terça-feira, fevereiro 14, 2012


No reino da

hipocrisia


Três notícias, entre as muitas da semana, me chamam a atenção. A primeira sobre uma multa que seria aplicada ao zagueiro do São Paulo, João Filipe, pela expulsão diante do Corinthians. A segunda a respeito da interminável discussão sobre a lei geral da Copa e a proibição de bebidas alcoólicas em estádios de futebol. E a terceira versa sobre a expectativa em torno de uma suposta renúncia de Ricardo Teixeira ao cargo de presidente da CBF.

Nada de novo no reino da hipocrisia que costuma reger o futebol no mundo.

Multar um jogador por que ele foi expulso em um lance de jogo é o fim dos tempos. Até aceito que o cara seja multado por faltar a treinamentos, por chegar atrasado, por brigar em treino, coisas assim. Esse tipo de advertência existe nas relações patrão/empregado. Agora, multar o cara porque ele foi expulso corretamente é coisa de dirigentes querendo jogar a culpa de tudo que aconteceu errado com o São Paulo no jogo contra o Corinthians nas costas de um rapaz que chegou outro dia ao clube. Mesmos dirigentes, aliás, que se divertiam e arregalavam os olhos quando torcedores apressados chamavam o zagueiro de Blackenbauer, precipitadamente empolgados com uma ou duas atuações.

Nunca botei muita fé nessa história de multa em time de futebol. Já ouvi de mais de um jogador que é tudo conversa para agradar imprensa e torcedor e que ninguém é multado. Outros disseram que a tal da multa faz parte de uma caixinha que no final do ano é dividida entre os próprios jogadores ou dada como gratificação a funcionários como massagistas, roupeiros e seguranças.

Tudo bem que João Filipe prejudicou o time, mas se for assim, tem diversas outras situações em que a tal da multa se aplicaria e não acontece. Displiscência, corpo mole, chinelinho, técnico que escala e mexe errado, que é expulso de campo por ficar batendo boca com juiz em vez de orientar o time. Se for mexer nesse vespeiro, vale multar um monte de gente. Inclusive dirigente que contrata mal, atrasa salário, entope o clube de dívidas, perde data de inscrição etc.

Existe um movimento reacionário em torno do futebol, capitaneado por torcedores cegos pelo fanatismo, que exige que o atleta profissional tenha comportamento de gladiador romano. Treinos exaustivos, dedicação total e oferta da própria vida pela honra da casa do patrão, no caso o torcedor. Reclamam dos salários altíssimos dos jogadores com uma frequência que melhoraria o País caso a revolta fosse canalizada para funcionários públicos, governo e políticos.

Menos, gente, muito menos. Não vale isso tudo. Cada trabalho tem sua remuneração, seu tempo de serviço, sua dedicação e sua importância. Vala comum cheira mal.

Já sobre a bebida nos estádios, haja hipocrisia! É aquela história do cara que reduz a velocidade quando passa ao lado do radar, e cem metros depois pisa fundo até 140 por hora. Não tem bebida dentro de estádio, mas tem na porta, na esquina, do lado. E tem dentro também, que eu já vi, em mais de um estádio no Brasil, neguinho matando uma lata de cerveja no maior relax.

Aí vem uma discussão pra lá de sem sentido sobre a Lei Geral da Copa. Pra defender o Estatudo do Torcedor como se fosse uma Vaca Sagrada, intocável, embora, como tudo, também precise ser atualizado e avaliado frequentemente, mesmo sendo um louvável avanço.

A Fifa não pediu ao Brasil para fazer a Copa. O Brasil se candidatou a fazer a Copa e sabia como as coisas funcionavam. Trabalhei em mais de 20 jogos em estádios na Copa do Mundo da África do Sul. Em todos se vendia cerveja em garrafa de plástico, da marca patrocinadora da Copa, e não houve problema algum digno de registro.

Lembro de uma época em que se vendia uísque no estádio Olímpico, em Porto Alegre, em especial nos dias de frio, e também não recordo confusão provocada por isso.

Em tempo: gosto de tomar vinho - tinto, em casa, principalmente, ou em volta de uma boa mesa, e nunca bebi em serviço ou antes do serviço, perto de estádio, em estádio, em estúdio etc.

A questão passa mais pela responsabilidade das pessoas, por saber que beber demais faz mal em casa, fora de casa, em estádio, fora de estádio, e que não se deve vender nem oferecer bebida a menores de idade.

