sexta-feira, março 14, 2008


A INGRATIDÃO,
AS BERMUDAS
E O FUTEBOL




O noticiário anda fazendo mal à saúde, até para quem vive de notícia. Que dizer, por exemplo, da nova diversão do governo da Espanha: deportar brasileiros. Sou neto de espanhol por parte de pai. Até 1992 eu poderia ser cidadão espanhol, se quisesse. Agora não posso mais. Na verdade, nunca quis ser. Estou bem feliz e satisfeito por ser brasileiro. Pois meu avô resolveu sair da Espanha lá pelos anos 20 do século passado, ele e quase todos seus irmão, pois pretendiam escapar da perseguição e da selvageria da Guerra Civil. Foi bem recebido no Brasil, aqui teve oportunidades, fez uma família, abriu um negócio e aqui morreu. Seu Epifanio Noriega foi um dos milhões de europeus que, fugindo de ditadores ou da fome e da miséria em algumas épocas, vieram parar no Brasil, na Argentina, no Chile, no México. Esse mesmo Brasil que abrigou os japoneses que neste ano comemoram cem anos da chegada dos primeiros de seus patrícios a esse porto seguro tropical.
Essas notícias das deportações de brasileiros pela Espanha me fazem pensar em como seria a Europa hoje se a América Latina não tivesse recebido espanhóis e italianos, por exemplo. Isso muito tempo depois de espanhóis, ingleses e franceses terem dizimado populações, saqueado e pirateado riquezas. Certamente alguns sobrenomes se perderiam no tempo, famílias seriam interrompidas e não caberia todo mundo nos "vastos" territórios atuais dos outroras império e reino que foram Itália e Espanha. Pior ainda é saber que tudo acontece por uma questão política, eleitoreira. Coisa mesquinha. Espanha e Itália são dois países que têm participação maioritária na composição do meu sangue. Duas grandes e belas nações mas que, infelizmente, suportam - ou seria aceitam? - alguns comportamentos xenófobos e racistas. Vide algumas manifestações em jogos de futebol, símbolos fascistas que perduram, uma inconcebível saudade de Franco e Mussolini manifestada por grupos de extrema direita. Sabe-se que a grosso modo italianos e espanhoís, como povo, não têm grande apreço pela idéia de compartilhar seu chão com imigrantes, sejam eles europeus, sul-americanos, africanos. Se jogam futebol direitinho e têm traços europeus no sangue, tudo bem, até fazem uma concessão.
Aqui nesse maltratado chão em que se plantando tudo dá, houve a oportunidade para que muitos de sangue espanhol tocassem a vida, literalmente sobrevivessem. Até hoje a Espanha prospera em negócios realizados no Brasil. Por isso não entendo e não aceito o que se faz agora. Mas talvez seja porque eu pense num mundo em que fronteiras sejam algo mais cultural do que étnico e alfandegário. O direito de ir e vir faz parte do meu modo de pensar e ver o mundo.
Assim como o direito de entrar de bermudas, desde que não sejam micro, no glorioso e respeitado Congresso Nacional Brasileiro. Essa casa de gente séria, proba e trabalhadora viveu acalorado debate na última semana quando uma jornalista foi barrada por não estar trajada de acordo com as normas do decoro - não o parlamentar - exigidas pela casa. Para lá entrar tem que estar de terno bem cortado, vestido discreto. Não importa o que se vá fazer, se é negociar um cargo, um mensalão, fornicar, tudo isso pode. Desde que se esteja vestido adequadamente. Nada retrata mais o Brasil do que essa metáfora das bermudas. Triste Brasil.
E ainda sobre esse caso Brasil-Espanha, acho bobagem a retaliação. Primeiro porque na condição de paraíso tropical pobre, precisamos de turistas e do dinheiro deles. Se a idéia de alguns europeus é vir aqui para, literalmente, comer criancinhas, que esses animais sejam presos e deportados. Mas se os europeus decentes querem apenas curtir uma praia, comer bem e viver a experiência de um país em que, apesar de todos os males - e são muitos - , a mistura é bem vinda e celebrada, não há separatismo e até os rivais (só no futebol) argentinos são bem tratados, podem vir. Só tomem cuidado com uma ou outra bala perdida, um assaltante, um sequestrador, um corrupto de plantão. Fora isso, ainda prefiro a República das Bermudas ao Reino da Ingratidão.

E O FUTEBOL?

Ah, claro, quase esqueci. Apesar das arbitragens, das insuportáveis coletivas dos treinadores e de alguns times bem fraquinhos, ainda tem coisa boa pelos gramados. Mas o futebol tá ficando chato em um aspecto. Tudo agora é avaliado sob o ângulo da "ética" - será que quem usa essa palavra sabe o que significa?. Seja a do boleiro, a do empresário, a do construtor de gramados. Se drible está virando falta de respeito ao profissional é porque passou da hora de se pensar em mudanças de comportamento. Isso envolve jogadores, técnicos, dirigentes, imprensa, torcedores. Antes que a gente comece a ouvir coisas do tipo "queria pedir desculpas por ter feito um gol tão bonito", "minha intenção não era dar um rolinho, jamais faria isso com um colega de profissão" e por aí vai.

