quarta-feira, setembro 23, 2009

Dunga em 94 e

Dunga em 2009


Em março de 1994 eu entrevistei Dunga em Recife, antes de um amistoso em que o Brasil venceu a Argentina por 2 a 0. Dunga jogava no Stuttgart, da Alemanha, e, claro, na Seleção. Eram tempos distintos, nos quais era possível sentar-se à mesa com um jogador da Seleção Brasileira para um bate-papo exclusivo. Coisa rara nos tempos do Dunga técnico.

Expliquei ao Dunga que queria uma conversa mais aberta com ele, falando de futebol, do Brasil, da vida etc. Ele respondeu que sim, mas alertou: "Você não vai gostar de algumas coisas que eu vou falar e acho que não vai publicar". Eu disse: "pode falar o que quiser, depois te trago o jornal para você ler". Acho que ele gostou daquilo e soltou o verbo. Desceu a lenha na imprensa com gosto. Publiquei tudo e pedi ao pessoal do jornal em que trabalhava, o Diário Popular, que mandasse uma cópia da página por fax para o hotel em que eu estava.

Chegou o fax, no dia seguinte entreguei ao Dunga e disse: "Tá tudo aí o que você falou". Não sei se ele leu, nem se gostou.

Nesta terça-feira, 22 de setembro de 2009, participei do Arena SporTV especial com o Dunga, em Porto Alegre. São 15 anos de espaço de tempo. Dunga foi campeão mundial, vice-campeão mundial como jogador e assumiu a Seleção Brasileira como técnico.

O tempo costuma produzir algumas mudanças em todos nós. Claro que esse efeito se sente também em Dunga. Mas em algumas coisas ele parece não ter mudado. E isso tem reflexos em seu trabalho como técnico.

Cléber Machado perguntou a Dunga se ele era rancoroso. O técnico respondeu que não. Talvez nem seja, mas que não esquece certas coisas, isso é fato. Como ele mesmo diz, quem apanha não esquece, quem bate, esquece. Dunga apanhou muito em 90 e não esqueceu, parece estar sempre querendo responder às críticas daquela época em vez de curtir os elogios que recebeu, justamente, pelo bom desempenho em 1994.

A impressão que tenho é que Dunga usa isso como combustível. Ele é obviamente um competidor nato. Busca a vitória como satisfação pessoal e, também, como resposta aos inimigos e críticos. É evidente que sua felicidade pela conquista talvez seja igualmente proporcional à alegria de ver quem o criticou ou mesmo quem pensa diferente dele ser derrotado nesse debate.

Há um aspecto na vida do atleta que é a motivação, a psicologia. Dunga foi um bom atleta, um bom jogador. Nunca foi um grande talento, habilidoso, naturalmente dotado para o futebol. Superou tudo isso com dedicação e inteligência para adaptar suas qualidades à exigência do jogo. Encontrou uma maneira de ser útil.

Na entrevista ao Arena, deixou claro que a motivação dele e da Seleção está em fazer o que os outros (no caso a imprensa) duvidam. Disse algo assim: " Falaram que o Braisl não ganhava há 33 anos no Uruguai, que era impossível. Fomos lá e ganhamos. Agora falam que a Seleção nunca venceu quando saiu do Brasil favorita, bem, vencendo. Vamos em busca disso".

Infelizmente, boa parte do trabalho motivacional do atleta, em qualquer parte do mundo, é feita dessa maneira que eu acho meio tosca. "Está vendo, eles não acreditam em você. Vai lá e mostra para eles que você é bom, que você pode". Até hoje é utilizado um método pelos treinadores de futebol, o de colar recortes de jornais nos vestiários para motivar jogadores. "Olha o que o técnico deles disse de você. Vai deixar assim mesmo? Cala a boca dele!!!"

Sempre que o time vence, os atletas lembram dessa motivação. Mas esquecem que no vestiário do perdedor também teve palestra, motivação, psicologia de boteco. Geralmente ganha o time que tem os melhores jogadores.

Dunga faz um bom trabalho na Seleção. Ainda falta a ele a dose salutar de autocrítica - que também falta a boa parte dos jornalistas. Admitir que em alguns momentos o time joga mal - porque é assim, times também jogam mal -, que suas opções foram equivocadas etc.

Mas Dunga mostrou muita elegância no programa em relação a Falcão. Dunga não engole os elogios à Seleão de 82 quando eles andam lado a lado com críticas ao time de 94. Até já disparou algumas farpas contra o sempre elegante Falcão. Durante o programa, Dunga foi educado, respondeu a tudo sem polêmicas inúteis e se despediu com um abraço. Ponto para ele.

