quarta-feira, fevereiro 01, 2012


Dia em Memória ao Futebol

Incansável batalhador em preservação da memória e do conhecimento no futebol, o amigo José Renato Santiago conseguiu, com muitos outros lutadores dessa batalha, uma importante vitória, a instituição do Dia em Memória ao Futebol.

Transcrevo abaixo o texto do prório José Renato.

Você pode acompanhar o trabalho dele através do site www.jrsantiago.com.br


Por José Renato Santiago

 Ainda era 2010, quando juntamente com John Mills, biógrafo de Charles Miller, e Marcelo Unti, meu parceiro de projetos esportivos, nos reunimos com alguns colegas para tentarmos viabilizar a adoção de um dia em homenagem a Memória do Futebol.

Conseguimos levar uma proposta em prol da Memória do Futebol ao vereador Floriano Pesaro, que investiu todos os seus esforços por esta causa.

Pois bem, acabamos de ser informados sobre a promulgação da LEI 15.522, que institui o Dia em Memória ao Futebol a ser comemorado no dia 24 de novembro (data de aniversário de Charles Miller)

A comemoração deste dia visa perpetuar os marcos históricos do futebol brasileiro:

- Antiga Várzea do Carmo, área entre as ruas do Gasômetro e Santa Rosa, local do primeiro jogo sob regras;

- Rua Três Rios, área do Colégio Santa Inês, local do primeiro campo exclusivo para a prática do futebol;

- Rua Visconde de Ouro Preto, onde se localiza o Clube Atlético São Paulo - SPAC, o primeiro clube de São Paulo, cuja equipe foi a primeira campeã de uma competição oficial no Brasil;

- Área em torno da Praça Roosevelt, local do primeiro estádio de futebol, o antigo Velódromo, entre as ruas Nestor Pestana e Consolação;

- Museu do Futebol, localizado na Praça Charles Miller, que é o primeiro museu público exclusivo em prol da memória do futebol brasileiro

Segue abaixo o texto original

(PROJETO DE LEI Nº 474/11)

(VEREADOR FLORIANO PESARO - PSDB)

Altera a Lei nº 14.485, de 19 de julho de 2007, com a finalidade de incluir no Calendário Oficial de Eventos da Cidade de São Paulo o Dia em Memória ao Futebol

Brasileiro, a ser comemorado no dia 24 de novembro, e dá outras providências.

José Police Neto, Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, faz saber que a Câmara Municipal de São Paulo, de acordo com o § 7º do artigo 42 da Lei Orgânica do Município de São Paulo, promulga a seguinte lei:

Art. 1º Fica acrescido inciso ao art. 7º da Lei nº 14.485, de 19 de julho de 2007, com a seguinte redação:

“- 24 de novembro: o Dia em Memória ao Futebol Brasileiro, a ser comemorado no dia do nascimento de Charles Miller, que introduziu o esporte sob regras no Brasil, e cuja celebração visa perpetuar os marcos históricos do futebol brasileiro formados pela antiga Várzea do Carmo, área entre as ruas do Gasômetro e Santa Rosa, local do primeiro jogo sob regras, Rua Três Rios, área do Colégio Santa Inês, local do primeiro campo exclusivo para a prática do futebol, Rua Visconde de Ouro Preto, onde se localiza o Clube Atlético São Paulo - SPAC, o primeiro clube de São Paulo, cuja equipe foi a primeira campeã de uma competição oficial no Brasil, área em torno da Praça Roosevelt, local do primeiro estádio de futebol, o antigo Velódromo, entre as ruas Nestor Pestana e Consolação, e o Museu do Futebol, localizado na Praça Charles Miller, que é o primeiro museu público exclusivo em prol da memória do futebol brasileiro, mediante comunicação ao Poder Executivo, quando couber.”

Art. 2º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Câmara Municipal de São Paulo, 12 de janeiro de 2012.

JOSÉ POLICE NETO, Presidente

Publicada na Secretaria Geral Parlamentar da Câmara Municipal de São Paulo, em 12 de janeiro de 2012

terça-feira, janeiro 31, 2012



Procuram-se ídolos

desesperadamente


Esporte e negócio cada vez mais se fundem, num processo irreversível. O esporte faz parte da indústria do entretenimento, da qual passou a ser protagonista. Grandes personalidades esportivas disputam espaço com estrelas da música, do cinema, da TV.

Um grande ator puxa bilheteria e até premiações para um filme teoricamente modesto. Uma grande banda pode vender milhões de cópias mesmo de um disco fraco. Muitas vezes um maestro midiático acaba chamando a atenção para uma orquestra que talvez não merecesse tanto.

O jogo hoje tem essas regras. O termo marketing é onipresente e, em certos casos, quem cuida dele nos dois lados do negócio se acha onipotente.

Os ídolos são fundamentais nesse processo. Eles puxam a venda de ingressos para jogos, espetáculos musicais e teatrais, alavancam a venda de produtos relacionados, tais como camisas de times, de bandas, cantores etc. Muitas vezes um clube de futebol fatura alto com a exploração da imagem de um jogador, assim como uma produtora cinematográfica pode ganhar mais dinheiro vendendo bonecos dos personagens de um filme do que com a história filmada propriamente dita.

No Brasil, em virtude de tudo isso colocado acima, nossos clubes de futebol e seus marqueteiros vivem procurando ídolos desesperadamente. Em alguns casos tentam até forjá-los ou exageram na avaliação. Como diz meu amigo e excelente jornalista e blogueiro Luís Augusto Simon, o Menom, o Deus Mercado aponta seu dedo para tudo e para todos.

Está cada vez mais difícil saber o que é verdade. A própria mídia, porque também se beneficia de ídolos, muitas vezes perde a sagrada isenção e acaba embarcando nesse processo, exagerando nos termos craque e herói, quando eles não se aplicam necessariamente.

Empresários super valorizam seus jogadores, tentando transformá-los em craques cobiçados por causa de meia-dúzia de boas atuações. Fala-se em propostas milionárias que chegaram, mas que não resistem a uma simples checagem.

Hoje em dia os clubes preparam festas cinematográficas para bons jogadores como se eles fossem mitos, semideuses. No caso de alguns retornos fica evidente essa forçação de barra. O São Paulo fez uma festa belíssima para Luís Fabiano, que tinha saído do clube meio pela porta dos fundos, e retornou com status de ídolo que talvez não tivesse tido tempo de construir. Se ainda fosse a volta de Raí em 1998, essa sim muito mais impactante, e Raí muito mais importante como atleta para o clube. Ou mesmo o retorno de Muller. Luís Fabiano é muito bom jogador, mas não é Raí.Nem jogando, nem vendendo.

Vágner Love no Flamengo é outro caso. Não se discute a qualidade do jogador, que é muito boa, embora ele esteja longe de ser craque. Mas seu rendimento anterior e sua história como atleta justificam tamanho frenesi? Ou seria uma forma de vitaminar ações de mercado, venda de camisas, obtenção de patrocínio etc?

Isso sem contar o investimento que os clubes fazem para repatriar esses jogadores, que voltam ao Brasil já em curva descendente na carreira e querendo ganhar salários de Europa pré-crise. O quadro que vemos hoje pinta uma realidade mais austera e menos barulhenta. As grandes camisas muitas vezes vão a campo por vários e vários meses sem exibir patrocínio máster. Quando o patrocínio é fechado, geralmente tem sido por valores abaixo do que se pedia.

Até com ídolos que superam a rivalidade clubística é difícil os clubes conseguirem grandes valores com ações de marketing e produtos. O Santos e o Palmeiras tentaram com bonecos de alguns jogadores e, embora houvesse algum sucesso, não foi nada de parar o trânsito.

Enfim, os clubes muitas vezes fecham negócios pagando salários estratosféricos para jogadores que tentam transformar em ídolos que talvez não sejam. Depois que o Corinthians apostou alto e se deu bem com Ronaldo, seus adversários achavam que fosse dar certo toda hora e que seria possível fazer jorrar ouro. Em alguns casos, por enquanto, parece mais ouro de tolo, principalmente com o próprio Corinthians no que se refere a Adriano. E Ronaldo é um só. Como atleta e como carisma.

Não me interessa quanto um atleta ganha de salário e tomara que todos recebam muito. Mas a relação custo/benefício e o que esse investimento traz de retorno para o clube, isso, sim, interessa. Quando leio notícias de jogadores pedindo 600 mil reais mensais e ainda exigindo bônus de produtividade, fico imaginando como os marqueteiros dos clubes tentariam obter retorno. Porque na maior parte dos casos fala-se de jogadores bons, no máximo muito bons. Não são craques, grandes ídolos, usinas de gols, títulos e retorno financeiro.

