quarta-feira, maio 09, 2012



Guia para (não) cornetar

 

arbitragem no Brasileiro



Arbitragem é um prato cheio de polêmica. Cada um interpreta de um jeito cada jogada. No Brasil isso ganha proporções inimagináveis, já que somos um povo que adora uma teoria da conspiração.

Mais do que a regra, que é bem clara, como diz o Arnaldo, o que é muito importante e pouco lembrado em relação ao jogo de futebol é a maneira como ela é interpretada. Ou, como está escrito no livro de regras oficiais, as diretrizes e orientações dadas aos árbitros.

Além disso, existem as orientações passadas pelas entidades que organizam os torneios. O que são elas? Orientações de como interpretar cada tipo de jogada. A Fifa usa vídeos de lances de seus torneios e os mostra aos árbitros, dizendo qual interpretação deve ser dada para cada tipo de lance, de acordo com sua orientação.

Quem participou do excelente curso de arbitragem para jornalistas dado pelo Sálvio Spínola na Aceesp, teve acesso a esses vídeos e pôde entender porque muitas vezes não se marca uma falta ou não se mostra um cartão quando até o próprio árbitro pensa diferente. São orientações. No caso da Fifa, fica claro que a entidade quer evitar ao máximo expulsões para preservar seu negócio: os jogos da Copa.

A CBF divulgou recentemente uma circular orientando árbitros sobre interpretações e diretrizes relativas à regra do jogo, visando o Brasileirão.

Separei alguns trechos para esse pequeno guia. Talvez nos ajude a entender alguns critérios que a arbitragem adotará. O que está na circular aparecerá em itálico. Meus comentários em letra normal.

Cartão amarelo - O cartão amarelo corresponde a um ultimato. Logo, ele não pode ser aplicado em lances normais, pela equivocada filosofia de "
segurar o jogo". Não há distinção entre faltas cometidas no primeiro ou no segundo tempo. A boa arbitragem tem o mesmo critério do começo ao fim da partida. As advertências verbais, sobretudo com o jogo paralisado, para que todos percebam, têm efeito muito positivo.

Ou seja, cartão amarelo não será dado para qualquer faltinha, como gostam de dizer alguns colegas.

Cartão vermelho -  É medida extrema que exige conduta proporcional. Nas situações de confronto em que um jogador empurra o outro sem brutalidade e é golpeado com força excessiva, somente o que golpeou merece ser expulso.
É importante salientar, de outro lado, que há situações que possibilitam ao árbitro, antes de punir o jogador, se certificar das consequências da falta, ou seja, se o jogador atingido sofreu lesão grave.

Aqui, claramente, há preocupação com a simulação.

Faltas -  Falta é sempre falta e sempre deve ser marcada, tanto sem preocupação com a quantidade ocorrida em uma partida, como sem prejuízo da vantagem e da ação disciplinar comportável na primeira paralisação. Dar dinâmica ao jogo não é deixar de marcar falta, tampouco conceder vantagem sem que a equipe que a sofreu tenha efetiva posse ou domínio da bola, ou seja, clara possibilidade de fazer a jogada pretendida. A CA/CBF também relembra que queda não é sinônimo de falta e que o futebol é esporte de contato. As ações que justificam marcação de falta devem ser, salvo o ato de segurar, no mínimo, imprudentes. O contato físico – carga – pela busca de espaço ou de posse da bola, sem uso dos braços para empurrar ou segurar o adversário, faz parte do jogo e, portanto, não é faltoso. Não pode ser esquecido de que o jogador que detém a posse da bola não pode procurar contato físico, salvo para "cobrir" a bola, fazendo obstrução legal, jamais para impedir que o adversário a dispute. Conhecer os movimentos próprios do futebol é ferramenta indispensável para interpretar bem esses lances.


É bom ler isso antes de falar que certo tipo de falta só se marca aqui etc. O Brasil não é a Inglaterra.


Simulação - Prudência na análise, sobretudo se houver contato corporal. A ADVERTÊNCIA COM CARTÃO AMARELO exige acinte e clareza da simulação. Sendo o caso, o cartão deve ser aplicado, necessariamente. Não o sendo, as ADVERTÊNCIAS VERBAIS, desde que o jogo não seja paralisado por esse motivo, também produzem efeito e são próprias do poder do árbitro. As simulações fora da área de pênalti e as de defensores, embora mais raras, também devem ser sancionadas. O conhecimento do comportamento de alguns jogadores serve para elevar o nível de atenção do árbitro e maior proximidade do lance, jamais para estabelecer preconceito.
Por tudo isso, a CA/CBF alerta que ficará bem vigilante para a hipótese de o árbitro, por não ter convicção sobre se houve ou não falta, aplicar cartão amarelo para esconder sua dúvida, pois isso é inconcebível, desleal, injusto e fere a filosófica da CA/CBF, que exige justiça, responsabilidade e imparcialidade.

Aqui cabe lembrar que jogador de futebol cai mesmo, é natural do jogo.

Mão boba - A marcação de falta em toque involuntário é tão errada como a não marcação quando há intenção. Os árbitros devem analisar todos os elementos para definir tais lances (posição do braço ou da mão: natural ou antinatural; distancia entre o local do chute e o jogador que mantém contato com a bola; velocidade da bola; e, principalmente, se o jogador, se podia, tentou evitar o toque). Feita a análise, os árbitros devem decidir com coragem, pois marcar mão só porque houve o toque é postura que fere o espírito da regra.

Essa sempre vai dar polêmica, porque analisar intenção é subjetivo demais.

Já que virou moda -  Os árbitros deverão estar atentos ao trabalho dos gandulas. Estes devem adotar o mesmo comportamento para as duas equipes. Lamentavelmente observa-se que alguns colocam a bola rapidamente para o jogador da equipe local repor a bola rapidamente em jogo, porém não adotam o mesmo procedimento para com a equipe adversária. Exigir equanimidade nas condutas.



www.aceesp.org.br

terça-feira, maio 08, 2012

Que delícia de molecagem!


Reproduzo a coluna publicada hoje nos jornais da Rede Bom Dia.

Juventus apronta mais uma travessura e nos faz lembrar da paixão genuína por um time de futebol, seu bairro, sua gente


A vitória do Santos era tão previsível quanto a próxima estação do ano. Por isso, Neymar e os santistas que me perdoem, mas o que realmente marcou o domingo de futebol foi o acesso do Juventus à Série A-2 do Paulistão.

Foi bem ao estilo juventino, fazendo travessuras com o coração de seu torcedor. O time perdeu do Grêmio Osasco (que também subiu), mas foi beneficiado pela derrota do Guaçuano para o Marília. Senha para a festa na República Popular da Mooca.

Mas por que falar do Juventus? Sou caipira, não nasci e nunca vivi na Mooca. Mas o Moleque Travesso é um digno representante da resistência nessa era de “futebol é negócio”, empresários sem escrúpulos e marqueteiros de gosto duvidoso. O Juventus é uma viagem a um tempo em que as coisas eram diferentes. Ajuda a contar um pouco da própria história do desenvolvimento do futebol no Brasil e no mundo. É o time do bairro, um modelo seriamente ameaçado de extinção por aqui.

O Juventus não tem títulos importantes nem torcida gigante ou grandes craques, mas, ainda assim, cativa um pequeno e fiel grupo de seguidores, que seguem uma liturgia e, de certo modo, ajudam a criar uma mitologia em torno do time. Fundado por imigrantes italianos e instalado numa região inicialmente habitada por eles, o Juventus é embaixador dos costumes daquele que talvez seja o mais paulistano dos bairros. Então, quando entra em campo, mais do que a algodoaria da família Crespi, o Juventus perpetua a história dos operários que ajudaram a levantar o bairro e dos costumes que hoje se confundem com o estereótipo do paulistano. Desde o sotaque até a sagrada pizza de domingo.

O time de bairro é uma instituição ainda poderosa em países como a Inglaterra e a Argentina. Foi seguindo os trilhos de trem que ele surgiram, se instalaram e foram ficando. Um passeio de trem pela Grande Buenos Aires parece a tabela do campeonato argentino sendo feita a cada estação. No Rio, também foi assim. São Paulo cresceu de outro modo, embora também com influência das estradas de ferro, com times como o Nacional.

Mas o Juventus capturou a essência do bairro. Do sotaque moquense, do jeito simpático e acolhedor de seus habitantes, dos chinelos e das bermudas, dos mercadinhos e vendinhas que sobrevivem ao avanço insensível da especulação imobiliária.

Por isso, eu me plantei em frente à TV na manhã de domingo e torci pelo acesso do Juventus. Para nos lembrarmos de que o futebol só é o futebol porque ainda existem clubes como o Juventus e pessoas como as que torcem pelo Juventus. Durante muitos anos, eu joguei futsal na quadra da Rua Javari e, uma vez, só não fui bater uma bolinha naquele gramado sagrado porque tive um acidente de automóvel no caminho.

É um espaço mágico. Deveria ser declarado patrimônio cultural, com suas arquibancadas acanhadas, os vendedores de cannoli, a torcida Ju-Jovem. Posso estar enganado, mas acho que nenhum outro time faz tanto eco em sua gente como o Juventus. Não importa quantos sejam. Talvez tenha sido por isso, até como homenagem, que o Rei Pelé tenha resolvido fazer seu gol mais espetacular na Javari. Molecagem real.

Teoria da conspiração

Circula entre alguns cardeais são-paulinos a seguinte teoria: a ideia de tirar Paulo Miranda da concentração antes do jogo contra a Ponte Preta seria uma tentativa de provocar um pedido de demissão do técnico Leão. Não colou e acabou respingando nos jogadores, que não gostaram nada do que fez a diretoria.

Sábio Muricy

A idade e as conquistas só melhoram Muricy Ramalho como treinador. Ele ainda é da escola antiga e sabe que, entre outras coisas, o bom técnico é aquele que atrapalha pouco e consegue tirar o máximo dos grandes jogadores. Por isso, Neymar joga livre para criar e o técnico quer Ganso perto da área e do gol.

Hora do apetite

O Corinthians segue sendo um time organizado, equilibrado e forte. Mas agora, quando o bicho pega na Libertadores, é hora de mostrar mais fome. Até para colocar a Fiel no jogo, o time precisa chutar mais a gol, criar mais, apertar e encurralar o adversário. Vale até deixar um pouco de lado a organização em busca da inspiração.

Nó tático

Considero o Brasileirão o torneio nacional mais equilibrado e difícil do futebol mundial. Não existe campeonato entre clubes de um mesmo país que tenha tantos candidatos ao título, possibilidades de surpresa e elementos complicadores como distâncias, variação de clima e temperatura e rivalidades locais e regionais.

