domingo, fevereiro 21, 2016

Raio-x do atraso

Enquanto não houver uma genuína preocupação de treinadores, jogadores e dirigentes com a qualidade do espetáculo, o futebol brasileiro seguirá descendo a ladeira em desabalada carreira.
Mídia e torcedores também têm sua parcela de responsabilidade. Conceitos ultrapassados como "jogo de Libertadores é diferente, é guerra", e torcedores que aplaudem jogadores que dão carrinho na bandeira de escanteio pouco ou nada contribuem.
Hoje o evento esportivo está mais caro, existem estádios melhores mas a qualidade do futebol praticado no Brasil e pelos times do Brasil é assustadoramente ruim.
Alguns resultados ainda mascaram a falta de ideias. O reflexo nos times de cima das grandes equipes é do total abandono porque passaram as categorias de base nas últimas décadas, entregues a oportunistas e empresários.
Perde-se tempo em discussões paralelas tocadas com base em absoluta falta de conhecimento do tema, motivadas por paixões, questões pessoais e até convicções políticas e ideológicas. São cada vez mais raros os casos de pessoas que genuinamente querem debater e melhorar o futebol brasileiro.
Os jogadores estão aprisionados em um conceito de competitividade totalmente míope. Fazem jogos medíocres e saem de campo acreditando que participaram de uma disputa de boa qualidade. Correm muito e de forma equivocada e entram numa espiral de lesões provocadas por desgaste desnecessário originado por treinamento deslocado e desconectado com a realidade do jogo praticado.
São cada vez mais raros os casos de treinadores que conseguem explicar como jogam seus times, quais as propostas de modelo e, principalmente, colocá-las em prática.
No Brasil ainda se valoriza um conceito antiquado. A regra é mais ou menos a seguinte: se fulano jogou futebol, bem ou mal, pouco importa onde e quando, está pronto para trabalhar com futebol em qualquer ramo de atividade, não precisa de estudo, não precisa de formação e capacitação.
Mantras como o chupou laranja com quem, jogou onde e nunca chutou uma bola são repetidos à exaustão por gente que acredita saber todos os truques e todos os segredos, embora jamais tenha colocado em prática.
A direção do futebol no Brasil, que privilegiou o negócio muitas vezes cheio de atalhos estranhos hoje não tem condição alguma de tocar uma reforma ampla, geral e profunda.
O debate intelectual ainda trafega entre uma nostalgia legítima, porém desconectada da realidade, e um certo exagero no pranchetismo juramentado.
Falta boa vontade a todos nós para encarar um debate sério, profundo e que possa a partir de agora dar o pontapé inicial para uma verdadeira reforma que possa recolocar a bola nos pés certos e o futebol brasileiro em um caminho de reconciliação com suas origens, mas fundamentadas em modelos de gestão honestos, sérios e com credibilidade.

4 comentários:

Anônimo disse...

Nori, quanto ganha um comentarista do Sportv/Premiere? Muito mal???
Não é possível que não tenha ninguém melhor querendo o emprego!!

Cara, na boa, da uma estudada, pega um ou outro bom comentarista pra acompanhar e aprender um pouco. Qualquer coisa que melhorar, já vai ser muita coisa, pode ter certeza.

Abraço!!

El Cid disse...