É preciso que os clubes brasileiros acordem do seu sonho de novo-riquismo enquanto ainda é tempo. Porque não faz sentido bater o bumbo e festejar contratações ao mesmo tempo em que se passa o pires pelo mercado ou não se consegue pagar salários em dia.

O negócio precisa de ídolos e eles realmente são bem vindos. Mas ídolos de verdade, não fabricados em reuniões de diretoria de marketing.

domingo, janeiro 29, 2012



Paixão contada com

talento e bom humor




















Vitor Guedes é um legítimo representante da boa família marista e da boa pena jornalística. Além de ser uma figuraça, que anima qualquer ambiente em que esteja.

Se você ainda não lê, deveria começar a ler a coluna diária que ele assina no jornal Agora São Paulo, chamada Caneladas do Vitão. Ali ele desfila bom humor de maneira talentosa, para contar sua paixão pelo futebol e, em especial, por um time de futebol.

Nesta segunda-feira, o Vítor lança "Paixão Corintiana", livro em que ele conta a história do Corinthians à sua moda. Com o prefácio luxuoso de outra craque, a jornalista Marília Ruiz, irmã do Vítor e também representante legítima da família marista nas letras jornalísticas.




Anote abaixo endereço e horário, e não perca.

Lançamento de Paixão Corinthiana, de Vitor Guedes

Artilheiros Bar

Rua Mourato Coelho, 1194

Segunda-feira, 30 de janeiro, 19h

sexta-feira, janeiro 27, 2012


O drama da

aposentadoria




Com o fim da carreira de Marcos, o santo goleiro palmeirense, e as seguidas contusões de Rogério Ceni, o mito são-paulino, um dos assuntos mais dramáticos do futebol, e do esporte em geral, volta à tona: aposentadoria.

Enquanto a maioria dos trabalhadores vê na aposentadoria, se tiver alguma sorte, a possibilidade de um descanso merecido, no caso do atleta profissional, o dia de terminar a carreira assemelha-se a uma sentença de morte. Porque o atleta profissional, principalmente o jogador de futebol, morre duas vezes. Quando pára de jogar e quando parte dessa para a melhor.

Muitos depoimentos importantes já foram dados sobre esse tema. O filme Boleiros, o primeiro, aborda, de maneira tocante, esse drama.

Mas eu nunca tinha visto, lido ou ouvido um relato tão fundamental e verdadeiro do que seja a vida de um ex-jogador de futebol, das boas e das más lembranças, antes de ler o belo livro "Crônicas de Um (ex) Jogador, de autoria de José Roberto Padilha, publicado pela editora KBR.

Ganhei o livro do próprio Zé Roberto, que enviou através de um amigo comum, o grande Tiãozinho, o "Imperador de Três Rios", parceiro de memoráveis rachões no Clube Paineiras do Morumby.

Em sua dedicatória, Zé Roberto classifica o livro como o "ocaso de um jogador de futebol". Simples e direto.

Zé Roberto foi ponta-esquerda da Máquina Tricolor, o sensacional time do Fluminense de meados dos anos 70 do século passado. Era bom jogador em uma época em que era muito mais difícil ser chamado de bom jogador. Passou com sucesso por Flamengo e Santa Cruz. Fora isso, estava muito bem acompanhado na Máquina, por gente como Edinho, Félix, Toninho, Rivellino, Marco Antônio, Zé Mário, Gil, Manfrini.

Jornalista formado, treinador de futebol, Zé Roberto conseguiu a rara façanha de capturar a essência da vida de um jogador brasileiro e transmiti-la de forma direta, agradável, bem escrita e fluente. Desde as lembranças gostosas como as eternas resenhas, brincadeiras e aventuras, até a angústia dos contratos, das mudanças de cidade e ambiente, do desemprego.

Há dois momentos, entre muitos outros, que me tocaram em especial. Num deles, Zé Roberto recorda uma noite, quando jogava pelo Santa Cruz, na qual ele entende ter feito, talvez, a grande atuação da carreira. Mas era um jogo a mais, sem TV em rede nacional, um Santa Cruz x CRB. Zé Roberto gastou a bola e, recordando no livro, se pergunta por que aquela atuação perfeita não aconteceu no Maracanã, num Fla-Flu, com toda a grande mídia por perto.

Mas se contenta ao final da partida, no vestiário, com o reconhecimento de Amauri, funcionário do Santa, que reconheceu seu grande jogo.

Outro trecho em que Zé Roberto consegue passar, sem se fazer de vítima, todo o desrespeito e a politicagem que envolvem os ex-jogadores de futebol no Brasil, é o de uma festa nas Laranjeiras. Festa cujo objetivo "oficial" era celebrar o título brasileiro de 2010 e homenagear o time campeão brasileiro de 1970. O objetivo "real" era turbinar a campanha política de um candidato à presidência do clube.

Zé Roberto pinta de nostalgia sua viagem pela aristocrática sede do Fluminense, carregando em lembranças e memórias a cada rosto amigo que cruzava. Mas é cirúrgico ao descrever o desprezo do clube, que sequer deixou seu nome na portaria - foi salvo e autorizado a entrar na sede por um ex-massagista que o reconheceu. Em resumo: deixou a festa antes da metade, maltratado, mal alimentado e quase despercebido

Também descreve com rara sinceridade o sentimento de abandono ao ouvir o seguinte diálogo entre dois roupeiros do Flamengo, quando de sua passagem pelo clube: "Sabe quem está aí fora? O Liminha (volante de passagem importante pelo Rubro-Negro e jogador admirado por Zé Roberto, mesmo sendo ele torcedor confesso do Fluminense)." A resposta do segundo roupeiro tirou o chão de Zé Roberto, que se preparava para deixar o vestiário e conhecer o ídolo. "Deve estar desempregado. Ex-jogador quando vem ao clube é para pedir dinheiro".

Naquela abjeta festa nas Laranjeiras, Zé Roberto afirma ter sentido na pele o comentário preconceituoso daquele roupeiro.

Mais não conto porque o livro vale a pena ser saboreado por quem ama o futebol e respeita os verdadeiros autores de suas histórias: os jogadores. 

quinta-feira, janeiro 26, 2012


Pitacos da rodada


E lá vou eu, tirando a ferrugem, preparando a volta ao trabalho, curtindo os últimos dias de férias e, claro, vendo a bola rolar.

Duas rodadas só reforçam minha tese sobre esse início de temporada nos estaduais, em especial o de São Paulo, atração da telinha do SporTV nesse período. Deixo aqui o link para a coluna que publico às terças nos jornais da Rede Bom Dia.

A oscilação é mais do que normal entre os chamados grandes nesses primeiros dias. O Corinthians, por exemplo, jogou mais contra o time de empresários que agora se instalou em Guaratinguetá do que tinha feito contra o Mirassol. Para isso, se aproveita da boa organização tática que trouxe de 2011.

Oeste e São Paulo fizeram um jogo disputado em alta velocidade, mas desorganizado. Muita correria atrás da bola, parecendo pelada de criança. Onde estava a bola, tinha um monte de jogadores correndo em volta. Porque tem jogadores melhores, o Tricolor levou essa, mas poderia não ter levado, já que houve um gol mal anulado do Oeste. Destaque para o belo jogo do volante Wellington.

Palmeiras e Lusa fizeram um clássico gostoso de assisitir, pegado, disputado, embora pobre tecnicamente. A Portuguesa mostrou uma forte marcação na saída de bola, escancarando a dificuldade palmeirense nesse tema. O Verdão, no entanto, criou mais oportunidades, perdeu muitas chances e até poderia ter vencido.

A Lusa carece de criatividade no meio-campo, embora seja um time muito organizado e rápido. Quem oferecer o contra-ataque para a equipe do Canindé pode se dar mal. Henrique foi o mais atuante jogador da equipe. O Palmeiras sentiu a falta de um Valdívia mais atuante, teve Maikon Leite entrando muito bem no jogo, mas segue cometendo erros bobos na defesa. Tinga esteve perdido como sempre e Daniel Carvalho mostrou inteligência e técnica, embora ainda sobrem quilos.

Como não vi os jogos de Inter e Flamengo na Libertadores, falo dos resultados e das projeções. Pela fragilidade do Potosí, a tarefa do Flamengo, por ter marcado fora de casa, parece mais tranquila na volta. O Inter enfrentará um adversário melhor, mais tradicional, jogando fora, mas mesmo assim tem bola e elenco para passar.

sexta-feira, janeiro 20, 2012



Descaso aéreo

e a fileira 14


Viajo muito a trabalho. Uma parcela importante do meu tempo se passa em aeroportos ou em aviões. Por isso sinto-me no dever de compartilhar algumas situações que vivi e que devem ser frequentes para muitos outros brasileiros. Fala-se em caos aéreo. Acho que a palavra que se aplica é outra: descaso.

