidade absoluta o som produzido em estúdio, e ousados o suficiente para inserir algumas inspiradas jam sessions.

Rick Davies (vocais, teclados e harmônica) e Roger Hodgson (vocais, guitarras e teclados) são as vozes da banda, mas o DVD deixa claro que John Helliwell, responsável pelos instrumentos de sopro e alguns teclados, tinha forte liderança e influência sobre o som da banda. O baterista Bob Siebenberg e o baixista Dougie Thomson formavam uma cozinha ritmícia de rara consistência, sustentando a veia jazzística da banda, cujo representante principal era Davies. Cabe lembrar aqui que a canadense Diana Krall, estrela do jazz atual, é fã do Supertramp, o que ajuda a viabilizar a conexão.

Quase todos os clássicos do Supertramp estão no DVD. A delicada e belíssima Hide In your Shell, a alegria acústica de Give a Little Bit, e mais Goodbye Stranger e a progressiva Crime of The Century. Uma coleção impressionante de sucessos e competência musical.

Assim como no disco e no CD, também no DVD Fool´s Overture se destaca. Pelo desempenho impecável dos músicos, as projeções de imagens no telão e uma inusitada invasão do palco por integrantes da equipe da banda fantasiados de personagens como Chaplin e Superman e uma inexplicável banana.

Uma relíquia que agora chega às lojas, por cerca de R$ 40 (o DVD), resgatando um dos mais importantes grupos e uma das mais inspiradas performances do final dos anos 70.

Vale cada centavo.


Tribunal não pode apitar os jogos*

*Reproduzo aqui a mais recente edição da colun a que publico às terças no Diário de S.Paulo.
 
Reflexo da sociedade da qual faz parte, o futebol brasileiro é tão confuso quanto o país. Situações e personagens se misturam de tal maneira que muitas vezes é difícil apurar e apontar responsabilidades. Um exemplo é a atuação dos integrantes dos tribunais de Justiça Desportiva, que recentemente parecem dispostos a agir como árbitros de futebol.

Entendo e reconheço que as atuações de promotores, auditores e outros integrantes dos tribunais, outrora chamados de tapetão pelo irreverente torcedor brasileiro, são necessárias, porém, como disse o Filho do Homem, “a César, o que é de César”.

Em minha visão de leigo, mas interessado e estudioso, os tribunais devem julgar casos de agressão, violência e determinar punições e suspensões tendo como base a súmula de uma partida de futebol e o que foi relatado pelo árbitro.

Não acho que caiba a um tribunal formado por profissionais do direito, representando clubes, julgar interpretação das regras do jogo, como simulação e faltas. Cito dois casos recentes. A suspensão do meia-atacante Ronaldinho Gaúcho, do Atlético-MG, por falta no atacante Kléber, do Grêmio, e a denúncia contra o centroavante Luís Fabiano, do São Paulo, por suposta simulação no clássico contra o Palmeiras.

Ronaldinho foi suspenso porque o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) entendeu que ele praticou uma jogada violenta contra Kléber.

O árbitro daquele jogo, Héber Roberto Lopes, nem sequer marcou uma falta no lance. Duplo equívoco, penso eu. Houve a falta no lance, mas não foi uma jogada violenta. Além disso, o STJD tem competência para avaliar uma jogada sob a ótica da técnica de arbitragem? Acho que não.
O mesmo raciocínio vale para o clássico de 6 de outubro entre São Paulo e Palmeiras. Luís Fabiano tentou, sim, cavar um pênalti em lance com Maurício Ramos. O árbitro Paulo César de Oliveira nada marcou. Nem sequer advertiu o atacante são-paulino.

Por que haveria o STJD de acatar uma denúncia e julgar o atleta propondo suspensão de até seis jogos?

Não caberia ao juiz de futebol interpretar se houve ou não simulação ao ponto de merecer uma advertência dentro das regras, punindo com um cartão amarelo ou um vermelho?

Os tribunais esportivos são necessários, repito. Mas não podem cair em tentação e passar a atuar como paladinos ou, o que é pior, justiceiros do esporte brasileiro. O jogo começa e termina no campo, disputado por atletas e apitado por juízes.

Vídeo como prova - Há casos em que a chamada prova de vídeo pode e deve ser aceita. Como, por exemplo, agressões que são captadas pelas câmeras e não foram percebidas pelo árbitro.
Porém, um lance de jogo, que foi avaliado, de maneira correta ou não, por um juiz de futebol, dentro do direito de interpretação que a regra do jogo lhe dá, deve ser julgado por profissionais do direito e não da arbitragem?

Acho que não. E vejo um abuso de autoridade, uma intervenção em uma área à qual os promotores, relatores e auditores não pertencem.

Quantas simulações acontecem em um jogo de futebol? Toda queda é simulação? Como separar uma queda proveniente de um choque, em um esporte de contato, com uma tentativa de ludibriar a arbitragem? Quem está mais capacitado para decidir se um jogador tentou ou não simular um lance, um juiz de futebol ou um juiz do direito? Respondo sem pestanejar: o juiz de futebol.
Antes de levar a arbitragem de um jogo para os tribunais, é preciso trabalhar para capacitá-la, diminuir a margem de erro, educar jogadores e treinadores, uniformizar critérios.

Cabe aos tribunais julgar e condenar agressões, condutas antidesportivas, tumultos etc.
Apitar um jogo, bem ou mal, é atribuição dos árbitros de futebol e somente deles. O jogo acaba ali, não deve continuar num tribunal.

Peixe e feijoada

O Santos foi de uma apatia contra a Ponte Preta que cabe o protesto com bom humor de alguns torcedores. Ouvi alguns deles, peixeiros fanáticos, argumentando que o time só poderia ter almoçado uma farta feijoada para entrar com a moleza que entrou em campo. A Macaca poderia ter goleado.

Coração Pirata
O atacante argentino Barcos consolida a cada jogo a condição de ídolo do Palmeiras. Joga muita bola e sabe se comunicar com a torcida sem precisar forçar a barra. Fez mais em menos do tempo do que o meia chileno Valdivia, cuja condição de ídolo junto aos torcedores palmeirenses é difícil de compreender.

Seleção natural
Forte e entrosado com seu time titular, o Corinthians não sustenta o rendimento e a consistência quando joga desfalcado.
Foi mal contra Cruzeiro e Bahia, jogando com mistões. Não deve ser tarefa difícil para Tite fechar o grupo de jogadores que levará ao Mundial de Clubes do Japão. É tipo seleção natural.