Nori

Linha de raciocínio atualizada e lógica.
Acresça-se: a europeização (submissão total) do soccer brasileiro, ex maior escola mundial aos conceitos do velho mundo, a maioria só lá aplicáveis por fatores geográficos linguísticos climáticos econômicos sociais e etc
Isso detonou a série de eventos que aniquilou o futebol brasileiro, da lavra dos "cronistas de vanguarda" que detinham na década de 90 o comando de programas esportivos no horário nobre ao tempo em que engatinhava a TV Cabo e a audiência de esporte se resumia à TV convencional.
Água mole em pedra dura convenceram dirigentes público 90% dos colegas que os estaduais eram superados deficitários pouco valiam em termos técnicos sem acrescentar nada ao futebol brasileiro.
Submissos culturais, desconsideraram a extensão de um país continental. Querem Amapá X Brasil de Pelotas com motivação e Rio Branco do Acre X América de Rio Preto com casa cheia. A rivalidade fora do contexto regional é dissipada pela distância.
Eles jogaram veneno nas raízes do futebol brasileiro. A consequência da irresponsabilidade foi o fechamento ou o apequenamento dos times do interior do Brasil, sobretudo do interior paulista, o 2º mercado econômico-financeiro do país.
Desapareceram times tradicionais como o Rio Branco de Americana, XV de Jaú, América de Rio Preto e outros.
Outra consequência:
Cadê a crônica de Ribeirão de meu amigo Roveri, de Domingos Leone, Jacomini, Elton Pimenta, Miguel Leporace, Jovino Campos, Totinha, Nag e Lúcio Mendes que em minha época, em média, pagava tanto e quanto a paulistana?
E a de Rio Preto de José de Alencar, Mário Luís, José Guerreiro e Caio Plínio?
Cadê a crônica de Araraquara de Wilson Machado, Ant. Carlos Araújo, Wilson Luís, Enio Rodrigues e de meu amigaço Wilson de Freitas, egresso de Taquaritinga?
Cadê a crônica de Piracicaba onde Fiori fazia bico nos jogos do XV quando não se escalava na Band, dos comentaristas Garcia Neto e Sérgio Cunha (amigo de fé irmão camarada) comentaristas de um nível compatível a qualquer outro da capital?
Para ficar só nessas praças a crônica esportiva do interior literalmente acabou junto com a liquidação barata dos times de futebol de suas cidades! Em todo o Brasil e em muitas capitais.
Agora os autores da proeza reclamam que o futebol europeu é melhor, tem jogadores superiores e está anos luz à frente do brasileiro!
Só não dizem que eles e seus conceitos levaram o futebol brasileiro à CTI, ao matar-lhe as nascentes. Como os rios podem correr sem a água das nascentes?
O futebol brasileiro perdeu seu carisma, seu jeito de ser jogado, sua ginga, o seu bailado e o seu envolvente poder de improviso!
Eles não queriam o futebol do Brasil à imagem e semelhança do europeu, encapsulado, preso a sistemas táticos inflexíveis? Estamos jogando assim! Não vamos melhorar a não ser que voltemos às nossas origens.
Os europeus só partiram para o futebol tecnicista por absoluta incapacidade de derrotar as escolas argentina e Brasileira.
Como minimizaram ou mataram os times do interior, destruíram as nossas fábricas de jogadores. Por falta de perspectiva jovens interioranos (a maioria estuda e a família não deixa mudar de cidade)só jogam futebol em video-games.
Preocupado vejo que a importação de jogadores é cada vez maior na contramão do que ocorria quando o Brasil e Argentina disputavam a condição de maior exportador.
Hoje os jogadores individualmente mais habilidosos são colombianos e equatorianos e coletivamente os argentinos que mantiveram-se fiéis as suas origens.
A decadência do futebol brasileiro decorre do fechamento e apequenamento dos times do interior. Não temos mais quantidade para apurar a qualidade.
Quatro meses no mímimo para os estaduais Séries A,B,C,D e etc com acesso e descenso(aos sábados e domingos) paralelelamente à Libertadores Copa do Brasil e demais torneios (no meio de semana).
De maio a dezembro o Brasileiro (na plenitude das datas) Se possível um ou dois jogos por dia em TV semiaberta ou PPV, de acordo com as conveniências da TV que paga boa parte da conta.

Mauricio Noriega disse...

Anônimo, eu não reclamo, não, tá tudo muito bom. E ainda tenho tempo de me divertir com leitores como você.

El Cid disse...

Nori

Fique claro que esse anônimo das abobrinhas não sou eu, como pode sugerir a proximidade das postagens!

Falando com a seriedade que o momento exige, precisamos reconstruir o futebol brasileiro e a mídia "clean" faz parte desse processo. Você é parte integrante dela.

Por sua conduta reta, malgrado quaisquer discordâncias de opinião que possamos ter (é normal) e sendo você filho de quem é, não poderia -jamais- ser diferente!

Precisamos (todos) sem prejuízo para os grandes clubes, iniciar uma campanha nacional pela restauração e ressureição do futebol do interior, sobretudo do interior de São Paulo. Abs El Cid.