sexta-feira, março 30, 2012



Papo com Mano


Foi bom o papo com Mano Menezes no Arena SporTV de quinta-feira.

O técnico da seleção brasileira é inteligente, sabe se portar nas entrevistas, escorrega por onde pode, mas foi possível tirar algumas coisas interessantes dele.

Outras o bom repórter e o bom observador sacam sem que elas precisem ser ditas literalmente.

Mano responde muitas vezes em mensagens cifradas, que o interlocutor esperto entende na hora.

Sobre o time brasileiro fica claro que o treinador tem uma dúvida no setor mais importante. Essa dúvida é compartilhada com todos os torcedores e tem nome e apelido: Paulo Henrique Ganso.

Paira sobre esse talentoso meia-esquerda a esperança do técnico e da torcida de que ele consiga ser o organizador do time, o jogador com visão e técnica capazes de abastecer um atacante rápido pela direita (provavelmente Lucas, do São Paulo), um atacante rápido e driblador pela esquerda, mas com liberdade maior de movimentação (Neymar, titular indiscutível) e um atacante centralizado, não um poste, mas com presença de área (pode ser Damião, pode ser Fred e talvez seja Pato).

Se Ganso não render o que dele se espera, a seleção provavemente mudará seu sistema de jogo. Porque Mano sabe que não existe no futebol brasileiro um substituto para o 10 santista, alguém que tenha as mesmas características e justifique a aposta. O jogador que tem as mesmas características é Douglas, agora no Corinthians. Mas seus créditos parecem ter acabado.

A alternativa é Oscar, cujos direitos viraram briga jurídica. Essa é uma preocupação que aflige o treinador, embora ele não deixe transparecer. Se o caso de Oscar virar uma batalha longa de advogados de Inter e São Paulo, ele pode até ficar forda da Olimpíada, o que prejudicaria sobremaneira o projeto do treinador para o plano B.

Com Oscar na vaga de Ganso o time deixa de ter um despachador de bolas em alto nível, um cara que faz a bola chegar sem precisar ir junto. Oscar é diferente, geralmente vai com a bola. O que sugere uma alteração na composição do time. Talvez até com a saída de um atacante (Lucas) e o reforço do meio-campo, deixando de ser, na teoria, um 4-3-3 para virar um 4-4-2.

A defesa não preocupa o treinador. Daniel Alves, Thiago Silva, Davi Luiz ou Dedé e Marcelo devem estar na Copa como titulares. A posição de goleiro está aberta, com disputa entre os que foram mais convocados.

Lucas Leiva deve ser o primeiro volante. Fernandinho agradou demais ao treinador e está subindo de cotação. O futebol do corintiano Paulinho conta com a simpatia de Mano, até mais do que o desempenho do santista Arouca.

O time da Olimpíada muito provavelmente será o time da Copa, contando com os três jogadores com idade acima de 23 anos. Isso se o Brasil for bem na Olimpíada, porque caso contrário, talvez nem o próprio Mano chegue até a Copa do Mundo.

Kaká perdeu espaço e hoje gera mais dúvidas do que certezas na cabeça do treinador da seleção. Que deixou bem claro no Arena que vai esperar a próxima temporada européia para avaliar o comportamento, principalmente físico, do meia do Real Madri.

Ronaldinho Gaúcho perdeu pontos, ficou claro. Mas não está descartado.

Outra conclusão a que se chega claramente após uma conversa com Mano Menezes é a preocupação com a entressafra de nossos jogadores, com a redução no ritmo de surgimento de grandes atletas, e com o aspecto tático do jogo praticado no Brasil.

Uma situação em particular, no programa de quinta, me pareceu estarrecedora. O fato de não ter sido apresentado ao treinador um relatório da Copa do Mundo de 2010. Desempenho, comportamento, questões físicas etc.

Mostra o quão amador ainda é o processo na Confederação Brasileira de Futebol.

Mano afirmou que sua comissão tecnica está produzindo um mapeamento completo de desempenho de jogadores desde a seleção sub-15 até a principal. Um arquivo com dados estatísticos, físicos, técnicos e táticos, que terá acesso online e ilustração com imagens e vídeos.

quarta-feira, março 28, 2012



Só a educação salva


Estarrecidos, assistimos a mais um episódio de selvageria desses bandos que usurpam o nome dos verdadeiros torcedores. Mais mortes que poderiam ser evitadas. O que dói, o que choca, o que revolta é que todos os brasileiros sabem que não serão as últimas.

