quinta-feira, abril 18, 2013



Diversão e intensidade



Não ouvi a declaração de Ronaldinho Gaúcho afirmando que o Atlético Mineiro tinha ido ao Morumbi para se divertir.

Ouvi e li reproduções desta frase. Não acredito que repórteres sérios a inventariam apenas para polemizar. Parto da suposição de que ela foi realmente dita, até que eu encontre o áudio em alguma parte.

Também não acredito que uma frase de um jogador sirva para explicar o comportamento de um time. Principalmente quando essa frase vem à tona em um intervalo ou após uma partida.

Acredito e analiso em cima do que vejo e do que se apresenta em uma competição esportiva.

Vira e mexe nós, comentaristas, e também jogadores e treinadores utilizam a palavra intensidade para analisar um jogo, uma equipe.

Apoio-me novamente nessa palavra para escrever sobre o que vi do jogo quente disputado no frio Morumbi, entre São Paulo e Atlético Mineiro.

Desde a entrada em campo foi fácil perceber uma energia distinta entre as equipes. O São Paulo elétrico, o Atlético mais tranquilo. Muitas vezes isso não se reflete na disposição quando a bola rola. E não faltou disposição ao Atlético, nem vontade. Longe disso. É que sobrou ao São Paulo. Transbordou. A equipe jogou uma final, contra um adversário que não conseguiu reagir a essa postura.

O Atlético segue tendo uma equipe de melhor desempenho que a do São Paulo. Mas o futebol sul-americano é muito parelho, as distâncias são curtas, e ninguém sobra tecnicamente. Por isso a tal da intensidade muitas vezes decide jogos e até campeonatos.

Mas que diabos seria essa tal intensidade?

Eu a definiria como uma mistura de entrega, concentração e superação, movida a um excelente preparo físico.

A maioria das equipes profissionais brasileiras está apta a executar isso. Poucas executam, e só o fazem em algumas oportunidades. Muitas vezes conseguem na primeira etapa e não conseguem na segunda.

Numa linguagem mais direta é correr sempre mais, chegar antes nas divididas, antecipar a marcação, incomodar o adversário, tirá-lo de seu padrão normal e não deixar de disputar uma bola sequer. Além de buscar o jogo, o resultado, assumir uma postura de quem deseja ganhar e lutará por isso.

O São Paulo se comportou assim a partir do primeiro segundo do jogo. O Atlético tentou igualar, mas quando foi à luta já não dava mais tempo, a distância de intensidade aplicada ao jogo já era muito difícil de ser compensada.

Além disso - ou talvez por isso - o desempenho técnico e tático do Galo foi muito inferior à média. Ronaldinho, se estava a fim de se divertir ou não, jogou mal, não foi protagonista. Luan esteve perdido, Leandro Donizeti jogou muito menos do que pode. Claro que Bernard fez falta, assim como Tardelli.

Mas Jádson e Luís Fabiano também fizeram falta ao São Paulo. A diferença: o time não se deixou levar pelas dificuldades impostas pelas ausências técnicas e as compensou com dedicação de sobra.

Ganso jogou, pensou, roubou bolas, esteve ligado o tempo todo. Osvaldo idem.

O Atlético poderia ter resolvido em uma partida o que precisará agora de duas.

Não é bom negócio para equipe alguma enfrentar o São Paulo em um mata-mata de Libertadores. Claro que não é impossível derrota-lo. O São Paulo, assim como já ganhou, também perdeu a Libertadores em casa em mais de uma oportunidade. Classificou-se e foi eliminado.

A diferença está no fato de que o mata-mata é um torneio à parte. O Galo teve a chance de um mata. Tinha um adversário fragilizado tecnicamente em campo, jogando por um resultado que ainda poderia depender de outra partida. Mesmo assim, deixou que o São Paulo colocasse a intensidade no jogo e retornasse para uma disputa na qual o jogo está zero a zero e ninguém entra classificado.

Não tenho bola de cristal nem gosto de palpite.

Sigo entendendo que o Atlético é melhor como time, como trabalho coletivo.

Mas o São Paulo conseguiu despertar sua torcida e até mesmo alguns jogadores que andavam apáticos. O ambiente, que era tenso, desanuviou.

A realidade de um jogo se desdobrou em três, com o time paulista jogando dois seguidos em casa.

É aquela história de pagar à vista com desconto ou parcelar em dólar. O Galo optou pelo parcelamento, mesmo sabendo que poderia haver uma supervalorização da moeda. Não é impossível de pagar, claro, mas pode custar muito mais caro.

O São Paulo aplicou no mercado futuro e já conseguiu zerar o prejuízo.

Cenas dos próximos capítulos no Morumbi e no Horto.

Um comentário:

Fábio Minghetti disse...

Concordo com a análise. Atlético viu o adversário cambaleando e deixou ele respirar. Toda vantagem psicológica que o Atlético tinha foi por água abaixo depois desse jogo. Na Libertadores a maior preocupação dos brasileiros são os brasileiros. Vacilou. Arrisco o São Paulo passando.
Abraço