6 comentários:

Marcelo disse...

Caro Mauricio Noriega. A mídia esportiva é ávida por estrelas. Quem foge deste perfil sofre como sofreu Dunga que é apenas um entre inúmeros exemplos. Para citar alguns: Felipão comeu o pão que o diabo amassou no Palmeiras com a imprensa colocando em dúvida diariamente o seu trabalho o que vai se repetindo agora com o Muricy. Felipão só deixou de ser perseguido após conquistar a Copa do Mundo. Parreira só teve boa aceitação quando passou pelo Corinthians (fórmula que Ronaldo repetiu quando percebeu sua imagem arranhada e em decadência). Zinho foi apelidado de enceradeira. Roque Júnior foi covardemente perseguido pelo Galvão Bueno, assim como o meia Alex enquanto vestia a camisa verde (opinião que mudou como mágica depois que ele foi para o Cruzeiro e para o exterior!). É legítimo este rancor que transparece em Dunga porque a mídia esportiva sempre foi muito covarde e traiçoeira: ele sabe que se baixar a guarda leva o troco por ter contrariado as “regras”.

João Pedro Alves disse...

Concordo, imagino que seja por aí mesmo. O Dunga sem dúvida usa as críticas como motivação para respondê-las. Assisti a uma parte do programa. Incrível como ele consegue ser chato. Chega a um ponto de não lidar bem até com simples comentários discordantes em relação ao trabalho dele. No quesito "rabugice", ganha com muita sobra do Muricy, em quem sempre pegaram muito no pé por causa da postura em entrevistas.
Entretanto essa maneira dele encarar as coisas, acredito, tem sido muito importante para a Seleção. A franqueza, a cobrança e a lealdade do Dunga modificaram a cara do time e a organização fora de campo. A Era Dunga (termo que ele deve ter ódio tremendo hehe)- técnico merece todos os elogios.
E de certa forma vejo com bons olhos essa "briga" que ele comprou, querendo provar que o Brasil chegando bem à Copa não vence. Espero que consiga. O futebol agradece.
PS: Apesar de (muito) chato, admiro pra caramba o Dunga como pessoa.

Anônimo disse...

nori, nori...

Anônimo disse...

que golaço do vagner agora, heim nori?!

Jesus The Lord disse...

Com tanto que continue ganhando, pode ser rancoroso, mal educado, chato e ranzinza!!

O que vale é o Brasil campeão...

e o Dunda tem trilhado tal caminho .. !

jeanfernandes disse...

Independente do trabalho, diga-se de passagem, muito profissional e vencedor, Dunga está trazendo a seriedade para dentro da seleção. A geração tem ajudado. Para quem foi boi de piranha, motivada por todos sabem quem, ele está refazendo sim, a era Dunga.

Mesmo não tendo que provar mais nada, como jogador, e independente do resultado da copa do mundo em 2010, o maior legado já está ae: um time competitivo, com vontade de jogar.

Nem mesmo toda a pressão da mídia pelas estrelas e os "amigos" que dão ibope, comovem o treinador. Para estar no time, tem que estar pronto. Claro que há divergências,e sempre irão existir.

Se pelo resgate proposto ao nome da seleção, creio que estamos no caminho certo. Hoje não vejo nenhuma seleção melhor que a nossa, e mais, impondo respeito real. Não porque está na frente da tabela e já classificada.

Queriam outros treinadores, mas vamos concordar que qq treinador aqui no Brasil sofreria muito mais uma pressão por nomes do que o próprio Dunga, e fatalmente iríamos continuar naquela de pressão da mídia (traduzida erroneamente por pressão popular).

Só espero que a coerência do Dunga, prevalesça na escalação do time. Vemos que alguns jogadores já não são unanimidades dentro do grupo. Resta esperar e ver o que acontece até abril de 2010. Este ano já foi, o cara já mandou bem.

No meu ver, a nova base para seleção já começa a ser formada, para o pós copa. Devagar, mas já da pra tar uma idéia. Este trabalho é lento, mas já está trazendo resultados. O amadurecimento de uns 6 jogadores por ae, irá comprovar daqui uns 4 anos.

Isto irá refletir e muito para a nossa copa e só mostra que a seleção, o técnico, e os caminhos do futebol, estão acima da crítica, e principalmente das necessidades diárias de certa parte da imprensa.