Não sou pretensioso ao ponto de acreditar que conheça a solução para um tema tão complexo. Mas, mesmo não sendo pregador e abominando os que fazem dessa função um nefasto caça-níquel, acredito que há um caminho para buscar a solução. Chama-se educação.

Uma educação que não se resume a ir à escola (mas antes é preciso que haja uma escola para ir e bons professores, bem pagos e motivados para ensinar). Refiro-me, também, à educação informal, aquela que passa de avô para neto, de pai para filho, que se ensina e se aprende no lar, na rua, no bairro. Uma educação que é baseada no respeito ao próximo, ao seu direito, à sua privacidade, suas opções de escolha. Sejam elas políticas, musicais, sexuais e futebolísticas.

Essa educação caminha rapidamente para a falência no Brasil. Sem ela a outra, a formal, da sala de aula, dos bancos escolares, não existe. Ainda mais quando se trata de um País em que a escola é negligenciada, os professores são tratados como cidadãos de segunda classe e qualquer assessorzinho parlamentar, um desses cabides de emprego que infestam as repartições públicas, ganha em um mês muito mais do que um professor em um ano de trabalho.

O futebol ainda se sustenta como uma paixão genuína, contagiante, que consegue unir e reunir amigos, mesmo que eles não torçam pela mesma equipe. Esses são os verdadeiros torcedores. Aqueles que riem, choram, brincam com os amigos, mas sabem que após aqueles 90 minutos há uma vida para ser vivida, pais, filhos, irmãos, amigos, trabalho, objetivos. Infelizmente, esse torcedor, o que merece vestir a palavra, está sendo expulso dos estádios pelas hordas.

São grupos de vândalos que vilipendiaram a expressão torcida uniformizada. Talvez eles próprios não saibam a origem da expressão torcida uniformizada. Eram grupos que tinham como único objetivo irem juntos, assistirem juntos a um jogo de futebol. Levavam almofadas para que mulheres e crianças pudessem enfrentar melhor o duro cimento das arquibancadas. Picavam papel, faziam faixas e cartazes, criavam músicas que passavam longe dos hinos de guerra e ódio que os herdeiros ilegítimos do nome entoam nos tristes dias de hoje.

Não se iludam porque tudo isso passa pela (falta de) educação. Literal e figurada. Basta ver a ultrajante troca de mensagens dessa gente nas redes sociais. Textos cravejados de erros de ortografia e gramática, mas o que é pior, sem sentido, sem nexo.

Nossa sociedade vive hoje na berlinda. Saímos de casa com medo, rezando para voltar. Torcendo (com o perdão da expressão) para que ninguém raspe no seu carro, que você não esteja na rota de uma quadrilha, no caminho de um assaltante em fuga, na mira de uma bala perdida. Ou, então, numa rua escolhida pelas hordas para um acerto de contas entre intransigentes.

Isso tudo brota em situações banais do cotidiano. Em alguém que fura uma fila porque se acha mais esperto. No sujeito que joga papel, bituca de cigarro e lata de cerveja no chão de uma rua onde não mora. No motorista que acredita poder dirigir bêbado sem se importar com o carro do próximo cruzamento, que carrega uma família que pode ser riscada da história sem nem ao menos entender o motivo. No comerciante que paga propina para vencer seu concorrente. No funcionário público que aceita propina para não prestar o serviço para o qual prestou concurso. No fabricante de automóveis que anuncia um carro que não tem para entregar. Na empresa aérea que cancela voos apenas para não prejudicar seu lucro. No político que compra o seu voto e vende o dele.

Tudo isso desagua no chamado tecido social brasileiro, que está prestes a se romper em várias partes. As hordas uniformizadas são uma das pontas que se romperam. Tente ir a um jogo de futebol em certos setores dos estádios e respirar fundo. O aroma sentido certamente será ilegal. Com que sentido a sede desses grupos reúne autênticos arsenais, se o objetivo é ser torcida, escola de samba e fazer trabalho social? Com paus, pedras, balas e bombas?

Conheço muitos torcedores que fazem parte desses grupos e são pessoas corretas, honestas, que gostam da festa, amam seu time e o futebol. Mas esses estão se afastando aos poucos.