Para complicar ainda mais a vida dos 20 times que disputam a Série A do Brasileiro, por aqui a temporada tem uma particularidade. Ela se divide em duas, na verdade. Porque o efeito do fracasso de algumas equipes nos estaduais é tão grande que provoca reformulações com o avião em pleno voo. Fora isso, não há tempo para pensar, se esquecer da derrota. Em uma semana, é preciso virar a chave dos estaduais e reprogramar tudo para o Brasileirão. Quem sobrevive na Copa do Brasil, geralmente, entra com o time reserva no começo do nacional.

Dois gigantes paulistas vivem esse dilema. Eliminados precocemente no estadual, Palmeiras e São Paulo ainda sonham na Copa do Brasil. O Verdão já deu início a uma grande reformulação no elenco. Que pode respingar no vizinho de CT caso o time seja eliminado pela Ponte Preta. Mas, no caso do Tricolor, a reforma deve começar pelo técnico em caso de fracasso.

terça-feira, maio 01, 2012



Máquina do Tempo



Link para a coluna publicada nesta terça, 1 de maio, no Diário de S.Paulo.

http://www.diariosp.com.br/blog/detalhe/7240/Neymar+e+uma+maquina+do+tempo

quinta-feira, abril 26, 2012


Altitude e baixaria



Entre os muitos temas polêmicos do esporte, a questão da prática em cidades situadas em locais de grande altitude é das mais complicadas.

Já me manifestei aqui anteriormente sobre isso. Repito a postagem aqui para refrescar a memória.

Sempre que alguma equipe brasileira disputa alguma partida de futebol em La Paz (ou em Cuzco, Potosí) volta-se a debater essa questão.

Não tenho conhecimento científico para levar o debate a esse lado. Jamais estive em La Paz para testemunhar algo sobre as reações de meu organismo. Ouvi relatos de amigos que impressionaram pelas dificuldades, com desmaios, dores de cabeça etc. Também sei de histórias de outros amigos que nada sentiram.

Conheço pesquisas de médicos bolivianos que apontam para uma defesa do direito de se jogar na altitude, enumerando motivos e argumentos. Também há trabalhos de cientistas brasileiros que citam riscos e prejuízos à saúde dos atletas.

Um resumo do que penso: um dos motivos para a popularidade do futebol é sua universalização. Como proibir alguém de jogar futebol, de montar um time e construir um estádio em grandes altitudes? La Paz é a capital da Bolívia. A Cidade do México está ali desde os tempos dos astecas. No caso da capital boliviana, até as operações de pouso e decolagem de aviões são de muito risco, cheias de detalhes técnicos. Mas é preciso chegar e partir dali voando.

Não sou arrogante ao ponto de afirmar que tenho a solução, mas talvez fosse o caso de se estudar o calendário das equipes que jogam nas alturas. Oferecer ao adversário, dentro do regulamento, mais tempo de adaptação. Vão dizer que é impossível, que não há datas etc. Virem-se. Os dirigentes estão aí para isso. As federações e confederações faturam os tubos para isso. Os clubes também possuem recursos para aplicar nessa questão. Uma opção seria dar ao time que atuará em La Paz e Potosí uma semana livre para jogar apenas essa partida, um período de sete dias.

Com suas particularidades e diferenças, também oferece riscos à saúde de um atleta profissional uma partida as 15 horas em pleno verão carioca. Ou nordestino. Também no interior paulista. E, ainda que de forma atenuada, um jogador que vive e treina em La Paz, se tiver que descer o morro e jogar em Manaus, por exemplo, terá um prejuízo atlético já explicado pela ciência.

Mas é um tema cabeludo. Só acho que não se pode simplesmente negar o direito de se fazer e jogar futebol a quem vive em grandes altitudes.

O que se pode e se precisa fazer, urgentemente, é acabar com a baixaria dentro e fora de campo em muitas partidas da Libertadores da América. O mais nobre e importante torneio do futebol sul-americano não pode ser submetido a cenas lamentáveis como atletas recebendo pedradas, como aconteceu ontem com Neymar. Ou então casos que todos já vimos em partidas na Colômbia, quando para cobrar um escanteio o jogador precisa ser protegido por escudos de policiais, tamanha a quantidade de objetos que são atirados contra ele.

A pressão em partidas realizadas em estádios de clubes pequenos e médios da Argentina é surreal. Gândulas atuam como guerrilheiros, torcedores têm fácil acesso a vestiários e, até mesmo, ao gramado. É preciso, sim, aprender com a Uefa e o padrão de excelência que ela dá à organização de seus torneios continentais.

Dentro de campo também. O que Neymar apanhou ontem em La Paz foi escandaloso. A violência é legitimada por alguns árbitros sul-americanos. Também pelo fato de a Conmebol aplicar apenas multa em dinheiro para os cartões amarelos. O que transforma a punição em um excelente investimento para a entidade, que só lucra com as canelas dos jogadores.

Basta comparar o número de faltas em um jogo da Libertadores com uma partida da Champions League. Dá vergonha. Algumas estatísticas por aqui beiram a selvageria.

Por falar em Champions League, lá vai o Bayern para outra decisão. O jogo contra o Real Madri foi muito melhor de assistir do que a semifinal entre Barcelona e Chelsea. A equipe alemã é fortíssima, organizada e muito segura mentalmente. Tem um currículo invejável na Champions, mas não goza do prestígio com a mída que Barça e Real têm. Fora isso, o futebol alemão segue sendo apontado por muita gente como um estilo mecânico e sem sal. Discordo. A bola alemã está cheinha. Muitos bons jogadores, toque de bola, padrão tático bem definido. É uma escola que merece muito respeito.  

quarta-feira, abril 25, 2012


 

Os números falam?



Para os amantes das estatísticas (não sou um deles), alguns dados dos números oficiais da Uefa sobre o duelo entre Chelsea e Barcelona, em 180 minutos.

O Barcelona teve 36 finalizações em dois jogos, sendo que 11 delas "no alvo" como diz a nomenclatura oficial, e 25 fora do alvo. O Chelsea teve 11 finalizações em 180 minutos, sendo 4 no alvo (na direção do gol).

O time inglês cedeu 18 escanteios à equipe espanhola. Os azuis tiveram dois escanteios a seu favor em 180 minutos.

O Chelsea cometeu 21 faltas em duas partidas, o Barcelona fez 17 (números para fazer morrer de inveja o torcedor brasileiro, que vê uma cavalaria desenfreada nos jogos daqui).

Foram oito cartões amarelos e um vermelho para o Chelsea, e dois amarelos para o Barcelona.

Para os defensores do "marcar bem"  refletirem.

O treinador do Chelsea, Di Mateo, resumiu bem, para o meu olhar de analista, o que foi o jogo.

"O segundo tempo foi muito mais paixão e desejo do que tática".

terça-feira, abril 24, 2012

 

Porque isso é futebol



Deu Chelsea contra o Barcelona. Foi a vitória do bico pro mato que o jogo é de campeonato sobre o futebol de toques envolventes, de posse de bola e o dobro, às vezes o triplo de finalizações que o advesário.

Foi uma classificação limpa, justa, sem contestações no campo esportivo.

Dessas que ajudam a fazer do futebol o esporte mais popular do planeta, talvez o único que possibilite ao pior vencer o melhor com alguma frequência. Muito mais do que qualquer outra modalidade individual ou coletiva.

Gosto não se discute. Em alguns casos se lamenta. Mas sempre se respeita.

Sigo achando o Barcelona uma dádiva dos deuses do futebol. Um time que, povoado de baixinhos habilidosos, ousou colocar na roda uma penca de adversários cheios de superatletas fortes como touros. Subjugou quase todos os principais times do mundo, sejam eles da Europa ou da América do Sul.

Provou ser possível jogar com a bola, em torno dela e por causa dela. Não apenas se livrando da mesma.

O estilo do Chelsea não me agrada.

Não acho nem que seja um time que marca bem. Sofreu duas dezenas de finalizações em duas partidas seguidas, teve bolas na trave, tomou dois gols em linhas de passe dentro de sua área. Isso não é marcar bem.

Agora, foi um time raçudo, que encarou sua limitação e soube se entrincheira em frente à sua área. E, tirando Terry, que é muito mais um arruaceiro do que um jogador de futebol, jogou na bola. Duro, sem apelar para a violência, dentro das regras e da lei do jogo. Conseguiu uma classificação com méritos.

Mas eu jamais pagaria ingresso ou pararia em frente à TV para ver um jogo do Chelsea (a não ser esse contra o Barça e uma final de liga européia). Como time não me atrai em nada. Como instituição, seu dono me causa repulsa.

Sou um admirador do futebol equilibrado. Dos esportes equilibrados, equipes que saibam atacar e se defender, mas que fundamentalmente, tenham na busca pelo resultado, no que se convencionou chamar de escore. Admiro um belo bloqueio, mas tendo a ficar com a finta que possibilita a um atacante mais baixo enganar uma muralha. Ou ao armador pequenino que infiltra em uma defesa de gigantescos pivôs da NBA.

Mas é gosto. Não compraria um disco de axé, mas tem quem compra e goste. Eu fico com meu bom e velho rock, um pop de boa qualidade.

Se uma rádio me oferece Luan Santana, eu me reservo o direito de colocar um CD do Genesis.

Em resumo, sucesso e vitórias muitas vezes são merecidos, ainda que não primem pela qualidade.

Aos que afirmam admirar uma bela defesa, eu também gosto. Mas prefiro as do Milan com o Arrigo Sacchi e o Fabio Capello. Ou, para ficar no nosso campo histórico nacional, zagas como as do Inter dos anos 70 ou mesmo um trio eficientíssimo de beques como o do São Paulo tricampeão brasileiro, ou qualquer dupla que tivesse um Gamarra ou um Luís Pereira, um Darío Pereyra, um Marinho Peres, um Figueroa. Ou a Academia palmeirense de Oswaldo Brandão, que fazia um a zero e ficava tocando a bola, dava pro Ademir da Guia e se contentava com um, dois gols, porque sabia que lá atrás tava garantido.

São estilos.

Só me reservo o direto de jamais aceitar o argumento de que o que vale é taça no armário, que é preferível vencer jogando mal do que empatar ou perder jogando bem. Sabe por quê? Porque é exceção. A regra é que em 99% das vezes quem joga melhor vence. Os que jogam melhor deixam lições e legados. Os que jogam melhor também perdem, mas ganham muito mais.

