quinta-feira, novembro 29, 2007


SERÁ QUE O BRASILEIRO ESTÁ

REAPRENDENDO A TORCER?

Era uma noite gelada de, se não me engano, agosto de 1998. Eu estava em Montevidéu, cobrindo para um jornal, a partida ente Nacional e Palmeiras, no Centenário, pela Copa Mercosul. O Palmeiras sapecava implacáveis 5 a 0 no time uruguaio e, mesmo assim, a torcida do Nacional não parava de cantar. Deixei a tribuna de imprensa e fui conferir o por quê de tudo aquilo, mesmo com 5 na cachola. Misturei-me aos torcedores uruguaios e ouvi a seguinte explicação de um deles: "Perder é ruim, mas eu amo o Nacional, sempre vou amar. Isso é o que importa", afirmou, dando sequência à cantoria.
O ano de 2008 tem dado amostras de que o torcedor brasileiro está, enfim, reaprendendo a torcer, como se fazia antigamente. Estariam se aproximando do fim os tempos de vandalismo, perseguição a jogadores, invasão de campo e vestiário, ameaças? Talvez eu esteja sendo precipitadamente otimista, mas há sinais de que a paixão está, digamos, cada vez mais apaixonada e menos intolerante. Temos alguns exemplos. A parceria imortal entre o Grêmio e sua torcida, selada com a impressionante demostração de apoio e carinho na Liberdadores, mesmo com derrota na final. O alucinante compromisso dos flamenguistas com sua religião, traduzido em recordes e recordes de público, um clima de paz e festa no Maracanã e uma cantoria sem fim. A até então inédita calma da Turma do Amendoim do Palmeiras, que tem tido sábia paciência com seu jovem e esforçado time e seu promissor técnico Caio Jr. O sincero agradecimento dos são-paulinos a cada um dos jogadores que conquistaram o título brasileiro.
Mas o detalhe final dessa, vá lá, suspeita de que há esperança em dias melhores, veio ontem, na derrota do Corinthians para o Vasco. Quem não esquece daquela cena asssutadora dos torcedores corintianos tentando invadir o gramado do Pacaembu após a derrota para o River, na Libertadores de 2006? Pois ontem vi torcedores chorando, rezando, gritando, esperneando, mas ao final de uma derrota que pode ser trágica (em termos de resultado), os torcedores do Corinthians cantaram o hino do clube. Tristes pelo momento atual, mas felizes pelo time, sua história, seu passado e - por que não? - seu futuro. Rebaixamento é triste, mas não decreta o fim de um clube, de uma torcida. Grêmio, Palmeiras, Botafogo, Galo, Fluminense, Coritiba, Portuguesa estão aí para provar. A vida segue. Talvez mais triste por um período, mas o rio tem que cumprir seu destino de chegar ao mar. E sempre chega.
Durante muito tempo, achei que brasileiro só queria saber do seu time quando ele ganha. Que era torcedor de boa fase, de time bom, de taça, de craque. Agora começo a achar que a paixão que, no passado, construiu a base para que nossos grandes times se transformassem nesses gigantes que movem milhões está de volta. A paixão genuína, de compromisso indissolúvel, na alegria e na tristeza.
Claro que ganhar é melhor do que perder, que é duro aguentar gozações e provocações. Mas melhor que tudo isso é saber que, independente do que aconteça, esses times históricos do futebol brasileiro, suas histórias, camisas, seu passado, tudo isso sempre estará presente. E que paixão não se explica, se curte. Se espalha, se tansfere de geração em geração.
Só espero que a rodada final do Brasileirão, que decretará os dois últimos rebaixados, não me faça queimar a língua. Haverá rebaixados, mas isso não representará o fim dos tempos para corintianos, goianos ou paranistas.
Que o espírito daqueles torcedores do Nacional, que me ensinaram uma linda lição naquela gelada noite de 1998, continue iluminando os estádios do Brasil.

2 comentários:

Dante Baptista disse...

Noriega,
Concordo com você: parece que a torcida está mudando seu comportamento, e isso se traduz até nos seus gritos, que hoje não são mais 'de guerra'.

Não sei afirmar quais foram os motivos para tal mudança, mas é sempre bom ver famílias no estádio, cantando apaixonadamente e torcendo pelo clube. O Brasileirão deste ano foi um exemplo.

É a primeira vez que acesso seu blog. Muito bom! Aproveito para parabenizar pelo seu trabalho como comentarista. É um dos meus preferidos.

Abs,

Dante Baptista
htp://vilaesportiva.wordpress.com

Pedro Pahor disse...

No Brasil, há duas torcidas.

Uma é a do Corinthians.

A outra é a dos outros.

Não venham me dizer que estou errado.

No Brasil, há duas torcidas.

Uma é a do Corinthians.

A outra é a dos outros.

Porque em Porto Alegre a torcida vibrava com os gols do Goiás.

Não com os do Atlético/MG, que batia o Palmeiras, seu concorrente à Libertadores.

Jogo esse realizado no Parque Antártica, onde a torcida ficou atenta ao final da partida no Olímpico.

Ao invés de xingar, chorar, reclamar da não obtenção da vaga para a Libertadores.

No Brasil, há duas torcidas.

Uma é a do Corinthians.

A outra é a dos outros.

Porque em Porto Alegre os gandulas sumiam com as bolas para segurar o empate.

O que não ajudava o Grêmio a chegar à Libertadores.

No Brasil, há duas torcidas.

Uma é a do Corinthians.

A outra é a dos outros.

Porque nas ruas de São Paulo só se ouviam rojões.

Festejando a queda do Timão para a Série B.

Porque no Brasil, há duas torcidas.

Uma é a do Corinthians.

A outra é a dos outros.

www.esporteequasetudo.blogspot.com