Nó tático
O filósofo Neném Prancha (Antônio Franco de Oliveira) dizia que o pênalti, de tão importante, deveria ser batido pelo presidente do clube. Pois algum são-paulino mais exaltado certamente protestará argumentando que Rogério Ceni, chamado de presidente pelos demais jogadores, seria o nome mais indicado para cobrar a penalidade máxima que Luís Fabiano perdeu no jogo contra o Flamengo.

É o típico caso da discussão inútil, porque envolve o se, o condicional. Mas ainda persiste a conversa em arquibancadas e botecos da vida sobre essa questão, que se repete a cada torneio. O time tem um cobrador oficial, mas tem um atacante que briga para ser artilheiro da competição. Mas esse atacante havia perdido uma penalidade no jogo anterior, não seria prudente trocar o batedor? Fica fácil falar depois que o atacante erra a cobrança ou que o goleiro defende. Quem garante que Rogério também não perderia?

É mais uma das muitas máximas do futebol que entram para o folclore. Coisas como em time que está ganhando não se mexe, alteração só se faz após os 15 minutos do segundo tempo, nó tático, treino secreto, grupo rachado, time unido e outros chavões.

Penso o seguinte: pênalti convertido ou perdido faz parte do jogo, é coisa daquele momento. Como gostam de dizer os jogadores profissionais e os peladeiros amadores, só perde quem bate. O resto é teoria para a resenha com cerveja.

sexta-feira, outubro 19, 2012



Samba e lirismo em

 

Perímetro Urbano
















Imagine uma roda de samba numa sexta-feira à noite. Local? O mais que paulistano bairro da Mooca. Lá fora, a fina garoa de Piratininga. Dentro, uma reunião de gente como Originais do Samba, Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola, Paulo Vanzolin, Aldir Blanc. A acompanhá-los, a fina flor do instrumental do samba, com violões de seis cordas, clarinetes, flautas, bandolins.

Pois foi nessa viagem musical que embarquei ao colocar para rodar no som do carro o CD Na Capital do Pecado, do inspirado grupo Perímetro Urbano.

Recebi a jóia do Aílton Amalfi, companheiro de trabalho no SporTV. Coordenador de transmissão, dos bons, e parceiro de caminhadas regadas a bons papos sobre música e sobre a São Paulo dos anos 60 e 70 (no caso dele) e dos 70 e 80 (no meu).

Amalfi forma o Perímetro Urbano com Flávio Mesquista, Vital Mancini e Pena. O som do Perímetro Urbano remete a todos os craques citados no primeiro parágrafo. Mas não é cópia. Bebe dessa fonte com a devida reverência, mas sem agredir o estilo. O grupo não cai na armadilha fácil de, sob a desculpa de atualizar um estilo, destrui-lo

A primeira mensagem que chegou ao ouvir a faixa-título foi direta, certeira. O coro me levou até a inspirada interpretação de Do Lado Direito da Rua Direita, dos Originais do Samba. O grupo, mais conhecido pela presença do músico e humorista Mussum, trocou o Rio de Janeiro por São Paulo no final dos anos 60 e nessa faixa a adaptação fica evidente.

O samba paulista é mais duro, menos suingado que o carioca. Também não conta com a sensualidade do Samba do Recôncavo, constantemente maltratado por grupos da onda do axé-pagode. Não se trata de dizer que o samba paulista é pior que o carioca e o baiano. É diferente. Ele não tem como refletir a alma carioca, a ginga do subúrbio, ou a sofisticação bossa-novista da Zona Sul do Rio. Nem aquela sacanagem implícita provocada pelo sol e o calor que abençoam o baiano.

O samba paulista é urbano, feito de cimento e de cinza das chaminés das antigas fábricas de bairros como a Mooca e o Bom Retiro. Do friozinho de pé de serra da Zona Norte. É um samba que observa sua realidade, uma música cronista do dia-a-dia da cidade, de seus bairros. Onde não há o suíngue carioca, existe um flerte com a MPB e com o choro, que vem dos bares, da noite. Tudo isso impregnado pelo sotaque inconfundível adquirido pelo sangue italiano e português de boa parte dos paulistanos.

O Perímetro Urbano fotografa com rara felicidade e competência esse lado da alma paulistana de bairro. Não é por acaso que seus integrantes vestem, orgulhosos, camisas de times de futebol históricos como Juventus e Ypiranga, que representam muito desse bairrismo, no melhor sentido.

No Pout-Pourri de Partidos Altos há gemas de pura poesia cotidiana, como "mulher esconde a cerveja e a linguiça. Chegou o oficial de justiça", ou "mãe eu quero água da bica/vê se não encrespe/mas se não tem água da bica/eu bebo a da Sabesp". Quem ouve se imagina num boteco da Zona Leste, tomando cerveja, comendo torresmo e vendo a música nascer do cotidiano.

O instrumental é apurado sem ser prepotente. Não há espaço para virtuosismos sem propósito. As harmonias são sofisticadas, mas diretas, com melodias que tentam - e conseguem - escapar da vulgaridade.

Há parcerias surpreendentes, como Direitos Autorais, bem-humorada aventura de Aílton Amalfi com o repórter e amigo de infância Alberto Gaspar, uma espécie de quinto elemento do grupo.

O lirismo se faz marcante na belíssima Bom Retiro, numa interpretação de arrepiar da jovem cantora paulistana Luciana Alves. Na voz de Luciana, versos duros como "O lado escuro da cidade que meu coração proibiu/Que fica entre o meretrício e mau cheiro que vem do rio" escancaram a delicadeza com que os compositores do Perímetro Urbano tratam a metrópole. Mesmo em seus piores aspectos. Luciana é uma das expoentes da nova cena do samba e do choro, tendo se apresentado com Guinga, Paulinho da Viola e Hermeto Paschoal, entre outros. Destaque, também, para o lindo arranjo minimalista para piano e violoncelo de Edmilson Capelupi, diretor musical e arrranjador do álbum.

Amalfi, Pena, Vital e Flávio se revezam nos vocais das demais canções, sempre com absoluta competência.

Numa época em que se associa o samba ao pagode pasteurizado, apelativo e sem graça que invadiu as rádios nos últimos anos, visitar esse Perímetro Urbano é uma viagem libertadora. Veteranos da estrada musical, os integrantes do grupo, formado no final dos anos 70, desfilam uma gostosa nostalgia nas 14 faixas de Na Capital do Pecado. De quebra, ironizam a própria dificuldade em romper a ditadura do jabaculê nas rádios em Vida de Compositor (...vou buscar na rua inspiração/no balcão uma pizza comum, de atum/moço me dá um trocado! Não tenho nenhum).

