quinta-feira, março 24, 2011



Há 20 anos, em Interlagos


Meninos, eu vi. Abri o Estadão de hoje e vi a matéria recordando os 20 anos da primeira vitória de Ayrton Senna em Interlagos, em 24 de março de 1991. Primeiro tomei um susto ao perceber que já estou nessa estrada há mais de 20 anos e que o próprio fato recordado tinha sido documentado muito mais em imagens em branco e preto do que qualquer coisa. Ah, esse tempo, danado!

Eu nunca fui um grande fã de automobilismo, embora tenha gostado muito de Fórmula 1 quando eu era criança, lá pelos anos 70. Sabia os nomes dos pilotos da época e os guardo até hoje. Regazzoni, Reuteman, Fittipaldi, Stewart, Ixx, Andretti, Lauda, Cevert, Peterson, toda essa turma. Eram tempos mais românticos, menos científicos e tecnológicos. Fora isso, eu era vidrado naquela Lotus preta com pintura da John Player Special, talvez o carro mais lindo da história do automobilismo. Quando ganhei um autorama de Natal e vi que o carrinho era uma reprodução da Lotus, vibrei!

Então, sem sair na curva, eu era um jovem repórter da Folha da Tarde e já seguia para minha segunda ou terceira cobertura de GP Brasil de Fórmula 1. Naqueles tempos a F-1, por causa de Senna, tinha uma cobertura até maior que a do futebol em alguns veículos. Já se vivia uma espécie de reação histérica entre torcedores e jornalistas pelo fato de Senna não ter vencido, até então, em Interlagos.

Sempre fui mais fã de Piquet do que de Senna, mesmo sem ser fanático por F-1. Eu me divertia com as tiradas do Nelson e até mesmo com suas patadas sem educação. Ele me parecia uma figura mais autêntica.

Cobrir F-1 pela FT (apelido da Folha da Tarde) era uma aventura. Jornal pequeno, sem muita estrutura, mas com uma equipe esperta, comandada pelo Zé Roberto Malia, hoje na Espn Brasil. Tínhamos o Marco Antônio Catai, que era do ramo automobilístico, e nos coordenava, e o Carlos Alencar, repórter espertíssimo o Carlão, atualmente no Diário de S.Paulo. A aposta era investir no chamado outro lado da cobertura, climão, personagens. A gente se virava direitinho.

Lembro de um detalhe interessante. Naquele tempo cobrir a F-1 dava um certo glamour na profissão. Alguns bobinhos entendiam isso como o chamado "plus a mais" e se achavam tão estrelas quanto os próprios pilotos. Viam nossas credenciais de apenas uma etapa e nos olhavam com desprezo, meio de cima para baixo. Até os baixinhos! Faziam panelinhas, grupinhos, e muitos deles ficavam sentados o tempo inteiro esperando os releases oficiais das equipes. Nada mais que isso.

Também recordo que dois monstros sagrados da profissão, esses sim feras consumadas, não botavam um pingo de banca e ajudavam a todo mundo com muita simpatia. Reginaldo Leme, que hoje tenho a honra de dizer que é um grande amigo, e Lemyr Martins. Acho que foi naquele GP que conheci o Sílvio Nascimento, grande amigo hoje na Veja, que cobria F-1 e era da turma gente fina. Também me lembro do Lito Cavalcanti dando boas dicas.

Bom, o fim de semana rolou solto e no domingo, com uma carga dramática espetacular, muita chuva e um autódromo e um País em delírio, Senna venceu pela primeira vez em casa. Lembro até hoje do Carlão, sennista fanático, arrancando o boné e jogando para cima assim que o Senna cruzou a linha de chegada.

Tarefas divididas, coube a mim acompanhar as entrevistas dos pilotos após a prova, especificamente a dos três primeiros. Pelo regulamento, os três se dirigem a uma sala no autódromo, logo após a corrida, e atendem a mídia, geralmente falando apenas em inglês.

Senna fez isso. Apareceu ali e deu uma longa entrevista em inglês. Municiado de meu reluzente minigravador Sony, apertei a tecla rec e deixei rolar, anotando e destacando pontos que considerava importante. Muitos companheiros não anotaram nada, alguns na verdade não entendiam nada de inglês, e estavam certos de que Senna falaria em português para a mídia nacional, logo após.

Não falou, exceto para a Globo. O que era praxe, aliás, na carreira de Senna. Sua assessoria de imprensa convocava a mídia para um embarque dele as 3 da manhã, por exemplo, dizendo que ele falaria. Mas Senna falava para a TV e ia embora e deixava todo mundo com cara de tacho. Era corriqueiro.

Liguei para o Malia e disse: "O Senna não vai falar para a mídia brasileira, mas eu tenho tudo gravado do que ele falou em inglês." Malia, um gênio das edições, disse para eu escrever um pingue-pongue. No nosso jargão, é o termo para as entrevistas em forma de pergunta e resposta. Na abertura do texto, destaquei que ele tinha falado em entrevista coletiva, não exclusiva, atendendo a repórteres de todo o mundo, e reproduziria as respostas dele e as perguntas dos repórteres. Não assinei o texto, evidenciando que não era material apenas meu. Demos uma página, muito bem editada pelo Malia, e as respostas de Senna eram realmente muito boas.

No dia seguinte, um nervosinho do jornalão anexo, no caso a Folha de S.Paulo, telefonou para o Malia reclamando que eu tinha inventado aquilo, que o Senna não tinha dado entrevista para ninguém do Brasil. Malia devolveu de primeira: "uai, ele falou em coletiva, temos a fita aqui com as respostas dele em inglês, se quiser eu empresto". Direto no queixo.

