sexta-feira, janeiro 20, 2012



Descaso aéreo

e a fileira 14


Viajo muito a trabalho. Uma parcela importante do meu tempo se passa em aeroportos ou em aviões. Por isso sinto-me no dever de compartilhar algumas situações que vivi e que devem ser frequentes para muitos outros brasileiros. Fala-se em caos aéreo. Acho que a palavra que se aplica é outra: descaso.

O setor de aviação comercial no Brasil é, literalmente, um escândalo. Isso num País que será sede de Copa do Mundo, de Olimpíada, e tem potencial para ser um destino turístico internacional.

São situações banais que eu, você, todos nós enfrentamos, mas que expõem esse descaso de maneira revoltante.

Recentemente fui ao Japão para a cobertura da Copa do Mundo de Clubes da Fifa. Voos via Estados Unidos. Ainda a bordo dos aviões das companhias aéreas, uma americana e uma japonesa, você é informado do portão em que seu avião estacionará, por onde você fará o desembarque, e em que esteira estarão suas malas. A chegada das malas geralmente acontece no tempo exato que o passageiro demora para se desvencilhar dos trâmites de alfândega e percorrer as distâncias internas do aeroporto.

Aeroporto no sentido correto da palavra. Os de Nova Iorque, Dallas, Tóquio e Nagóia são um tapa na cara dos brasileiros. Nada de luxo, mas de eficiência, limpeza e praticidade.

Isso sem citar os três grandes aeroportos da África do Sul, Durban, Joanesburgo e Cidade do Cabo. Nenhum aeroporto brasileiro paga placê para esses três sul-africanos. Os nossos são aeródromos de quinta categoria, escuros, ultrapassados e com banheiros imundos.

Então você precisa viajar pelo Brasil. Ou quer viajar, gozando o merecido período de férias. Aí vem não um tapa na cara, mas um soco na boca do estômago.

A começar por nossas companhias aéreas. Falta de informações, funcionários despreparados, confusos, estressados e mal pagos por empresas que lucram e lucram. Você se apresenta no portão de embarque apontado na passagem e começa a ouvir o sistema de som informar que o portão não é mais aquele. Isso acontece duas, três vezes. Em algumas delas o sistema de som é o pulmão de um funcionário.

Dentro dos aviões, se você tiver sorte na escolha do lugar, pode gozar de alguns centímetros de espaço a mais. Mas na maioria dos casos, viverá a experiência de incorporar em uma sardinha em lata. Se quiser algo mais espaçoso, terá de pagar pelo indecente assento conforto, mais uma artimanha nojenta das companhias para conseguir lucro.

Se você, como eu, já teve o desprazer de viajar na fileira 14 de algum Boeing 737-800 da Gol Linhas Aéreas Inteligentes (?) sabe do que estou falando. A impressão que fica é que os aviões das companhias aéreas brasileiras levam muito mais passageiros do que equivalentes comprados por empresas de outros países. E se pudessem, levariam alguém em pé ou, como dizem, até já levaram escondidinhos na cabine de comando.

Duvido que algum figurão da Anac ou da Infraero já tenha vivido a experiência da fileira 14 de um Boeing 737-800 da Gol. Ou pelo menos se interesse por isso. Terminada a experiência de viver algumas horas como se fosse o Houdini encaixotado, você só quer desembarcar e ir para casa. Mas fica meia-hora dentro do avião até que decidam por onde você sairá. Se por um finger cheirando a mofo e cheio de goteiras ou pelo bom e velho ônibus com motoristas irritadiços.

Eu, por exemplo, quando sai da lata, ops!, do meu assento do meio que não reclina na fileira 14 do Boeing 737-800 da Gol, tive que tomar chuva para ir ao busão que nos deixou no setor de desembarque. Sequer um guarda-chuvazinho. Nisso a TAM pelo menos costuma pensar. Aí você precisa descobrir onde estará sua mala. Que demorou mais ou menos 45 minutos para aparecer, toda encharcada pela chuva. Mas você deu mais sorte que a passageira ao lado, que encontrou sua mala rasgada e provavelmente deve dar pela falta de alguma coisa que tenha comprado, furtada pela quadrilha que costuma agir no Aeroporto de Guarulhos. Quadrilha formada por funcionários do próprio aeroporto, que dispõem de detectores de metal e conseguem descobrir as malas que levam algum objeto de valor.