Como no Brasil tudo se resolve por decretos que ninguém respeita, existem políticos que afirmam ter acabado com essa prática violenta. Elegeram-se com esse discurso, sabendo que existe uma massa de manobra política poderosa nessas agremiações. Tem político que faz campanha com camisa desses grupos e se elege.

A parcela do bem da sociedade, que ainda é a maioria, está cansada. Desiludida, desamparada.

O Estado omisso não cumpre seu papel de educar e não oferece às famílias as ferramentas para evitar que a falta de educação crie essas aberrações.

Tristes tempos esses. Em que pais pedem aos filhos para que não gostem tanto de futebol.

Sou de uma geração que, em São Paulo, via clássicos no Pacaembu com torcedores misturados no Tobogã. E todos trabalhavam na segunda-feira. Todos acordavam na segunda-feira. Era assim no Maracanã, no Mineirão, em Porto Alegre.

Se nada for feito agora, tudo isso se perderá no tempo. Como lágrimas na chuva (citação livre da mais bela cena do belíssimo filme Blade Runner).

quinta-feira, março 22, 2012


Genocídio na pesquisa

Tenho profundo respeito pelas pesquisas de opinião e preferência, por dados científicos e estatísticos. Embora admita que nos últimos períodos eleitorais alguns desses levantamentos tenham provocado certa desconfiança.

Toda pesquisa é encomendada por alguém e usa um método científico de tabulação. Não pretendo melindrar ninguém com essa postagem, tampouco duvidar de algum método ou veículo.

Mas alguns detalhes não deixam de ser curiosos.

Acho que todos concordam com um fato, o aumento da população brasileira ano a ano, de forma frequente. Há mais brasileiros em 2012 do que havia em 2010, estou seguro disso.

Some-se a esse fato um outro, que nada tem de científico, mas goza de certo prestígio: o sujeito troca de religião, partido, mulher, mas não troca de time de futebol.

Ou tem alguma coisa estranha ou algumas dessas pesquisas promovem autênticos genocídios de torcedores.

Vamos aos números. Em pesquisa Lance! - Ibope de 2010 o Flamengo tinha 33,2 milhões de torcedores. Na pesquisa divulgada pela Pluri Consultoria em 2012 são 29,2 milhões de flamenguistas. Três milhões de rubro-negros foram exterminados por alguma SS, uma Stasi das pesquisas? Ou teriam migrado para outra equipe nesse período?

Talvez o Corinthians. Mas o Timão aparecia com 25,8 milhões de torcedores em 2010, mudando para 25,1 milhões dois anos depois. O que houve com 700 mil loucos? Deixaram o bando nesse período?

Cabe a mesma argumentação para os 600 mil são-paulinos a menos apontados pela pesquisa. Teria havido um genocídio dessas três torcidas através de dados? Que dizer do desaparecimento de um milhão de gremistas no período se compararmos as duas pesquisas? Seria coincidência o fato de os levantamentos mostrarem um milhão de colorados a mais de 2010 para 2012. Nunca ouvi falar de gremista virando colorado e vice-versa. Uma movimentação de um milhão de torcedores no Rio Grande do Sul poderia ser chamada de êxodo. Fala sério!

Talvez tenha havido uma virada de casaca de 700 mil desses torcedores de Flamengo, Corinthians e São Paulo em favor do Palmeiras, que engordou esse número em simpatizantes. Ou mesmo oVasco, que ganhou quase um milhão de cruzmaltinos nesse período? Mas, peraí, e aquele papo de que torcida cresce quando o time é campeão? Onde foi parar na pesquisa?

Enfim, dá uma boa discussão em torno de uma taça de vinho, uma boa pizza, um churrasco com cerveja gelada.

Que me perdoem a brincadeira os autores dos estudos, mas apenas acho estranho que essa variação de números seja tão gritante, embora, em defesa das pesquisas, seja dito que percentualmente está tudo na margem de erro e num patamar parecido.s


quarta-feira, março 21, 2012



Batalha jurídica

no São Paulo F.C


É tensa a situação política no São Paulo Futebol Clube.

Nesta quarta-feira, 21 de março de 2012, desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo decidiram, por três votos a zero, que a eleição de Juvenal Juvêncio para a presidência do clube é ilegal. Esta decisão só tem valor quando o acordão estiver publicado no Diário Oficial de São Paulo.

Cabe recurso na esfera estadual, mas a decisão unânime impede que sejam tentados recursos em Brasília.