Mas é na canção que fecha o disco, Depois de Vinte Anos, que o Perímetro Urbano prova que sabe tudo dessa arte de olhar para trás sem perder o rumo do que vem adiante. Arranjo belíssimo, nostalgia, poesia e lirismo. Um som que merece sair desse perímetro e ganhar as ruas e estradas do País.

Para conhecer mais sobre o Perímetro Urbano, visite a página do grupo no My Space:

http://www.myspace.com/grupoperimetrourbano

quinta-feira, outubro 18, 2012


 

Seleção e Brasileirão



Mais do que a volta de Kaká - que deve ser saudada -, a boa notícia quanto à seleção brasileira é a boa arejada de ideias que teve o técnico Mano Menezes.

Em vez de apostar em gente que parecia ter cadeira cativa, tipo Lucas Leiva e Sandro, ou mesmo buscar soluções que, de fato, nunca selecionaram nada, Mano rendeu-se ao óbvio, o que é muito mais simples.

Chamou Paulinho, o melhor volante brasileiro em atividade, seja onde for, e bancou uma dupla com Ramires, que hoje é mais meia do que volante, mas tem pulmão de etíope para correr o jogo todo.

A seleção ficará exposta, dirão os adoradores das pranchetas. Mas é melhor uma seleção exposta, mas com proposta, do que um time cheio de posicionamento e vazio de atitude.

Com o tempo que tem até a Copa, Mano pode apostar nessa versão mais folgada da seleção e, também, trabalhar uma opção que seja mais cautelosa, em virtude da necessidade.

Por isso é bom ter adversários que provoquem conclusões. Que provoquem derrotas, se for o caso.

Golear a China e o Iraque não ajudam a observar quase nada.

Enquanto isso, a bola rola por aqui, quase sempre atrapalhada por um apito incompetente.

Fluminense e Grêmio fizeram um dos melhores jogos do torneio. O empate acabou deixando tudo na mesma para todos, inclusive para o Galo, que também ficou no empate com o Santos. Que valeu pelo bom jogo e, uma vez mais, por nova obra de arte produzida por Neymar.

Triste mesmo foi ver a eterna falta de estrutura de alguns estádios, como a simpática, porém ultrapassada, Vila Belmiro. Um degrau que coloca em risco a vida de atletas profissionais e trava o acesso de uma ambulância ao gramado.

Fez-me lembrar daquele Santos x Corinthians repetido em 2005, quando o mundo invadiu o gramado da Vila e um bando quebrou a cabine do SporTV. Se é mais fácil para um vândalo entrar no gramado do que uma ambulância, é porque tem muita coisa errada.

Na luta pela sobrevivência, o Palmeiras reagiu ao tratamento de choque e deu esperança aos seus torcedores. Assim como o Figueirense, embora numa situação ainda mais dramática.

Pena que até o final de semana se perderá muito tempo debatendo jogos entregues, facilitações, vinganças etc.

Vão lembrar de Corinthians e Flamengo em 2009, Palmeiras e Fluminense em 2010, e projetarão o jogo do Corinthians com o Bahia.

Tem um jeito muito fácil de acabar, inclusive, com esse papinho. Chama-se profissionalismo. Quem o tem e o respeita, passa longe de qualquer armação.

sexta-feira, outubro 12, 2012



O início, o fim e o meio



Restam nove rodadas para o término do Brasileirão 2012, mas arrisco escrever que o campeonato está praticamente definido. O praticamente fica por conta do nivelamento técnico, por baixo, de uma competição tão equilibrada, na qual lanterna derrota líder.

Mas em condições normais, tudo caminha para o título do Fluminense e uma briga de três times pela última vaga na Libertadores - Vasco, São Paulo e Internacional. O rebaixamento está 99,99% resolvido e deve ficar como está hoje, com Sport, Palmeiras, Figueirense e Atlético Goianiense.

Resta o Centrão, uma massa de equipes que não têm condições de buscar título ou Libertadores (ou não têm necessidade) e aqueles que se distanciaram confortavelmente da zona de rebaixamento e, mais do que isso, contam com a ruindade de quem nela está.

Quatro partidas podem resumir bem a rodada e a situação do torneio.

Em Pituaçu, o Fluminense foi engolido pelo Bahia no primeiro tempo, mas contou com a competência do melhor goleiro da competição, sorte de campeão e uma incrível capacidade de resolver partidas complicadas. Tem pinta de faixa essa campanha. Nenhum outro time atualmente no País conta com tantos jogadores que têm capacidade de resolver um jogo e efetivamente resolvem.

Em São Januário, o São Paulo atropelou o Vasco no primeiro tempo, e confiou nas mãos de Rogério Ceni para garantir o resultado na segunda etapa. O Tricolor paulista soa mais consistente que os cruzmaltinos nessa reta de chegada. Ambos podem ter a concorrência de um bipolar Internacional, que mantém vivas as chances de uma arrancada que ainda não conseguiu.

No Recife, o Grêmio mostrou que atingiu um ponto de equilíbrio e superou o Atlético Mineiro, além de praticamente sepultar as esperanças de uma reação do Sport.

Em Araraquara, num jogo marcado por medo e cautela, Palmeiras e Coritiba judiaram da bola. Mas o Palmeiras judia com mais competência ultimamente, e num resumo do que foi sua participação no torneio, encaixou uma sequência inacreditável de erros para perder o décimo-sétimo jogo e decretar virtualmente seu rebaixamento.

O Coxa comemorou justamente a vitória, que teria chegado antes não fosse um gol incrivelente mal anulado de Deivid. Porque o Coritiba sabe que a vantagem de oito pontos sobre Sport e nove sobre o Palmeiras parece confortável. Os paranaenses até podem perder três jogos até o final, o que é bastante provável, já que o time é fraco. Improvável é que Sport e Palmeiras encaixem uma sequência de três vitórias, porque são fraquíssimos.

Os oito pontos que separam a zona de rebaixamento da região que ainda o teme parecem cada vez mais difíceis de serem tirados por quem já começa a planejar a Série B em 2013.

Assim como os nove pontos que estão entre Flu e Grêmio e Galo podem ser comparados a um muro virtualmente intransponível. Até porque o Flu tem 19 vitórias (isso mesmo, um turno inteiro somando três pontos), contra 17 de Grêmio e 16 de Galo.

Nesta toada, as três últimas rodadas do torneio devem servir apenas para apontar o quarto colocado. O resto da disputa estará resolvida antes.