Felizmente, no futebol tem o dia do pior ganhando do melhor. Porque essa é uma das muitas graças desse jogo que pode parecer demoníaco, mas no fundo é divino.

segunda-feira, abril 23, 2012


Campinas, Rio, Minas, Sul...













Impossível não lembrar dessa foto aí acima no dia de ontem. Remete aos tempos em que a revista Placar vivia tempos realmente relevantes, e o futebol de Campinas estava no seu auge. Os anos 1970, especificamente.

As classificações de Guarani e Ponte para a semifinal do Paulistão foram irretocáveis, merecidas, incontestáveis. E remetem a esse tempo em que ganhar de Bugre e Macaca na Cidade das Andorinhas era praticamente impossível.

Havia constelações jogando no Brinco e no Moisés. Zenon, Careca, Zé Carlos e Renato de um lado. Oscar, Polozzi, Carlos e Odirlei de outro. A Placar sabiamente uniu aqueles craques com a cidade de Campinas ao fundo e escalou uma equipe que certamente formaria um esquadrão.

Num campeonato marcado por arbitragens de quinta categoria, um regulamento estúpido e jogos previsíveis, Ponte e Guarani garantiram a dose de surpresa necessária para espantar a mesmice. Um dos jogos decisivos será em Campinas, e é bom Santos e São Paulo não bobearem contra quem passar do histórico dérbi da próxima semana.


Alvinegros no Rio


Desde a temporada passada que o Vasco vem jogando o futebol mais consistente e agradável entre os grandes do Rio. Tem seus altos e baixos, mas quando está completo é um time muito interessante.

O Botafogo pode não ser brilhante, mas também tem um jeito de jogar, atletas de bom nível, repôs jogadores com características parecidas às daqueles que lá estavam. Farão uma bela final de Taça Guanabara e certamente torcerão para que o Flu se desgaste muito na Libertadores.

Gre-Nal fora de hora


Era para ser a final do Gauchão, mas será apenas da Taça Farroupilha. O Caxias se meteu entre os grandes gaúchos e atrapalhou a vida de ambos. Luxemburgo tenta se recuperar no Grêmio, enquanto o Inter tem a Libertadores no meio do caminho. Mas Gre-Nal sempre vale a pena e traz consequências. As feridas costumam demorar a cicatrizar.

Minas ferve


Cabeças quentes de sobra nas semifinais em Minas. Bate-boca entre jogadores do Coelho e da Raposa, dedo em riste entre jogadores do Tupi contra o Galo. Muita coisa ainda vai acontecer, sô! Espero que com mais calma. Mas ainda acho que vai dar Cruzeiro x Atlético na despedida das finais em Sete Lagoas.

E na Boa Terra a dupla Ba-Vi se deu mal na primeira perna das semifinais. Mas tem tudo para virar o jogo e decidir um torneio marcado por uma tempestade de gols. Porque a energia da Boa Terra merece.

E o que é melhor de tudo: o Brasileirão se aproxima.

quinta-feira, abril 12, 2012


Parabéns, Juninho Pernambucano!



Caro leitor, se você ainda não viu, veja, leia e preste muita atenção no desabafo feito por Juninho Pernambucano em entrevista a Vanessa Riche.

É um daqueles raros casos de bom senso e sinceridade que de vez em quando teimam em fugir ao lugar comum das declarações redundantes e vazias proferidas por 90% das pessoas que militam no futebol.

Juninho protesta, justamente, contra o vazamento dos valores de seu contrato com o Vasco.

Essa é uma das muitas manias de uma parcela de torcedores e de outra parcela da mídia no Brasil. Há uma obsessão por saber quanto ganham técnicos e jogadores de futebol. Tem gente que acha que vale matéria de capa e ainda bate tambor dizendo que fez uma grande reportagem, relevante.

O problema é que alguns acreditam que para resolver os problemas do Brasil é preciso começar pelo futebol, tamanha a virulência de alguns textos, comentários e atitudes. Se nossos políticos fossem cobrados com essa volúpia estaríamos hoje muito melhor como Nação.

Atleta profissional de futebol não é funcionário público, não prestou concurso, não prevarica em sua relação de empregado de uma entidade teoricamente sem fins lucrativos.

Assim como qualquer outro funcionário de qualquer empresa. Só porque é famoso, celebridade e enriqueceu graças ao seu trabalho ele precisa ter seu salário revelado? Onde está escrito isso em algum manual de redação decente?

Cada um pode achar relevante o que bem entende no exercício da sagrada profissão de jornalista, mas eu me reservo o direito de parabenizar o Juninho Pernambucano. O quanto ele ganha é problema dele e de quem paga a ele. De mais ninguém.

Se ele quiser falar quanto recebe, abrir os valores de sua relação trabalhista, problema dele.

Mas a regra nas relações entre clube e jogadores (e vice-versa) no Brasil ainda é movida a mesquinharia. Tem um tipo de dirigente que, quando o atleta entra em má fase, adora espalhar quanto ele ganha e falar do tal custo-benefício.

Assim como tem jogador que gosta de passar a notícia de que um recém-contratado chegou ganhando muito mais do que ele. Ciúme de homem é terrível e, no futebol, ganha proporções inimagináveis.

O jogador de futebol no Brasil vive sob a lupa de uma bem articulada rede de espiões. Torcedores que acham legal ser dedo-duro e fotografam atletas em suas horas de folga como se eles não pudessem fazer o que qualquer mortal faz na hora do descanso. Paparazzi, setoristas de celebridades e parentes e informantes de cartolas completam essa teia moralista e retrógrada. Gente que quando o time ganha curte a balada com o jogador, tira foto, tenta parasitar para ver se sobra alguma coisa no fim de noite. Se perde, sai vociferando teses de comprometimento, respeito, honra, caráter.

Uai, só porque não exerce uma atividade que pressupões preparo físico o sujeito pode encher a lata, dormir pouco e inventar uma desculpa pro chefe? Ele pode, o "boleiro" tem que ser um monge franciscano?

Façam-me o favor!

Vivemos num País que enfrenta uma autêntica guerra civil de violência urbana. Mata-se em saída de banco por quantias irrisórias. Quadrilhas montam arsenais para invadir lares em plena luz do dia. Qual o sentido de alardear como matéria útil dizer quanto recebe um jogador de futebol?

Honestamente, não vejo nenhum. Pouco me importa quanto recebe o craque, o perna-de-pau, a promessa. Nunca liguei pra isso. Talvez seja questão de índole.

Nesta semana, numa palestra com estudantes da Universidade São Judas Tadeu, me perguntaram o que eu achava da questão dos salários astronômicos de futebol.

Essa foi minha resposta: "Errado não é jogador de futebol ganhar bem, errado é professor ganhar pouco, bombeiro ganhar pouco, policial ganhar pouco e a população em geral ganhar pouco e ser mal atendida por quem ganha muito para trabalhar por ela".

Parabéns, Juninho, por se revoltar contra esses bisbilhoteiros!

sexta-feira, março 30, 2012



Papo com Mano


Foi bom o papo com Mano Menezes no Arena SporTV de quinta-feira.

O técnico da seleção brasileira é inteligente, sabe se portar nas entrevistas, escorrega por onde pode, mas foi possível tirar algumas coisas interessantes dele.

Outras o bom repórter e o bom observador sacam sem que elas precisem ser ditas literalmente.

Mano responde muitas vezes em mensagens cifradas, que o interlocutor esperto entende na hora.

Sobre o time brasileiro fica claro que o treinador tem uma dúvida no setor mais importante. Essa dúvida é compartilhada com todos os torcedores e tem nome e apelido: Paulo Henrique Ganso.

Paira sobre esse talentoso meia-esquerda a esperança do técnico e da torcida de que ele consiga ser o organizador do time, o jogador com visão e técnica capazes de abastecer um atacante rápido pela direita (provavelmente Lucas, do São Paulo), um atacante rápido e driblador pela esquerda, mas com liberdade maior de movimentação (Neymar, titular indiscutível) e um atacante centralizado, não um poste, mas com presença de área (pode ser Damião, pode ser Fred e talvez seja Pato).

Se Ganso não render o que dele se espera, a seleção provavemente mudará seu sistema de jogo. Porque Mano sabe que não existe no futebol brasileiro um substituto para o 10 santista, alguém que tenha as mesmas características e justifique a aposta. O jogador que tem as mesmas características é Douglas, agora no Corinthians. Mas seus créditos parecem ter acabado.

A alternativa é Oscar, cujos direitos viraram briga jurídica. Essa é uma preocupação que aflige o treinador, embora ele não deixe transparecer. Se o caso de Oscar virar uma batalha longa de advogados de Inter e São Paulo, ele pode até ficar forda da Olimpíada, o que prejudicaria sobremaneira o projeto do treinador para o plano B.

Com Oscar na vaga de Ganso o time deixa de ter um despachador de bolas em alto nível, um cara que faz a bola chegar sem precisar ir junto. Oscar é diferente, geralmente vai com a bola. O que sugere uma alteração na composição do time. Talvez até com a saída de um atacante (Lucas) e o reforço do meio-campo, deixando de ser, na teoria, um 4-3-3 para virar um 4-4-2.

A defesa não preocupa o treinador. Daniel Alves, Thiago Silva, Davi Luiz ou Dedé e Marcelo devem estar na Copa como titulares. A posição de goleiro está aberta, com disputa entre os que foram mais convocados.

Lucas Leiva deve ser o primeiro volante. Fernandinho agradou demais ao treinador e está subindo de cotação. O futebol do corintiano Paulinho conta com a simpatia de Mano, até mais do que o desempenho do santista Arouca.

O time da Olimpíada muito provavelmente será o time da Copa, contando com os três jogadores com idade acima de 23 anos. Isso se o Brasil for bem na Olimpíada, porque caso contrário, talvez nem o próprio Mano chegue até a Copa do Mundo.

Kaká perdeu espaço e hoje gera mais dúvidas do que certezas na cabeça do treinador da seleção. Que deixou bem claro no Arena que vai esperar a próxima temporada européia para avaliar o comportamento, principalmente físico, do meia do Real Madri.

Ronaldinho Gaúcho perdeu pontos, ficou claro. Mas não está descartado.

Outra conclusão a que se chega claramente após uma conversa com Mano Menezes é a preocupação com a entressafra de nossos jogadores, com a redução no ritmo de surgimento de grandes atletas, e com o aspecto tático do jogo praticado no Brasil.

Uma situação em particular, no programa de quinta, me pareceu estarrecedora. O fato de não ter sido apresentado ao treinador um relatório da Copa do Mundo de 2010. Desempenho, comportamento, questões físicas etc.