Aquela cobertura foi marcante. Lá se vão 20 anos. Muito por causa daquele trabalho eu recebi uma proposta para trabalhar no Diário de S.Paulo, ganhando muito mais e trabalhando muito mais, ampliando horizontes. No ano seguinte cobri a Olimpíada de Barcelona, fiz amigos eternos no Dipo, briguei, discuti, reatei amizades.

Incrível realizar que já se passaram 20 anos, e os detalhes permaneçam tão vivos na memória. Vá lá que a cabeça é grande, mas....


Pitacos da bola

*Na Vila, Ganso em dois ou três toques geniais, mostrou que é, sim, um atleta profissional, dedicado e sério. Nada a ver misturar os negócios, seu contrato etc. com o desempenho em campo. Isso ele mostrou com categoria e caráter diante do fraquinho Mogi.

*O Flu está vivo, embora ainda respire por aparelhos na Libertadores. A raiva direcionada a Muricy por parte dos torcedores tricolores me parece sem propósito. Mas assim é torcedor. No domingo o cara é endeusado, na quarta mumificado.

*Tricolor tropeçou em Jundiaí, Timão, Verdão e Peixe ganharam e os quatro seguem puxando a fila de um Paulistão modorrento. Já leio nas redes sociais críticas ao Carpegiani, que foi muito elogiado domingo. É a roda do fanatismo. Agora aguardemos os fatos sobre Adriano no Corinthians. Negócio de risco, que pode render muito ou dar preju. Como todo negócio desse tipo.

*Sou cobrado todo dia a falar sobre a questão dos direitos de transmissão de TV no Brasil. Trabalho numa empresa interessada, envolvida no processo, e qualquer coisa que eu vale será interpretada de mil maneiras pelos corneteiros de plantão. Eticamente, não acho que eu deva me manifestar porque sou parte interessada, já que obviamente, gostaria de continuar comentando os jogos onde trabalho. Por sinal, gosto muito do que faço e de onde faço. Infelizmente, muita gente que é envolvida e interessada no processo, se finge de desiteressada para professar uma imparcialidade messiânica, esquecendo de olhar para o próprio rabo e suas ramificações. Por isso, deixo a área de negócios para quem é de direito. Sou comentarista de jogos de futebol e apresentador de programas e de eventos esportivos.

11 comentários:

Anônimo disse...

André - Minas Gerais

"Viam nossas credenciais de apenas uma etapa e nos olhavam com desprezo, meio de cima para baixo. Até os baixinhos!"

Seria isso uma indireta ao um certo jornalista baixinho que cobre formula 1 e atendo no twitter pelo número de seu carro de corrida '69'?

Nori disse...

André, não tem indireta alguma, foi apenas uma brincadeira para citar um momento histórico do jornalismo.

Nori disse...

E digo mais, André,o Flávio Gomes ajudava muito a gente que não era do dia a dia da F-1.

Rodrigo disse...

Sobre o fato de citar os baixinhos, entendi mais como quem quer dizer que "eram tão arrogantes que até os baixinhos nos olhavam de cima". Depende do ponto de vista. Encare a ilusão da sua ótica. rs

Zé Henrique disse...

Eu ia perguntar ao Nori a mesma coisa que o Anônimo... Pra quem acompanha os jornalistas de F-1, vem à cabeça imediatamente o Flávio Gomes nessas referências do texto ("baixinho" e "rapaz do jornalão anexo"). Mas se o Nori diz que não é, não é.

Rafael Jardim disse...

Eu me lembro desse dia. Moro aqui em Interlagos e esse bairro, ao fim da corrida, se deslocava em massa para a frente do autódromo.

Não haveria nada para se ver lá, apenas os torcedores privilegiados que de lá saiam.

Mas ainda assim, todos seguiam para lá.

Foi incrível.

É um dos motivos por eu amar tanto Interlagos e não querer jamais sair daqui.

Esse tem cheiro de gasolina.

Carlos disse...

Zé Henrique:
Como diria o Caetano Veloso: ou não.

Rodrigo disse...

Acho que chegamos num consenso: o Flávio Gomes é baixinho mesmo.

Anônimo disse...

Caro Nori

Apesar de admirar o Senna como um dos maiores pilotos da história, compratilho com sua opinião sore o Piquet, considerando ser ele tão bom quanto o Ayrton. Só que era um cara autêntico, que não se preocupava com a opinião dos outros. Talvez vc já tenha visto, mas se ainda não viu, procure no youtube um duelo entre o Piquet e o Senna no GP ga Hungria de 1986. Foi uma das ultrapassagens mais belas ocorridas na fórmula 1. Sobre essa ultrapassagem, Jackie Stewart afirmou:"Foi como fazer um looping num Boing 747".

Abraço
André Antunes

Anônimo disse...

Oliveira - São Paulo

Noriega, me desculpe, mas com essa fragil justificativa sobre não comentar um fato tão relevante do futebol, voce quebra uma das premissas do jornalismo: A noticia em primeiro lugar!!!
Vc parece ser um grande cara, e teve como professor da vida e da profissão uma das maiores vozes deste País!!! a globo é pouco para vc!!! Nos brinde sempre com suas imparciais opiniões, é isso que qualquer pessoa espera de um jornalista!! Relate e opine sobre o fato. Se há interesse, desculpe, não há jornalismo!!!

Nori disse...

Oliveira, agradeço sua mensagem, mas sigo com minha postura. Repito, tudo que eu falar sobre o tema será avaliado pela censura e quem acha que estou defendendo quem me paga. Óbvio que para mim será melhor que continue na Globo, porque é onde eu trabalho, e gosto do meu trabalho. A empresa tem programas com 30 anos no ar, investiu muito dinheiro e ajudou a melhorar o futebol brasileiro, isso não se discute. Quem não trabalha nela quer que ela perca. Isso também é negócio. Sou apenas um funcionário.
Abs