Presta atenção!


Quatro lições.

Com português não se brinca.

Mudanças em textos se atualizam.

Não confie em corretor ortográfico.

Não confunda salvar com atualizar.

Aprendeu, Nori?

quinta-feira, outubro 11, 2012


 

Blogjornalismo?



Sou um entusiasta das chamadas novas mídias. Internet móvel, fixa e por aí vai.

Mas Jornalismo não se adapta ao tipo de veículo que distribui o conteúdo. Ou é bom, ou não é.

Algumas coisas matam o bom Jornalismo. Uma delas é a pressa. Outra é a falta de assunto para preencher um espaço.

Entre as novas mídias está o blog. Transformado em ferramenta de notícia por gente responsável, que utiliza naquele espaço a mesma diretriz que utilizaria num jornal impresso, na rádio, na TV. No Jornalismo.

Mas existem muitos pecados desse, vá lá, blogjornalismo, se é que o termo existe.

Entre eles a pressa e a falta de assunto.

Fulano tem que alimentar o blog, escrever alguma coisa, buscar algumas visitas no cyberespaço para seduzir patrocinadores, ganhar uns cliques, convencer o portal de que seus textos valem o investimento.

Aí ele pega uma notícia, que é notícia em qualquer parte do mundo, com o bom e velho o que, quando, como, onde e porque, e divide em três, quatro notas, como se fosse Jack, um estripador da informação. Com isso, enche seu espaço. Mas não dá notícia alguma, porque nessa pressa ele acabará publicando um desmentido que deveria estar na mesma notícia, mas para encher espaço vira outra nota.

Ou, então, tá naquele fim de tarde, não pintou nada que valesse uma notinha digna, ele resolve entrevistar alguém. Geralmente sem importância alguma, um coadjuvante qualquer de uma área em questão. E tenta transformar essa nota em algo relevante caprichando no título.

Enfim, mais uma ferramenta bacana que vai sendo mal utilizada por alguns, quando deveria, se bem utilizada, representar um belo campo de trabalho.

Porque aquela história de ouvir o outro lado deveria servir para completar um texto de uma notícia completa, com leide, com corpo e um fechamento. Mas infelizmente hoje está confuso. Sujeito publica que cidadão x afirma que contribuinte y lhe deve tanto. Dez minutos depois, outra nota: contribuinte y diz que não deve nada e acusa cidadão x de calúnia. Mais cinco minutos e: cidadão x afirma ao blog que tem revelações bombásticas. Aí você lê o texto e ele não revela nada.

Enfim...


E daí?



O Brasil enfiou seis no Iraque.

E daí?

Todo mundo vê o jogo, quem tem que transmitir, transmite, profissionalmente.

Mas não se tira conclusão alguma de um jogo com um adversário com esse.

O treinador sempre observa algo aqui, ali, acolá.

Depois sorri feliz da vida com uma goleada que não representa coisa alguma, assim como vaias da torcida numa sofrível vitória sobra a África do Sul.

Nem ilusão se cria, porque o torcedor de bobo não tem nada e sabe que a seleção continua sem empolgar, sem cativar.


Tchau, Twitter!



A partir de hoje não tenho conta no Twitter. Foi uma experiência divertida. Encontrei amigos das antigas, conheci bons amigos, troquei boas ideias.

Mas também vi que o analfabetismo funcional é mais um entre milhares de outros problemas desse País. Sem contar o analfabetismo de fato, esse ainda atacando muita gente, independentemente de classe social ou conta bancária.

Pude verificar a total falta de senso de algumas pessoas quando o assunto é futebol. Aliás, deu para perceber que de futebol pouca gente gosta. Muita gente gosta de ver seu time ganhar, seja como for.

Existe um grupo de pessoas que se dedica apenas a xingar os outros, a tentar jogar um profissinal de uma empresa contra outro de outra empresa. Tem até gente que recebe para ficar fuçando a conta do twitter dos outros e tem a coragem de chamar isso de Jornalismo!

Enfim, foi um período cumprido.


Já há um bom tempo eu achava que não acrescentava nada e fazia pouco sentido. Estava jogando fora meu tempo, que é precioso.

Qualquer coisa que se atribua a mim nessa rede social a partir de 11 de outubro de 2012 é falsa, mentirosa e leviana.

Uma certaza: não deixará saudades.

quinta-feira, outubro 04, 2012



Banalizaram a Seleção


Não quero parecer nostálgico, mas é certo que serei.

Quando eu comecei a me interessar pelo futebol, a seleção brasileira era algo sagrado, raro de se ver. Jogo da seleção era assunto para dias, semanas. A convocação era transmitida ao vivo pelo rádio e pela TV, gerava páginas e páginas de debates em jornais.

A gloriosa camisa canarinho não jogava em qualquer parte. O palco principal, como deveria ser, era o Maracanã, essa catedral ecumênica do futebol. De vem em quando tinha um jogo no Morumbi, no Mineirão, houve um tempo em que se jogava muito no Serra Dourada, com seus cortes de grama extravagantes.

Vão dizer que o mundo mudou, e mudou mesmo. Mas mesmo com todas as modernidades, a complexidade das datas Fifa e afins, o que se viu em Resistência, Norte da Argentina, foi a prova cabal da banalização da seleção brasileira. E a Argentina pegou carona nisso. As seleções mais tradicionais das Américas, duas das maiores camisas do mundo, emprestaram seu prestígio para um curral eleitoral de dona Cristina Kirchner e don Julio Grondona. Como a seleção brasileira tem feito costumeiramente, pagando pedágio para interesses políticos quando joga no Brasil.

O vexame foi completo. Um estádio de quinta categoria, para seleções que, se não são as principais, carregam as cores de duas nações que são pilares do jogo de bola. Cenas de pastelão transmitidas ao vivo, certamente estão correndo o mundo hoje.

Foi o ponto máximo do processo de banalização da seleção brasileira, que virou produto comercial. Faz amistosos sem importância, como contra África do Sul e China, gira o mundo atendendo a um calendário bolado por quem comprou dos direitos de explorar aquela que já foi a mais valiosa marca do esporte bretão.

Até achei bacana a ideia de reinventarem a velha Copa Roca, agora sob esse nome pomposo de Superclássico das Américas. Estive em Córdoba ano passado, para um dos jogos. A ideia é válida, mas a execução, Meu Deus! - como diria Milton Leite.