Muita gente já entra de pileque nos estádios de futebol e os arautos da hipocrisia proclamam que a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios melhorou alguma coisa. Só transferiu o ponto de venda. Isso sem falar em drogas ilícitas que perambulam pelos estádios.

Número três. Será uma mudança louvável, uma saudável brisa de ar fresco uma provável renúncia de Ricardo Teixeira após décadas na presidência da CBF. Mas você, caro leitor, acha, honestamente, que vai mudar alguma coisa na gestão do futebol brasileiro? O estatuto da CBF prevê que José Maria Marin, o vice-presidente mais velho, assuma o cargo. Marin tem, por baixo, uns 40 anos como dirigente de futebol e muitos na CBF. Andrés Sanchez foi escolhido por Teixeira. O presidente da Federação Paulista, Marco Polo del Nero, já despacha regularmente na CBF há muitos dias - de semana, claro.

Enfim, muda o nome, mas o estilo e as ideias devem permanecer. Parece uma manoba evasiva de cunho pessoal, não uma mudança de rumos administrativos. O tempo dirá.

11 comentários:

Prof. Tiago Paranhos disse...

Boa Noriega, concordo com tudo isso que você escreveu, principalmente sobre o salário dos jogadores, cada um ganha o seu salário, e se recebe é porque algué se propôs a pagá-lo... Show de bola o seu blog... vou começar a acompanhar...

Prof. Tiago Paranhos disse...

Boa Noriega... Penso assim como você é muita hipocresia... principalmente quanto aos salários de jogadores, se alguém rcebe tanto é porque outro alguém se dispos a pagar... ótimo blog... Parabéns!

Anônimo disse...

Se eu já respeitava você apenas assistindo seus comentários nas transmissões dos jogos, passei a admirá-lo muito mais agora, obrigado por ajudar formar opiniões.

Sucesso!

Beto Passeri disse...

É, Nori, o futebol realmente está ficando muito chato.
A quem interessar, dê uma olhada:
http://futebologiabrasil.blogspot.com/2012/02/libertadores-o-antidoto-contra-caretice.html

Anônimo disse...

Noriega, ainda no campo da hipocrisia, existe alguma nova informação sobre a apuração das denuncias do árbitro Gutemberg Fonseca sobre o suposto esquema de armação de resultados no campeonato brasileiro?
A impressão que temos é da total falta de interesse da imprensa esportiva para explorar o caso e exigir esclarecimentos. Um caso que tinha tudo para gerar uma enorme polêmica e ocupar os noticiários acaba sendo jogado para debaixo dos tapetes.
Será que a apuração desse caso não poderia trazer resultados não muito agradáveis aos interesses da grande imprensa esportiva, especialmente de veículos cuja linha editorial é claramente direcionada para determinados clubes?

Marcelo

Nori disse...

Marcelo, que veículos? Que clubes? Você faz acusações vagas, a esmo. Antes é preciso investigar, vasculhar e avaliar a credibilidade e idoneidade de uma denúncia. Se realmente houver algo, certamente aparecerá com o tempo. Nada errado a esse ponto, se realmente existe, fica invisível.
Abs

Anônimo disse...

Noriega,

Eu faço acusações vagas ou você responde com chavões vagos?
Quais os veículos de comunicação apresentam conduta parcial e quais clubes são os favorecidos pela cobertura esportiva? Seria a rádio Muzambinho, a TV Cracatoa, o E.C. Trem do Amapá, o Itapipoca F.C? O que você acha?
Cobro esclarecimentos sobre denuncias públicas, denuncias que em qualquer país sério do mundo seriam motivo de amplo debate e investigações.
Sua resposta é uma inversão de valores. O público é que precisa ser questionado sobre o que cobra e não as autoridades em dar satisfações?
Qual o papel da imprensa nesse caso? Fingir que nada ocorreu e seguir em frente? Por que o tema não é tópico de programas esportivos e de entrevistas?
Vamos falar de hipocrisia quando situações como essa são deixadas de lado?
Em países europeus denuncias comprovadas mudaram resultados de campeonatos, rebaixaram equipes, aqui se empurra tudo com a barriga.
O tempo dirá o que aconteceu como tem dito em todos os casos semelhantes que são esquecidos sistematicamente?
Até para provar o contrário, para inocentar os acusados, se for o caso, deveria haver empenho no esclarecimento.
Quanto à conduta parcial da imprensa nem mais é preciso explicar. Ela já se tornou motivo de piadas entre torcedores. A credibilidade do jornalismo esportivo equipara-se a dos políticos e não será com respostas corporativas que irá se fazer pensar o contrário.