Mostra o quão amador ainda é o processo na Confederação Brasileira de Futebol.

Mano afirmou que sua comissão tecnica está produzindo um mapeamento completo de desempenho de jogadores desde a seleção sub-15 até a principal. Um arquivo com dados estatísticos, físicos, técnicos e táticos, que terá acesso online e ilustração com imagens e vídeos.

quarta-feira, março 28, 2012



Só a educação salva


Estarrecidos, assistimos a mais um episódio de selvageria desses bandos que usurpam o nome dos verdadeiros torcedores. Mais mortes que poderiam ser evitadas. O que dói, o que choca, o que revolta é que todos os brasileiros sabem que não serão as últimas.

Não sou pretensioso ao ponto de acreditar que conheça a solução para um tema tão complexo. Mas, mesmo não sendo pregador e abominando os que fazem dessa função um nefasto caça-níquel, acredito que há um caminho para buscar a solução. Chama-se educação.

Uma educação que não se resume a ir à escola (mas antes é preciso que haja uma escola para ir e bons professores, bem pagos e motivados para ensinar). Refiro-me, também, à educação informal, aquela que passa de avô para neto, de pai para filho, que se ensina e se aprende no lar, na rua, no bairro. Uma educação que é baseada no respeito ao próximo, ao seu direito, à sua privacidade, suas opções de escolha. Sejam elas políticas, musicais, sexuais e futebolísticas.

Essa educação caminha rapidamente para a falência no Brasil. Sem ela a outra, a formal, da sala de aula, dos bancos escolares, não existe. Ainda mais quando se trata de um País em que a escola é negligenciada, os professores são tratados como cidadãos de segunda classe e qualquer assessorzinho parlamentar, um desses cabides de emprego que infestam as repartições públicas, ganha em um mês muito mais do que um professor em um ano de trabalho.

O futebol ainda se sustenta como uma paixão genuína, contagiante, que consegue unir e reunir amigos, mesmo que eles não torçam pela mesma equipe. Esses são os verdadeiros torcedores. Aqueles que riem, choram, brincam com os amigos, mas sabem que após aqueles 90 minutos há uma vida para ser vivida, pais, filhos, irmãos, amigos, trabalho, objetivos. Infelizmente, esse torcedor, o que merece vestir a palavra, está sendo expulso dos estádios pelas hordas.

São grupos de vândalos que vilipendiaram a expressão torcida uniformizada. Talvez eles próprios não saibam a origem da expressão torcida uniformizada. Eram grupos que tinham como único objetivo irem juntos, assistirem juntos a um jogo de futebol. Levavam almofadas para que mulheres e crianças pudessem enfrentar melhor o duro cimento das arquibancadas. Picavam papel, faziam faixas e cartazes, criavam músicas que passavam longe dos hinos de guerra e ódio que os herdeiros ilegítimos do nome entoam nos tristes dias de hoje.

Não se iludam porque tudo isso passa pela (falta de) educação. Literal e figurada. Basta ver a ultrajante troca de mensagens dessa gente nas redes sociais. Textos cravejados de erros de ortografia e gramática, mas o que é pior, sem sentido, sem nexo.

Nossa sociedade vive hoje na berlinda. Saímos de casa com medo, rezando para voltar. Torcendo (com o perdão da expressão) para que ninguém raspe no seu carro, que você não esteja na rota de uma quadrilha, no caminho de um assaltante em fuga, na mira de uma bala perdida. Ou, então, numa rua escolhida pelas hordas para um acerto de contas entre intransigentes.

Isso tudo brota em situações banais do cotidiano. Em alguém que fura uma fila porque se acha mais esperto. No sujeito que joga papel, bituca de cigarro e lata de cerveja no chão de uma rua onde não mora. No motorista que acredita poder dirigir bêbado sem se importar com o carro do próximo cruzamento, que carrega uma família que pode ser riscada da história sem nem ao menos entender o motivo. No comerciante que paga propina para vencer seu concorrente. No funcionário público que aceita propina para não prestar o serviço para o qual prestou concurso. No fabricante de automóveis que anuncia um carro que não tem para entregar. Na empresa aérea que cancela voos apenas para não prejudicar seu lucro. No político que compra o seu voto e vende o dele.

Tudo isso desagua no chamado tecido social brasileiro, que está prestes a se romper em várias partes. As hordas uniformizadas são uma das pontas que se romperam. Tente ir a um jogo de futebol em certos setores dos estádios e respirar fundo. O aroma sentido certamente será ilegal. Com que sentido a sede desses grupos reúne autênticos arsenais, se o objetivo é ser torcida, escola de samba e fazer trabalho social? Com paus, pedras, balas e bombas?

Conheço muitos torcedores que fazem parte desses grupos e são pessoas corretas, honestas, que gostam da festa, amam seu time e o futebol. Mas esses estão se afastando aos poucos.

Como no Brasil tudo se resolve por decretos que ninguém respeita, existem políticos que afirmam ter acabado com essa prática violenta. Elegeram-se com esse discurso, sabendo que existe uma massa de manobra política poderosa nessas agremiações. Tem político que faz campanha com camisa desses grupos e se elege.

A parcela do bem da sociedade, que ainda é a maioria, está cansada. Desiludida, desamparada.

O Estado omisso não cumpre seu papel de educar e não oferece às famílias as ferramentas para evitar que a falta de educação crie essas aberrações.

Tristes tempos esses. Em que pais pedem aos filhos para que não gostem tanto de futebol.

Sou de uma geração que, em São Paulo, via clássicos no Pacaembu com torcedores misturados no Tobogã. E todos trabalhavam na segunda-feira. Todos acordavam na segunda-feira. Era assim no Maracanã, no Mineirão, em Porto Alegre.

Se nada for feito agora, tudo isso se perderá no tempo. Como lágrimas na chuva (citação livre da mais bela cena do belíssimo filme Blade Runner).

terça-feira, março 27, 2012

quinta-feira, março 22, 2012


Genocídio na pesquisa

Tenho profundo respeito pelas pesquisas de opinião e preferência, por dados científicos e estatísticos. Embora admita que nos últimos períodos eleitorais alguns desses levantamentos tenham provocado certa desconfiança.

Toda pesquisa é encomendada por alguém e usa um método científico de tabulação. Não pretendo melindrar ninguém com essa postagem, tampouco duvidar de algum método ou veículo.

Mas alguns detalhes não deixam de ser curiosos.

Acho que todos concordam com um fato, o aumento da população brasileira ano a ano, de forma frequente. Há mais brasileiros em 2012 do que havia em 2010, estou seguro disso.

Some-se a esse fato um outro, que nada tem de científico, mas goza de certo prestígio: o sujeito troca de religião, partido, mulher, mas não troca de time de futebol.

Ou tem alguma coisa estranha ou algumas dessas pesquisas promovem autênticos genocídios de torcedores.

Vamos aos números. Em pesquisa Lance! - Ibope de 2010 o Flamengo tinha 33,2 milhões de torcedores. Na pesquisa divulgada pela Pluri Consultoria em 2012 são 29,2 milhões de flamenguistas. Três milhões de rubro-negros foram exterminados por alguma SS, uma Stasi das pesquisas? Ou teriam migrado para outra equipe nesse período?

Talvez o Corinthians. Mas o Timão aparecia com 25,8 milhões de torcedores em 2010, mudando para 25,1 milhões dois anos depois. O que houve com 700 mil loucos? Deixaram o bando nesse período?

Cabe a mesma argumentação para os 600 mil são-paulinos a menos apontados pela pesquisa. Teria havido um genocídio dessas três torcidas através de dados? Que dizer do desaparecimento de um milhão de gremistas no período se compararmos as duas pesquisas? Seria coincidência o fato de os levantamentos mostrarem um milhão de colorados a mais de 2010 para 2012. Nunca ouvi falar de gremista virando colorado e vice-versa. Uma movimentação de um milhão de torcedores no Rio Grande do Sul poderia ser chamada de êxodo. Fala sério!

Talvez tenha havido uma virada de casaca de 700 mil desses torcedores de Flamengo, Corinthians e São Paulo em favor do Palmeiras, que engordou esse número em simpatizantes. Ou mesmo oVasco, que ganhou quase um milhão de cruzmaltinos nesse período? Mas, peraí, e aquele papo de que torcida cresce quando o time é campeão? Onde foi parar na pesquisa?

Enfim, dá uma boa discussão em torno de uma taça de vinho, uma boa pizza, um churrasco com cerveja gelada.

Que me perdoem a brincadeira os autores dos estudos, mas apenas acho estranho que essa variação de números seja tão gritante, embora, em defesa das pesquisas, seja dito que percentualmente está tudo na margem de erro e num patamar parecido.s


quarta-feira, março 21, 2012



Batalha jurídica

no São Paulo F.C


É tensa a situação política no São Paulo Futebol Clube.

Nesta quarta-feira, 21 de março de 2012, desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo decidiram, por três votos a zero, que a eleição de Juvenal Juvêncio para a presidência do clube é ilegal. Esta decisão só tem valor quando o acordão estiver publicado no Diário Oficial de São Paulo.

Cabe recurso na esfera estadual, mas a decisão unânime impede que sejam tentados recursos em Brasília.

Toda a confusão se refere a uma interpretação sobre o estatuto do tradicional clube tricolor. Segundo a oposição, que entrou com a ação pedindo a nulidade do pleito, o estatuto permite apenas duas reeleições do presidente da Diretoria. A situação argumenta que houve uma reforma estatutária que permite a terceira reeleição como parte de uma espécie de prolongamento do segundo mandato. Confuso, como quase tudo que envolve as leis no Brasil.

A partir da publicação do acordão, os advogados que defendem Juvenal Juvêncio no caso, entre eles o ex-presidente do clube Carlos Miguel Aidar, devem procurar os recursos a que têm direito, o que sugere que uma definição do caso ainda está longe de acontecer.

Se nesse período nenhum recurso for acatado, como ficaria a situação política do clube?

Num primeiro momento, deveria assumir o presidente do Conselho Deliberativo, José Carlos Ferreira Alves. Como ele é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo há um impedimento legal. Assumiria, portanto, o vice-presidente do Conselho, Arlindo Pedro Roschel. Ele, então, teria que convocar novas eleições, das quais Juvenal Juvêncio estaria impedido de participar.

