sexta-feira, julho 06, 2007

A COPA AMÉRICA E
O MUNDIAL DE 82


Volto a escrever da sempre abafada Venezuela, um dia após a lembrança dos 25 anos da derrota do Brasil para a Itália na Copa do Mundo de 1982, que entrou para a história do nosso futebol como A Tragédia de Sarriá. Costumo ser voto vencido nas discussões que abordam o tema. Admirava, sim, aquela Seleção com gênios como Sócrates, Falcão e Zico, mas nunca fui fã incondicional. Na minha maneira de ver o futebol, a grande equipe do Brasil foi a de 1970, não apenas porque ganhou a Copa, mas por tudo que mostrou, por ter Pelé, outros grandes jogadores e muito mais equilíbrio que o time de 82. Isso, no entanto, é uma outra história.
Qual seria a relação entre 82 e esta Copa América de 2007? Alguns estudiosos e torcedores de futebol acham que a derrota brasileira em 82 mudou para sempre alguns conceitos. Entendem que o fracasso de um meio-campo de craques (Falcão, Sócrates e Zico) e um bom jogador (Cerezo) provocou um recrudescimento do futebol e inaugurou a era dos brucutus, os volantes ou cabeças-de-área cuja missão era apenas destruir, nunca participar da criação. Jogadores como Mauro Silva, por exemplo. Ou o próprio treinador da Seleção Brasileira atual, Dunga. Embora eu ache que Dunga tenha sido um jogador de bom passe e excelente posicionamento.
É uma boa tese, mas acho que está carregada de um certo ingrediente apaixonado. A Seleção de 82 talvez tenha sido a mais adorada por aqueles que entendem o futebol mais como espetáculo e menos como competição. Eu prefiro o equilíbrio dessas duas vertentes. Por isso fecho com o time de 70, que era extremamente moderno para a época. Reparem nos vídeos que até Pelé voltava um pouco quando o time perdia a bola, assim como Tostão e Jairzinho. O quarto gol da final contra a Itália surge de uma bola roubada pelo meio-campo brasileiro, que depois passa por uma jogada de alta classe de Clodoaldo e um gol maravilhoso de Carlos Alberto. Aquilo eu chamo de futebol moderno, bem jogado e espetacular.
O time de 82 adorava jogar, mas não sabia muito o que fazer quando não tinha a posse da bola, dava espaços demais ao adversário, confiando em sua enorme capacidade técnica para vencer os jogos. É meu único ponto de divergência com aquela histórica formação. Telê Santana, dez anos mais tarde, comandou um belo time do São Paulo que era muito mais competitivo, sem abrir mão do conceito básico de jogar bem o futebol.
Felipão, tão injustamente criticado e chamado de retranqueiro, montou um grande time em 2002, uma Seleção que ganhou a Copa vencendo todos os jogos e mostrando grande equilíbrio tático. Pena que no Brasil não se dê o devido valor a um time que tinha Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Cafu e Roberto Carlos no auge de suas formas. Assim como pouca gente dá valor à sensacional dupla de zaga de 1994, Aldair e Márcio Santos, talvez a melhor que já tivemos em um Mundial, ao lado da de 1974, com Luís Pereira e Marinho Peres. Mas para sorte de Aldair e Márcio Santos, Cruyff já não estava mais em campo em 1994.
O time de 2007 ainda não existe. Parte da premissa de um treinador cujo trabalho, na maior parte da vida, foi proteger sua defesa e combater o meio-campo adversário. Parece-me óbvio, portanto, que Dunga seja um iniciante treinador que prima pela cautela. E sempre ressalta em suas entrevistas que sua maior preocupação é não dar espaço, não deixar o adversário jogar. Pois era disso que ele vivia.
Para concluir, não acho que o futebol mais pegado, marcado e menos espetacular que se joga hoje seja consequência da derrota brasileira em 82. Porque, separados, Zico, Sócrates e Falcão continuaram sendo gênios do futebol. E por pouco não acertaram contas com a história em 1986. Talvez o que falte à geração de 82 é admitir que, mesmo sendo um grande time, naquele 5 de julho a Itália jogou melhor. Talvez também falte a Dunga beber um pouco na fonte do time de 82, entender que, apesar de derrotada, aquela equipe deixou coisas boas e que, se mescladas à competitividade inevitável dos dias de hoje, podem resultar muito interessantes.
No meio disso tudo temos o Robinho, um oásis em meio a uma Seleção calada, reticente, politicamente correta e formada por uma maioria de jogadores que pouco conquistaram em termos mundiais, em glórias internacionais, mas já acumularam (com todo o merecimento) dinheiro suficiente para algumas gerações. Outra diferença básica. Em 82, Falcão, Sócratez e Zico, que jogaram mais, muito mais que os 22 convocados para a Copa América, certamente não tinham acumulado um terço do patrimônio que hoje tem o time da Copa América. Talvez seja um problema do futebol atual. Hoje em dia a riqueza chega muito antes do sucesso.