Marcelo

Nori disse...

Dependendo do tipo de torcedor, virar piada é elogio. Não preciso de resposta corporativa, tenho minha carreira, aberta, exposta ao público, irretocável. A cara está lá para bater todo dia.
O que não dá é para posar de revoltado de plantão sem saber do que se fala. Denúncia se apura, se investiga. Pesquise e veja em que emissora foi veiculada a matéria do jogo Brasil x Portugal em Brasília? E as consequências dessa matéria para o processo político do futebol brasileiro. Antes de vociferar, informe-se.
Acontece que tem certo tipo de torcedor acha que a Copa de 98 foi entregue, que campeonato foi arrumado e tudo isso que você acha precisa ser, primeiro, denunciado, comprovado. Jornalismo não é fofoca. Mais vale a notícia correta, apurada do que a apressada, apenas isso que eu escrevi.
Pesquise o caso da Escola Base em São Paulo e você entenderá melhor como funciona o Jornalismo, que não cabe a ele, pelo menos ao que não é panfletário, acusar, julgar e condenar.
Não quero fazer você pensar em nada e tampouco sua opinião sobre a credibilidade do jornalismo esportivo vai influenciar a minha.
A imprensa esportiva já denunciou máfias de apito, já ajudou a anular jogos, já fez seu papel. Nela há gente séria e menos séria, como entre torcedores, telespectadores e tudo mais. Nela há interesses empresarias, comerciais, como em qualquer grande empresa. Tem gente que critica horário de jogo no Brasil mas acha lindo jogo de segunda-feira porque é o jogo que transmite. Faz parte do negócio.
Mas alguns não admitem isso, ou quando é com a empresa x, fingem que não é com eles.
Abs

Anônimo disse...

Novamente retórica, discurso vago e citação de fatos que não tem relação com o que foi cobrado. Bonito discurso e boas citações, mas que não se aplicam ao debate em questão. Sei muito bem das implicações em fazer denuncias sem fundamento. Sei também de casos como escola de base e tantos outros. Ocorre que NÃO FIZ NENHUMA DENUNCIA, COBREI ESCLARECIMENTOS sobre um caso que foi noticiado pela imprensa. Entrevistas para jornais e para a Rádio Jovem Pan.

Não só eu como grande parte do público brasileiro quer saber se as denuncias do árbitro Gutemberg Fonseca procedem ou não? Um caso sério, grave, que não despertou interesse da maior parte dos jornalistas e que em pouquíssimo tempo foi deixado de lado.

Não pedi para acusar e condenar ninguém, muito menos fiz isso, apesar das suas respostas tentarem desviar o foco para esse lado. Quero saber, assim como muita gente, o que aconteceu depois das denuncias. O que foi apurado? Existiu continuidade ou parou por ai?

Muitos desses casos que você citou foram explorados, mas mesmo explorados não terminaram em resultados concretos. Ficando no ostracismo, será pior ainda. Ai vem uma pergunta fundamental: Interessa o ostracismo nesse caso de denuncia? E interessaria a quem?

Você sabe muito bem que casos de enorme repercussão são tratados com muita atenção pela justiça e isso vale também para o esporte. Por outro lado, quando se esquece, fica mais fácil a impunidade.

Qual o crime em cobrar da imprensa que ela acompanhe um caso que afeta diretamente a atividade que ela faz a cobertura? Por que tanta resistência contra um pedido de apuração, de divulgação?

Pode ser que ainda tenhamos uma mudança de rota nessa cobertura e a imprensa cumpra o seu papel, mas até o momento o que notamos e a total falta de interesse que ele tenha desdobramentos. Espero estar enganado, mas é essa a impressão passada ao público.

Imprensa não julga, não pune, não é responsável por investigar, mas dá destaque para que não seja mais um caso esquecido. É essa falta de destaque que se cobra a aparente falta de interesse em acompanhar o caso.

O ex árbitro tem provas ou não sobre o que denunciou? Caso não tenha, por que o fez?

São perguntas e não acusações. Ficou claro desta vez?