Resta aguardar o desenrolar de mais essa história confusa na disputa de poder, que se repete nos principais clubes do futebol brasileiro. 

terça-feira, março 20, 2012

sexta-feira, março 16, 2012



Esculhambatocracia


Custo a acreditar no que leio. O Flamengo, a maior torcida do Brasil, um clube nascido na rua, do povo, uma instituição do futebol mundial, parece mesmo disposto a contratar Adriano, aquele que já foi Imperador.

Será que o futebol brasileiro será sempre o império da esculhambatocracia (nem sei se a palavra existe)? Que razão lógica, palpável, justificável, levaria uma equipe a investir fortunas, já que fala-se em salário de meio milhão de reais, em um jogador que mal joga há pelo menos dois anos?

Adriano foi um tiro de marketing que saiu pela culatra no Corinthians. Fez dois gols, criou dez vezes mais encrencas e teve neguinho com a cara de pau de chamá-lo de fundamental na conquista do título brasileiro por causa de um golzinho.

Aí o Flamengo, que tem um rosário de problemas para administrar, uma dívida transatlântica, mal consegue pagar o Ronaldinho Gaúcho, fala em investir no Adriano.

E não é só o Flamengo, é um pensamento generalizado. A ideia do jogador malandro, do bad boy, que não precisa treinar, ser disciplinado, mas entra em campo e resolve está enraizada no imaginário do torcedor, na incompetência do dirigente e, por incrível que pareça, no pensamento até de muitos jogadores e ex-jogadores.

Adriano, em forma, é um tremendo jogador de futebol. Titular da seleção brasileira. Talvez tenha problemas sérios de saúde. Não sei, não posso ser leviano para afirmar isso. Mas quem vê, ouve, lê uma entrevista de Adriano tem a impressão de estar diante de um Imperador hitita no auge da campanha expansionista. Ele fala e se comporta como se fosse um jogador top de linha, o que atualmente não é - faz tempo, aliás.

Paira sobre certo tipo de jogador de futebol no Brasil a impressão de que eles estão acima do bem e do mal. Não há lei, regras e outros jogadores. Seduzidos pelo cordão de puxa-sacos, pelos amigos chupins que só querem beber e gastar o dinheiro do craque, eles acham que são seres privilegiados.

Passam rodadas e rodadas sem jogar, sem treinar e quando fazem um golzinho se dizem iluminados por Deus. Quanta pretensão!

Torço, sinceramente, para que Adriano volte a ser o grande jogador que pode ser. No Flamengo, em qualquer clube.

Só não consigo entender qual o motivo que leva alguém a investir fortuna num atleta que só levanta incertezas. Seria pretensão eleitoral?

Adriano aposta alto na vida. Seu discurso só será justificado se ele jogar muito, fizer gols decisivos e conquistar títulos. Para tal, ele precisaria, de início, jogar. Ter regularidade e compromisso.

O grande erro do marketing corintiano talvez tenha sido pensar que Adriano pudesse repetir o sucesso da operação feita por Ronaldo. Embora seja um grande atacante, Adriano não lustra o bico da chuteira de Ronaldo. Tampouco desfila um terço do carisma do Fenômeno. Também não parece ser feito de T-Fal, como Ronaldão, em quem nada de negativo gruda. Pelo contrário. Adriano parece cola quando o assunto é problema.

Boa sorte a ele e ao Flamengo, que vai precisar se embarcar nessa.

quinta-feira, março 15, 2012


Copa e Olimpíada

em debate no Arqui























Nesta segunda, dia 19 de março, será realizado o debate Copa do Mundo e Olimpíada no Brasil, no Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo.

Tive a honra de ser convidado pelo amigo Ton Teschima para participar. Participarão jornalistas que, como eu, são ex-alunos do Arqui. Será um prazer pisar novamente naquele solo sagrado de tantas lembranças e falar sobre esses temas com a mediação do excelente Paulo Galvão, apresentador do Jornal em Três Tempos da Rádio Bandeirantes.

Estarão presentes, também, três jovens talentos do jornalismo esportivo, todos oriundos das aulas de bola ao mastro no histórico prédio da Domingos de Morais (Vila Mariana, São Paulo).

São eles: Fernando Gavini, astuto repórter da Espn Brasil; Victor Guedes, autor de grandes sacadas no Agora São Paulo com as Caneladas do Vitão; e Marília Ruiz, irmã do Victor e talentosa comentarista da Rede TV.

O horário previsto é das 20h30 às 22h30, no belíssimo Salão Nobre do Arquidiocesano. Ingresso podem ser adquiridos no Núcleo Cultural do colégio, em troca de 1 kg de alimento.

terça-feira, março 13, 2012

Será que dá liga

entre os clubes?


Não deve trazer grande impacto imediatamente ao futebol brasileiro a saída mais do que anunciada e aguardada de Ricardo Teixeira. Assume um de seus vices, José Maria Marin, que esteve sempre alinhado com as sucessivas administrações do ex-presidente.

O que era preciso acontecer - e não vejo movimentação alguma em torno disso - é um entendimento entre os clubes de futebol do Brasil para que possam assumir o controle e o destino do esporte internamente. A seleção brasileira é assunto da CBF, embora também precise de uma reformulação completa em suas diretrizes.

O que gira a bola, com o perdão do trocadilho, é o futebol interno, a competição entre clubes, os torneios estaduais, regionais e nacionais. O clube é o dia-a-dia, a seleção é o feriado, a viagem de férias. Para bancar a viagem de férias a gente tem que ralar muito no dia-a-dia.

Infelizmente, não vejo um dirigente que esteja à altura dessa empreitada entre os muitos que perambulam por nossos clubes. Não existe pensamento coletivo. Que não representa perda de competitividade. O dirigente de clube sempre deve trabalhar para que seu clube seja o vencedor, afinal, é esse o propósito. Mas precisa ter a grandeza de pensar no seu negócio de maneira macro.

Nosso futebol melhorou muito nos últimos dez anos. Houve incremento de receitas, melhora de organização, isso não se discute. Mas ainda estamos longe de aproveitar sequer metade do potencial das marcas que representam os clubes de futebol no Brasil.

Os que aproveitam bem, gastam pior. As dívidas muitas vezes superam os faturamentos recordes. É uma bola de neve. Falta responsabilidade e estratégia coletiva.

Na minha maneira de ver o futebol, uma Liga ou Associação de Clubes, mas que não tenha relação alguma com o Clube dos 13, deveria assumir o comando. Administrada por um profissional da gestão esportiva, respaldado por um conselho consultivo formado por ex-jogadores, treinadores, preparadores físicos e gente da mídia do marketing. Com cobrança de resultados. Às claras.

A Série A deveria se responsabilizar por parte da manutenção financeira da Série B, por exemplo. Além de fazer um fundo que pudesse auxiliar a Série C. Não vejo espaço para quatro divisões nacionais no quadro atual.

Sou contra a adequação do calendário brasileiro ao das grandes ligas europeias. Nunca escondi isso. O futebol brasileiro tem que atender às necessidades dos torcedores, jogadores e treinadores brasileiros. O País tem um ritmo, uma ordem das coisas, na qual o futebol deve se encaixar.

Na Espanha o calendário do futebol acompanha o calendário escolar e o parlamentar. Segue o ritmo da vida do país. Vá propor a um espanhol ou a um italiano que os campeonatos nacionais daqueles países sejam disputados durante o sagrado verão? É a época das férias e o futebol se insere nesse contexto.

Imagine uma rodada de Brasileirão em 26 de dezembro ou  2 de janeiro? Já existem jogos no Carnaval, o que não se explica ou se justifica.

Para quem defende essa adequação como uma reserva de mercado, que olhe para o vizinho. A Argentina atrelou seu calendário ao europeu há algum tempo e jamais parou de vender jogadores. Seu futebol hoje está virtualmente falido e foi estatizado pelo governo. Ou seja, como para tudo na vida, é uma ideia, mas está longe de ser a solução final, a única saída. Essa não existe.

Excursões pela Europa, pré-temporadas na Ásia? Não precisa virar o calendário de ponta-cabeça. Basta racionalizar. Não prego a extinção dos estaduais, mas eles precisam ser contextualizados como parte da pré-temporada. Esses torneios representam um mercado importante, que não pode simplesmente ser riscado do mapa. Mas estadual com 20 times é devaneio.

Um campeonato estadual teria que se adequar à nova realidade. Serviria de pré-temporada e vitrine. Não se pode decretar o fim do futebol nas cidades pequenas ou abandonar os clubes médios. Por que sem médios e pequenos, alguns grandes descerão um degrau, e nenhum deles está imune a essa ameaça.

Será impossível reservar uma semana ou dez dias no calendário para que os clubes excursionem ou organizem torneios internacionais no Brasil? Para isso seria preciso inverter o calendário e fazer o ano do futebol começar e terminar em julho?

Não tenho a chave para todos os problemas, apenas compartilho uma visão. Porque é preciso um grande debate para procurar um novo caminho e manter a evolução do futebol como negócio, para que ele possa se sustentar em campo.

O jogo cresceu de tal maneira que hoje está inserido no contexto do entretenimento. Seja via TV ou no estádio. O torcedor quer e merece ser mais bem tratado. Não duvido que ele queira participar do dia-a-dia do clube, contribuir, ser parceiro. Mas será que ele confia nos seus dirigentes a esse ponto?

Temos boas experiências de sócio-torcedor em andamento, bons contratos de patrocínio, enfim, é viável. Mas é preciso que os dirigentes dos clubes se preocupem menos com as vantagens dos bastidores e deixem a coisa ser resolvida em campo, pelos verdadeiros artistas.

segunda-feira, março 12, 2012



Discordo de você, Mano


Respeito o trabalho do Mano Menezes, a quem considero um dos principais treinadores surgidos recentemente no futebol brasileiro.

Mas discordo em gênero, número e grau do treinador da seleção brasileira quando ele acha que Neymar tem que ir para a Europa agora.

Até imagino porque ele pensa isso. Parece-me um pensamento imediatista e emergencial. O pensamento do treinador de uma seleção brasileira que corre contra o tempo, que ainda busca uma cara para a Copa de 2014.

Mas talvez a cara que Mano procura não seja a cara que o Neymar já tem. Com o tempo será inevitável que o garoto santista vá jogar na Europa. Pelo menos enquanto durar o poderio econômico de alguns grandes times daquele continente e persistir a desorganização econômica dos clubes brasileiros que, quanto mais arrecadam, mais dívidas contraem.

Como muito bem escreveu o Paulo André no blog do Juca Kfouri, o problema é que nossos treinadores querem que o jogador brasileiro se naturalize europeu. Aguente o tranco, fique forte, aprenda a jogar como se faz nos principais centros da Europa, nas ligas mais poderosas e na Champions.