Toda a confusão se refere a uma interpretação sobre o estatuto do tradicional clube tricolor. Segundo a oposição, que entrou com a ação pedindo a nulidade do pleito, o estatuto permite apenas duas reeleições do presidente da Diretoria. A situação argumenta que houve uma reforma estatutária que permite a terceira reeleição como parte de uma espécie de prolongamento do segundo mandato. Confuso, como quase tudo que envolve as leis no Brasil.

A partir da publicação do acordão, os advogados que defendem Juvenal Juvêncio no caso, entre eles o ex-presidente do clube Carlos Miguel Aidar, devem procurar os recursos a que têm direito, o que sugere que uma definição do caso ainda está longe de acontecer.

Se nesse período nenhum recurso for acatado, como ficaria a situação política do clube?

Num primeiro momento, deveria assumir o presidente do Conselho Deliberativo, José Carlos Ferreira Alves. Como ele é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo há um impedimento legal. Assumiria, portanto, o vice-presidente do Conselho, Arlindo Pedro Roschel. Ele, então, teria que convocar novas eleições, das quais Juvenal Juvêncio estaria impedido de participar.

Resta aguardar o desenrolar de mais essa história confusa na disputa de poder, que se repete nos principais clubes do futebol brasileiro. 

terça-feira, março 20, 2012

sexta-feira, março 16, 2012



Esculhambatocracia


Custo a acreditar no que leio. O Flamengo, a maior torcida do Brasil, um clube nascido na rua, do povo, uma instituição do futebol mundial, parece mesmo disposto a contratar Adriano, aquele que já foi Imperador.

Será que o futebol brasileiro será sempre o império da esculhambatocracia (nem sei se a palavra existe)? Que razão lógica, palpável, justificável, levaria uma equipe a investir fortunas, já que fala-se em salário de meio milhão de reais, em um jogador que mal joga há pelo menos dois anos?

Adriano foi um tiro de marketing que saiu pela culatra no Corinthians. Fez dois gols, criou dez vezes mais encrencas e teve neguinho com a cara de pau de chamá-lo de fundamental na conquista do título brasileiro por causa de um golzinho.

Aí o Flamengo, que tem um rosário de problemas para administrar, uma dívida transatlântica, mal consegue pagar o Ronaldinho Gaúcho, fala em investir no Adriano.

E não é só o Flamengo, é um pensamento generalizado. A ideia do jogador malandro, do bad boy, que não precisa treinar, ser disciplinado, mas entra em campo e resolve está enraizada no imaginário do torcedor, na incompetência do dirigente e, por incrível que pareça, no pensamento até de muitos jogadores e ex-jogadores.

Adriano, em forma, é um tremendo jogador de futebol. Titular da seleção brasileira. Talvez tenha problemas sérios de saúde. Não sei, não posso ser leviano para afirmar isso. Mas quem vê, ouve, lê uma entrevista de Adriano tem a impressão de estar diante de um Imperador hitita no auge da campanha expansionista. Ele fala e se comporta como se fosse um jogador top de linha, o que atualmente não é - faz tempo, aliás.

Paira sobre certo tipo de jogador de futebol no Brasil a impressão de que eles estão acima do bem e do mal. Não há lei, regras e outros jogadores. Seduzidos pelo cordão de puxa-sacos, pelos amigos chupins que só querem beber e gastar o dinheiro do craque, eles acham que são seres privilegiados.

Passam rodadas e rodadas sem jogar, sem treinar e quando fazem um golzinho se dizem iluminados por Deus. Quanta pretensão!

Torço, sinceramente, para que Adriano volte a ser o grande jogador que pode ser. No Flamengo, em qualquer clube.

Só não consigo entender qual o motivo que leva alguém a investir fortuna num atleta que só levanta incertezas. Seria pretensão eleitoral?

Adriano aposta alto na vida. Seu discurso só será justificado se ele jogar muito, fizer gols decisivos e conquistar títulos. Para tal, ele precisaria, de início, jogar. Ter regularidade e compromisso.

O grande erro do marketing corintiano talvez tenha sido pensar que Adriano pudesse repetir o sucesso da operação feita por Ronaldo. Embora seja um grande atacante, Adriano não lustra o bico da chuteira de Ronaldo. Tampouco desfila um terço do carisma do Fenômeno. Também não parece ser feito de T-Fal, como Ronaldão, em quem nada de negativo gruda. Pelo contrário. Adriano parece cola quando o assunto é problema.