O setor de aviação comercial no Brasil é, literalmente, um escândalo. Isso num País que será sede de Copa do Mundo, de Olimpíada, e tem potencial para ser um destino turístico internacional.

São situações banais que eu, você, todos nós enfrentamos, mas que expõem esse descaso de maneira revoltante.

Recentemente fui ao Japão para a cobertura da Copa do Mundo de Clubes da Fifa. Voos via Estados Unidos. Ainda a bordo dos aviões das companhias aéreas, uma americana e uma japonesa, você é informado do portão em que seu avião estacionará, por onde você fará o desembarque, e em que esteira estarão suas malas. A chegada das malas geralmente acontece no tempo exato que o passageiro demora para se desvencilhar dos trâmites de alfândega e percorrer as distâncias internas do aeroporto.

Aeroporto no sentido correto da palavra. Os de Nova Iorque, Dallas, Tóquio e Nagóia são um tapa na cara dos brasileiros. Nada de luxo, mas de eficiência, limpeza e praticidade.

Isso sem citar os três grandes aeroportos da África do Sul, Durban, Joanesburgo e Cidade do Cabo. Nenhum aeroporto brasileiro paga placê para esses três sul-africanos. Os nossos são aeródromos de quinta categoria, escuros, ultrapassados e com banheiros imundos.

Então você precisa viajar pelo Brasil. Ou quer viajar, gozando o merecido período de férias. Aí vem não um tapa na cara, mas um soco na boca do estômago.

A começar por nossas companhias aéreas. Falta de informações, funcionários despreparados, confusos, estressados e mal pagos por empresas que lucram e lucram. Você se apresenta no portão de embarque apontado na passagem e começa a ouvir o sistema de som informar que o portão não é mais aquele. Isso acontece duas, três vezes. Em algumas delas o sistema de som é o pulmão de um funcionário.

Dentro dos aviões, se você tiver sorte na escolha do lugar, pode gozar de alguns centímetros de espaço a mais. Mas na maioria dos casos, viverá a experiência de incorporar em uma sardinha em lata. Se quiser algo mais espaçoso, terá de pagar pelo indecente assento conforto, mais uma artimanha nojenta das companhias para conseguir lucro.

Se você, como eu, já teve o desprazer de viajar na fileira 14 de algum Boeing 737-800 da Gol Linhas Aéreas Inteligentes (?) sabe do que estou falando. A impressão que fica é que os aviões das companhias aéreas brasileiras levam muito mais passageiros do que equivalentes comprados por empresas de outros países. E se pudessem, levariam alguém em pé ou, como dizem, até já levaram escondidinhos na cabine de comando.

Duvido que algum figurão da Anac ou da Infraero já tenha vivido a experiência da fileira 14 de um Boeing 737-800 da Gol. Ou pelo menos se interesse por isso. Terminada a experiência de viver algumas horas como se fosse o Houdini encaixotado, você só quer desembarcar e ir para casa. Mas fica meia-hora dentro do avião até que decidam por onde você sairá. Se por um finger cheirando a mofo e cheio de goteiras ou pelo bom e velho ônibus com motoristas irritadiços.

Eu, por exemplo, quando sai da lata, ops!, do meu assento do meio que não reclina na fileira 14 do Boeing 737-800 da Gol, tive que tomar chuva para ir ao busão que nos deixou no setor de desembarque. Sequer um guarda-chuvazinho. Nisso a TAM pelo menos costuma pensar. Aí você precisa descobrir onde estará sua mala. Que demorou mais ou menos 45 minutos para aparecer, toda encharcada pela chuva. Mas você deu mais sorte que a passageira ao lado, que encontrou sua mala rasgada e provavelmente deve dar pela falta de alguma coisa que tenha comprado, furtada pela quadrilha que costuma agir no Aeroporto de Guarulhos. Quadrilha formada por funcionários do próprio aeroporto, que dispõem de detectores de metal e conseguem descobrir as malas que levam algum objeto de valor.

Mas o martírio não terminou. Não há trem, metrô. Para ir embora, ou você pega um ônibus caro ou então chama um táxi, igualmente caro, depois de ficar numa fila desorganizada. Se estiver chovendo, cuidado com as goteiras.

Aí vem o aspecto mais complicado desse mercado: a segurança.

Conheço gente que é da aviação e é séria. O que contam é de arrepiar. Com o mercado de venda de passagens aquecido, é preciso ter mais tripulações à disposição para utilizar ao máximo as aeronaves e encher os cofres. As leis da aviação civil são severas quanto ao tempo de descanso de uma tripulação entre um voo e outro. Mas embora severas, como muitas outras, essas leis são dribladas no Brasil com rara habilidade.

E a qualificação profissional? A mão de obra é escassa, e um piloto comercial não pode simplesmente sair de um teco-teco e assumir o comando de um Airbus, de um Boeing. Embora os aviões sejam os mesmos, cada companhia recebe uma aeronave de acordo com uma especificação de motor, limite de peso, aviônicos etc. É preciso tempo de treinamento, capacitacão e testes para receber a carteira que permite pilotar aquele modelo específico.

Há uma grande necessidade de pilotos comerciais no Brasil. No entanto, algumas companhias, em especial as mais jovens, pagam salários muito abaixo da realidade do mercado internacional. O que fez com que um número importante de pilotos brasileiros optasse por trabalhar no Exterior. Pilotos com bagagem, muitas horas de voo, atraídos por bons salários e companhias sérias.



Mas ainda que seja um oficial de alta patente na aviação militar, no mundo civil a realidade é outra. Tecnologias diferentes, procedimentos distintos, aeronaves com outros comandos e necessidades.

Há alguns anos houve uma greve de pilotos na Argentina, onde a aviação sofre de problemas ainda mais sérios. Como bom governo populista que quase sempre toca o território irmão, a solução encontrada foi chamar a aeronáutica para assumir os voos civis. Até que houve um acidente com mortes com um Fokker, por pura falta de conhecimento e capacidade do piloto destacado para a "missão".

Você sabia que as empresas aéreas brasileiras que voam para o Exterior são qualificadas em um grupo preocupante pelos controladores de voo dos grandes aeroportos? Isso significa dizer que não têm prioridade para pousos e desembarques. Qual o motivo? O precário conhecimento de inglês da maioria das tripulações. Por isso os pousos dessas companhias são feitos em regime de segurança máxima, porque pode ter ocorrido algum imprevisto na comunicação.

Enfim, é triste que isso tudo aconteça em um país de dimensões continentais, onde o avião é uma necessidade, uma prioridade em alguns casos.

Nossas companhias aéreas têm um histórico assustador. A Varig foi padrão de serviços e de excelência no serviço de bordo, mas faliu por ter sido administrada como uma estatal paquidérmica que distribuía passagens para gozar de prestígio e conseguir benefícios com o governo.

Antes dela a Panair tinha sido dizimada por questões políticas pelo Governo Militar.

A TAM se originou de um aventureiro apaixonado por aviação que ganhava a vida transportando carga, contrabandistas, garimpeiros etc. Seguiu pelos caminhos da Varig no que se refere a bajular o poder constituído e foi vendida para uma empresa chilena.

A Gol é uma empresa de ônibus que ganhou asas e cujo patriarca não mede esforços para eliminar a concorrência, se é que você me entende. Dê-se por satisfeito se ela o pegou no ponto X e o entregou no ponto Y, não interessa em que condições.

A Azul parecia ser uma boa novidade, mas um olhar mais atento mostra que na verdade é mais um chamariz para algum comprador interessado.

A Avianca fazia a rota das plataformas de petróleo quando era Ocean Air. Tem crescido timidamente e parece ser uma empresa que promete, pelo menos, um pouco mais de conforto. Embora ainda seja muito pequena para poder oferecer um serviço abrangente e escapar de atrasos e cancelamentos.

A Trip é uma regional também originada no transporte terrestre, de ônibus, e parece querer usar o avião para interligar suas plataformas em rodoviárias.

E a Anac e a Infraero nessa? São aqueles cabidões de empregos que assistem a tudo isso e vez ou outra soltam relatórios pomposos, apontando crescimento em números e anunciando a obra de mais um puxadinho.