Conforme escrevi anteriormente, não venha com inversão de valores apontando para o público. Não foi o público, não foram torcedores, não foram telespectadores, ouvintes ou leitores os responsáveis ou forçaram o ex árbitro a dar aquelas declarações. Ele, por iniciativa pessoal, procurou a imprensa e fez acusações. Nós só queremos saber se há fundamento ou não. Simples, estou me referindo a um caso de conhecimento geral. Ficou claro também?

Em relação a receber como elogio o fato da imprensa virar piada dependendo do tipo de torcedor, atualmente a classe recebe “elogios” de pessoas dos mais diversos segmentos da sociedade. A cobertura do futebol mudou demais e muita gente que atua na profissão considera que o fato de exercer uma função com exposição pública confere a elas o direito natural de estar acima do bem e do mal e se tornar isenta de qualquer tipo de critica.

A parcialidade chegou a tal ponto na linha editorial que emissoras de rádio e TV passaram a contar em seus quadros com comentaristas setoristas, colocados na função de jornalista para cobertura e defesa exclusiva de clubes, figuras que já se tornaram folclóricas. Esses setoristas, ao lado de jornalistas normais, são tratados como profissionais pela classe. Como dar credibilidade à categoria e não entender como corporativa a posição de quem defende o jornalismo esportivo atual como isento?

Marcelo

Nori disse...

Marcelo, diversos integrantes de diveros segmentos da sociedade carecem de credibilidade, inclusive o seu, embora eu não saiba qual é. Mas aposto que reúne gente boa, ruim, honesta a desonesta.
Existe gente folclórica em qualquer categoria profissional, até na arbitragem.
Como escrevi antes, sem o seu panfletarismo, denúncia se apura, se checa, se confirma. Não preciso ser corporativista, mas sei bem que na minha área de atuação existe muita gente séria que trata bem a profissão. Generalizar é coisa de julgamento coletivo, usada muito por regimes de excessão, os quais não fazem parte da minha lista de preferência.

Anônimo disse...

Noriega, agradeço muito sua atenção e vejo na sua resposta que concordamos na essência: Denuncia se apura e foi somente isso que cobrei, utilizando o tópico que você escreveu por tratar do mesmo tipo de situação, a hipocrisia.

Não é o caso de “panfletarismo”, mas de julgar muito estranho o esquecimento de um caso que teria tudo para movimentar o noticiário esportivo.

O que chama a atenção é que em caso de comprovação das denuncias seria afetado um clube que goza do mais alto nível de “boa vontade” por parte dos grandes veículos de comunicação, o que não seria interessante comercialmente.

Pelo jeito se aposta no esquecimento e infelizmente cobrar esclarecimentos não poderia se tornar mais relevante do que o fato.

Em uma situação como essa não pode haver inversão de valores, conforme já citei. Muito mais importante do que o modo de se fazer a cobrança pelos esclarecimentos são os esclarecimentos em si, que pelo jeito não virão se o público e a imprensa não exigirem.

Espero que apesar da divergência em algumas colocações, esse debate tenha servido para que o ponto principal tenha a devida atenção.

As denuncias indicariam, caso comprovadas, que a forma de atuação nos campeonatos poderia não ser recente e que se mantendo tudo como está não haveria mais credibilidade no futebol daqui para frente.

Talvez, teríamos finalmente a resposta para constantes dúvidas sobre interpretações de arbitragem. Por que alguns clubes tem um número muito maior do que outros de interpretações favoráveis durante um campeonato, em uma proporção muito além do limite do compreensível?

Em campeonatos recentes tivemos clube campeão com erro de arbitragem a seu favor em quase todos os jogos e cada um desses erros, isoladamente, tiveram justificativa plausível baseada no critério da interpretação. Isoladamente todas explicáveis, todas justificáveis, mas quando colocadas no conjunto mostravam a coincidência, a sorte de uma equipe em ter sempre para o seu lado a decisão do árbitro ou auxiliar.

Em um domingo recente o ex árbitro Oscar Godoi disse textualmente no programa Mesa Redonda da Gazeta a seguinte frase: “Não existe árbitro desonesto, existe árbitro que apita de acordo com os seus interesses”. Frase muito intrigante partindo de alguém que esteve tanto tempo na arbitragem brasileira.

A necessidade de investigação indica que para o bom andamento do futebol brasileiro, para que não se despertem suspeitas, esse caso não pode ficar debaixo do tapete. Seria mais um para coroar a atual administração da CBF.

Para concluir, nada melhor, nada mais correto do que a sua frase: DENUNCIA SE APURA.

obrigado,

Marcelo