sábado, novembro 22, 2008

EU DORMI, E NÃO VI
BRASIL X PORTUGAL


Não se trata do simples fato de o sono ter vencido a parada. Trata-se de um conceito, de um momento. É cada vez mais comum encontrar pessoas que adoram futebol e não viram um jogo da Seleção Brasileira simplesmente porque não quiseram ver ou tinham um outro compromisso que acharam mais importante. Não faz muito tempo e a Seleção era programa obrigatório para o torcedor de futebol, mesmo jogando de madrugada, contra qualquer adversário.
A questão é muito maior do que o Dunga ser ou não o técnico ideal, isso é café pequeno. A discussão passa pelo que representa hoje a Seleção Brasileira de futebol para o imaginário popular, para o inconsciente coletivo daquela parcela da população que tem esse esporte em alta conta. Não tenho dados científicos, pesquisas, apenas o método empírico da observação e da conversa com pessoas que dão valor considerável ao futebol.
Cada vez mais o gosto pelo esporte mais popular do país está centralizado na disputa entre clubes, nas rivalidades nacionais e regionais, nos duelos entre camisas tradicionais. A Seleção virou um assunto frio, distante, que desperta menos interesse apaixonado do que temas como a eleição presidencial nos Estados Unidos.
Houve um tempo em que se discutia horas a fio quem deveria ser convocado para a Seleção, se um jogador de um time grande do Rio ou de São Paulo. Se os jogadores que atuavam na Europa deveriam ser chamados. A Seleção tinha eco, ressonância, reverberava junto ao povo.
Como de bobo não tem nada, o povo já sacou que a Seleção hoje é um modelo de negócio, bolado para que contratos sejam feitos e renovados com valores maiores a cada ano. O jogador usa a Seleção como trampolim, um carimbo no passaporte para ter seu visto de entrada em um grande clube europeu aceito. É cada vez mais comum ouvir de atletas que o objetivo da vida é jogar na Europa. Deixou de ser um sonho jogar na Seleção. Talvez eles até pensem nisso enquanto cochilam, mas aquele sonho e sono profundo certamente não tem mais as cores verde e amarela como pano de fundo.
O resultado está aí. Estádios vazios em jogos que são pagamento de dívidas políticas e audiências baixas. A Seleção está fora de moda.
Em tempo: vi pela Internet os melhores momentos de Brasil x Portugal. Deve ter sido um bom jogo. Gols bonitos, lances legais. Mas ainda é pouco para fazer com que a Seleção volte a provocar a paixão do torcedor. Estava participando de um curso Master durante a semana em que a Seleção jogou. Identifiquei, em conversas, pelo menos uns cinco caras que não viram o jogo da Seleção, saíram, dormiram, e foram conferir os lances dias depois. O que parecia mais entusiasmado em ver o Brasil, ainda que pela TV, era um costarriquenho que participava do curso. Talvez para alguns povos irmão a Seleção ainda sustente uma aura de magia. Por aqui, a continuar nessa toada, perderá o encanto. E isso não é culpa do Dunga.

6 comentários:

Alexandre Giesbrecht disse...

Há mais de dez anos, li numa revista estrangeira que "se a CBF decidisse que o Brasil jogaria às 2 da manhã em uma plataforma de petróleo ningém discutiria". Exagero à parte, houve a banalização dos amistosos. Acho que o último a que assisti pela televisão foi ainda no século passado. São jogos com elencos mutantes e muitas vezes mambembes, recheados de jogadores que não estão nem aí, e agora tais amistosos sequer acontecem em território nacional, à exceção de umas poucas migalhas, geralmente contra seleções obscuras ou (como o mais recente) para servir a algum objetivo político. Se jogos oficiais da Seleção já estão difíceis de se assistir, imagine jogos que não valem nada.

Saulo disse...

Eu vi o jogo e a seleção brasileira fez uma bela atuação. Foi o melhor jogo da seleção que já vi com o Dunga. Mas, não podemos nos iludir com isso.

Rafael Evangelista disse...

Nori, acho que a transformação em negócio, por si só, não explica o desânimo. Acho que pesa o ambiente político geral. Normalmente pensa-se essa paixão em comparação com os anos 70 (quando os milicos deram um gás no patriotismo) ou nos anos 50 (auge do Estado-nação no pós guerra). Para entender a questão vale, acho, pensar junto com aqueles que tem escrito sobre seleção e identidade nacional.

Letícia disse...

É Nori, faz muito tempo que a nossa seleção não causa indentificação aos brasileiros.
A seleção ficou mascarada, uma espécie de vitrine para a europa.
Poucos conhecem aqueles jogadores que atuam lá.
Antigamente, vestir a amarelinha era chegar ao apice da carreira, quem não queria? Hoje em dia, o jogador não tem mais aquela vontade de jogar pelo Brasil.
Com isso tudo, ainda tem o futebol. Sim, o futebol apresentado não é o mesmo. É muito pouco para o que esperamos da melhor do mundo. Muitos justificam dizendo que a safra de jogadores acabou. (não acredito nisso.)
O brasileiro quer uma seleção mais próxima, que jogue bonito, com uma troca de passes envolvente, onde haja entrega dos jogadores, e que volte a ser a melhor do mundo.
Complicado, mas não impossível.
Eu quero ver minha seleção jogando bonito como a da Espanha.
Beijos.

Dalla Valle disse...

Noriega, o Ricardo Teixeira é incapaz em todos os aspectos. Até parece que está a serviço da Fifa para apagar o futebol sul-americano. Em nenhum momento teve um projeto que unisse as confederações para engrandecesse nosso futebol!
.
Solução? Fora Ricardo Teixeira!

cafemate disse...

Não cheguei ao ponto do nobre blogueiro. Até porque no mesmo horário tinha o jogo do meu Inter que valia a classificação inédita na Copa Sulamericana. Show de bola de D'Alessandro e Nilmar. Aliás, D'Alessandro que destruiu ontem na final também contra o Estudiantes.

Quanto a Seleção...sei lá...

Desde o final da Copa de 2002 acho que ela não instiga mais os brasileiros como instigava.