2014 vem aí e seja o que Deus quiser. Boa sorte a você que precisa ou quer viajar no período. Porque o descaso continua.

quarta-feira, janeiro 11, 2012


Encontros e despedidas


Sempre é um choque receber a notícia da partida precoce de um amigo. Respeito aqui o fato desse amigo, parceiro de jornada nos tempos da faculdade, ser extremamente discreto e não cito nomes. Mas fica a lição passada pela amizade sincera, a risada franca que vencia a timidez e o companheirismo construído em quatro anos de convivência. A vida teima em separar as pessoas porque é assim mesmo. Mas não devemos separar as lembranças e as amizades construídas nessa caminhada. Espero que todos que convivemos com esse amigo possamos ter acrescentado em sua vida o que ele certamente acrescentou à nossa.

quinta-feira, janeiro 05, 2012



Marcão eterno


Poucos são os jogadores de futebol no Brasil que conseguem pairar acima da rivalidade às vezes insana que separa os grandes clubes. Mais que poucos, são raros. A essa estirpe une-se agora, na anunciada aposentadoria, o goleiro Marcos, para sempre do Palmeiras.

Existem ídolos que fazem média com os próprios torcedores, talvez sem saber que nem disso precisam. Mas insistem em fazê-lo, pensando nos juros e dividendos dessa atitude.

Marcos é um ídolo especial, e transcende a grandeza dos milhões de torcedores que o santificaram porque nunca fez média com nada e com ninguém. É o que é, na alegria e na tristeza.

Em minha carreira de jornalista tive o prazer de dividir as famosas resenhas com o Marcão em várias oportunidades. Em aviões, hotéis, estúdios de TV, após treinamentos e jogos. Assim como tive a honra de entrevistá-lo e certificar-me que não havia personagem que entrasse em cena com as luzes da TV ou os microfones. Era o mesmo cara em on e em off.

Fui espectador privilegiado de algumas das maiores atuações já protagonizadas por um goleiro. No período de 1998 a 2002 Marcos foi soberbo. Muitas vezes beirou o sobrenatural. Foi decisivo em diversas conquistas do Palmeiras e fundamental na Copa do Mundo de 2002, com atuações irretocáveis contra a Bélgica e na final, diante dos alemães.

Sua liderança emanava da maneira mais natural, a carismática. Marcos é daqueles líderes que são eleitos pelo grupo, não dos que se impõem.

Ao não abandonar seu clube quando houve o rebaixamento, mostrou, sem gestos encenados e ensaiados, que era mais que um atleta profissional exemplar, mas um símbolo.

O futebol precisa urgentemente de jogadores desse tipo. O esporte precisa, porque pela repercussão que gera e palas emoções que proporciona, não pode ficar refém de um certo tipo de ídolo que atua diante das câmeras.

Mais que as defesas inesquecíveis, os títulos incontáveis e as risadas que proporcionou, Marcos deixa como legado algo cujas jazidas estão se esgotando: a autenticidade.

Bom descanso e sucesso na nova vida, Marcão! Você é eterno.

quarta-feira, dezembro 28, 2011


Muito barulho por nada*

*Essa coluna eu escrevi para ser publicana no Diário de S.Paulo, mas esqueci que nessa época do ano as colunas deixam de ser publicadas. Efeito retardado do fuso japonês. Mas fica aqui o registro.

Por enquanto, grandes paulistas fizeram espuma. Poucas contratações e nada de protagonistas

            Se depender do que aconteceu até agora em termos de contratações, 2012 será um ano pouco auspicioso para os torcedores dos quatro grandes times de São Paulo. Em meio a promessas e ilusões, por enquanto não se concretizou nenhum reforço que merecesse manchete ou festa dos torcedores.
            A impressão que fica é que entre as assustadoras pedidas dos jogadores e de seus empresários e a realidade financeira dos clubes parece existir um oceano de incertezas. A crise econômica é uma realidade e certamente chegará ao Brasil. Os valores astronômicos que os clubes sonhavam conseguir com marketing e patrocínios estão sendo revistos sempre para baixo, o que tem impacto na política de contratações.
            Quem mais se mexeu por enquanto foi o São Paulo. Não fez contratação de impacto, é verdade. Trouxe uma promessa, o lateral Bruno Cortês, um volante experiente, Fabrício, um meia que ainda não vingou, Maicon, e zagueiros que disputaram um bom Brasileiro, Paulo Miranda e Edson Silva. Nada que justifique apresentação no Morumbi, nem que corrija o maior defeito do time em 2011, a falta de criatividade no meio-campo.

            O Corinthians busca, com tem sido sua marca registrada recentemente, uma contratação que faça barulho. No caso, o argentino Montillo, que tem potencial para conseguir mais que reverberação, porque joga muito. Mas será que vale a pena gastar quase toda a verba de contratações com apenas um atleta? Ou seria melhor reforçar as laterais, por exemplo? Ter mais atacantes que possam jogar de fato e não de vez em quando?
            O Santos deve ter se assustado com o que não fez no Japão e precisa melhorar sua frágil linha defensiva. Além de buscar gente que possa ocupar a vaga de Neymar quando ele estiver com a seleção. Mas o grande problema, de fato, é aproximar o desempenho da defesa do rendimento do ataque.
            O Palmeiras segue sendo maltratado pelos seus ultrapassados dirigentes. Não contrata e ainda faz um negócio de deixar arrepiado até o pior dos comerciantes, ao aceitar pagar uma fortuna por Valdívia, aumentando as dívidas. Em vez de trazer os camarões de Felipão, paga caro por um prato servido requentado.
            A Lusa não tem a realidade financeira dos quatro parceiros, então os sonhos são mais modestos. O que pode ser interessante, pela realidade do mercado. Pouca gente boa, muita gente média e pedindo alto demais. Com inteligência, dá para montar um time competitivo, de acordo com o que se apresenta. O mesmo vale para a Ponte Preta.

Quem procura....
            Adriano telefonou para dirigentes corintianos choramingando que é zicado, que tudo acontece com ele. Tadinho... Seria o caso de alguém lembrar ao atacante o velho ditado popular do quem procura, acha. Quem brinca com bola certamente colhe coisas bem diferentes do que quem anda com revólver no carro. Lamentável!

  Velhos fantasmas
            Em vez de renovação e ideias arejadas, eis que o noticiário político do Palmeiras aponta para uma possível volta de Mustafá Contursi ao poder. Depois o torcedor custa a compreender porque o time só patina. O tempo passou na janela e só os dirigentes palmeirenses não viram. Desse jeito a fila não anda.

 Chega de testes
            2012 é ano-chave para Mano Menezes na seleção brasileira. O time empacou em 2011, não teve quase nada de aproveitável. Hoje temos Espanha, Alemanha, Holanda e Uruguai muito à frente do Brasil. É hora de dar uma cara ao time, não apenas um uniforme. A Olimpíada será uma boa vitrine do que a nova geração pode oferecer.

Nó Tático
            A devastadora vitória do Barcelona sobre o Santos ainda renderá muito debate em 2012. Na mídia, no boteco, no clube, na praia. Mas será que onde deve acontecer o debate ele realmente surgirá? Nos clubes, nas federações, na CBF?

            Honestamente, duvido. Os dirigentes e treinadores brasileiros são dotados de tal nível de soberba atualmente que não conseguem, na maioria dos casos, enxergar um palmo adiante do nariz de Pinóquio. Poucos pensam no futuro, no que pode acontecer com seus clubes e seus negócios em quinze, vinte anos.
            O Barcelona pensou 30 anos antes para colher o que tem hoje. Enquanto os clubes brasileiros correm atrás de dinheiro para comprar jogadores, o time catalão ganha o mundo com nove atletas criados em sua base.

            Por aqui assistimos a clubes grandes verificarem, estarrecidos, que seus elencos contam com pouquíssimos atletas que pertencem a eles. Na maioria, são ativos de empresários.

            Mas o que fica de questionamento, o mais grave, é saber quem são os treinadores da base? O que podem ensinar aos jogadores? Como estão contribuindo para a formação dos atletas? Porque é como na educação formal. Não adianta querer ensinar tabuada e concordância na faculdade se isso não foi feito da maneira correta lá atrás, no ensino básico.
            Por isso muitos dos nossos zagueiros se apavoram quando recebem uma bola recuada, nossos laterais precisam ajeitar a bola dez vezes antes de cruzar, nossos atacantes cabeceiam de olhos fechados e por aí vai.
            Nada se ensina sem bons professores. Adaptando a frase do Felipão, não adianta pedir camarão se da cozinha não sai nem um feijãozinho bem temperado.

quarta-feira, dezembro 21, 2011


De 2008 a 2011,

lições do "balón"


Reproduzo aqui o texto que publiquei ainda em Viena, horas após a Espanha conquistar a Euro 2008 e iniciar seu domínio sobre o futebol mundial, referendado pelo Barcelona.

Ao retomar o texto reflito e convido os que aqui passam, para refletir sobre o que aconteceu com o futebol brasileiro desde então.

