sexta-feira, maio 02, 2008

NÃO DEIXEM O CD MORRER

Porque baixar música está afastando as pessoas



Antes de mais nada, que fique claro: eu também baixo músicas na Internet. Busco velharias, raridades, coisas que estão fora de catálogo ou não se acham por aqui. É impossível brecar a marcha da tecnologia e o avanço das novas mídias.
Sou um nostálgico assumido e não tenho vergonha disso. Adoro música e cresci na cultura do LP, depois sendo absorvido pela, então, novidade do CD. Comprar música era um evento. Você ia até a loja, ficava fuçando, vendo as capas, perguntando pros vendedores sobre novidades. Não existia a Internet, então os caras que sacavam de música, conheciam lançamentos internacionais, geralmente estavam nas boas lojas e nas galerias do centro especializadas em rock. Invariavelmente, você batia um bom papo, conhecia gente, fazia novos amigos e levava alguma bolacha (era um dos apelidos do velho LP) para casa.
Em São Paulo eu costumava ir a lojas como a Hi-Fi do Shopping Iguatemi, que sempre tinha coisas boas, discos importados, cujo som era bem melhor do que os produzidos aqui. Juntava uma grana e esperava para poder completar minha coleção de vinis do Genesis, que posteriormente vendi a preço de amigo para o parceiro Marcelo Laguna. Na velha Sears do Paraíso, onde hoje fica o Shopping Paulista, sempre tinha alguma coisa legal também, com preços mais em conta. Isso sem contar as lojas de bairro, que estão morrendo. Tinha uma ali na Rafael de Barros que era muito boa, eu comprei bons LPs do Chico Buarque, da Gal e do Rei Roberto ali.
Outro grande barato era pegar discos emprestados. Em reuniões ou festas, as pessoas levavam seus discos, ficavam olhando as capas, os encartes, enfim, havia uma convivência, uma aproximação que hoje não existe mais. Aí alguém pegava um disco emprestado, ficava um tempo, depois ia até a sua casa devolver, ou levava na escola. Havia uma integração, as pessoas conversavam. E as capas de discos chamavam muito a atenção, eram bonitas, tinham desenhos e fotos bem produzidos, gastava-se tempo e jogava-se conversa fora com tudo isso. O que é bom, pois poucas coisas são melhores do que gastar tempo e jogar conversa fora.
Eu costumava alugar discos na União Cultural Brasil-Estados Unidos ou no Centro Cultural da Vergueiro. Rita Lee e Tutti Frutti, entre eles. Levava para casa, escutava, selecionava. Limpava o vinil com uma flanela embebida em álcool e gravava uma fita cassete com a seleção preferida. Aliás, era um ritual daqueles tempos, para dar um início no xaveco, gravar uma fita e oferecer de presente para paquerinha (será que a molecada ainda usa esse termo?) da vez. Hoje eles trocam músicas pelo celular….
Então veio o CD. Em princípio relutei. Afinal, eu tinha uma relação de carinho com meus LPS, cuidava das capas, plastificava. Mas a possibilidade de ouvir suas músicas favoritas sem chiados foi sedutora. O próximo passo era atualizar a discoteca para o formato digital. Consegui boas pechinchas no Carrefour da Marginal Pinheiros e no saudoso Mappin, que tinham boas seções e preços interessantes. Confesso, envergonhado, que cheguei a trocar etiqueta de preços do Paris, do Supertramp, CD duplo, para pagar mais barato. Coisa feia…
Tinha uma loja chamada Gramophone, na Juscelino Kubitschek, muito boa, com CDs importados, coletâneas interessantes. Eu sempre passava minhas tardes de folgas às terças-feiras (como se folgava pouco no Diário Popular) garimpando algo por ali. E CD também se emprestava, se trocava. Havia lojas especializadas em trocas e, de novo, você conversava, interagia, conhecia gente, havia o saudável contato entre seres humanos. Vieram os gravadores de CD e o que se fazia com as fitas cassete passou a ser feito nos disquinhos.
Hoje o que existe? Baixa-se música via telefone, computador e, acredito, por alguns outros meios. Outro dia vi duas pessoas sentadas lado a lado que trocavam arquivos de música. Não conversavam. O único ruído era o das teclas e aquele som que identifica o fim do download. Estamos parecendo caramujos, enfurnados em nossos casulos, cada um com seu mp3 player, ouvindo sua música, muitas vezes no mesmo carro, na mesma sala.
Tudo bem, vão dizer que sou um dinossauro, mas é isso aí mesmo. É pré-histórico o tempo em que as pessoas se reuniam para ouvir um disco, mas, mesmo sendo pré-histórico, era bom. Não entro no mérito da discussão de baixar música, se é legal, se é crime etc. Mesmo porque eu ainda compro CDs. Se tem na loja, pechincho, mas vou lá e compro. Só baixo música que não consigo achar para comprar. Ou então compro via internet, seja fisicamente ou baixando o arquivo.
O que me incomoda é ver duas pessoas na mesma sala, lado a lado, que conversam sem se falar, sem se olhar. Baixar músicas é um caminho sem volta, mas será que isso precisa afastar as pessoas? Trocar arquivos é ótimo, ganha-se muito tempo, facilita a vida, mas talvez estejamos ficando escravos de nossas estações de trabalho, de nossos celulares multiuso.
Acho que é um pouco por isso que eu ainda compro CDs e DVDs. Porque é bom dar uma volta, ver gente, fuçar nas prateleiras, ouvir um barulho, até mesmo pedir para escutar o disco antes de comprar. Prova que ainda não transformamos em arquivos, em formatos, extensões. Embora estejamos caminhando em banda larga para isso.

12 comentários:

Guilherme disse...