Boa sorte a ele e ao Flamengo, que vai precisar se embarcar nessa.

quinta-feira, março 15, 2012


Copa e Olimpíada

em debate no Arqui























Nesta segunda, dia 19 de março, será realizado o debate Copa do Mundo e Olimpíada no Brasil, no Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo.

Tive a honra de ser convidado pelo amigo Ton Teschima para participar. Participarão jornalistas que, como eu, são ex-alunos do Arqui. Será um prazer pisar novamente naquele solo sagrado de tantas lembranças e falar sobre esses temas com a mediação do excelente Paulo Galvão, apresentador do Jornal em Três Tempos da Rádio Bandeirantes.

Estarão presentes, também, três jovens talentos do jornalismo esportivo, todos oriundos das aulas de bola ao mastro no histórico prédio da Domingos de Morais (Vila Mariana, São Paulo).

São eles: Fernando Gavini, astuto repórter da Espn Brasil; Victor Guedes, autor de grandes sacadas no Agora São Paulo com as Caneladas do Vitão; e Marília Ruiz, irmã do Victor e talentosa comentarista da Rede TV.

O horário previsto é das 20h30 às 22h30, no belíssimo Salão Nobre do Arquidiocesano. Ingresso podem ser adquiridos no Núcleo Cultural do colégio, em troca de 1 kg de alimento.

terça-feira, março 13, 2012

Será que dá liga

entre os clubes?


Não deve trazer grande impacto imediatamente ao futebol brasileiro a saída mais do que anunciada e aguardada de Ricardo Teixeira. Assume um de seus vices, José Maria Marin, que esteve sempre alinhado com as sucessivas administrações do ex-presidente.

O que era preciso acontecer - e não vejo movimentação alguma em torno disso - é um entendimento entre os clubes de futebol do Brasil para que possam assumir o controle e o destino do esporte internamente. A seleção brasileira é assunto da CBF, embora também precise de uma reformulação completa em suas diretrizes.

O que gira a bola, com o perdão do trocadilho, é o futebol interno, a competição entre clubes, os torneios estaduais, regionais e nacionais. O clube é o dia-a-dia, a seleção é o feriado, a viagem de férias. Para bancar a viagem de férias a gente tem que ralar muito no dia-a-dia.

Infelizmente, não vejo um dirigente que esteja à altura dessa empreitada entre os muitos que perambulam por nossos clubes. Não existe pensamento coletivo. Que não representa perda de competitividade. O dirigente de clube sempre deve trabalhar para que seu clube seja o vencedor, afinal, é esse o propósito. Mas precisa ter a grandeza de pensar no seu negócio de maneira macro.

Nosso futebol melhorou muito nos últimos dez anos. Houve incremento de receitas, melhora de organização, isso não se discute. Mas ainda estamos longe de aproveitar sequer metade do potencial das marcas que representam os clubes de futebol no Brasil.

Os que aproveitam bem, gastam pior. As dívidas muitas vezes superam os faturamentos recordes. É uma bola de neve. Falta responsabilidade e estratégia coletiva.

Na minha maneira de ver o futebol, uma Liga ou Associação de Clubes, mas que não tenha relação alguma com o Clube dos 13, deveria assumir o comando. Administrada por um profissional da gestão esportiva, respaldado por um conselho consultivo formado por ex-jogadores, treinadores, preparadores físicos e gente da mídia do marketing. Com cobrança de resultados. Às claras.

A Série A deveria se responsabilizar por parte da manutenção financeira da Série B, por exemplo. Além de fazer um fundo que pudesse auxiliar a Série C. Não vejo espaço para quatro divisões nacionais no quadro atual.

Sou contra a adequação do calendário brasileiro ao das grandes ligas europeias. Nunca escondi isso. O futebol brasileiro tem que atender às necessidades dos torcedores, jogadores e treinadores brasileiros. O País tem um ritmo, uma ordem das coisas, na qual o futebol deve se encaixar.

Na Espanha o calendário do futebol acompanha o calendário escolar e o parlamentar. Segue o ritmo da vida do país. Vá propor a um espanhol ou a um italiano que os campeonatos nacionais daqueles países sejam disputados durante o sagrado verão? É a época das férias e o futebol se insere nesse contexto.

Imagine uma rodada de Brasileirão em 26 de dezembro ou  2 de janeiro? Já existem jogos no Carnaval, o que não se explica ou se justifica.