O bom de tudo isso é que talvez seja difícil descer ainda mais o nível. A seleção bateu no fundo do poço como instituição ao aceitar fazer parte disso tudo. Espero que de agora em diante ela se dê ao respeito.
 

terça-feira, outubro 02, 2012



XÔ, INTOLERANTES!



Admito que cansei do clima que tomou conta dos nossos estádios e do assunto futebol em geral. A intolerância e a imbecilidade ameaçam tomar conta de um dos passatempos mais divertidos e relaxantes que inventaram, o jogo de bola.

Vi as cenas do que ocorreu em Curitiba, no jogo entre Coxa e Tricolor paulista. Presenciei o que ocorreu com um torcedor no Pacaembu, quando jogavam Corinthians e Sport, jogo que comentei.

Não se deve atribuir a uma massa torcedora o comportamento de meia dúzia de idiotas. Mas deve-se combater esse comportamento, porque uma dúzia de idiotas, infelizmente, tem o poder de conduzir centenas, milhares a protagonizar atos deploráveis. Esse tipo de atitude transforma uma multidão aparentemente pacífica numa turba sem controle.

Repito: não se pode atribuir o comportamento de alguns a uma torcida. Mas é preciso repelir alguns do meio da verdadeira torcida.

Nosso futebol vive um momento tenso, de alta combustão. A responsabilidade deve ser atribuída aos que fazem mau uso de todas as ferramentas e situações envolvidas.

Aos jogadores que optam pela má educação em todos os sentidos e preferem, em vez de tentar a melhor jogada, enganar juiz, adversário e a eles próprios com encenações fajutas e comportamentos de quinta categoria.

Aos treinadores que passam o tempo inteiro querendo apitar o jogo, pressionando a arbitragem e criando um clima insuportável à beira do gramado, apenas para ter no bolso a desculpa pronta em caso de derrota.

Aos jornalistas que fazem mau uso de sua profissão, procurando o texto barato, a polêmica vazia, fomentando o confronto desnecessário em busca de migalhas de audiência ou centenas de jornais a mais a serem vendidos.

Aos árbitros que, cegos pela exposição repentina e a suposta fama, escolhem o caminho mais curto - e errado - de elevar o narcisimo à enésima potência.

Aos dirigentes que não pensam antes de falar e provocam situações que podem fugir ao controle por causa de um discurso idiota, uma postagem irresponsável numa rede anti-social da vida.

Às autoridades que, com um olho na massa politica formada por gangues que tomaram de assalto o ato de torcer, se omitem e não atuam como deveriam.

Finalmente, ao torcedor que chama de paixão um comportamento xenófobo, intolerante, sectário e irracional, e que transforma o ato de exercitar o amor por um clube, por suas cores, em declaração de ódio e guerra a quem manifesta sentimento semelhante por outras cores.

Os estádios de futebol se transformam em barris de pólvora em poucos minutos.

A irresponsabilidade de muitos é a responsável pela vulnerabilidade de tantos outros.

É preciso uma ação cidadã em torno do esporte mais popular do País.

A questão envolve educação, comportamento, cidadania e respeito ao próximo. Temas que são negligenciados ultimamente, em todos os níveis. Da casa ao trabalho. Da escola à fila do banco.

Muitas tragédias aconteceram e poderiam ter sido evitadas. Muitas outras estão rondando as arenas esportivas. Ainda há tempo para evitá-las.

Resta saber se há vontade.

Antes que seja tarde.

terça-feira, setembro 25, 2012



RÁDIO

 
 
Batuco essas linhas ao som de Radio Gaga, do Queen. Hoje é o Dia do Rádio. Não sou muito ligado nessas datas, em efemérides e coisas assim. Mas sou muito ligado em Rádio. Assim, em caixa alta. O rádio é, dos meios de comunicação, o mais companheiro. É aquele amigo que chega em casa, na cidade pequena do interior, puxa uma cadeira e engata aquela prosa longa, sem compromisso, que parece não ter hora para terminar.
 
O Rádio é o amigo que não liga apenas no dia do aniversário. Tem uma cumplicidade entre o Rádio e seus ouvintes que não existe, por exemplo, entre TV e telespectadores, entre jornal e leitores, entre Internet e navegadores. O Rádio conversa com a gente, a TV, exceto pelos grandes comunicadores (muitos deles egressos do rádio) meio que invade nossa sala, a Internet é xereta, e o jornal nos últimos tempos parece chegar sempre atrasado.
 
Eu sou ouvinte de Rádio desde que me entendo por gente. Recordo um Natal em que meus pais me deram um rádio de pilha da Philips, AM e FM, tons de cinza e preto, bem transado para a época. Devia ser lá por 1979, algo assim. Eu fiquei numa alegria só. Dormia com o radinho ao lado do travesseiro ouvindo "É Noite, Tudo Se Sabe", na Jovem Pan, com a voz insinuante de Ana Maria Penteado. O prefixo do programa era a canção-tema de Houve Uma Vez um Verão, de autoria de Michel Legrand.
 
Por influência do meu pai, que era muito amigo do genial Fernando Vieira de Mello, que é sinônimo de radiojornalismo, eu ouvia muito a Jovem Pan, cujo padrão de qualidade era reflexo do que pensava o Fernando. Sei de cor até hoje todas as velhas vinhetas da Pan, embora escute muito menos do que escutava e cada vez menos consiga ouvir a verdadeira Pan ecoando naquele prefixo.
 
Como esquecer do Fiori Gigliotti e suas maravilhosas peças de poesia nas tardes de domingo? Quando estava em férias em Bariri, perambulava pelos quatro cantos da casa da minha avó tentando encontrar um local em que a Bandeirantes entrasse sem interferência. Quase sempre, Lei de Murphy, na hora do gol a sintonia literalmente ia para o espaço. E dá-lhe caçar uma onda curta que tivesse mais firmeza!
 
Nas madrugadas lá na casa da Dona Olinda, eu me lembro que ela deixava o aparelho ligado e entrava cristalina a Tupi do Rio. Através daquelas ondas eu pude ouvir outro gênio da comunicação radiofônica brasileira, o Collid Filho e seu Salão Grenat. Ficava sabendo das notícias, dos resultados do futebol, e me impressionava quando a previsão do tempo dava a temperatura. Quando era inverno e as noites esfriavam no interior paulista, lá no Rio as madrugadas apontavam 25 graus. E o Collid falando como se estivesse tomando um cafezinho na sala. 
 
