quarta-feira, agosto 17, 2011


A Copa que o

Brasil já perdeu


Sempre entendi que o Brasil tinha e tem condições de organizar a Copa do Mundo e todo grande evento de qualquer área. Isso apesar de sermos sérios candidatos ao título mundial da corrupção.

Também achava que com eventos como o Mundial de Futebol e a Olimpíada o cidadão brasileiro poderia ser beneficiado com a realização de obras que, apesar de urgentes e necessárias, sempre são postergadas ou substituídas por outras que atendem a determinados interesses.

Seria uma maneira de darmos o troco nessa gente que, eleita para nos representar, teima em nos desonrar. Mas ando pessimista em relação a isso. Acho que a Copa no Brasil terá êxito, principalmente comercial. Assim como a Olimpíada. Mas, embora eu torça, lá no fundo, para estar errado, acho que um jogo nós já perdemos.

Que jogo? O da oportunidade para conseguir, vá lá que tendo esses eventos como desculpa, um sistema de transporte público mais moderno e eficiente. Ou então a limpeza de cartões postais do País como a Baía de Guanabara. Ou sanear essa cloaca a céu aberto que é o rio Tietê, em São Paulo. Dotar de saneamento básico decente as capitais do Nordeste. 

Destinar recursos que certamente entrarão no País para melhorar a educação de nossos jovens. Ou então utilizar a Copa e a Olimpíada para oferecer uma oportunidade de trabalho a milhões de brasileiros da terceira idade que são desprezados pelo mercado a cada ano.

Um evento de dimensões planetárias não deveria representar apenas investimentos na construção de arenas esportivas. No mundo ideal, poderia ajudar a reinventar um país, uma cidade, a projetá-lo pelo mundo com uma nova imagem. 

Talvez eu seja ingênuo, mas eu juro que esperava que com a Copa a gente conseguiria dar o troco na banda podre da política, arrancando deles a realização de dezenas de promessas urgentes.

Mas parece que virá por aí uma Copa em que grandes negócios serão feitos, grandes obras que beneficiarão construtoras, empreiteiras, mas não deixarão a semente da mudança.

O mesmo vale para a Olimpíada. Ora, o Rio é a imagem do Brasil lá fora, a paisagem clássica que vende nosso País. Será que dá tempo de reinventar o Rio como cidade, assim como foi feito com Barcelona, até 2016? Porque a maior obra da Olimpíada de Barcelona não foi um ginásio, uma piscina, uma pista, foi a reconciliação da cidade com o mar, um projeto urbanístico muito maior do que 20 dias de competições. Projeto que envolveu a limpeza de rios, a recuperação de bairros etc.

Com o que será gasto para construir ou reformar estádios que pertencem a estados e municípios não daria para tocar obras há tempos prometidas como os metrôs de Salvador e Recife, o Rodoanel paulistano, a limpeza das lagoas cariocas e a extensão de seu metrô. Ou então retirar de palafitas indignas a população ribeirinha de Manaus, reformar e modernizar portos e aeroportos para que o País não perdesse bilhões pela falta de estrutura para exportar e produzir? Eliminar os chamados gargalos?

Quem sabe aparelhar e pagar melhor nossos policiais, bombeiros e professores? Reinventar a escola pública, a universidade, criar um sistema esportivo público decente que ajude a tirar as crianças das ruas e do caminho das drogas.

Tudo isso poderia ser feito tendo Copa e Olimpíada até como desculpa. Ou então uma parte disso.

Mas acho que veremos estádios suntuosos, belíssimos, exagerados até para a nossa realidade, alguns cuja utilização ficará sem sentido. O que me incomoda é o fato de construir estádios ser considerado uma cera prioridade estatal.

Talvez eu seja mesmo pessimista, mas desconfio que essa outra Copa a gente já perdeu. Espero que dê tempo de buscarmos pelo menos o empate até 2014 ou 2016. E que pelo menos se faça bom uso da dinheirama que deve entrar no País nesse período.

Claro que uma Copa e uma Olimpíada não têm o poder de transformar uma Nação, mudar a mentalidade de um povo. Apenas poderiam dar alguns recados, acelerar alguns processos, proporcionar algumas revanches.

11 comentários:

Hargre disse...

Por trás destas promessas que não vão ser cumpridas ou, no mínimo, cumpridas de forma mais tímida ou atabalhoada, esconde-se um problema sério. Nós não temos muitos craques em formatar, estruturar, planejar os projetos e programas.

O aeroporto de Natal é um exemplo, assim como a faraônica reforma do porto do Rio. Ter ideia é ótimo, mas como materializar o sonho em projeto sustentável, com começo, meio e fim, no qual os gastos estejam estimados de forma competente.

Pode-se argumentar que parte desta 'inabilidade' seja um facilitador proposital para a corrupção. Mas também há o chutômetro puro e simples. Não gostamos de 'perder tempo' estimando custos. Esta Copa, infelizmente, acho que não temos a menor chance de ganhar.

Robert Alvarez Fernández disse...

Caro Nori, faz tempo que não comento nada por aqui no teu espaço.

Concordo com você, a Copa e os Jogos Olímpicos são uma queda de braço entre o Brasil que funciona e produz e o Brasil do conchavo, da armação.

Teríamos condições de organizar grandes eventos se o primeiro prevalecesse, o que não é o caso. A organização ficou a cabo de políticos e dirigentes esportivos, sobre os quais pairam muitas dúvidas e algumas certezas, mesmo que difícil de provar.

A participação do Estado nos investimentos da Copa, muitos nem sequer saíram do papel, supera os 90% do total; cabe cobrar do presidente da CBF sobre o que ele disse quando da escolha do Brasil, àquela época ele dizia que o sucesso da Copa estava ligado ao quão pouco o Estado teria que investir...se o indicador é esse, a Copa já é um rotundo fracasso, como se mostrou a copa de 2010 pela qual a vida da África do Sul mudou em nada.