Mas aí eu me pergunto: em 2006 e 2010 nossos times estavam coalhados de jogadores perfeitamente adaptados ao tal estilo europeu e deu no que deu.

Neymar é a antítese desse estilo europeu que muitos de nossos treinadores teimam em visualizar. Por que não visualizam o estilo europeu de um Xavi, um Iniesta, um Schweinsteiger, um Sneijder, um Mueller, um Van Persie, um Rooney? Ou o estilo "europeu" de um gênio nascido na Argentina e "naturalizado" barcelonista?

Neymar é o que é, encanta até mesmo as grandes estrelas européias (lembram do Rio Ferdinand tuítando que queria ver o Neymar?) porque é imprevisível, veloz, genial, habilidoso e técnico. É um craque com o estilo tradicional brasileiro adaptado ao padrão moderno do jogo, mais veloz do que nos maravilhosos e cadenciados anos 50, 60 e 70.

Se ele for agora para a Europa, terá que se adaptar. Sofrerá com um jogo mais físico e não necessariamente mais técnico do que enfrenta nos grandes jogos do Brasil e da Libertadores.

Dia desses, conversando com o Elano, ele me disse algo muito inteligente em termos de observação. Que Neymar agora teria dificuldades na Europa porque em alguns lances ainda pára, desacelera para dar o drible, o que é fatal no futebol europeu. Porque ou tiram a bola dele, ou levam ele e a bola junto. Ele precisaria de tempo e mais estrutura física para seguir driblando em velocidade, sem precisar parar. Não por coincidência, como fez nos golaços diante do Inter.

Ele sabe fazer, faz no Brasil e pode fazer em qualquer parte.

Fora isso, Neymar representa para o futebol brasileiro muita coisa em termos de chamariz, de atrativo e de negócios. É a prova de que se pode fazer futebol para o mercado interno, que o destino de nossos clubes não precisa ser produzir em escala para a Europa, que nosso futebol pode criar e absorver seus craques. Quantos garotos não estão observando o moleque santista e passam a acreditar que é possível vencer no jogo de bola sem precisar ceder aos apelos de treinadores que inventam líberos e volantes desde as categorias de base?

Enfim, embora o respeite, discordo do Mano. O lugar do Neymar até 2014 é aqui no Brasil.

quarta-feira, março 07, 2012


Curso de Jornalismo

Esportivo em TV




















Vem aí um novo curso de jornalismo esportivo, desta vez voltado especificamente para o formato TV, abrangendo todas as áreas de atuação em vídeo. Narração, reportagem, comentários e apresentação.

Tenho a honra de estar ao lado dos colegas Jota Jr., Mauro Naves, André Plihal e Dudu Monsanto nessa empreitada.

Informações sobre o curso você encontra nesses endereços:

www.cursosemrede.com.br e www.ceadnet.com.br 

terça-feira, março 06, 2012


Brasil x Fifa:

novela chata

Coluna desta terça, 6 de março de 2012, no Diário de S.Paulo.

http://www.diariosp.com.br/blog/detalhe/5270/Brasil+x+Fifa%3A+novela+chata

quinta-feira, março 01, 2012



Bom jogador

não tem CEP


Travei um bom debate com um twitteiro ontem e hoje sobre algo que falei na transmissão de Guarani x Santos, no SporTV. Após o gol de Arouca, eu disse: "o que faz Fernandinho na seleção brasileira? E o que não faz Arouca na seleção brasileira?".

O twitteiro ficou sentido pelo Fernandinho, embora eu não tenha falado mal dele. É algo difícil de entender para muitas pessoas que recebem uma opinião. Para falar bem de alguém você não precisa falar mal de outrem.

Apenas acho que o Arouca é um jogador melhor do que o Fernandinho e seria mais útil para a seleção brasileira. Opinião. Ponto.

Isso não quer dizer que Fernandinho seja ruim, longe disso.

Mas aí entramos num outro debate. Muita gente, e gente boa, avalia o rendimento de um jogador pelo local em que ele atua. Há um time de analistas que acha que arrebentar no futebol brasileiro não quer dizer nada. Mas valoriza (acho eu que em excesso) quem mostra bom futebol na França, na Alemanha, na Ucrânia, na Rússia.

Eu penso que, obviamente, um campeonato estadual no Brasil não é parâmetro. Mas jogar bem o Brasileirão e a Libertadores, sim. Respeitando as diferenças entre estilos, tática, preparo físico e dinâmica de jogo da América do Sul e da Europa das grandes ligas.

Acho que CEP não pode ser usado para avaliar bom jogador. Muitos ex-jogadores com quem converso, em especial aqueles que jogaram dos ano 80 para frente, acham que para ser bom jogador precisa atuar na Europa. Os de meados dos anos 80 para trás pensam diferente.

Para mim, o cara pode ser bom jogando no Brasil, na Argentina e na Europa. O Rio Ferdinand, por exemplo, twittou outro dia que estava vendo o jogo do Brasil porque queria ver o Neymar jogando.

Fernandinho é bom jogador. Não acho que seja craque. Acho, apenas, que o Arouca pode, jogando bem como voltou a jogar, fazer tudo que o Fernandinho faz na seleção e melhor. Também acho que o Dedé, pelo que mostra no Vasco, pode ser titular da seleção brasileira, mesmo sem jogar no Chelsea ou afins.

Assim como acho um baita exagero tentarem colocar o Lucas do São Paulo no mesmo patamar do Neymar só porque são da mesma geração. Ambos jogam no Brasil e têm potencial para evoluírem por aqui mesmo.  

E não penso nisso por questões menores como valorização de conteúdo próprio, porque o canal em que trabalho transmite os campeonatos do Brasil e da Europa.

É somente uma maneira de ver o futebol.

terça-feira, fevereiro 28, 2012



E a seleção?


Nada de novo, tudo previsível. Ronaldinho joga como se fosse um globetrotter em exibição. Mas nem todos os jogos são combinados como os dos globetrotters. Em dez, quinze minutos, Ganso fez muito mais do que Ronaldinho. Que não precisa de projeto, mas de reforma, reafirmo.

Não dá para cobrar um time sem treinos, mas em quase dois anos de trabalho já dá para cobrar alguma ideia, um vislumbre que seja.

O time brasileiro segue sendo muito conservador, preocupado demais com algumas coisas como posicionamento, recomposição, deixando de lado a busca por novas ideias e a exploração do real potencial de jovens talentos.

Ganhar ou perder, nesse estágio, pouco importaria. Duvido que chovessem críticas caso o Brasil perdesse mostrando novas ideias, um time diferente, jogando bem, arejado.

Mas a comemoração efusiva de Mano Menezes mostra alívio e preocupação com o resultado porque, talvez, ele saiba mais do que ninguém que o Brasil continua devendo.

Recado

Críticas salutares são publicadas aqui regularmente. Basta navegar pelo site. Críticas a mim, aos meios de comunicação para os quais trabalho, à minha profissão. Desde que educadas, com um mínimo de conexão com o mundo real e com nexo.

Recalcados e revoltados de plantão, que agridem gratuitamente na esperança de que sua pequenez aqui será engrandecida podem dormir na pia. Em respeito a quem sabe colocar o tico para conversar com o teco, celerados são bloqueados.

O endereço do recado você sabe para quem foi.


O fator Abelão



É difícil não gostar do Abel Braga. Como gente e como treinador de futebol. Abelão é um cara franco, direto, emotivo. Durante a cobertura do SporTV no Mundial de Clubes de 2006, quando ele foi campeão com o Inter, tive a oportunidade de conhecer melhor o Abelão.

Não posso dizer que somos amigos, mas temos uma boa afinidade, respeito mútuo, na medida certa para não atrapalhar o profissionalismo de ambos.

Abelão gosta de bons vinhos, de bom garfo e toca um piano de altíssimo nível. Viveu em Paris, mas prefere o Porto, em Portugal, onde a família tem um restaurante. Adora um bom papo, contar histórias do passado de jogador e de falar sobre futebol sem invencionices.

Esse estilo direto, comprometido, faz dele um raro treinador que geralmente é bem recebido quando enfrenta clubes em que já trabalhou. É assim na Ponte Preta, onde Abel fazia compras de supermercado para os jogadores pagando do próprio bolso, em tempos de crise e salário atrasado. No Inter é quase um mito.

Agora tem tudo para montar um Fluminense capaz lutar por todos os títulos que disputar. Em quantidade de bons jogadores, não há elenco como o do Flu no Brasil. Talvez falte um pouco de equilíbrio, já que sobram atacantes e meias e faltam zagueiros, por exemplo. Mas dá para montar dois times competitivos sem sustos. Com isso, poupar o que tem de melhor para as partidas mais importantes, sem abrir mão de pontos em partidas menos decisivas.

Abelão me disse ontem, no Bem, Amigos, que os petrodólares dos Emirados Árabes Unidos continuam sondando sua área, com a proposta dos emires para que ele assuma a seleção do país. Mas também deixou claro que não deve aceitar, nem pensa nisso agora, pois está feliz no Flu e não pretende deixar de morar no Brasil. Além de acompanhar a evolução do futebol de seu filho, Fábio, volante em início de carreira nas Laranjeiras.

Os times do Abelão costumam ser competitivos, fortes, comprometidos. Ele vê o futebol de uma maneira simples, porém sempre muito bem informado sobre os adverários, estudioso. Jamais esquecerei do que vi em Yokohama em 2006, no último treino do Inter antes da final contra o Barcelona. A jogada do gol de Gabiru foi treinada à exaustão, assim como a recomposição do time para marcar bem o Barça e apostar na jogada do chutão para o Fernandão desviar. Assim foi feito, com base em trabalho e na inevitável dose de sorte.

Com o belo elenco, grandes jogadores em grande fase a a energia do Abelão no banco, o Flu vai forte para enfrentar o Boca na Bombonera e quem mais vier pela frente. 

Telemarketing Terrorista


Toca o telefone, a mãe atende.

- Por favor, o responsável pela casa está?

Ao perguntar porque, a mãe ouve a seguinte frase do outro lado da linha:

- É sobre o seu filho (citando o nome inclusive).

Por isso, não atenda telefonemas com os prefixos 11 3427 e 75 na primeira metade seguinte. São esses terroristas do telemarketing que fazem de tudo para cumprir as tais metas. Inclusive invadir sua privacidade ao telefone com essa tática de guerrilha antiética.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012



E o Robinho?


Antes de começar, admito que eu também sempre esperei mais do Robinho. Reconheço que ele não se transformou no craque que todos nós esperávamos. Mas será que acabou a seleção brasileira para o atacante do Milan?