Ouvi muitas histórias da famosa Equipe 1040, da Tupi de São Paulo, que meu pai, Luiz Noriega, integrou, e que sob o comando de Milton Camargo e Pedro Luiz praticamente inventou o jeito de se fazer rádio esportivo que persiste até hoje. Quase tudo que se faz numa jornada esportiva do século XXI a 1040 já fazia nos anos 1960.
 
Percorrer o dial buscando, em ondas curtas, rádios de todo o mundo, tentando perceber estilos diferentes, sotaques, notícias, é um exercício fantástico. 
 
Isso sem falar nas FMs. Que alegria era poder ouvir um som mais potente, limpo, e conhecer grandes nomes da música, gravar uma fita K-7 para as namoradinhas que a gente sonhava e quase nunca conquistava. Hoje escuto muito as rádios que nos EUA são enquadradas do padrão AC, Adult Contemporary, e também as dedicadas ao rock, o que me faz lembrara da Fluminense, a Maldita, que introduziu uma geração ao bom e velho rock´n roll.
 
O Rádio do Interior, que segue firme, apesar da concorrência muitas vezes desleal das grandes redes, da TV e da Internet. Aquele Rádio que fala do baile no clube, da quermesse, da hora da Ave Maria, do sagrado horário sertanejo.
 
Como tudo e todos, o Rádio mudou. Houve um tempo em que para falar no Rádio era preciso ter uma voz capaz de capturar a atenção do ouvinte, que marcasse e identificasse seu proprietário. Hoje muitas vezes é difícil entender o que dizem algumas vozes no Rádio. Por isso admiro a Gaúcha, uma Rádio em que os comunicadores preservam a cultura da bela voz.
 
Gosto de ouvir as histórias de três grandes companheiros de transmissão do SporTV sobre o Rádio. Jota Júnior conta inúmeras dos seus tempos de rádio em Americana, em Campinas, na Gazeta, na Bandeirantes. Tempos em que o Rádio era o senhor da comunicação esportiva, que se fazia silêncio na sala, no carro, para ouvir a opinião de um Mauro Pinheiro, de um Juarez Soares. Milton Leite recorda suas peripécias do Show da Manhã da Pan, no qual ele, craque da comunicação, dizia que a Júlia, do Tatuapé, queria trocar um fogão e que a Márcia, de Interlagos, queria colocar uma TV no negócio. E Luiz Carlos Júnior lembra com carinho seus tempos de DJ e apresentador da Rádio Cidade, em Brasília, no Rio, lançando tendências e novas bandas.
 
Tive breves passagens pelo Rádio. Um pequeno período na Trianon, meio que como convidado, e um outro período, também breve, pela Bandeirantes. Guardo na memória a convivência com monstros sagrados como Muíbo Cury, José Paulo de Andrade, Salomão Ésper, José Nello Marques, Cláudio Zaidan. Escuto meu grande amigo Paulo Galvão e a simpaticíssima Thays Freitas carregarem o DNA da velha Band com grande competência.
 
Para fechar, lembro a vocação inabalável do Rádio, de prestar serviço, em dois momentos. Na votação das Diretas Já, lembro de todos em casa estarmos acordados, meu pai com o radinho de pilha na mão, esperando o resultado. Naqueles tempos estranhos, a sessão do Congresso foi fechada à imprensa. Quando acabou, lacônico, meu pai disse: "não passou. Agora vai dormir", e desligou. Meses mais tarde houve o famoso apagão na região Sudeste, muita especulação, gente falando em golpe, e o rádio informando, movido a pilha, mostrando caminhos para quem precisava sair de casa ou estava preso nos engarrafamentos.
 
O Rádio não tem um dia, tem a eternidade. Parabéns, companheiro!

sexta-feira, setembro 21, 2012



Oscar, Ganso e


futebol-negócio



Terminada a novela Ganso, chega a hora de tentar avaliar, cada um a seu modo, o que se aprende, ou se depreende disso tudo. Assim como é preciso trazer à tona outra novela recente, que tem um protagonista comum, o São Paulo Futebol Clube, a de outro meia talentoso, Oscar, agora do Chelsea.

O futebol está inserido no contexto do mundo atual, não é uma atividade que tenha regras próprias, isoladas e sobrevive como se ainda estivéssemos nos românticos anos 50. A palavra que dita os rumos do esporte hoje é negócio. Como uma das atividades que mais movimentam dinheiro na indústria do entretenimento, o futebol virou alvo de investidores de todo tipo. Milionários russos, ucranianos, árabes, empresários, ex-jogadores endinheirados etc.

Claro que o Brasil não poderia viver à margem disso. Acontece que por aqui, como as regras sempre são confusas quando se trata de negócios, e porque o futebol é formado em sua maioria por instituições pretensamente amadoras, ou sem fins econômicos, vira uma bagunça a mais.

Bagunça? Sim. Primeiro porque há ma confusão de interesses tremenda. Como são entidades sem fins econômicos, os clubes de futebol do Brasil, ou a maioria deles, não podem dar lucro porque não têm acionistas, proprietários ou investidores. Tudo que entra deve ser reinvestido o próprio clube. Endividados na maior parte do tempo, com seu poder de compra reduzido face à volúpia do mercado europeu, nos anos 90 e agora no século XXI os clubes brasileiros foram introduzidos meio que à força nessa nova ordem de negócios. Precisavam de dinheiro para contratar e, como não tinham, foram buscar "parceiros". Vieram empresas e pessoas sérias, outras nem tanto, houve casos de sucesso e de fracasso.

O velho passe foi dividido em duas novas modalidades, os direitos federativos e os direitos econômicos. Direito federativo é um nome pomposo para a boa e velha carteirinha do jogador, o registro dele como atleta pertencente a um clube. Os direitos econômicos é que se transformaram no x da questão. O jogador virou uma commodity, um investimento, que pode ser fatiado entre diversos investidores. Houve caso de jogador que atuava em um clube e tinha parcela dos direitos econômicos de um companheiro de time.

É preciso entender que o dinheiro não tem time. Geralmente tem pressa. Quem investe num jogador de futebol não vê diferença entre ele e um bocado de ações, um edifício, uma fábrica. Ao colocar seu dinheiro no negócio, o investidor espera retirar mais no futuro. Não é ilegal. Mas talvez não seja o modelo ideal para lidar com um atleta profissional.

Existe um mantra rodando por aí que afirma o seguinte: hoje o atleta joga onde quiser. Eu adaptaria para outra situação: joga onde seus investidores querem que ele jogue.

Como os clubes geralmente desconhecem as regras do mercado do qual são protagonistas, vira e mexe acabam tomando um vareio de empresários e acionistas.