Para quem defende essa adequação como uma reserva de mercado, que olhe para o vizinho. A Argentina atrelou seu calendário ao europeu há algum tempo e jamais parou de vender jogadores. Seu futebol hoje está virtualmente falido e foi estatizado pelo governo. Ou seja, como para tudo na vida, é uma ideia, mas está longe de ser a solução final, a única saída. Essa não existe.

Excursões pela Europa, pré-temporadas na Ásia? Não precisa virar o calendário de ponta-cabeça. Basta racionalizar. Não prego a extinção dos estaduais, mas eles precisam ser contextualizados como parte da pré-temporada. Esses torneios representam um mercado importante, que não pode simplesmente ser riscado do mapa. Mas estadual com 20 times é devaneio.

Um campeonato estadual teria que se adequar à nova realidade. Serviria de pré-temporada e vitrine. Não se pode decretar o fim do futebol nas cidades pequenas ou abandonar os clubes médios. Por que sem médios e pequenos, alguns grandes descerão um degrau, e nenhum deles está imune a essa ameaça.

Será impossível reservar uma semana ou dez dias no calendário para que os clubes excursionem ou organizem torneios internacionais no Brasil? Para isso seria preciso inverter o calendário e fazer o ano do futebol começar e terminar em julho?

Não tenho a chave para todos os problemas, apenas compartilho uma visão. Porque é preciso um grande debate para procurar um novo caminho e manter a evolução do futebol como negócio, para que ele possa se sustentar em campo.

O jogo cresceu de tal maneira que hoje está inserido no contexto do entretenimento. Seja via TV ou no estádio. O torcedor quer e merece ser mais bem tratado. Não duvido que ele queira participar do dia-a-dia do clube, contribuir, ser parceiro. Mas será que ele confia nos seus dirigentes a esse ponto?

Temos boas experiências de sócio-torcedor em andamento, bons contratos de patrocínio, enfim, é viável. Mas é preciso que os dirigentes dos clubes se preocupem menos com as vantagens dos bastidores e deixem a coisa ser resolvida em campo, pelos verdadeiros artistas.

segunda-feira, março 12, 2012



Discordo de você, Mano


Respeito o trabalho do Mano Menezes, a quem considero um dos principais treinadores surgidos recentemente no futebol brasileiro.

Mas discordo em gênero, número e grau do treinador da seleção brasileira quando ele acha que Neymar tem que ir para a Europa agora.

Até imagino porque ele pensa isso. Parece-me um pensamento imediatista e emergencial. O pensamento do treinador de uma seleção brasileira que corre contra o tempo, que ainda busca uma cara para a Copa de 2014.

Mas talvez a cara que Mano procura não seja a cara que o Neymar já tem. Com o tempo será inevitável que o garoto santista vá jogar na Europa. Pelo menos enquanto durar o poderio econômico de alguns grandes times daquele continente e persistir a desorganização econômica dos clubes brasileiros que, quanto mais arrecadam, mais dívidas contraem.

Como muito bem escreveu o Paulo André no blog do Juca Kfouri, o problema é que nossos treinadores querem que o jogador brasileiro se naturalize europeu. Aguente o tranco, fique forte, aprenda a jogar como se faz nos principais centros da Europa, nas ligas mais poderosas e na Champions.

Mas aí eu me pergunto: em 2006 e 2010 nossos times estavam coalhados de jogadores perfeitamente adaptados ao tal estilo europeu e deu no que deu.

Neymar é a antítese desse estilo europeu que muitos de nossos treinadores teimam em visualizar. Por que não visualizam o estilo europeu de um Xavi, um Iniesta, um Schweinsteiger, um Sneijder, um Mueller, um Van Persie, um Rooney? Ou o estilo "europeu" de um gênio nascido na Argentina e "naturalizado" barcelonista?

Neymar é o que é, encanta até mesmo as grandes estrelas européias (lembram do Rio Ferdinand tuítando que queria ver o Neymar?) porque é imprevisível, veloz, genial, habilidoso e técnico. É um craque com o estilo tradicional brasileiro adaptado ao padrão moderno do jogo, mais veloz do que nos maravilhosos e cadenciados anos 50, 60 e 70.

Se ele for agora para a Europa, terá que se adaptar. Sofrerá com um jogo mais físico e não necessariamente mais técnico do que enfrenta nos grandes jogos do Brasil e da Libertadores.