Cada vez mais me convenço que, embora ainda brotem talentos, nossos dirigentes e treinadores caminham para o lado oposto do que indica a armada espanhola com sotaque catalão.

Feliz Natal e um ótimo 2012 a todos!

http://blogdonori.blogspot.com/2008/06/fria-espanha-reina-soberana-sobre-o.html  


DOMINGO, JUNHO 29, 2008

FÚRIA

A Espanha reina soberana sobre o futebol europeu, 44 anos depois de seu primeiro título. Finalmente o futebol jogado pelos espanhóis se equivale ao bom futebol jogado na Espanha (quase sempre por estrangeiros, diga-se). Há muito o que comemorar, não apenas pelos espanhóis, com essa Uefa Euro 2008.
Pelo lado de Castela e Aragão, além da conquista, é mais do que justo celebrar o futebol de um Iniesta, rápido e habilidoso, de um Fabregas, do grande goleiro Casillas. E com a providencial ajuda brasileira, um senhor volante chamado Marcos Senna, tipo dono do time, passe preciso, marcação incansável. Se ele faz o segundo gol naquela jogada maravilhosa que ele mesmo iniciou, viraria mito na terra de Cervantes.
Que dizer de Fernanto Torres? forte como um cavalo, oportunista como o herói espanhol de 1964, Marcelino.
Da Alemanha há quase nada a destacar. Fora Schweinsteiger, craque mesmo, o time foi uma pálida lembrançda da esquadra poderosa e confiante de outras jornadas. Podolski pipocou, Ballack, se estava machucado, deveria ter pedido para sair, pois praticamente não entrou. Metzelder é fraco demais.
Para o mundo, a Europa passa a mensagem de que o futebol pode ser mais livre das amarras táticas, das teorias professorais dos treinadores, e deve ser entregue cada vez mais aos jogadores, pois talento, felizmente, ainda há de sobra. 

domingo, dezembro 11, 2011


Semifinal é desafio

psicológico no

Mundial de Clubes


Estou no meio da viagem para meu terceiro Mundial de Clubes in loco. Gosto da competição, que ainda precisa se ajustar à questão meio doida do calendário internacional do futebol. O que parece muito difícil de ser conseguido. Afinal, os interesses de cada país precisam ser respeitados, assim como suas diferenças climáticas, culturais etc.

Nessas três edições no local e em outras que vi pela TV, cheguei a uma conclusão que compartilho com vocês, teclando enquanto não chega a hora de embarcar para 14 horas de voo de Nova Iorque a Tóquio. A de que a semifinal é a partida, no fundo, mais difícil e psicologicamente complicada para os times europeus e sul-americanos.

Mas por quê? Simples, porque é o jogo que os times grandes que vão ao Mundial não podem perder. Perder a decisão em jogo único contra um rival de peso, o que vale para sul-americanos e europeus, faz parte. Duro é cair na semifinal ante um time sem grande tradição. Os colorados ainda sentem a dor da derrota para o Mazembe e seus reflexos. O São Paulo sofreu barbaridade ante um time saudita em 2005, o próprio Inter suou sangue na semi de 2006, anes da glória contra o Barça.

Testemunhei esse nervosismo dentro do campo, em 2006, quando assisti a semifinal no gelado gramado do estádio Nacional de Tóquio. O peso dessa derrota, digamos, proibida, fez o jogo ficar muito mais complicado do que deveria ser. O Al Ahly jogou leve, solto, enquanto o Colorado era um time tenso, travado. Na final, contra o Barça, os comandados de Abel Braga jogaram com mais leveza do que na semifinal.

Eis que no meio do caminho santista aparece o Kashiwa de Nelsinho Batista, de Leandro Domingues e Jorge Wagner. Sempre achei que seria mais complicado esse adversário que o Monterrey. Porque vem em ritmo de competição, joga em casa, adaptado ao clima e não tem muito a perder.

O Santos é melhor, tem craques que podem decidir o jogo, mas precisa controlar a ansiedade e essa armadilha de se falar sempre na final, de se almoçar e jantar Barcelona antes de papar a entrada, que é o time japonês. Que não pode ser tratado como aperitivo.

  

terça-feira, dezembro 06, 2011



Coluna publicada terça-feira no Diário de S.Paulo

Segredos foram

Tite e comando





Uma das muitas teorias proferidas sobre o futebol reza que jogadores ganham jogos e treinadores ganham campeonatos. Todas as teses têm certa lógica quando se trata desse jogo, mas, no caso do Corinthians campeão brasileiro de 2011, parece que essa do trabalho do técnico faz todo o sentido.
Daqui a muitos anos, quando os corintianos forem recordar esse título, dificilmente ele será associado a um jogador, especificamente. Não será o Corinthians do Neto, do Marcelinho, do Ronaldo. Mas será, sempre, o Corinthians do Tite.
Quando acontece uma conquista marcada pelo equilíbrio, pelo drama e pela incerteza até os minutos finais, sempre se procura uma explicação, um momento, a fagulha decisiva. O Timão desta temporada não teve craques. Individualmente, os maiores destaques talvez tenham sido Ralf e Paulinho, jogadores muito mais táticos do que técnicos. Não houve um artilheiro fundamental, nem um cérebro pensador.
Mas houve um olhar preciso e eficiente sobre as características do time. Esse olhar veio do banco, veio de Tite. Ele mesmo, tão criticado, chamado de burro, cuja cabeça foi pedida diversas vezes por diretores corintianos, por comentaristas e colunistas. Tite sempre soube que não tinha um esquadrão em mãos. Teve a confirmação disso quando viu a Taça Libertadores voar pela janela, com atuações sofríveis dos medalhões Ronaldo e Roberto Carlos. Sacou, naquele momento, que marketing é para os marqueteiros e, para ganhar alguma coisa, precisaria superar a falta de inspiração com excesso de transpiração.
Quando a coisa ameaçou degringolar, o Tite de voz mansa, apaziguador, discurso de motivador em formato de catequista, mostrou que mandava de fato no time. Tirou quem achou que deveria tirar e jogou a responsabilidade para os atletas antes do clássico contra o São Paulo. Ali, definitivamente, ganhou o grupo, respaldado pelo presidente do clube alvinegro.
Aliás, nos bastidores, o Corinthians teve em Andrés Sanchez e no diretor Edu Gaspar figuras fundamentais, também decisivas. Blindaram o elenco, mas também cobraram duro quando foi preciso, respaldaram o treinador e fizeram a ligação entre grupo e chefe, que costuma ser uma armadilha no futebol.
Houve outro momento fundamental: a derrota para o América Mineiro. Ali se manifestou o mortal pecado da preguiça. O time vestiu um salto alto a cujo luxo não poderia se dar. Tite passou o recado claramente, até via mídia, e quem ouviu garante que muito mais claramente para direção e jogadores.
Além disso, o Corinthians fez uma largada cinematográfica, errou pouco nas tomadas de curva e, na reta de chegada, arrancou para a conquista com desempenho superior ao dos rivais. O título é incontestável e merecidíssimo.
Que Tite saiba aproveitá-lo com a sabedoria dos grandes e não se deixe levar pela soberba que costuma afetar treinadores que deixam a turma dos bons e muito bons para ingressar no seleto clube dos ótimos.

Verdão opaco

A falta de brilho do Palmeiras em 2011 é reflexo da falta de atitude e conhecimento do tema futebol de seus dirigentes. Enquanto não entenderem que futebol se faz com gente do ramo e são eles mesmos, os corneteiros, quem mais atrapalham o clube, esses dirigentes só proporcionarão tristeza e decepção aos palmeirenses.
Fabulosa antítese
Luís Fabiano foi a antítese do elenco do São Paulo em 2011. Mesmo jogando pouco tempo, fez muito mais do que a maioria, evidenciando a diferença técnica e de personalidade que há entre ele e a maioria dos demais. Personalidade é a premissa para a montagem de um elenco melhor em 2012.
Tri é possível

Não acho que uma eventual final de Mundial de Clubes entre Barcelona e Santos seja uma barbada para os catalães. Claro que o Barça é mais time, mas qualquer grande equipe brasileira provoca calafrios nos equivalentes europeus. Que a maldição de Mazembe não nos prive desse jogo espetacular.
Nó tático

Foi-se o Doutor Sócrates. Estive muitas vezes com ele, embora não possa dizer que tenha chegado a ser seu amigo. Mesmo assim, o papo era sempre franco, divertido, o que disfarçava uma grande timidez. Ele chegava para a conversa, colocava a mão no seu ombro e falava e ouvia por horas. Esse, sim, era o maior vício do Magrão, o bate-papo.
Como jogador, foi um craque improvável. Era bater o olho nele e duvidar de que pudesse ser boleiro. Magro, desengonçado, pernas finas. Mas era gênio. O que a maioria precisava de músculos, preparo físico e correria para fazer ele resolvia com um toque, de calcanhar que fosse. Sócrates representava em campo a vingança de todo garoto desengonçado que sonhava em ser jogador de futebol e era expulso de campinhos de várzea e de peneiras.
Ele provava que era possível, sim, jogar futebol, sem ser baixinho, troncudo e perna grossa. Assim como outro craque improvável tinha feito anos antes, baseado em pernas tortas angelicais.
Talvez sem querer, Sócrates deixa a lembrança de um futebol que não existe mais e provavelmente jamais volte a existir. E, também, uma mensagem subliminar contra todos os tipos de excessos que a vida, em especial a de alguém famoso e genial, possa proporcionar.

quinta-feira, novembro 24, 2011



Efeito suspensivo no Stjd!


