terça-feira, dezembro 06, 2011



Coluna publicada terça-feira no Diário de S.Paulo

Segredos foram

Tite e comando





Uma das muitas teorias proferidas sobre o futebol reza que jogadores ganham jogos e treinadores ganham campeonatos. Todas as teses têm certa lógica quando se trata desse jogo, mas, no caso do Corinthians campeão brasileiro de 2011, parece que essa do trabalho do técnico faz todo o sentido.
Daqui a muitos anos, quando os corintianos forem recordar esse título, dificilmente ele será associado a um jogador, especificamente. Não será o Corinthians do Neto, do Marcelinho, do Ronaldo. Mas será, sempre, o Corinthians do Tite.
Quando acontece uma conquista marcada pelo equilíbrio, pelo drama e pela incerteza até os minutos finais, sempre se procura uma explicação, um momento, a fagulha decisiva. O Timão desta temporada não teve craques. Individualmente, os maiores destaques talvez tenham sido Ralf e Paulinho, jogadores muito mais táticos do que técnicos. Não houve um artilheiro fundamental, nem um cérebro pensador.
Mas houve um olhar preciso e eficiente sobre as características do time. Esse olhar veio do banco, veio de Tite. Ele mesmo, tão criticado, chamado de burro, cuja cabeça foi pedida diversas vezes por diretores corintianos, por comentaristas e colunistas. Tite sempre soube que não tinha um esquadrão em mãos. Teve a confirmação disso quando viu a Taça Libertadores voar pela janela, com atuações sofríveis dos medalhões Ronaldo e Roberto Carlos. Sacou, naquele momento, que marketing é para os marqueteiros e, para ganhar alguma coisa, precisaria superar a falta de inspiração com excesso de transpiração.
Quando a coisa ameaçou degringolar, o Tite de voz mansa, apaziguador, discurso de motivador em formato de catequista, mostrou que mandava de fato no time. Tirou quem achou que deveria tirar e jogou a responsabilidade para os atletas antes do clássico contra o São Paulo. Ali, definitivamente, ganhou o grupo, respaldado pelo presidente do clube alvinegro.
Aliás, nos bastidores, o Corinthians teve em Andrés Sanchez e no diretor Edu Gaspar figuras fundamentais, também decisivas. Blindaram o elenco, mas também cobraram duro quando foi preciso, respaldaram o treinador e fizeram a ligação entre grupo e chefe, que costuma ser uma armadilha no futebol.
Houve outro momento fundamental: a derrota para o América Mineiro. Ali se manifestou o mortal pecado da preguiça. O time vestiu um salto alto a cujo luxo não poderia se dar. Tite passou o recado claramente, até via mídia, e quem ouviu garante que muito mais claramente para direção e jogadores.
Além disso, o Corinthians fez uma largada cinematográfica, errou pouco nas tomadas de curva e, na reta de chegada, arrancou para a conquista com desempenho superior ao dos rivais. O título é incontestável e merecidíssimo.
Que Tite saiba aproveitá-lo com a sabedoria dos grandes e não se deixe levar pela soberba que costuma afetar treinadores que deixam a turma dos bons e muito bons para ingressar no seleto clube dos ótimos.

Verdão opaco

A falta de brilho do Palmeiras em 2011 é reflexo da falta de atitude e conhecimento do tema futebol de seus dirigentes. Enquanto não entenderem que futebol se faz com gente do ramo e são eles mesmos, os corneteiros, quem mais atrapalham o clube, esses dirigentes só proporcionarão tristeza e decepção aos palmeirenses.
Fabulosa antítese
Luís Fabiano foi a antítese do elenco do São Paulo em 2011. Mesmo jogando pouco tempo, fez muito mais do que a maioria, evidenciando a diferença técnica e de personalidade que há entre ele e a maioria dos demais. Personalidade é a premissa para a montagem de um elenco melhor em 2012.
Tri é possível

Não acho que uma eventual final de Mundial de Clubes entre Barcelona e Santos seja uma barbada para os catalães. Claro que o Barça é mais time, mas qualquer grande equipe brasileira provoca calafrios nos equivalentes europeus. Que a maldição de Mazembe não nos prive desse jogo espetacular.
Nó tático

Foi-se o Doutor Sócrates. Estive muitas vezes com ele, embora não possa dizer que tenha chegado a ser seu amigo. Mesmo assim, o papo era sempre franco, divertido, o que disfarçava uma grande timidez. Ele chegava para a conversa, colocava a mão no seu ombro e falava e ouvia por horas. Esse, sim, era o maior vício do Magrão, o bate-papo.
Como jogador, foi um craque improvável. Era bater o olho nele e duvidar de que pudesse ser boleiro. Magro, desengonçado, pernas finas. Mas era gênio. O que a maioria precisava de músculos, preparo físico e correria para fazer ele resolvia com um toque, de calcanhar que fosse. Sócrates representava em campo a vingança de todo garoto desengonçado que sonhava em ser jogador de futebol e era expulso de campinhos de várzea e de peneiras.
Ele provava que era possível, sim, jogar futebol, sem ser baixinho, troncudo e perna grossa. Assim como outro craque improvável tinha feito anos antes, baseado em pernas tortas angelicais.
Talvez sem querer, Sócrates deixa a lembrança de um futebol que não existe mais e provavelmente jamais volte a existir. E, também, uma mensagem subliminar contra todos os tipos de excessos que a vida, em especial a de alguém famoso e genial, possa proporcionar.

2 comentários:

Wilson Hebert disse...

Eu que sou um crítico do Andres Sanchez, reconheço que a manutenção do Tite foi acertadíssima e fundamental.

E isso tem mesmo que ser sempre relembrado, porque ao que parece, ele remou contra todas as marés nessa decisão.

Abração, Nori!

Loccy disse...

Norasca, obrigado por mais esse post. Muito legal tuas palavras sobre o Doutor Sócrates. Peço a você, se houver tempo e inspiração, que relate a nós, teus leitores, um "causo" sobre seus encontros com o Doutor. Adoraria ler! Obrigado e um abraço, Luciano