Oscar protagonizou uma novela com o São Paulo e o Internacional. Acusações de toda parte, erros apontados aqui e ali, muitas justificativas. No final, ganharam de verdade o Chelsea, que ficou com um baita jogador, e o empresário ou agente de Oscar, que lucrou em todas as etapas da operação e certamente contabilizou lucros inimagináveis para qualquer outro tipo de operação financeira, em tempo recorde. Porque é isso que pretende um investidor do futebol, como qualquer outro investidor: lucro. Ele não faz filantropia, faz negócio. Em resumo: compra o talento do atleta e lucra com ele. Novamente, não é ilegal, mas pode-se discutir a moralidade disso tudo.

Com Ganso foi o mesmo. O Santos foi buscar um parceiro que não tem camisa, não tem estatuto, não tem passado, nem tradição. Tem um objetivo: lucrar. Como todos os parceiros do futebol. Como tem direito à maior fatia do bolo, o investidor não pensa em identificação, em compromisso, em torcida. Ele quer aproveitar a oportunidade de ganhar mais dinheiro do que investiu, no menor espaço de tempo possível. Principalmente quando aparece uma recessão no retrovisor.

A bola está, de novo, com os clubes. Eles demoraram a entender como funciona a nova engrenagem. Em muitos casos, times de enorme tradição chegaram a ficar praticamente sem jogadores "em estoque" porque não tinham mais direito econômico sobre eles. Foram fazendo parcerias, oferecendo a camisa para estocar atletas de empresários e quando despertaram, não tinham elenco, só as camisas.

Aos poucos isso vai mudando. Timidamente, os clubes de futebol brasileiros perceberam que, embora não possam ter o lucro como fim, é interessante investir nos direitos econômicos dos atletas novamente. Sempre mais espertos, os empresários saíram na frente e montaram times por conta própria, sem precisar recorrer aos intermediários, os times de camisa, que pensam em ganhar campeonatos. Essa é a questão ideológica. De um lado existem instituições que nasceram com viés esportivo, cujo lucro é vencer jogos, ganhar campeonatos e criar ídolos, história e identidade. De outro estão empresas que montaram times cujo objetivo principal é vender jogadores e multiplicar o dinheiro investido.

Os jogadores parecem ter entendido rápido que o lado do dinheiro é mais forte. Porque de bobos não têm nada. Sabem que sem eles não tem negócio. Hoje ganham muito mais do que seus colegas que jogavam há 15, 20 anos. Não concordo com quem os chama de mercenários. Se os clubes fossem mais organizados, inteligentes e não tivessem colocado a raposa no galinheiro, por pura incompetência, não existiria essa situação. O detalhe final dessa história é que no futebol muitas vezes fica difícil saber quem desempenha qual papel. Porque a impressão que fica é que em muitos casos a raposa é quem administra o galinheiro, ou que o dono do galinheiro é sócio da raposa.

Isso posto, é hora de pitaquear sobre Ganso no São Paulo. Se tiver condição física de exercer seu talento, ajudará muito a equipe. Como palpite não precisa de empresário, deixo o meu. Escalaria Ganso como um terceiro homem de meio-campo, jogando um pouco mais recuado, livre da obrigação de marcar, mas não tão próximo da área a ponto de ser obrigado a jogar de costas para a marcação. De frente, tendo o jogo diante dele, com Jádson entre ele e Luís Fabiano, acho que vai render bem.

segunda-feira, setembro 17, 2012



Plínio Marcos

 

bate um bolão





















Embora seja um arte tipicamente brasileira, o futebol quase sempre foi visto de um jeito meio marginal por artistas e intelectuais. Algo meio tosco, bruto...popular. Uma pena, porque temos inúmeros craques da bola e das artes. Felizmente, alguns deles se encontram e fazem arte.

Plínio Marcos talvez seja o mais boleiro dos dramaturgos brasileiros. Sua trajetória remete à daqueles craques improváveis, garotos que saem de um rincão perdido numa das esquinas do Brasil e, contra todas as probabilidades, transformam-se em grandes craques.

Pois Plínio Marcos criou-se dramaturgo como muitos jogadores criaram-se craques. Meio na raça, meio na sorte. Brotou das ruas, dos campos de várzea, da estiva, do circo. Por isso sua arte foi tachada de marginal por alguns preconceituosos. Era autêntica, popular, surgia do asfalto, da luta pela sobrevivência, não de salões perfumados ou círculos acadêmicos restritos.

Cronista inspirado do cotidiano, Plínio Marcos completaria 77 anos em 29 de setembro, mas foi vítima de um derrame cerebral em 29 de novembro de 1999. Além de obras fundamentais do teatro brasileiro, como Barrela, Dois Perdidos Numa Noite Suja e Navalha Na Carne, deixou uma vasta obra como jornalista e cronista. Escreveu - e bem - sobre o futebol, uma de suas paixões, manifestada por um amor sincero e pouco comum pelo simpático Jabaquara, de Santos, o Jabuca.

Uma dessas almas iluminadas que conseguem vislumbrar arte e teatro no futebol, a atriz e produtora Graça Berman assume o desafio de entrar em palco para propor esse jogo. Contou com graça e leveza a história da cidade de São Paulo e dos seus principais times de futebol, em ritmo de samba enredo, na saborosa montagem "Nos Campos de Piratininga".

Agora resolveu arriscar um jogo mais denso e mostrar a aguda percepção social das crônicas e reportagens futebolísticas de Plínio Marcos, aproveitando para homenagear a obra e celebrar a vida do dramaturgo e escritor.

Em "A bola da vez: Plínio Marcos", Graça Berman e sua Cia. das Letras trafegam com entrosamento e competência do drama à comédia, com pitadas de música. O texto usa quase que integralmente trechos de crônicas de Plínio Marcos publicadas em jornais e revistas de grande circulação, misturando personagens reais a criaturas de ficção.

O elenco veste a camisa (com o perdão da redundância) com garra e versatilidade. Décio Pinto, Ana Arcuri, Fabricio Garelli, Gira de Oliveira, Jota Barros, Ricardo Pettine e Tania Luares fazem valer o preço do ingresso, aliando experiência e juventude num time afiado. Dá vontade de voltar aos textos e à montagens de Plínio Marcos, o que não é pouca coisa.

Como já é tradição nas montagens futebolísticas da Cia. das Letras, nas sessões das quintas-feiras acontecem debates após o espetáculo, reunindo atores, jornalistas, técnicos e jogadores de futebol.