Pô eu também fico triste com essa coisa do CD acabar. Eu também baixo música, mas normalmente de coisa que não tem pra vender, ou pra conhecer. Mas sempre que eu acho um desses que eu baixei e gostei eu compro. As vezes pagando até um preço exagerado.

Joao Luis Amaral disse...

Fala, Nori.
Concordo com você, mas acho também que não deixa de ser - infelizmente - um sinal dos tempos. Hoje em dia, as crianças brincam livres pelas ruas, mas dos condomínios fechados e seguros por câmeras. Poucos são os que têm a sorte de botar o pé na lama, tomar banho de esguicho, jogar bola descalço, ir até uma sorveteria com os amigos e sem preocupação, entre tantos outros exemplos. É um mundo novo, em que as amizades são virtuais, conversa-se por teclado e monitor e deixa-se de lado um aperto de mãos, um abraço sem maldade, um bom papo enquanto o sol vai caindo. Cada vez mais tenho visto crianças com brinquedos tecnológicos avançados, e o papo entre elas é o que "eu tenho", não o que "eu sei fazer".
Pena, porque as melhores coisas da vida são também as mais simples, mais fáceis de serem realizadas.
Grande abraço,
Joao Luis Amaral

felizmino disse...

Boa noite! Este texto foi muito bem escrito, faz a pessoa voltar alguns anos no tempo(será mesmo alguns?). Pinta um pouco de saudade de um tempo em que as pessoas eram bem menos egoístas e bem mais amistosas, coisa que hoje em dia parece estar se perdendo com o passar dos dias, infelizmente. Parabéns pelas palavras bem escritas.

Marcelo Laguna disse...

Pô, Cabeça, tô com aquela coleção ainda aqui, praticamente sem usar, depois de tanto tempo, é mole? Preciso descobrir um lugar onde posso comprar um toca-discos daqueles dos nosso tempos.
Isso que você escreveu tem tudo a ver, nada de saudosismo, não. Ou melhor, um saudosismo que vale a pena sentir. Outro dia, lá no jornal, o estagioário que trabalha no Esportes veio me pedir pra transferir uma música do meu celular. E foi aí que fiquei aprendendo sobre o tal bluetooh! Pode ser mais prático, mas eu tb prefiro comprar meus filmes e minhas músicas em lojas.
Abração

Prof. Alberto disse...

Olá Nori.
Sou da epoca do long-play e dos compactos, simples e duplos. Além das músicas, chamava a atenção da capa dos LPs. Aqui no Brasil, Elias Andreato (peço perdão se eu errei no nome) produzia capas que são uma verdadeira obra de arte.Ir à uma loja de discos naquela época, era como estivesse numa galeria de arte, além do prazer de encontrar amigos e ficar horas conversando. Mas o tempo avança e a tecnologia se renova.

Rodrigo Borges disse...

Laguna tirou 2 semanas de folga para ouvir os discos...

Robert Alvarez Fernández disse...

Pois é, assim como o Nori frequentava as lojas dos shoppings eu ia no centro da cidade correr atrás de raridades e lançamentos na 24 de Maio, Rua Direita, etc.; era divertido, embora nunca tenha efetivamente feito parte da tribo das camisetas pretas e cabelos compridos, sempre fui respeitado por eles e respeitei a liberdade de cada um se expressar como quiser, veio daí um grande aprendizado pra vida toda.

Concordo que é um sinal dos tempos esse isolamento, essa falta de convívio; é o tempo das relações efêmeras, superficiais e distantes no qual acompanhamos as bobagens da Britney Spears pela internet e a cobertura dos desdobramentos de um crime com viés de reality show barato e de mau gosto..e pensar que essa reflexão começou com o desejo de continuar visitando lojas de CDs, eu também quero continuar indo nas lojas, ver gente, esbarrar com gente na fila e conversar, habilidade esta que está a ficar restrita aos "Dinos" como nós.

André Monnerat disse...

Nori, eu entendo um pouco a sua decepção com a mudança de relação das pessoas com o ato de adquirir música.

Mas veja bem: eu sou músico, toco bandas independentes aqui no Rio. NEste último fim de semana, tive a chance de tocar com o Palmeras Kanibales, uma banda da Venezuela que jamais tocou ou tocará em rádios daqui.

Graças à internet, eles puderam vir se apresentar no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Por aqui, devem ter reunido umas 400 pessoas em dois shows - que tiveram a chance de baixar antes de ir vê-los suas músicas, verem vídeos de outros shows no YouTube. E aí foram se encontrar, trocar idéias e tudo o mais na frente do palco. Olha as pessoas interagindo! Até comprar o CDzinho deles o povo comprou. :)

Acho que essa troca de idéia sobre música se transferiu das lojas de disco para o espaço virtual dos blogs de música, comunidades no Orkut e por aí vai. Claro que nada substitui o contato pessoal, físico, mas pode ver a quantidade desses blogs que organiza suas festas e reúne seu público pra dançar e ouvir música...

Nori disse...

Prezado André, muito legal seu post. Acho que é assim que se manterá viva essa chama dos tempos das lojas de disco. Quem sabe não teremos lojas de música digital também, no futuro? Não apenas as virtuais, mas espaço físico de confraternização. Abs

Nori disse...

Pois é, João Luís, é um triste retrato desses tempos em que estamos nos escondendo atrás de teclados e botões. Abs

Nori disse...

Professores Alberto e Robert, felizmente temos pessoas como vocês que podem depositar um olhar acadêmico e nos ajudar a entender melhor esse fenômeno dos nossos tempos.
Abs

Robert Alvarez Fernández disse...

Caro Nori, é um prazer "blogar" contigo e com os demais colegas daqui, sempre à disposição, abraço.

Robert