Mas o martírio não terminou. Não há trem, metrô. Para ir embora, ou você pega um ônibus caro ou então chama um táxi, igualmente caro, depois de ficar numa fila desorganizada. Se estiver chovendo, cuidado com as goteiras.

Aí vem o aspecto mais complicado desse mercado: a segurança.

Conheço gente que é da aviação e é séria. O que contam é de arrepiar. Com o mercado de venda de passagens aquecido, é preciso ter mais tripulações à disposição para utilizar ao máximo as aeronaves e encher os cofres. As leis da aviação civil são severas quanto ao tempo de descanso de uma tripulação entre um voo e outro. Mas embora severas, como muitas outras, essas leis são dribladas no Brasil com rara habilidade.

E a qualificação profissional? A mão de obra é escassa, e um piloto comercial não pode simplesmente sair de um teco-teco e assumir o comando de um Airbus, de um Boeing. Embora os aviões sejam os mesmos, cada companhia recebe uma aeronave de acordo com uma especificação de motor, limite de peso, aviônicos etc. É preciso tempo de treinamento, capacitacão e testes para receber a carteira que permite pilotar aquele modelo específico.

Há uma grande necessidade de pilotos comerciais no Brasil. No entanto, algumas companhias, em especial as mais jovens, pagam salários muito abaixo da realidade do mercado internacional. O que fez com que um número importante de pilotos brasileiros optasse por trabalhar no Exterior. Pilotos com bagagem, muitas horas de voo, atraídos por bons salários e companhias sérias.



Mas ainda que seja um oficial de alta patente na aviação militar, no mundo civil a realidade é outra. Tecnologias diferentes, procedimentos distintos, aeronaves com outros comandos e necessidades.

Há alguns anos houve uma greve de pilotos na Argentina, onde a aviação sofre de problemas ainda mais sérios. Como bom governo populista que quase sempre toca o território irmão, a solução encontrada foi chamar a aeronáutica para assumir os voos civis. Até que houve um acidente com mortes com um Fokker, por pura falta de conhecimento e capacidade do piloto destacado para a "missão".

Você sabia que as empresas aéreas brasileiras que voam para o Exterior são qualificadas em um grupo preocupante pelos controladores de voo dos grandes aeroportos? Isso significa dizer que não têm prioridade para pousos e desembarques. Qual o motivo? O precário conhecimento de inglês da maioria das tripulações. Por isso os pousos dessas companhias são feitos em regime de segurança máxima, porque pode ter ocorrido algum imprevisto na comunicação.

Enfim, é triste que isso tudo aconteça em um país de dimensões continentais, onde o avião é uma necessidade, uma prioridade em alguns casos.

Nossas companhias aéreas têm um histórico assustador. A Varig foi padrão de serviços e de excelência no serviço de bordo, mas faliu por ter sido administrada como uma estatal paquidérmica que distribuía passagens para gozar de prestígio e conseguir benefícios com o governo.

Antes dela a Panair tinha sido dizimada por questões políticas pelo Governo Militar.

A TAM se originou de um aventureiro apaixonado por aviação que ganhava a vida transportando carga, contrabandistas, garimpeiros etc. Seguiu pelos caminhos da Varig no que se refere a bajular o poder constituído e foi vendida para uma empresa chilena.

A Gol é uma empresa de ônibus que ganhou asas e cujo patriarca não mede esforços para eliminar a concorrência, se é que você me entende. Dê-se por satisfeito se ela o pegou no ponto X e o entregou no ponto Y, não interessa em que condições.

A Azul parecia ser uma boa novidade, mas um olhar mais atento mostra que na verdade é mais um chamariz para algum comprador interessado.