Ficha técnica

Direção e Texto: Graça Berman
Assistente de Direção: Guilherme Motta
Elenco: Décio Pinto, Ana Arcuri, Fabrício Garelli, Gira de Oliveira, Jota Barros, Ricardo Pettine e Tania Luares.
Iluminação: Davi de Brito
Trilha Sonora: Raul Teixeira
Preparação corporal: Augusto Pompeo
Percussão Corporal: Ronaldo Santos
Preparação Vocal: Tato Fischer
Cenografia, figurinos e adereços: Kleber Montanheiro
Administração: Maria Alice Gouveia
Produção Executiva: Claudete Pontes
Marketing Digital: Joaquim Machado
Programação Visual: Edu Reyes
Assessoria de Imprensa: BBP Comunicação

A bola da vez: Plínio Marcos
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 13 anos
Período: até 12 de outubro.
Horário: quinta e sexta-feira, 21h
Ingressos: R$50,00, R$25,00 e R$20,00 (para torcedores vestindo a camisa do seu time)
Local: Teatro Maria Della Costa
Rua Paim, 72 São Paulo – Telefone (11) 3231-4725

sexta-feira, setembro 14, 2012



Felipão, débito e crédito



Não é toda hora que um técnico de futebol que já ganhou a Copa do Mundo fica sem emprego. Pouco importa a dinâmica do processo, se pediu para sair, se saíram com ele, o fato é que Felipão saiu do Palmeiras.

É notícia de repercussão mundial e que sugere uma série de análises.

Felipão é um treinador consagrado, vencedor, com carreira estabelecida. Por isso é um profissional caro, que faz muitas exigências, respaldado por seus resultados. Quem aceita pagar esse custo espera que o retorno venha em forma de conquistas.

Até aí, tudo normal. O que pega é quando se coloca o nome Palmeiras na frase. Felipão não é apenas mais um técnico para o Palmeiras. Como não é Luxemburgo, como não foi Brandão. Felipão é verbete de destaque na enciclopédia palestrina, daqueles com direito a foto e mais de uma página de texto. É dos poucos treinadores a ter alcançado a estatura de ídolo.

No caso de um clube cujo pensamento político e futebolístico se perdeu em algum momento entre os anos 60 e 70, essa relação de idolatria é terreno pantanoso. Incapazes de administrar o gigante vitorioso que herdaram, os dirigentes palmeirenses pedem socorro a treinadores que eles consideram como salvadores da pátria. Capazes de, não apenas treinar um time, mas de gerir um deparamento de futebol. Porque é assim que as coisas funcionam no Palmeiras desde o fim da fantástica experiência de co-gestão com a Parmalat.

Tanto que entre 1977 e 2012 o Palmeiras ganhou muitos títulos de expressão. Todos eles tendo à frente apenas dois treinadores: Felipão ou Luxemburgo. Basta levantar o número de treinadores que conquistaram títulos com os rivais de cidade Corinthians e Palmeiras e um observador minimamente atento perceberá que o problema não é só técnico. Mas o problema também foi o técnico. Felipão tem crédito e tem débito, como qualquer profissional. Mas é preciso cobrar da conta dele apenas o que ele consumiu.

Em geral, em pouco mais de dois anos de trabalho, Felipão não teve um grande desempenho. Chegou a duas semifinais, uma estadual e uma continental (perdidas), e a uma final nacional (conquistada). No Brasileirão esteve sempre ali no meio da tabela - até despencar neste ano.  Em termos de qualidade futebolística, o Palmeiras de Scolari jogou bem no Paulistão de 2011 e na Copa do Brasil de 2012. Fora isso, foi um time esforçado, lutador e limitado tanto na questão tática como na técnica.

Quem contrata Felipão sabe que com ele vem um pacote de atitudes e comportamentos. Embora seja hoje um cidadão do mundo da bola, o treinador muitas vezes ainda acha que a vida é um grande Gre-Nal e quem não for com ele estará contra ele. O conflito sempre foi usado por Scolari como uma ferramenta de trabalho, um artifício motivacional.

Estrategicamente, sempre foi um técnico que privilegiou a defesa. Seu pensamento futebolístico é conservador. O que não significa falta de coragem em situações pontuais. Mas vendo seus times em campo percebe-se claramente que a primeira regra é não perder. Talvez por isso em algumas situações eles sofram tanto para ganhar. Em várias situações, segurou sozinho a enorme incompetência dos dirigentes palmeirenses. Mas em outras mereceu o crédito pelos insucessos.

Olhando de longe fica claro que ele e o Palmeiras perderam o tempo de tomar uma decisão que talvez tivesse sido a melhor para ambos. Decisão difícil de se tomar, que requer coragem e sangue-frio. Quando ganharam a Copa do Brasil, Palmeiras e Felipão poderiam ter encerrado de forma amigável, por cima, a parceria. Talvez fosse até o desejo do treinador. Seu estafe aguardava, naquela época, um convite para dirigir a seleção da Rússia, que nunca veio.

Parece fácil escrever agora, mas uma conquista como aquela, num cenário que previa o fim do contrato em dezembro, pode ter mexido com a cabeça de técnico e dirigentes. Porque o Palmeiras ganhou, e com méritos, mas foi um presente dos deuses do futebol. Uma trégua em meio a uma série de insucessos, problemas e falta de visão de futuro. Talvez embriagados pela vitória, Palmeiras e Felipão pensaram que poderiam fazer mais do que realmente podem hoje. Por isso mudaram um curso que, nos bastidores, parecia traçado: Felipão querendo treinar uma seleção na Copa de 2014 e o Palmeiras querendo um técnico mais barato.

Porque o elenco palmeirense não permite a treinador algum grandes arroubos. Embora permitisse uma situação mais confortável, que não veio, também, porque Felipão desde que chegou não conseguiu dar consistência defensiva (a base de seu conceito de futebol). Exceto no breve período da reta de chegada da Copa do Brasil. Vitoriosos, clube e técnico passaram a planejar voos mais altos do que poderiam. Libertadores, grandes contratações, um esquadrão. Enquanto isso, a dureza da realidade batia no fundo das redes do goleiro Bruno a cada rodada.

Felipão e o Palmeiras certamente reencontrarão suas trajetórias de sucesso no futebol. Talvez um demore mais do que o outro. Não sei dizer em que ordem. Mas para isso precisam entender e admitir suas parcelas de culpa na hora de pagar a conta. O Palmeiras precisa lembrar que não é mais time da colônia italiana faz uns 50 anos. E Felipão tem que saber que o tempo em que ou se era chimango ou maragato hoje está nos livros de história.