quinta-feira, abril 04, 2013



Hermanos


Antes de mais nada, quero deixar claro que não compartilho com essa teoria boboca de rivalidade com os argentinos.

Nem sequer é o Brasil o grande adversário do futebol para nossos vizinhos. Há jogos contra equipes e as seleções de Uruguai e Chile que são tidos como muito mais importantes para o torcedor e a mídia na Argentina.

Já trabalhei num Uruguai x Argentina eliminatório e sei bem sobre o que opino.

A questão é que, como tem virado moda, sempre se misturam as coisas no Brasil.

Em virtude do grande destempero e da violência de boa parte dos jogadores do Tigre, um time praticamente inexpressivo, e de um quebra-pau que teve um dedo de despreparo de alguns seguranças e policiais mineiros em Galo x Arsenal, a coisa descamba para alguns comentários com os quais não concordo, em absoluto.

Talvez eu seja suspeito, porque pelos menos dois de meus melhores amigos são argentinos. Quase irmãos. Fernando de Oliveira e Galatea Cristaldi. Aliás, a família Oliveira toda é como se fosse a extensão de minha família no Pampa.

Estive pelo menos uma quinzena de vezes na Argentina, se não mais. Sempre fui bem tratado, com respeito. Nas cidades pequenas e bairros afastados o povo argentino é muito, mas muito parecido com o brasileiro do interior. Convidativo, agradável, hospitaleiro.

Mesmo se não fosse, nada a generalização grosseira.

Como acontece toda hora com o Paraguai, com aquela piadinha besta, idiota do cavalo paraguaio. Principalmente se lembrarmos o peso da nossa responsabilidade como nação pelo que fizemos com o país vizinho na história.

É a mesma coisa que me irrita profundamente quando saio do Brasil e vejo nosso povo caricaturado como um bando de bailarinos descompromissados e nossas mulheres como dançarinas seminuas.

Aí vem o inevitável comercial de cerveja que pinta o povo brasileiro como vagabundos que passam o dia na praia, bebendo, olhando para a bunda das mulheres que passam e fazendo piadas de gosto duvidoso.

Nem todo brasileiro é político corrupto, imigrante ilegal ou estelionatário. Aliás, bem poucos deles o são.

Por isso acho ridícula qualquer piadinha que se faça com qualquer povo que passe por perto da generalização preconceituosa.

Ou não foi aqui, no interior de São Paulo, que um jogador de futebol deu uma voadora no peito de um juiz recentemente?

Ou não foi de mãos brasileiras que partiu o foguete que matou o garoto boliviano?

Será que só tem barra-brava, não tem uniformizada violenta?

Nunca, nenhum time brasileiro apelou ao perder um jogo?

O que acontece num campo de futebol começa e termina num campo de futebol. Nada mais do que isso.

Um grupo de profissionais de um determinado ramo não representa um povo, uma cultura.

Tampouco duas dúzias de atletas de times inexpressivos são o raio-x do comportamento de atletas profissionais de um determinado território.

Brasileiro gosta de dizer que é gostoso ganhar de argentino no futebol porque geralmente os argentinos sabem jogar bola tão bem quanto os brasileiros. Houve época em que jogavam melhor.

E tem sempre a análise preguiçosa, de quem não se dá ao trabalho de pesquisar, de ver um vídeo, de telefonar para um colega.

Aí pinta o comentário padrão, de gabarito: os times argentinos e sul-americanos só sabem catimbar. Reparam que esse comentário nos exclui do continente?

É como brinco com meus amigos de Campinas, que quando viajam no rumo Norte dizem que vão para o Interior. Porque? Têm vergonha de se inserir no contexto? Eu sou caipira de Bariri com orgulho.

Será que estamos ficando metidos a bestas, empolgados pela sensação de novo-riquismo?

Ou parece mais confortável pensar que nosso vizinho mais próximo é Miami e que apenas por um azar da geografia estamos na América do Sul?

Afinal, somos integrantes dos poderosos Brics, o futuro econômico do planeta, os próximos milionários.

Que poderiam dizer por aí os familiares de turistas uruguaios, argentinos, chilenos etc. que foram brutalmente assassinados em nossas cidades litorâneas recentemente, simplesmente por estarem passeando e por terem dinheiro na carteira?

Será que nos chamam de bárbaros por aí?

Até acho divertidas as brincadeiras sadias que rolam entre brasileiros e argentinos no futebol.

A maior das brincadeiras é afimar que o Maradona foi melhor do que o Pelé.

Enfim, é só brincar direito e levar a sério o que é para ser levado a sério.

Simples assim.

 

3 comentários:

Stefson Guinzani disse...

Na boa Noriega, até entendo seu orgulho da sua origem, de seus amigos... mais encarar os fatos é necessário.

Posso não ter visto tantos jogos de equipes Argentinas, mais sou Catarinense, morei 4 anos em Florianópolis, muitos veraneios no Arroio do Silva, e diversas praias de Santa Catarina.
Não são todos, mais Argentino tem seu lado encrenca... sempre aconteceu isso no verão "SEMPRE".

Mexicano, Argentino e Uruguaio não entendem ou aceitam a derrota.
"nem em futebol na praia, jogo de botão ou corrida"

Temos vários exemplos:
Cruzeiro perdendo para o Estudiantes, sendo campeão no Mineirão "brigas? praticamente NADA".
Internacional eliminando o Estudiantes ano seguinte, time argentino seguia vencendo por 2x0 "tudo normal", tomou um gol no final... temperatura subiu.
Fluminense e Argentino Juniors?

E o maior cala boca...
Equipes europeias se negando a jogarem finais de Mundial Interclubes pela onda de violência por conta das edições de 69, 70 em diante
Feyenoord, Milan tiveram problemas tanto em casa quanto fora.

Ai a lista é grande...
Não sabem PERDER.

Stefson Guinzani disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nori disse...

Stefson, não tenho parente nem sangue argentino. Minhas origens são da Espanha, da Itália, da Síria. Portanto, seu primeiro argumento já nasce morto.
Segundo, já imaginou se equipes sul-americanas se negarem a jogar na Europa por questões racistas de alguns torcedores, jogadores e dirigentes.
Por saber perder, então, que acha de não ir receber uma medalha de bronze em Olimpíada?
Passei muitos verões em Santa Catarina, jogávamos bola todo fim de tarde, Brasil x Argentina, nunca deu briga e sempre nos divertíamos, ganhando ou perdendo.
Nunca teve briga em jogo do Brasil ou de time brasileiro?
VC generaliza, eu vou pelo lado contrário.
Abs