Dia desses, conversando com o Elano, ele me disse algo muito inteligente em termos de observação. Que Neymar agora teria dificuldades na Europa porque em alguns lances ainda pára, desacelera para dar o drible, o que é fatal no futebol europeu. Porque ou tiram a bola dele, ou levam ele e a bola junto. Ele precisaria de tempo e mais estrutura física para seguir driblando em velocidade, sem precisar parar. Não por coincidência, como fez nos golaços diante do Inter.

Ele sabe fazer, faz no Brasil e pode fazer em qualquer parte.

Fora isso, Neymar representa para o futebol brasileiro muita coisa em termos de chamariz, de atrativo e de negócios. É a prova de que se pode fazer futebol para o mercado interno, que o destino de nossos clubes não precisa ser produzir em escala para a Europa, que nosso futebol pode criar e absorver seus craques. Quantos garotos não estão observando o moleque santista e passam a acreditar que é possível vencer no jogo de bola sem precisar ceder aos apelos de treinadores que inventam líberos e volantes desde as categorias de base?

Enfim, embora o respeite, discordo do Mano. O lugar do Neymar até 2014 é aqui no Brasil.

quarta-feira, março 07, 2012


Curso de Jornalismo

Esportivo em TV




















Vem aí um novo curso de jornalismo esportivo, desta vez voltado especificamente para o formato TV, abrangendo todas as áreas de atuação em vídeo. Narração, reportagem, comentários e apresentação.

Tenho a honra de estar ao lado dos colegas Jota Jr., Mauro Naves, André Plihal e Dudu Monsanto nessa empreitada.

Informações sobre o curso você encontra nesses endereços:

www.cursosemrede.com.br e www.ceadnet.com.br 

terça-feira, março 06, 2012

quinta-feira, março 01, 2012



Bom jogador

não tem CEP


Travei um bom debate com um twitteiro ontem e hoje sobre algo que falei na transmissão de Guarani x Santos, no SporTV. Após o gol de Arouca, eu disse: "o que faz Fernandinho na seleção brasileira? E o que não faz Arouca na seleção brasileira?".

O twitteiro ficou sentido pelo Fernandinho, embora eu não tenha falado mal dele. É algo difícil de entender para muitas pessoas que recebem uma opinião. Para falar bem de alguém você não precisa falar mal de outrem.

Apenas acho que o Arouca é um jogador melhor do que o Fernandinho e seria mais útil para a seleção brasileira. Opinião. Ponto.

Isso não quer dizer que Fernandinho seja ruim, longe disso.

Mas aí entramos num outro debate. Muita gente, e gente boa, avalia o rendimento de um jogador pelo local em que ele atua. Há um time de analistas que acha que arrebentar no futebol brasileiro não quer dizer nada. Mas valoriza (acho eu que em excesso) quem mostra bom futebol na França, na Alemanha, na Ucrânia, na Rússia.

Eu penso que, obviamente, um campeonato estadual no Brasil não é parâmetro. Mas jogar bem o Brasileirão e a Libertadores, sim. Respeitando as diferenças entre estilos, tática, preparo físico e dinâmica de jogo da América do Sul e da Europa das grandes ligas.

Acho que CEP não pode ser usado para avaliar bom jogador. Muitos ex-jogadores com quem converso, em especial aqueles que jogaram dos ano 80 para frente, acham que para ser bom jogador precisa atuar na Europa. Os de meados dos anos 80 para trás pensam diferente.

Para mim, o cara pode ser bom jogando no Brasil, na Argentina e na Europa. O Rio Ferdinand, por exemplo, twittou outro dia que estava vendo o jogo do Brasil porque queria ver o Neymar jogando.

Fernandinho é bom jogador. Não acho que seja craque. Acho, apenas, que o Arouca pode, jogando bem como voltou a jogar, fazer tudo que o Fernandinho faz na seleção e melhor. Também acho que o Dedé, pelo que mostra no Vasco, pode ser titular da seleção brasileira, mesmo sem jogar no Chelsea ou afins.

Assim como acho um baita exagero tentarem colocar o Lucas do São Paulo no mesmo patamar do Neymar só porque são da mesma geração. Ambos jogam no Brasil e têm potencial para evoluírem por aqui mesmo.  

E não penso nisso por questões menores como valorização de conteúdo próprio, porque o canal em que trabalho transmite os campeonatos do Brasil e da Europa.

É somente uma maneira de ver o futebol.