quinta-feira, janeiro 17, 2008

EU VI O GUGA

Um dos momentos mais fascinantes para qualquer fã do esporte ou de outra atividade de grande empatia popular, como música ou cinema, é quando algúem conta que viu um ídolo jogar, tocar, atuar. Tipo aquele amigo que você tem, que todo mundo tem, que conta, com os olhos cheios d´água, que viu o Pelé jogar.
Pois eu vou contar um dia pros meus filhos que eu vi o Guga jogar. Mais que isso, eu vi o Guga nascer como jogador de nível internacional. Corria o ano de 1996, o Brasil enfrantaria o Chile pela Zona Americana da Copa Davis, em Santiago, e eu estava acompanhando a delegação brasileira. O time, à época capitaneado por Paulo Cleto, tinha Jaime Oncins, Meligeni, Roberto Jábali, Guga e o então juvenil Marcos Daniel. Guga estreou nas duplas, com Jaime Oncins, e ajudou o Brasil a conquistar um ponto fundamental para a vitória sobre os chilenos, que tinham o talentoso e irascível Marcelo Ríos que, assim como Guga, foi número 1 do mundo.
Pude conviver alguns dias com aquele manezinho da ilha de Floripa, que já mostrava algumas características que o transfomariam em ídolo. Sempre simpático, sorridente, algo desligado, mas alto astral acima de tudo. Tomávamos o café da manhã juntos (o que come a criança é um absurdo) e sempre conversávamos sobre música, futebol (ele só falava no Jacaré, seu ídolo no Avaí). Guga animava o grupo com imitações hilárias das dançarinas do É o Tchan!, que estava na moda naqueles tempos.
A partir daquele confronto o tenista Gustavo Kuerten desabrochou, passou a colecionar resultados cada vez melhores e, poucos mais de um ano depois, conquistaria seu primeiro título em Roland Garros. O resto da história o mundo já sabe.
Nos últimos anos, por causa do problema físico (uma limitação de movimento na região do quadril é uma sentença de aposentadoria precoce para qualquer tenista), Guga deixou de ser o tenista fenomenal cujo pico da carreira ocorreu entre 2000 e 2001. Seu golpe de esquerda, ou revés, era invejado por todos os tenistas do circuito e imitado até por ídolos do passado, ainda que a título de brincadeira. Lembro-me que quando ele perdeu a final de Miami para Pete Sampras, em 2000, num jogo em que foi literalmente assaltado. Escrevi uma coluna no site SportsJá!, onde trabalhava, na qual cravava que ele seria o melhor do mundo. Sem qualquer exercício de futurismo, estava claro para quem via o jogo com um mínimo de atenção.
Em seu auge, Guga foi um tenista revolucionário, mudou a cara do tênis. Ganhou um Masters derrotando Pete Sampras e Andre Agassi. Ficou 43 semanas na liderança do ranking mundial, marca que o deixa à frente de tenistas como Boris Becker, Mats Wilander e Ilie Nastase. É o latino-americano que mais tempo ocupou essa posição, entre os dois únicos que alcançaram a glória. Nem o mítimo argentino Guillermo Villas conseguiu liderar o ranking.
E Guga merece ainda mais respeito e veneração porque obteve tudo isso praticando um esporte no qual o Brasil tem pouca tradição e um histórico de péssimas administrações e nenhum projeto de massificação. É, com todas as letras, um fenômeno. Está à altura de gênios como Piquet, Senna, Scheidt, Adhemar Ferreira da Silva e sua solitária parceira de feitos extraordinários nas quadras, Maria Esther Bueno.
Faz tempo que não o vejo, mas me lembro de um encontro quando ele já era o GUGA campeão de Roland Garros e estava anunciando um contrato de patrocínio. Fiquei pensando: será que esse cara, agora no topo do mundo, vai lembrar daqueles dias em Santiago? Eu, um simples jornalista, ele um tenista a mais no mundo. Enquanto pensava nisso e folheava o material de divulgação do novo contrato, sinto um tapinha nas costas. "E aí, Mauricião, tudo bem, cara? Quanto tempo!" Era o Guga de 96, pelo menos em essência e espírito. Por que nas quadras já era tudo isso e muito mais.
Valeu, Guga!!! O tênis brasileiro nunca fez por merecê-lo.

9 comentários:

tina disse...

Guga é um orgulho!!!

técnica pura,um grande cara.
pena que muitos brasileiros não o reconheçam como tal!!!

Joao Luis disse...

PERFEITO!
Para mim, Guga está para o tênis assim como Senna para a F1, Oscar e Hortencia para o basquete, Scheidt no iatismo...
O cara virou um ícone do esporte. Eu era um dos que levantava mais cedo para acompanhar os jogos, como costumava fazer nas corridas de F1.
Fabuloso! Espetacular! Fora de série!
Parabéns pelo texto, Nori!
Grande abraço,
Joao Luis Amaral

Luizinho disse...

Nori, dê os parabéns ao Milton Leite pela brilhante postura durante as infâmias do Vanderlei Luxemburgo...

Anônimo disse...

compartilho sua admiração pelo guga. acompanhei pela tv os títulos dele em roland garros e também os master series. se não me engano, a rede globo mostrou a partida final dele quando conquistou o terceiro título no aberto da frança. no dia seguinte todos na universidade comentavam. lembro que pensei na época que só um cara com o talento e carisma do guga mesmo para fazer os brasileiros torcerem em peso por um esporte quase ignorado no país. grande guga!!

Daniel Lopes disse...

Como catarinense, tenho todo orgulho do mundo do Guga!
Valeu cabelera!

Muito massa essa tu alistinha de musica ali no lado hein?

[]s

Anônimo disse...

Grande GUGA
A torcida Azurra nunca vai te esquecer por tudo que representasse para nós!
A torcida Avaiana sempre estara contigo!
E estaremos te esperando na Ressacada

Jéssica Nayara disse...

Oi Noriega tudo bem?!? O blog do Cleber Machado está fazendo 1 ano! Passa lá e comenta...
http://clebermachado.blog.terra.com.br/
Beijos e Muuuuuuuitas Saudações Alvinegras!
Jéssica Nayara
Ps: Você é lembrado no "Post" especial...

Pascoal disse...

Eu fico feliz de ter aconpanhado toda a carreira desse manezinho, que mais do que um grande campeão, sempre foi um exemplo de caráter e determinação.

A falta de reconhecimento é típica no nosso país então não me surpreende. Acho que foi o Milton Leite que escreveu em um texto sobre o Guga, "O brasileiro médio não gosta de esporte, gosta de vitórias".

Eu lembro quando ele ganhou o 1º Roland Garros. Aquela camisa colorida, a paralela de esquerda que marcou sua carreira, o carisma, fizeram muito brasileiro, eu inclusive, que não sabiam nem as regras do tênis, correrem para se matricular em academias.

Edgar disse...

Caro Nori,
Parabéns pelo texto, principalmente a frase maravilhosa "O tênis brasileiro nunca fez por merecê-lo", acimna das inúmeras vitórias do Guga, seu grande legado será a humildade, competência e principalmente alegria que levou consigo pelas quadras do mundo.
Forte Abraço.