11 comentários:

r_cuba disse...

Noriega, sabe o que é mais chato nas entrevistas coletivas?
Quando a TV, principalmente a Globo e a Sportv, focalizam o nariz do entrevistado, tudo isso para esconder os patrocinadores ao fundo.

Joao Luis Amaral disse...

É, Nori... infelizmente, vivemos num mundo onde o símbolo de poder é ainda o tacape, onde impera a lei do mais forte. Parece que a cadeia alimentar foi estendida para a sociedade: um querendo dar cabo do outro, sem importar como ou se pertence à mesma espécie.
De nada adiantam os avanços tecnológicos, os investimentos em medicina, o ser humano ir cada vez mais longe no espaço, completar 100 metros em menos tempo, se a mentalidade continua a mesma dos nossos extintos homens das cavernas.
É o "olho por olho, dente por dente", são atitudes desprovidas do mínimo de inteligência e coerência.
E ainda há aqueles que aplaudem atitudes como essas.
Falta gentileza nas pessoas, falta compreensão da complexidade de se viver em sociedade, falta entender que o fenômeno da globalização nao seria necessário se, como bem colocou, todos se respeitassem quanto a direitos e deveres, se as fronteiras fossem somente marcas de lápis em mapas da escola, nada mais do que isso.
Grande abraço e bom trabalho neste fim de semana.
Joao Luis Amaral

Nori disse...

r_cuba, acho que isso está mudando e deve mudar ainda mais em breve. Aguardemos. Abs

Nori disse...

João, eu acho que o mundo terá que passar por uma drástica mudança para continuarmos habitando o planeta que teimamos em destruir.
Abs

Rodrigo Azeredo disse...

Noriega, quanto à questão Brasil-Espanha, permita-me discordar de quando você fala em retaliação.
O que ocorre nos aeroportos brasileiros não é nenhuma retaliação à Espanha. O Brasil não está tratando injustamente os turistas espanhóis que querem entrar aqui por vingança ou desforra.
Ocorre que no direito internacional existe o princípio da reciprocidade, que é adotado por todos os países. No caso, a imigração brasileira apenas passou a exigir dos espanhóis os mesmos requisitos que a Espanha está exigindo dos brasileiros, o que, convenhamos, é um pouco demais. O resultado foi espanhóis chegando despreparados e sendo mandados para casa, assim como aconteceu com os brasileiros por lá.
Aliás as exigências em questão são um tanto demasiadas, levando em conta os acordos entre Brasil e União Européia. Portanto, o modo como foi conduzido o caso é correto, dentro do que se espera no campo das relações internacionais.
Não foi simples represália, pois obriga a Espanha a, pelo menos, dialogar em relação às exigências para os brasileiros entrarem em seu território.
E, para encerrar, não é com medidas eleitoreiras sem nenhum bom senso que a Espanha consiguirá resolver o problema dos imigrantes ilegais.
Abraço!

Nori disse...

Rodrigo, muito obrigado pela visita. O que me parece um pouco estranho no uso da reciprocidade é que desde o ano passado a Espanha tem proibido muito mais a entrada de brasileiros e agora, num momento pontual, o Brasil passa a fazer algo que, no meu modo de ver, parece retaliação. E acho bobagem para o Brasil usar a reciprocidade, já que o País é um destino turístico emergente, que precisa de divisas. Claro que isso não vale para o traficante disfarçado de turista, pro cara que busca turismo sexual etc.
Mas é um triste sinal dos tempos.
Abs

Anônimo disse...

Dom Nivaldo Monte destacaba la ingratitud como uno de los pecados capitales de los hombres

Rodrigo Azeredo disse...

Noriega, entendo o que quer dzer, mas acredito que a posição do Brasil no caso é corretíssima. E não é desde o ano passado que a Espanha tem apertado o cerco aos brasileiros que lá uerem ingressar. Já tem um pouco mais de tempo. Continuo a dizer que não é retaliação e, se me permite, passo a você um link que traz um belo artigo do Presidente da OAB Cezar Britto sobre o assunto.
Abraço!

Anônimo disse...

Jorge Wagner agrediu Valdivia com uma joelhada aos 46 do segundo tempo, Marco Aurélio Souza, reporter do Sportv registrou, mas estranhamente, não mostraram o replay. A rede Globo mostrou a imagem, mas também não reprisou, como o fez com o lance de Cléber, que, como Jorge Wagner também agrediu.

Bruno

r_cuba disse...

Noriega, gosto muito do seu trabalho e da sua imparcialidade nos comentários. Gostaria de saber se é possível encontrar em algum lugar, a escala dos participantes dos programas da Sportv, como o Arena, para saber se haverá a sua participação.
Abraços, Ronaldo Cuba, SP.

Nori disse...

Ronaldo, acredito que no site do SporTV eles publiquem as escalas, mas não sou um participante muito frequente do Arena.
Abs