Nada tenho contra treinador estrangeiro trabalhando no futebol brasileiro.
Acredito que quanto mais a informação circular, maior a chance de ser transformada em conhecimento. Em qualquer parte.
Também não tenho nada contra o treinador brasileiro trabalhar fora do País. Acho que nossos treinadores de elite vivem numa bolha de conforto. Ganham muito bem, têm um vasto mercado e não são impulsionados a tentar desafios fora do Brasil.
Memória nunca foi o forte do brasileiro ligado em futebol. Muita gente esquece que Tim, Didi, Brandão, Oto Glória e outros existiram e foram bem sucedidos trabalhando fora do Brasil.
Os resultados recentes de Felipão podem apagar a passagem importante que teve em Portugal.
Também não é de hoje que treinadores estrangeiros trabalham no Brasil.
O tema aqui é debater a situação que vive hoje o colombiano Juan Carlos Osório, contratado pelo São Paulo, e projetá-la mais à frente. Porque Osório está jogando no centro de um debate que ele não propôs e nem criou. Mas do qual faz parte, ao emitir conceitos futebolísticos e filosóficos acerca do mercado em que está trabalhando.
Após os 7 a 1 da Alemanha, uma corrente de pensadores, que merece respeito como todas as outras, decretou que o futebol brasileiro estava acabado, ultrapassado, era um Robinson Crusoé. Há outras correntes que entendem que temos problemas, mas não é o fim dos tempos. E há a CBF, para quem está tudo sempre ótimo, perfeito, maravilhoso, no mundo de fantasia em que vivem seus dirigentes.
O que vejo, e é apenas um ponto de vista, é que existe um excesso de má vontade contra a instituição treinador de futebol brasileiro. Acompanhado de um excesso de boa vontade para com a ideia de que um estrangeiro dê certo trabalhando num clube nacional - como já aconteceu no passado, mas o passado não costuma ser considerado relevante para uma nova geração de pensadores, analistas e torcedores.
Vamos ao caso específico de Osório. O argentino Ricardo Gareca, quando passou pelo Palmeiras, não contou com 10% da boa vontade dirigida ao colombiano por grande parte da mídia . Gareca talvez merecesse essa boa vontade se tivesse mais tempo. Mostrou anteriormente ser bom treinador e levou o Peru a uma boa campanha na Copa América. Gareca e Osório foram contratados na hora errada, em meio de temporada. Isso interfere no rendimento, no aproveitamento de jogadores, no conhecimento de adversários e na assimilação de conceitos e métodos. O ideal seria que tivessem começado a temporada. Espero que Osório tenha essa oportunidade, o que Gareca não teve.
O que talvez contribua para essa boa vontade quanto a Osório seja o currículo teórico, a formação acadêmica europeia e a graduação mais alta como treinador da Uefa. Hoje nossos olhos estão voltados para a Europa. Nossos jovens torcedores são educados vendo os grandes times europeus na TV e no videogame, e nossa nova geração de analistas e treinadores também segue o que eu definiria como paradigma Uefa de futebol. Paradigma respeitadíssimo, diga-se.
Não quero aqui comparar Gareca e Osório. Odeio comparações individuais. Mas estou comparando o tratamento, para chegar mais adiante na avaliação do treinador brasileiro em geral. Como treinador principal, Osório tem títulos apenas nos EUA e na Colômbia. Para alguns analistas, pelo que ouço e vejo, os anos como assistente no Manchester City são a cereja do currículo de Osório, não os trabalhos como treinador principal. Com o que, modestamente discordo. Gareca tem mais conquistas como treinador principal do que Osório. No Peru e na Argentina, inclusive conquistando uma Copa Conmebol com o modesto Talleres de Córdoba.
Repito: não comparo Gareca a Osório. Analiso o tratamento. Dia desses ouvi que foi só dar uma semana para Osório trabalhar que ele mudou o time. Peraí! Quando perde depois de uma semana de trabalho o que acontece? Não é por aí.
Vou ser mais direto: vejo uma enorme torcida por parte de formadores de opinião para que o trabalho de Osório dê certo e que, com isso, a tese da supremacia do pensamento europeu prevaleça sobre o conceito do "ultrapassado" modelo brasileiro.
O futebol brasileiro tem problemas, claro. Inúmeros. Tem treinadores desatualizados, sim.
Mas existe muita gente capaz, séria e trabalhadora no futebol brasileiro. Existe debate de ideias com boas propostas, como no caso da Universidade do Futebol. Existem treinadores que estudam, se atualizam, evoluem. Não se trata de jogar pela janela a informação que as gerações de profissionais do futebol brasileiro acumulou. É preciso saber utilizá-la para que seja transformada em conhecimento.
Voltando a Osório, ele acerta e erra como qualquer treinador, colombiano, brasileiro, inglês. Ele tem seus métodos e sua forma de trabalho. Em alguns jogos, particularmente, acho que inventa, chuta o balde. Como disse durante a transmissão de São Paulo x Ceará, se fosse o Carpegiani, analistas o teriam chamado de Professor Pardal. Citei Carpegiani porque muitas vezes ele propôs coisas parecidas com o que propõe Osório e foi chamado de Pardal. Assim como Caio Júnior, por exemplo. Novamente evito comparações, cito apenas dois exemplos.
Menos entusiasmo parcial com Osório (e menos críticas dirigidas por setores políticos de clube) e menos críticas generalizadas a treinadores brasileiros serviriam para enriquecer o debate. O fim dos tempos ainda não foi instalado e o treinador colombiano não veio ao Brasil para fazer o julgamento final de nosso futebol e separar os justos dos condenados.
Não tenho a fórmula do sucesso e nem o segredo para a recuperação do futebol brasileiro. Mas acho que há informação e conhecimento aqui gerados que podem ser muito bem aproveitados.
Não creio que a solução seja simplesmente copiar o que se faz lá fora. Ainda acredito que podemos buscar uma solução nacional, aprendendo com o que é para ser aprendido e vem sendo muito bem feito lá fora, em termos de seriedade, organização, estrutura e método. Mas não gostaria que a escola brasileira de futebol sucumbisse simplesmente para ser assimilada pelo modelo europeu, como faze os Borg em Jornada nas Estrelas. Precisamos formar mais e melhores jogadores, recuperar a base, para depois incutirmos a ideia tática. Minha opinião.
Vida Longa e Próspera ao bom debate.