Confesso que não aguento mais essas notícias de efeito suspensivo no futebol brasileiro. Indepentemente de camisa, de time, é um festival de desrespeito.

Como disse um twitteiro outro dia, é melhor abrir um supermercado, porque tudo vira distribuição de cesta básica.

Se é para suspender e depois conceder efeito suspensivo, melhor não suspender ninguém, porque falta uniformidade de critérios. Porque alguns são suspensos e não recebem efeito suspensivo e outros recebem?

Que os torcedores mais exaltados me perdoem, mas nessa todo mundo já foi beneficiado na história. Os vascaínos reclamam, com razão, do efeito suspensivo concedido ao Sheik, do Corinthians. Mas Edmundo jogou a final do Brasileiro de 97 numa situação em que, se não estou enganado, a nomenclatura não era efeito suspensivo, mas uma antecipação de julgamento.

Deveria ser tudo mais prático e menos ritual. Claro que todo mundo tem direito a defesa, mas é preciso terminar com essa confusão de penas em jogos ou em dias, de artigos que estabelecem suspensões que vão de 60 a 700 dias, uma coisa sem nexo, sem lógica.

Também é preciso estabalecer critérios para a procuradoria. Não adianta se basear apenas em imagens de TV, porque um dia elas podem faltar. E a lei tem que ser universal.

Talvez seja melhor conceder efeito suspensivo ao Stjd para que ele seja reciclado.

quinta-feira, novembro 17, 2011



Números falam mais

alto que a bola do líder


O Brasileirão chegou a um ponto em que resumo com a seguinte frase: agora é o Corinthians que perderá o título, não outro time que virá a ser campeão.

Explico: para deixar escapar seu quinto título nacional, o alvinegro paulista precisará cometer vacilos numa estrada que se oferece cada vez mais livre. Ou trocando em miúdos, a Fiel pode apostar mais nos números que na bola do time.

Não significa dizer que o time está blindado contra vacilos. Já cometeu vários durante a competição. Acontece que os outros vacilaram mais.

Na ponta do lápis, o Corinthians será campeão, sem precisar de tropeços dos rivais, com mais sete pontos. Um empate e duas vitórias, ou 77%,77 de aproveitamento. Cabalísticos corintianos de plantão observarão algo de cósmico nesses números, certamente. Não é pouco, mas o que os outros precisam é muito mais.

Para chegar a esse aproveitamento, o Timão jogará contra Atlético Mineiro, em casa, Figueirense, fora, e terá o clássico contra o Palmeiras. O jogo-chave parece ser o duelo contra o Galo, que luta para permanecer na Série A e tem um time que sugere mais pontos do que conquistou pela qualidade. Nova vitória, mesmo que os rivais diretos somem três pontos, deixaria o Corinthians com dois de vantagem e seis em disputa.

O Vasco, que marcou bobeira contra o Palmeiras, precisa tirar uma diferença de três pontos, porque ficou duas vitórias para trás. Enfrentará o Avaí em casa e dois clássicos: Fluminense e Flamengo.

O Flu tem o mesmo número de vitórias do líder, mas está cinco pontos atrás. Enfrenta, pela ordem, Figueirense, fora de casa, e os clássicos contra Vasco e Botafogo.

O Figueira precisa tirar seis de diferença para o líder, com o diferencial de enfrentar o Corinthians em casa e poder arrancar três desses pontos por conta própria. Antes precisa vencer o Flamengo, ainda hoje, e também buscar pontos do Fluminense.

Como se vê, muita gente que está abaixo do Corinthians se enfrentará, o que reforça minha tese de que agora o time paulista só perde para ele mesmo.

Se for campeão, o que é bastante provável, o Corinthians será um detentor de título premiado pela regularidade e não pelo bom futebol. Há pelo menos dois times que, de fato, estão jogando melhor que o Corinthians: Vasco e Figueirense. Mas o que interessa é somar mais pontos.

Contra o Ceará, o líder, novamente, ficou devendo futebol no primeiro tempo. Além de postura de líder. Foi acuado e pressionado por uma equipe seriamente ameaçada de rebaixamento. Na etapa final, mais corajoso e beneficiado pelo nervosismo evidente do Ceará, o Corinthians se soltou um pouco e venceu numa jogada individual de um atleta que anadava esquecido e marcado pela torcida, o peruano Cachito Ramirez.

Ao longo do jogo, foi salvo por Júlio César, goleiro que é outro alvo frequente de críticas por parte dos torcedores. E que encabeça a defesa que menos sofreu gols no campeonato: 35.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Emocional atrapalha

o voleibol feminino


Ainda que algumas ausências importantes e o fato de ainda estar em curso a busca por uma nova levantadora, há um problema maior que aflige a seleção feminina de vôlei na Copa do Mundo. É uma questão emocional, muitas vezes e em alguns casos pessoal.

Esse tipo de problema é o mais difícil de administrar e configura-se na principal diferença do trabalho de um treinador no comando de homens e mulheres. O homem é mais tosco e muita coisa se resolve na porrada, no grito, e tudo fica bem dez minutos depois. A mulher tem nuances com as quais os homens não sonham, e uma crise particular, de cunho pessoal, amoroso, seja lá o que for, tem contornos muito mais sérios para uma equipe.

Tecnica e taticamente, a questão de se buscar uma levantadora demanda tempo. Fofão tinha muito tempo de seleção, conhecia as jogadoras, que as conheciam. O levantador é o atleta no voleibol que precisa armazenas mais informações. Sobre o bloqueio adversário, os sacadores adversários e, principalmente, sobre os atacantes que vai abastecer em seu próprio time. Cada atacante gosta de um tipo de bola. Um mais veloz, outro mais alta e por aí vai. Quando se tem uma levantadora da longevidade e técnica de Fofão tudo fica mais fácil. A mudança demanda tempo e paciência.

A questão emocional é muito mais complicada. Muitas jogadoras são mães, esposas, namoradas, e os longos períodos de ausência criam situações cuja administração é muito difícil. Muito mais do que se formos comparar com um time de homens. Em muitos casos, as questões pessoais tornam-se coletivas e o impacto no desempenho de algumas atletas é profundo.

Ainda assim, sendo ou não via Copa do Mundo, o voleibol feminino do Brasil tem tudo para chegar a Londres com boas possibilidades de medalha.

PITACOS MUSICAIS

Sou um fã inveterado de música e de quando em vez posto algo sobre esse tema que me fascina.

Vi o show de Peter Gabriel no SWU. Quem frequenta esse espaço sabe que sou fã de Genesis. Fãzaço. Gosto muito mais do Genesis do que do Peter Gabriel solo, e mais do Genesis sem o Peter Gabriel do que com ele.

Isso posto, o show do cara é bem legal. Mas foi apresentado no local errado e para o público errado. A orquestra é excelente, ele ainda canta muito bem, embora com algumas limitações inevitáveis impostas pelo tempo. Nem todas suas músicas funcionam no formato orquestrado. Como seu trabalho sempre foi muito percursivo (ele também era baterista), em algumas canções a falta de uma percursão nervosa é evidente.

O problema é que Gabriel não fez nada de novo ao verter sua obra e a de outros para esse formato com orquestra. Ou então de pegar canções pop e rock e dar uma nova roupagem. Não há nada de aventureiro e ousado nisso.

Mas por ser um artista queridinho da crítica, Gabriel é tratado com reverência e rotulado de moderno e ousado em tudo que faz, mesmo que não seja nada disso.

Phil Collins, que herdou os vocais do Genesis de Gabriel, não conta com o beneplácito da crítica. Pelo contrário. Há alguns anos, gravou um discaço de versões para big band de canções dele e do Genesis, além de alguns clássicos do jazz nesse formato. Com Quincy Jones e Tony Bennett. Foi atacado de tudo quanto é jeito, embora tenha sido mais convincente que Gabriel nesse tipo de aventura.