Por que ele sumiu das convocações do Mano Menezes? Mesmo sendo um dos melhores, se não for o melhor, atacante do Milan na atualidade?

Entendo que o treinador brasileiro não chame o Kaká. Até porque ele ainda provoca mais dúvidas do que certezas e, se a gente for tomar o Robinho como parâmetro, o Kaká jamais teve uma grande sequência com a camisa da seleção. Robinho teve pelo menos duas: Copa América de 2007 e Eliminatórias de 2010.

O que eu não concordo, porque como diz o Mano, é tudo uma questão de opinião, é por que levar o Ronaldinho Gaúcho e praticamente esquecer o Robinho? O desempenho do Ronaldinho em campo não justifica a permanência como parte de um projeto, como argumenta o treinador.

No ataque da seleção temos o Neymar, titular absoluto, e só. Damião tem potencial para ser titular, mas o resto é aposta.

Robinho terá 30 anos em 2014. Ainda que tenha jogado menos do que se esperava dele na África, é um excelente jogador de futebol. Amadureceu na Itália, evoluiu taticamente, ficou mais forte fisicamente. E, o que é mais importante, voltou a jogar bem. Como já tinha feito em 2010 pelo Santos.

No mínimo, ele pode ser útil, pela quilometragem e pela qualidade.

Talvez o Mano esteja dando aquele gelo no jogador, por alguma decepção, principalmente na última Copa América.

Mas, pelo menos na Itália, Robinho parece ter deixado de lado aquele jeitão de eterno moleque, de mistura de humorista com pagodeiro, para se concentrar em jogar futebol, que é o que ele faz melhor.


Ronaldinho Gaúcho terá 34 anos em 2014. Uma Copa do Mundo de diferença para Robinho. Mas parece a cada dia mais confortável no modelito celebridade 24 horas por dia. Que, convenhamos, Neymar desempenha melhor. Até porque joga mais em campo e tem idade para se garantir depois de pular Carnaval aqui e ali.

Por isso eu confesso: não entendo porque Robinho parece carta fora do baralho do Mano, e o Ronaldinho Gaúcho tem status de Coringa.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012


É hora da revolução dos clubes *



*coluna publicada às terças-feiras nos jornais da Rede Bom Dia e no Diário de S.Paulo.

  
O claudicante momento de Ricardo Teixeira na CBF e a fase irregular da seleção brasileira de Mano Menezes apontam para uma conjunção rara de fatores no futebol brasileiro. Depois de muito tempo à sombra das federações e da confederação, controlados por meio de empréstimos e politicagem, os clubes de futebol do país, principalmente os grandes, têm a oportunidade de revolucionar a modalidade.

Nem será preciso uma grande mobilização, estratégias mirabolantes e reuniões secretas nos bastidores. Basta os clubes que reúnem o grosso dos torcedores, ficam com a maior fatia das receitas publicitárias e da exposição na mídia perceberem que podem ser eles próprios os gestores de seu negócio, sem precisar de intermediários.

Não proponho com isso o fim das federações e da confederação. Apenas uma adequação ao seu papel. Que, a meu ver, é o de regulamentar competições, cuidar de arbitragem, fiscalizar estádios e zelar pela sobrevivência das equipes pequenas e médias. Assim como a CBF deve exercer a mesma função em termos nacionais, acrescentando a isso a administração das seleções.

Os campeonatos devem ser geridos pelos clubes, pensando no melhor para eles e seus jogadores. Pode parecer banal quando um treinador reclama de que tem de ceder seu jogador para a seleção na rodada de um clássico importante. Acontece toda hora. Porque há conflito de interesses. A seleção quer os melhores jogadores, ainda que para amistosos pouco produtivos. O clube precisa dos melhores jogadores que tem, mesmo que para jogos sem grande importância, de início de temporada.

O crescimento do negócio futebol no Brasil pavimentou o caminho para o grito de liberdade dos clubes. Hoje eles faturam muito mais do que há dez anos. Com TV, marketing, patrocínios e fidelização de torcedores. Se fossem mais bem administrados, não precisariam recorrer a adiantamentos e empréstimos de federações.

No caso das federações, por que elas precisam ficar com o grosso da grana da TV e repartir entre os clubes a seu critério? Se não devessem dinheiro para essas entidades, os clubes poderiam reagir a isso. Afinal de contas, sem eles, não há campeonato.

Como o modelo atual de administração da CBF parece prestes a ruir e a força dos clubes só cresce, seria preciso um tipo de pacto entre as instituições para que todas possam saborear esse novo momento. O Corinthians tentou isso e conseguiu recentemente, numa ação isolada que contou com algumas adesões. Mas o pensamento era apenas nele, Corinthians. Quem quisesse vir junto, que viesse.

Talvez não haja melhor momento do que esse para que os clubes, enfim, possam exercer o poder que lhes foi conferido pela paixão do torcedor e revolucionem, de fato, o futebol no Brasil. Antes que tudo se acabe na quarta-feira.

Conselho aperta
Não foi fácil a situação de Adalberto Baptista, diretor de futebol do São Paulo, na última reunião do Conselho Deliberativo do clube. Embora educadamente, ele foi pressionado por conselheiros de oposição sobre o desempenho do time, principalmente na derrota para o Corinthians. Perdeu um pouco de crédito por isso.

Área limpa
Amigos e conhecidos do novo presidente corintiano Mário Gobbi (foto) têm aconselhado seguidamente o mandatário a limpar a área na diretoria. Consideram que ele não deve repetir o erro de Andrés Sanchez, que tinha nomes com passado e presente suspeitos entre os colaboradores próximos, o que prejudicou sua imagem.

Inflacionou
A novela envolvendo Palmeiras e Wesley se alongou por causa do preço. Quando tudo parecia acertado, intermediários cobraram comissões, uma delas de R$ 300 mil. O jogador resolveu pedir mais e os alemães do Werder Bremen, também. A conta subiu 2 milhões de euros (R$ 4,5 milhões) em algumas horas.

Nó tático
Admito que não sou o mais politicamente correto dos seres. Tento, ainda assim, respeitar tudo e todos, mas sem deixar de me manifestar quando algo me irrita. No futebol atual, há alguns padrões de comportamento entre os jogadores que acho difíceis de suportar.
O primeiro deles é até meio óbvio. Jogador que beija o distintivo do clube quando é apresentado. É de uma promiscuidade revoltante. O cara beija um monte de distintivos ao longo da carreira, sempre com juras de amor eterno. São fazedores de média canastrões.
Mas há três tipos em ação nos gramados brasileiros que provocam minha revolta: goleiro que comemora defesa, zagueiro que festeja desarme e jogador puxa-saco de torcida em rede social.
Quando o goleiro faz uma defesa que nem é das mais difíceis, mas se levanta num pulo, volta-se para a arquibancada, abre os braços, faz cara de bravo e sai gritando, batendo no antebraço, pode esperar: em pouco tempo vem um frango ou um erro grosseiro. Confesso que sou meio antiquado. Goleiro bom é aquele que faz a grande defesa e sai orientando os beques sobre o posicionamento do escanteio, sem se alterar. Comemorar uma defesa de pênalti, vá lá. Mas, sinceramente, você se lembra do Leão, do Taffarel, do Marcos e do Ceni comemorando defesa?
E o zagueirão que dá um bico para fora do estádio e sai como se fosse o Homem -Aranha pra galera? Cronometre que, em pouco tempo, ou ele tomará um cartão amarelo bobo ou fará uma falta desnecessária. Essa necessidade de reforçar que tem garra e está se dedicando soa falsa. Gamarra comemorando desarme? Luís Pereira? Caso alguém se lembre, escreva para a coluna.
Para fechar, dá até ânsia de vômito ler nas redes sociais aquele recadinho básico: “Bom dia, nação x, obrigado pela força e pelo apoio. Estou com vocês, sempre”. Tem uma turma aí que nega autógrafo, finge estar ouvindo música ou falando ao telefone, mas posa de soldado da pátria em twitters e afins.
Saudade do tempo em que goleiro só defendia, zagueiro só marcava e comemoração era quando alguém fazia gol.

terça-feira, fevereiro 14, 2012


No reino da

hipocrisia


Três notícias, entre as muitas da semana, me chamam a atenção. A primeira sobre uma multa que seria aplicada ao zagueiro do São Paulo, João Filipe, pela expulsão diante do Corinthians. A segunda a respeito da interminável discussão sobre a lei geral da Copa e a proibição de bebidas alcoólicas em estádios de futebol. E a terceira versa sobre a expectativa em torno de uma suposta renúncia de Ricardo Teixeira ao cargo de presidente da CBF.

Nada de novo no reino da hipocrisia que costuma reger o futebol no mundo.

Multar um jogador por que ele foi expulso em um lance de jogo é o fim dos tempos. Até aceito que o cara seja multado por faltar a treinamentos, por chegar atrasado, por brigar em treino, coisas assim. Esse tipo de advertência existe nas relações patrão/empregado. Agora, multar o cara porque ele foi expulso corretamente é coisa de dirigentes querendo jogar a culpa de tudo que aconteceu errado com o São Paulo no jogo contra o Corinthians nas costas de um rapaz que chegou outro dia ao clube. Mesmos dirigentes, aliás, que se divertiam e arregalavam os olhos quando torcedores apressados chamavam o zagueiro de Blackenbauer, precipitadamente empolgados com uma ou duas atuações.

Nunca botei muita fé nessa história de multa em time de futebol. Já ouvi de mais de um jogador que é tudo conversa para agradar imprensa e torcedor e que ninguém é multado. Outros disseram que a tal da multa faz parte de uma caixinha que no final do ano é dividida entre os próprios jogadores ou dada como gratificação a funcionários como massagistas, roupeiros e seguranças.

Tudo bem que João Filipe prejudicou o time, mas se for assim, tem diversas outras situações em que a tal da multa se aplicaria e não acontece. Displiscência, corpo mole, chinelinho, técnico que escala e mexe errado, que é expulso de campo por ficar batendo boca com juiz em vez de orientar o time. Se for mexer nesse vespeiro, vale multar um monte de gente. Inclusive dirigente que contrata mal, atrasa salário, entope o clube de dívidas, perde data de inscrição etc.

Existe um movimento reacionário em torno do futebol, capitaneado por torcedores cegos pelo fanatismo, que exige que o atleta profissional tenha comportamento de gladiador romano. Treinos exaustivos, dedicação total e oferta da própria vida pela honra da casa do patrão, no caso o torcedor. Reclamam dos salários altíssimos dos jogadores com uma frequência que melhoraria o País caso a revolta fosse canalizada para funcionários públicos, governo e políticos.