4 comentários:

Rubão disse...

Concordo contigo Nori, embora sempre vá combater um cara como Dunga. Foi um jogador limitadíssimo arrogante, e não tem credencial nenhuma para ser treinador da seleção. É pior que Falcão em 90. E comete algum dos mesmos defeitos de Zagallo e Parreira, sendo um deles o de queimar jogador na cara dura. Não foi assim com Giovanni em 1998 e agora com Diego?

Sobre a seleção de 1982 também fiz um post sobre isso dias atrás. E o nosso Robocop com prazo de validade vencido jamais se fiará em algo daquele time porque ele não consegue entender o conceito de futebol bem jogado, já que gosta de futebol na horizontal. Abração!

Blog do Menon disse...

É um luxo, nos tempos atuais, comparar 70 com 82. O que nos sobrou é esse time ruim do Dunga. Um cara vingativo, que não tem a grandeza de reconhecer que o time de 82 jogava muita bola, apesar de perder.
Dunga é um desses caras que divide o mundo em vencedores e fracassados. O mundo dos outros, porque nunca reconhece que fracassou feio em 90 e fracasssou também em 98.

Anônimo disse...

Quando jogador, Dunga foi medíocre, agora técnico é pior ainda. FORA DUNGA !

Cassio RM Godoi disse...

O futebol brasileiro está perdendo o gosto pelo jogo de conjunto só lembrando disso quando vem a Argentina jogar. Até mesmo os cronistas esportivos estão cada vez mais deficientes em suas análises. Eu desligo o som da televisão para não ouvir as besteiras que a maioria dos comentaristas dizem. Chega a ser insuportável ouvir tanta asneira em tão curto espaço de tempo. Seria mais educativo o silêncio de uma narração enxuta como nos tempos da TV Cultura quando transmitia futebol. É impressionante a falta de conhecimento de futebol na análise da seleção do Dunga. Qual foi a grande invenção do Dunga? Restabeleceu os volantes campeões brasileiros de 2006 do São Paulo e ponto final. Mineiro e Josué são volantes que sabem jogar e até fazer gols. Não foi o Mineiro que criou a jogada para o gol do Maicon? São jogadores que se conhecem, tem ótimo toque de bola, estão sempre procurando uma boa colocação para manter o time no controle do jogo. Uma dupla entrosada como essa não se consegue convocando dois craques. Leva muito tempo e muito trabalho. Quer um bom exemplo de má convocação? Por quê os técnicos da seleção e os cronistas esportivos nunca se lembram do Deivid, ex-Santos, ex-Corinthians, ex-Cruzeiro? Por que não dão importância para o jogo de conjunto. Querem convocar estrelas dos times. O Deivid com o Robinho, Diego, Elano e Renato formaram o Santos campeão brasileiro. Um grande time. O Dunga preferiu um desconhecido recentemente famoso do futebol holandes, o Afonso. Perdeu profundamente. Se tivesse convocado o Deivid teria uma opção de ataque excelente com um conjunto quase pronto. Com 2 ou 3 treinos teriamos um conjunto excelente. Para concluir reafirmo que é necessário análises mais cuidadosas sobre o futebol associado. A mercantilização está destruindo o futebol brasileiro, com técnicos, dirigentes, empresários, cronistas esportivos e jogadores metidos nesse grande comércio frio e especulativo que hoje só engana os bobos. Até a galera já cansou dessa enganação toda.