A Avianca fazia a rota das plataformas de petróleo quando era Ocean Air. Tem crescido timidamente e parece ser uma empresa que promete, pelo menos, um pouco mais de conforto. Embora ainda seja muito pequena para poder oferecer um serviço abrangente e escapar de atrasos e cancelamentos.

A Trip é uma regional também originada no transporte terrestre, de ônibus, e parece querer usar o avião para interligar suas plataformas em rodoviárias.

E a Anac e a Infraero nessa? São aqueles cabidões de empregos que assistem a tudo isso e vez ou outra soltam relatórios pomposos, apontando crescimento em números e anunciando a obra de mais um puxadinho.

2014 vem aí e seja o que Deus quiser. Boa sorte a você que precisa ou quer viajar no período. Porque o descaso continua.

8 comentários:

Luiz Moraes disse...

Nori. Acompanho seu trabalho no esporte e sei do seu profissionalismo e seriedade. Quanto ao seu texto sobre as "rodoviárias de ônibus com asas" gostaria de me juntar a você e aumentar este coro. Nossas Cias. Aéreas e nossos aeroportos são, sim, uma grande falta de respeito pelo cidadão, e muita incompetência. Passei por problemas idênticos aos seus, e sei bem o que é isso. E, para piorar, ainda temos passageiros mal educados, que não respeitam se quer um idoso. Realmente, não sei onde isso vai parar.
Abraços, volte logo. Luiz Moraes.

Anônimo disse...

parabéns pela análise do setor aéreo ... também o José Cruz fala do "puxadinho" da Infraero : http://josecruz.blogosfera.uol.com.br/2012/01/copa-2014-bem-vindos/

Eduardo disse...

Fazer o que se um ministro responsavel pela fiscalização dos aeroportos diz na imprensa sobre o caos aereo: "Relaxa e goza"

Gedson C. G. disse...

Noriega, seus comentários são pertinentes se levarmos em conta o atraso de 60 anos que o Brasil tem com relação a outros Países como EUA e Japão no setor aéreo. Inclusive 90% do caos é culpa exclusiva do governo e não das cias aéreas que se desdobram para cumprir a legislação do setor. Descordo somente da forma pejorativa quando se refere ao grande Comandante Rolin Amaro. Ele não era e nunca foi aventureiro. era sim um exemplo de administrador e aviador. Quem nos dera que todos fossem iguais a ele.

Anônimo disse...

Sou piloto e fã do seu trabalho no Esporte! Quando li a análise nunca imaginei que seria você! parece alguém de dentro falando...parabéns! infelizmente nossos governantes querem resolver a maioria desses problemas com soluções temporárias e claro mais cara! por ex:autorizar que pilotos estrangeiros sem cidadania nacional possam trabalhar em nossas Cias.,aumentar a carga horária de trabalho sem sequer pensar na segurança! e por aí vai....é triste saber que isso não vai mudar tão cedo!

Blog disse...

Excelente análise !! Parabéns !!
Tomara que o Governo faça alguma coisa para dar um tratamento melhor ao povo brasileiro quando este for utilizar os aeroportos, seja à trabalho ou por puro lazer (que hj em dia já começa estressante).

Nori disse...

Gedson, discordar é saudável. Tive a oportunidade de, várias fezes, embarcar em aviões da TAM com o Rolim recebendo as pessoas, fazendo check-in etc. Se você leu a biografia dele verá que ele era um aventureiro mesmo, e não é pejorativo isso. Mas a companhia após sua morte virou outra coisa. Abs

Carlos Augusto disse...

Sensacional! Espero que os "experts" da ANAC e Infraero (meu deus!) como diria o excelente Milton Leite, possam ler o seu texto que é primor de análise, o que não é novidade, se tomarmos como parâmetro seus comentários! E pensar que 2014 é logo ali...E o nome do problema é falta de planejamento, de vontade política de seriedade para o qual houve tempo mais do que suficiente para ser feito e bem desenvolvido. Nori, mais um vez, Parabéns!