Menos, gente, muito menos. Não vale isso tudo. Cada trabalho tem sua remuneração, seu tempo de serviço, sua dedicação e sua importância. Vala comum cheira mal.

Já sobre a bebida nos estádios, haja hipocrisia! É aquela história do cara que reduz a velocidade quando passa ao lado do radar, e cem metros depois pisa fundo até 140 por hora. Não tem bebida dentro de estádio, mas tem na porta, na esquina, do lado. E tem dentro também, que eu já vi, em mais de um estádio no Brasil, neguinho matando uma lata de cerveja no maior relax.

Aí vem uma discussão pra lá de sem sentido sobre a Lei Geral da Copa. Pra defender o Estatudo do Torcedor como se fosse uma Vaca Sagrada, intocável, embora, como tudo, também precise ser atualizado e avaliado frequentemente, mesmo sendo um louvável avanço.

A Fifa não pediu ao Brasil para fazer a Copa. O Brasil se candidatou a fazer a Copa e sabia como as coisas funcionavam. Trabalhei em mais de 20 jogos em estádios na Copa do Mundo da África do Sul. Em todos se vendia cerveja em garrafa de plástico, da marca patrocinadora da Copa, e não houve problema algum digno de registro.

Lembro de uma época em que se vendia uísque no estádio Olímpico, em Porto Alegre, em especial nos dias de frio, e também não recordo confusão provocada por isso.

Em tempo: gosto de tomar vinho - tinto, em casa, principalmente, ou em volta de uma boa mesa, e nunca bebi em serviço ou antes do serviço, perto de estádio, em estádio, em estúdio etc.

A questão passa mais pela responsabilidade das pessoas, por saber que beber demais faz mal em casa, fora de casa, em estádio, fora de estádio, e que não se deve vender nem oferecer bebida a menores de idade.

Muita gente já entra de pileque nos estádios de futebol e os arautos da hipocrisia proclamam que a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios melhorou alguma coisa. Só transferiu o ponto de venda. Isso sem falar em drogas ilícitas que perambulam pelos estádios.

Número três. Será uma mudança louvável, uma saudável brisa de ar fresco uma provável renúncia de Ricardo Teixeira após décadas na presidência da CBF. Mas você, caro leitor, acha, honestamente, que vai mudar alguma coisa na gestão do futebol brasileiro? O estatuto da CBF prevê que José Maria Marin, o vice-presidente mais velho, assuma o cargo. Marin tem, por baixo, uns 40 anos como dirigente de futebol e muitos na CBF. Andrés Sanchez foi escolhido por Teixeira. O presidente da Federação Paulista, Marco Polo del Nero, já despacha regularmente na CBF há muitos dias - de semana, claro.

Enfim, muda o nome, mas o estilo e as ideias devem permanecer. Parece uma manoba evasiva de cunho pessoal, não uma mudança de rumos administrativos. O tempo dirá.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012


Loucos são os omissos

*Por José Roberto Padilha

* reproduzo aqui um texto do José Roberto Padilha, o Zé Roberto, ponta-esquerda da Máquina Tricolor das Laranjeiras, atualmente jornalista e escritor. Devidamente autorizado pelo próprio. 
Quando o presidente Rubens Lopes, da FERJ, saiu de cena por razões de saúde, ele nomeou, através de uma circular, seu substituto às vésperas do campeonato estadual de futebol de 2012: José Luiz Martinelli.  Não, não era seu vice natural, era o ocupante de uma daquelas vice-presidências para constar na ata da posse. Dar validade a chapa eleitoral. Ele, Martinelli, engenheiro e reconhecido empresário de jogadores, era vice-presidente de obras e construções. Mas para não dizer que implico com os cartolas, ironizar que tal preferência poderia ser em razão das obras do Maracanã, deixei passar tal absurdo (seria, como num impedimento da Dilma, ela rasgasse a Constituição e não empossasse o Michel Temer, e sim um outro político, de acordo com suas conveniências) e não me pronunciei.

Mas não deu um mês e a figura acaba de se manifestar, do que jeito que todos esperavam, mantendo a postura que os fizeram cartolas. Isto é, associados influentes, que sem noção alguma de esporte, se elegem pro conselho deliberativo de seus clubes , federações e confederações espalhando desconhecimento e injustiças que certamente algum atleta, ou competição há de pagar a conta. Eles, cartolas, jamais pagaram conta alguma. Às vezes se elegem deputados, na outra dirigem delegações brasileiras, reforçam suja banca no bicho e, agora, negociam passes de jogadores.

Quando o Loco Abreu reclamou esta semana do gramado de Moça Bonita (logo do campo do Bangu, time de Rubens Lopes) Martinelli veio a público dizer que isto não era problema do atleta, era da agremiação e deveria ter sido discutido no arbitral. No arbitral, são discutidos à exaustão o Estatuto do Torcedor, e a FERJ é rigorosa quanto a presença de ambulâncias, dois médicos, enfermeiros, painel de informações, polícia militar. Ninguém perde tempo  legislando a favor de um Estatuto do Jogador. Ele, razão maior do espetáculo, pode atuar em chiqueiros que nada acontece com os mandantes do campo.

Agora, imagine aquela histórica final do Aberto da Austrália, entre Djokovic e Nadal,  no mesmo horário de Botafogo e Bangu, disputada  em chiqueiros. Teriam eles o mesmo fantástico desempenho? Se na quadra central de  Melbourne existissem os buracos de Moça Bonita, como rebateriam saques e voleios a 200km por hora? Mas os laterais do Botafogo e  do Bangu devem ir á linha de fundo e ter obrigação de acertar seus cruzamentos com a bola entrando dentro de um buraco. E seus preciosos joelhos e tornozelos, podem ficar á mercê da sorte? E na liga de voleibol, basquetebol, futsal, as quadras não são preservadas? Ou vocês já viram o Bernardinho, o Zé Roberto reclamar do estado de alguma?

Enfim, porque seria logo o futebol  em que o piso seria um fator  menor, desconsiderado na concepção de uma competição?

"Paulo Rossi, sozinho e sem falar português, fez mais por nossa democracia do que qualquer jogador brasileiro, em todos os tempos. Com seus 3 gols contra o Brasil, impediu uma nova manifestação ufanista, com direito à subida de rampa, que poderia retardar nosso projeto de anistia em 1982”.

Bem, escrevi isto em 1986, quando lancei meu primeiro livro “Futebol: a dor de uma paixão!”. Agora, vem um uruguaio lutar por melhores condições do nosso futebol, ocupando o silêncio e a eterna omissão dos nossos Ronaldinhos. Também, num país onde a independência foi promulgada por um português...


sexta-feira, fevereiro 10, 2012



Alguém ainda duvida?


Como lembrou hoje cedo na redação o amigo Tiago Leifert, foram necessários apenas 54 segundos para que Neymar transformasse um jogo fadado a a ser depositado num canto da memória em um fato digno de registro. Foi nesse espaço de tempo que o garoto, que vinha jogando mal, é verdade, fez um gol de cabeça, roubou uma bola, entortou dois marcadores dentro da área, sofreu o pênalti e o converteu, virando o jogo para o Santos contra o Botafogo de Ribeirão Preto.

Num total de não mais de 15 minutos ele ainda fez mais um gol, num toque à la Messi, e construiu uma linda jogada para Felipe Anderson marcar.

Não consigo entender a implicância de uma parcela de torcedores e analistas com Neymar. Só o vejo evoluir, mês a mês. Deu agora para fazer gols de cabeça como se fosse centroavante, bem colocado na área. Cai cada vez menos e tem uma característica fundamental: não se esconde, não encosta o corpo, não desiste nunca.

Neymar deve chegar na Copa de 2014 mais forte, mais experiente e melhor técnica e taticamente. Terá 23 anos e poderá, aí, sim, embarcar na aventura europeia, na hora certa.

O que importa é que, felizmente, existe um jogador atuando no Brasil capaz de transformar um modorrento jogo de estadual em assunto.

Neymar saiu justamente aplaudido de campo, até por torcedores do Botafogo.

Se alguém ainda duvida, é bom deixar de ser ranheta e perseguidor. O garoto é craque.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012



Atleta não nasce dirigente


Admito minha decepção com Patrícia Amorim na presidência do Flamengo. Conheci a Patrícia no Pan do Rio. Já tinha entrevistado a atleta e, naqueles dias, convivi com a então comentarista. Quando assumiu a presidência do time de maior torcida do País, imaginei que fosse aquela tão esperada lufada de ar fresco, a renovação com o toque da competência da mulher.

Mas o que vejo agora é um rumo oposto. Tudo bem que as pessoas que administram o Flamengo há muitos anos estão desonrando essa instituição maravilhosamente popular, nascida nas ruas e espalhada pelo Brasil. Mas Patrícia, por ter sido uma atleta de alto nível, só não poderia cair nos pecados dos cartolas de baixo nível.

O que se vê é uma presidente deslumbrada pela convivência com celebridades de chuteiras, inebriada pela sedução que o poder emana, confusa politicamente e com atitudes descabidas para alguém que tem o passado de atleta.

Direito de mandar embora o treinador qualquer dirigente tem. O que não cabe é espalhar o rastilho de pólvora da notícia, usando inclusive os próprios atletas, e depois negar, chamar quem noticiou de mentiroso, para um dia depois passar o carão de ter que confirmar tudo aquilo que negara na maior cara de pau.

Há tempos Luxemburgo não apresenta o desempenho que o projetou justamente como um dos maiores treinadores brasileiros. Não penso como aqueles que o consideram decadente. Afinal, foi campeão brasileiro em 2003 e 2004, conquistou títulos estaduais nas temporadas seguintes. Pode não estar no topo do rendimento, mas merece respeito como treinador, e críticas quando extrapola essa função.

Mas não se justifica tal comportamento por parte de uma presidente que opta claramente por um jogador que recentemente desrespeitou as regras internas do próprio clube que ela comanda. E, convenhamos, se Luxemburgo para alguns está decadente, Ronaldinho há muito tempo não é o craque que o Flamengo acreditava ter contratado.

Isso posto, registro aqui com tristeza minha constatação de que uma das máximas que muitas vezes nós, jornalistas, gostamos de espalhar é a de que é preciso dar espaço paras os atletas no comando de federações, confederações e clubes. Mas estamos aprendendo que há atletas e atletas, e que um craque na competição não é garantia de outro craque na administração.