Sting regravou clássicos dele e do Police em formato "clássico" e tomou porrada. Além disso, gravou um disco belíssimo de músicas sacras e folclóricas, em formato camerístico, e também tomou cacetada.

Infelizmente, a crítica musical é assim mesmo. Elege alguns e execra outros. Falta isenção à maioria. Porque analista tem que ser isento, não imparcial.  Tem que ter a capacidade de reconhecer qualidade em algo que não gosta.

Aí do Gabriel eu pulo pra Marisa Monte, cujo disco novo comprei e tenho ouvido bastante. E gostado muito. Leio aqui e ali alguns textos da crítica musical chamando o disco de cafona e brega. Se fosse não haveria problema. Para mim não é. Vejo a obra como mais popular, romântica, direta. Tem uns bolerões ali daqueles bem mexicanos. E qual o problema de ter bolero?

Gosto da produção, com a participação de Dadi, ex-Cor do Som. Marisa tem uma voz agradável, e sempre flertou com o cancioneiro popular e romântico e com o pop descarado do tempo dos Tribalistas.

Mas qualquer artista que ouse sair um pouco da linha ativista intelectualóide ou MPB cabeça defendida por uma parcela da crítica toma porrada. O que no caso de Marisa Monte não deve fazer diferença, já que ela tem uma carreira estabelecida, acima de julgamentos preconceituosos. 

sexta-feira, novembro 11, 2011



O Dia do Fico de Neymar


Existem diversas maneiras para se analisar o Dia do Fico de Neymar. Também há somente uma vontade fundamental para que tudo se resolvesse a favor da permanência: a vontade de Neymar.

Só ficou por que quis. Hoje quem manda em seu destino é o jogador. O que é extremamente saudável, embora incomode significativamente setores da mídia, da cartolagem, da torcida e de ex-jogadores. Não é todo mundo que se acostumou com essa independência dos jogadores e com o fato de atualmente eles estarem por cima da cadeia alimentar e econômica do futebol.

O mundo mudou. Recentemente, um presidente de clube grande esteve num programa de TV do qual participo e disse que estava espantado com essa mudança. Que quando ele começou no futebol eram os diretores que chegavam de carro importado, agora são os jogadores. Segundo ele, os dirigentes hoje chegam "no máximo com um Corollinha". Dá para ver o que ele pensa do futebol e como está ultrapassado só com essa frase.

Mas voltemos ao Neymar. Ele ficou no Santos porque foi bom para ele. O ser bom para ele tem nuances. Bom porque ele gosta, fato, mas bom, também, porque ficando no Brasil ele ganha mais do que receberia na Europa. Isso é fato incontestável. Mesmo já sendo uma estrela reconhecida no planeta bola, Ñeymar não chegaria para sentar na janelinha entre as estrelas da Europa. Até em virtude da lei do vestiário e das crises de ciúmes de outras estrelas. Ou alguém acha que ele chegaria no Barça ganhando mais que o Messi, ou no Real faturando mais que o Cristiano Ronaldo? Duvido!

O futebol europeu não está imune à crise econômica do continente. A grana está curta, muitos clubes estão endividados até o pescoço. Salvam-se os que têm mecenas tipo Berlusconi, algum sheik maluco ou, então, um milionário russo de origem duvidosa.

Hoje tem dinheiro circulando no Brasil. Muito dinheiro. Também no futebol. Neymar é produto de uma nova geração de jovens, da era digital, das redes sociais. Tudo que ele faz vira notícia no minuto seguinte, seja postada por ele mesmo em seu twitter, ou por um paparazzo de plantão. Neymar representa essa moçada esperta, antenada e apressada. Parafraseando e modificando uma antiga frase da juventude de outras eras, ele é o porta-voz do viva rápido e enriqueça jovem. Tudo isso sem deixar de curtir.

O jogador de futebol não é mais marginalizado como antes. Até porque, sendo bem sincero, hoje ele tem muito dinheiro, que é o que interessa para a grande maioria. A grana mudou de mão, e os bajuladores de plantão adoram quem tem a carteira forrada. Se junto com a bufunfa vier uma revista de pseudo-famosos, tá melhor. O que boleiro tem de aspone é uma grandeza. Isso sem contar no exército de parentes e ex-namoradas e futuras companheiras que surgem do nada.

Bom, mas e o moleque bom de bola, o que tem com isso? Tem que, além de jogar muito futebol, amadureceu e desabrochou na hora certa. Quando todos os fatores convergem para o sucesso que ele pilota com a bola nos pés.

Se Neymar tivesse surgido no Santos com o mesmo talento, o mesmo carisma, o mesmo cabelo, em 1995, seria vendido em seis meses. Para sorte dele e nossa, surgiu depois. Num cenário mais favorável para o Brasil e extremamente desfavorável para a Europa. Como não quer jogar num time de sheik ou milionário russo, Neymar pode ser exigente. Pode escolher jogar, se quiser, nos melhores times europeus, enquanto segue jogando no que ele faz ser o melhor da América, o Santos.

Por trás de tudo que se fala e especula, acho que há um fator que tem sido pouco avaliado para o sucesso da operação Fica, Neymar: a exploração comercial de sua imagem. Pelo que se diz na mídia, ele e seu pai conseguiram que o Santos liberasse 100% dos direitos sobre a imagem de Neymar em publicidade. O que poucos jogadores já conseguiram e conseguirão de uma equipe, em especial de Real Madri e Barcelona.

Dizia-se que Ronaldinho Gaúcho, em seu auge, tinha esse acordo com o Barcelona. O que não é pouca coisa. Geralmente, os atletas cedem percentuais ou até o total do que ganham com publicidade individual para o clube. Assim como recebem um percentual do que o clube ganha com suas imagens.

Por mais que o Santos ou qualquer time do mundo possa oferecer um salário fixo estratosférico para Neymar, a cereja do bolo é a publicidade num Brasil que deixou de ser vidraça para ser não estilingue, mas estrela principal da vitrine econômica.

O rosto de Neymar hoje é o mais requisitado da publicidade brasileira. O moleque, assim como Ronaldo Fenômeno, parece ser feito de T-Fal, nada gruda nele. Tem carisma para sair natural em propaganda de qualquer coisa e faz vender. Os torcedores adversários não odeiam Neymar, admiram. Mas talvez não ao ponto de virarem a casaca. Ou seja, Neymar não cria conflitos que espantem as vendas.

Não gosto de colocar números em textos e opiniões, porque vivemos num País violento, onde o sucesso incomoda e atiça a bandidagem. Mas calculo, de maneira geral, que Neymar vá faturar com publicidade mais do que o dobro do que recebe como salário. E não acho difícil que chegue ao final do mês faturando mais do que Messi e Cristiano Ronaldo.

Sem precisar enfrentar períodos de adaptação, invernos rigorosos, idioma pouco conhecido, distância da terrinha e outros dramas que sempre afetaram o boleiro nacional longe de casa.

Neymar em 2009, um em 2010 e outro agora. Fisicamente, tecnicamente e taticamente vê-se um jogador novo - e melhor - a cada etapa.

Se o mundo continuar girando desse jeito, com a moeda da sorte econômica caindo sempre para o nosso lado, num prazo de dez anos nossos clubes podem ser grandes de fato em nível mundial. Principalmente se tiverem juízo administrativo. Porque de nada adianta aumentar o faturamento e a dívida crescer junto.

Dinheiro há de sobra no mercado do futebol brasileiro. Com juízo, inteligência e uma dose de sorte, não é preciso ficar namorando a bola do vizinho.

segunda-feira, novembro 07, 2011



Transpiração 2011


Emocionante é. Equilibrado, idem. Mas a cara desse Brasileirão imprevisível é a transpiração. Poderia ser um pouco mais de inspiração. Tirando Neymar quase sempre, e um Thiago Neves aqui, um Ronaldinho ali, um Montillo acolá, além de alguns lances esporádicos, é um torneio, digamos, esforçado.

Time por time, o melhor ainda não pintou. Poderia ter sido o Santos, se jogasse completo o tempo inteiro. Mas o se não joga. O Neymar, esse sim, joga. E muito.

O Fluminense é o melhor do returno e tem, no momento, o maior número de bons jogadores em boa fase.

O Corinthians é regular mas depende da transpiração, pouco inspirado que é. Se não deixa tudo em campo, perde muito de sua força. Não tem bola para administrar, tem que jogar sempre no 110% de entrega.

O Vasco é equilibrado e regular. Mas depende muito de Diego Souza para ter a centelha da inspiração.

O Flamengo tem essa inspiração vez ou outra com Thiago Neves e Ronaldinho. Para ser campeão precisa que eles estejam inspirados mais vezes.

O Botafogo talvez precise que seu técnico seja mais inspirado.

O Figueirense depende menos de inspiração de um ou outro, mas mesmo assim tem em Júlio César e Fernandes jogadores que mostram essa fagulha criativa (bonito isso).

Ao Inter parece ter faltado inspiração para muitos dos seus bons jogadores quando o time mais precisou.

Embora seja um campeonato divertido, o Brasileirão mostra algo preocupante. O jogador de futebol brasileiro padrão, atualmente, é um atleta muito bem preparado fisicamente, mas com capacidade técnica limitada. Pouco ou nada preocupado com liderança ou identificação com clube ou história.

Não chego ao ponto de dizer que são extremamente frios e profissionais. Mas me arrisco a dizer que são frios. Não gostam de assumir a responsabilidade em campo, se puderem, a passam de lado para o mais próximo.

Isso talvez se reflita na dificuldade que os times enfrentam, alguns para simplesmente permanecer na Série A, outros para vencer a Série A.

Felizmente ainda temos alguns jogadores diferentes, mais ousados, de personalidade. Poucos. Sem contar Neymar, que é fenômeno.

A pergunta que me faço e aqui deixo é a seguinte: o que é melhor, um campeonato equilibrado e de média técnica baixa, ou um campeonato com algumas disparidades mas de qualidade maior como espetáculo? 

segunda-feira, outubro 31, 2011


Brasil, Cuba e o Pan

Ao final do Pan de 2007, após uma extensa cobertura no SporTV, lembro de um papo que tive com o excelente e premiadíssimo repórter Lúcio de Castro, que conhece como poucos a estrutura do esporte no Brasil e em Cuba. Chegamos à conclusão de que sobra dinheiro no Brasil, e Cuba esbanja método e especialização.

Assim como no Pan do Rio, o Brasil terminou a competição de Guadalajara atrás de Cuba no quadro de medalhas. Por mais que se procurem fórmulas que apontem vantagem do Brasil em um ou outro quesito, a constatação a ser feita é que uma ilha minúscula, de economia combalida e, a meu ver, respeitando todas as opiniões, conceitos políticos anacrônicos, tem um projeto esportivo atrelado à educação.

Pode-se contestar que o projeto esportivo cubano seja em boa parte político, propagandista. Mas qual não é? Seja o país socialista, capitalista ou desprovido de ideologia, qualquer governante pega carona no esporte para se promover.

Acontece que Cuba tem esse projeto esportivo-educacional. Não tem as instalações que o Brasil tem, não paga salários milionários a alguns atletas, mas, qualitativa e quantitativamente, forma muito mais atletas olímpicos de alto nível do que o Brasil.

Claro que o esporte brasileiro melhorou, mas ainda acho que Cuba faz mais com menos. Aqui poderíamos fazer muito mais com os investimentos que existem, e chegam à casa do bilhão no que se refere ao esporte olímpico.

Basicamente, por não ter projeto esportivo atrelado à educação, o Brasil não consegue massificar o esporte chamado amador. Depende ainda dos clubes sociais e esportivos, que abastecem as seleções que representam o país nas provas internacionais.

Como explicar que uma ilha com 11 milhões de habitantes (população inferior à da Grande São Paulo) conquiste dez medalhas de ouro a mais que uma nação de 190 milhões de habitantes e pesado investimento estatal em propaganda no esporte?

Eu acho que é competência, know-how e projeto, diretriz.

Isso sem contar os Estados Unidos, que têm um projeto ideologicamente oposto ao de Cuba, mas com a mesma base: esporte e educação. O atleta americano nasce na escola, progride na universidade e chega ao milionpario profissionalismo. Infelizmente, no Brasil, o esporte em nível colegial e universitário não existe, doa a quem doer essa afirmação.

Os americanos levam um time B, C ao Pan e nadam de braçada. Cuba forma atletas em pistas de atletismo improvisadas (o SporTV tem em seus arquivos essas imagens para quem duvida). Cuba levou 447 atletas a Guadalajara e o Brasil, 515.

Não se trata de reduzir a questão a uma disputa do Brasil contra Cuba no esporte pan-americano. Trata-se de discutir um projeto esportivo para o Brasil. Trata-se de trazer o esporte para as escolas como parte efetiva da educação de seus jovens, da formação do caráter. Então, a partir disso, incutir uma mentalidade de prática esportiva na população. Depois, tirar qualidade da quantidade, investir na excelência da formação, do fundamento, e partir para o nível olímpico.

Não existe fórmula mágica. Talento há de sobra, sempre houve. Falta dar ao País um projeto esportivo, assim como falta um projeto educacional.

Deixo aqui o link para um blog espetacular sobre esportes olímpicos, e a análise sempre precisa do amigo Marcelo Laguna.

sexta-feira, outubro 28, 2011


Vozes que jamais

deixarei de ouvir 2


Pois mal tinha batucado as linhas falando da escalação de Aluani Neto para o time dos imortais do rádio, veio a notícia de outro chamado para esse time, o do grande Luiz Mendes, o comentarista da palavra fácil.

Tive a felicidade de conversar com o Luiz algumas vezes e de participar de programas nos quais ele estava. Fui honrado com o convite de falar sobre ele para o livro publicado a respeito de sua vida e obra.

Recentemente conversei com ele, na verdade uma entrevista para um livro que publicarei em breve. Era de uma fluência verbal espantosa, de uma educação inacreditável para os dias de hoje, e tinha a memória intacta.

O time lá de cima fica cada vez melhor, pra tristeza de quem fica por aqui.

quarta-feira, outubro 26, 2011


Vozes que jamais

deixarei de ouvir

Sou um ouvinte inveterado de rádio AM. De Jornalismo no rádio. Isso desde muito cedo. Ouvia muito as rádios Bandeirantes e, principalmente, a Jovem Pan. Sei de cor algumas das vinhetas da emissora que o genial Fernando Vieira de Mello transformou em referência de muitas gerações de ouvintes de jornalistas.

Ainda ouço muito a Pan e cada vez menos capto o espírito do jornalismo praticado pelo Vieira de Mello. Mas essa é outra história.

Li hoje no jornal que morreu Aluani Neto, o repórter aéreo da Jovem Pan. Para quem vive numa cidade maluca e praticamente inviável como São Paulo, os repórteres aéreos das emissoras de rádio são quase anjos da guarda. Nos tiram de enrascadas, de congestionamentos e conseguem humanizar essa metrópole cada vez mais desumana.

Lembro-me de acordar antes de ir para a escola ouvindo o Aluani Neto e seus boletins sempre precisos, texto ágil, correto e informativo, indicando caminhos para escapar dos engarrafamentos. Isso há mais de 25 anos. Levava um radinho de pilha na mochila e ficava ouvindo rádio no ônibus, o saudoso Divisa Diadema, que pegava na Rafael de Barros e me levava ao ponto em frente ao ginásio velho do Colégio Arquidiocesano, na Domingos de Morais.

Aliás, devo um agradecimento eterno ao motorista que conduzia o Divisa Diadema nos primeiros anos da década de 1980, por que várias vezes ele esperava a mim e a outros alunos atrasados alguns metros abaixo do ponto, sabendo que a gente chegaria e nos livrando da falta. Parece-me algo impensável nos dias de hoje. Tanto que fizemos uma vaquinha no final do ano e compramos um presente para ele, que não era professor, mas nos ensinou muito sobre solidariedade.

De volta às vozes do rádio que me acompanham desde muito cedo. Ainda ouço muito o mestre José Paulo de Andrade na Bandeirantes, ele e seu fiel escudeiro Salomão Ésper, agora com o jovem e talentoso Rafael Colombo e o fantástico Joelmir Beting. Também na Band ouço meu grande amigo Paulo Galvão à tarde, no Três Tempos.

Mas é a velha Pan que ecoa na minha alma de ouvinte. Com Joseval Peixoto, outro mestre, no jornal que abre o dia, ancorado por algumas das velhas e inesquecíveis vinhetas.

Sempre brinco com meu amigo e colega de trabalho Milton Leite que "quando eu era criança" eu era ouvinte dele no Show da Manhã da Pan. Claro que eu já não era criança, mas sempre me divirto ao recordar o Miltão sugerindo que "a dona fulana da Vila Ré quer trocar um fogão por uma  cafeteira".

Algumas vozes marcantes da minha vida como Israel Gimpel, Realli Júnior e agora Aluani Neto se calaram nas ondas do rádio. Mas certamente estarão para sempre em minha memória de ouvinte.