Enquanto tivermos políticos e esses dirigentes esportivos comandando, teremos esses resultados pífios.

E isso tudo só mudará quando acabarmos com a indigência em que se encontra nosso sistema educacional, sobretudo o público, inclusive usando o esporte como reforço.

Desculpe o texto longo, mas esse é um papo pra horas...minha vez de pagar o café.

Abraços,

Robert

Leandro Ribeiro disse...

Noriega, concordo plenamente com você!

Me espanta a FIFA não coibir ou controlar esse tipo de situação. Por sinal, da mesma forma que para um país se candidatar ela avalia alguns requisitos, saneamento básico, infraestrutura, segurança, saúde, entre outros deveriam ser fatores determinados para um país ser escolhido como sede.

Um país que não tem capacidade de construir escolas para analfabetos (com um custo bem menor) não deveria ter a proeza de querer construir estádios gigantescos e milionários.

Abraços!
@leandrowribeiro

André Monnerat disse...

Noriega, acho que estava mais do que na cara que isso aconteceria. E se alguém tinha dúvidas, quando começaram a surgir notícias sobre estádios como os de Cuiabá, Manaus ou Brasília, as dúvidas acabaram.

Acho ainda, porém, que a Olimpíada ainda vai deixar algum legado para o Rio. Aquém do que deveria e poderia, por um preço bem maior do que o desejável, mas algo vai sobrar. Já há obras grandes de transportes acontecendo aqui e tenho esperança de que a revitalização do porto saia.

Mas da Copa do Mundo, nunca esperei nada mesmo.

Kako Sales disse...

É, Nori. Diferentemente de vc, eu já tinha certeza que daria no que vai dar.

Infelizmente, no nosso país, as coisas tendem a favorecer os corruptos desde sua gênese.

É uma pena.

Anônimo disse...

Noriega,

A imprensa em geral fala tanto sobre a necessária seriedade para a organização da Copa do Mundo.
Perfeito, louvável.

Porém, essa mesma imprensa ignora que na cidade de SP existe a construção de um estádio com 100% de recursos privados, que para ter seu projeto aprovado precisou dar a contrapartida de dez milhões de reais para obras no seu “entorno”.
Enquanto isso, a mesma imprensa se aproveita do populismo para exaltar, divulgar e festejar a construção de outro, cujo custo será quatro vezes maior e baseado em recursos públicos.

Aproveito o espaço para sugerir a você que visite a página do OAV e leia o texto sobre o jogo de ontem.
Leia, analise e reflita com a necessária isenção e sem corporativismo.

obrigado pela atenção

Marcelo

Nori disse...

Marcelo, porque a prévia acusação de corporativismo? Nesta semana mesmo foram publicadas várias matérias extremamente positivas sobre o novo estádio do Palmeiras e muitas delas destacando o fato de a obra estar sendo tocada com recursos privados. Quem exalta e festeja a realização de obras com dinheiro público? Você assistiu ao Arena SporTv que apresentei com a presença do presidente do Corinthians?
O espaço é livre, mas a crítica deve ser embasada e endereçada. Generalizações são perigosas.
Abs

junior disse...

UMA BOA INFORMAÇÃO:
O jogador Júlio Alves da seleção sub-20 de Portugal é luso-brasileiro.
Motivo da dupla cidadania:ele é filho do Washington,que foi jogador do Flamengo em 1969/70/71.Nascido em Barão de Cocais/MG.
Depois,Washington foi jogar em Portugal,se tornando ídolo no Póvoa de Varzim.
O Washington é irmão do grande Geraldo Alves,jogador do Flamengo e da Seleção Brasileira principal na primeira metade da década de 70,que também passou pelas categorias de base da Seleção Brasileira(Torneio de Toulon).
Geraldo morreu de choque anafilático aos 26 anos,depois de uma cirurgia de amígdalas.
Uma das grandes perdas do futebol brasileiro,pois desde as categorias de base o Geraldo era parceiro do Zico.Um grande craque!
O Washington é pai do Bruno Alves(defensor),jogador da seleção portuguesa principal,que inclusive disputou a última Copa do Mundo.Hoje,joga no Zenit,da Rússia.
É uma família que possui um belo DNA de jogadores de futebol,pois o outro filho do Washington,Geraldo Alves(nome em homenagem ao irmão falecido)joga no Steua,da Romênia.
Na família,ainda teve o Lincoln,que jogou com Mário Tito,no Bangu de Castor de Andrade.
O Júlio Alves(20 anos),um meia,foi vendido recentemente para o Atlético de Madrid e é empresariado por Jorge Mendes(empresário de Cristiano Ronaldo).

Anônimo disse...

Noriega,

O uso do termo corporativismo foi feito em relação a analise sugerida para o texto do OAV e não sobre o tema Arena Palestra. Talvez eu tenha redigido de forma não adequada o que possibilitou essa sua interpretação.
Caso leia o tópico do OAV (que não trata do assunto estádio para a Copa e sim do jogo do Palmeiras deste meio de semana), perceberá que esse alerta sobre não analisar com corporativismo é necessário pela grave situação que ele expõem.
Portanto, o termo corporativismo não se referia a questão Arenas.

Em relação a Arena Palestra, meu comentário é para a imprensa em geral. Em qualquer outro país do mundo, onde uma Copa fosse disputada em breve, uma obra como a Arena do Palmeiras teria amplo destaque e não apenas citações em um ou outro programa. Por outro lado, tenho certeza de que a imprensa em qualquer outro lugar não “festejaria” a construção de um estádio como o Itaquerão apenas por ser de um clube de massa e que interessa comercialmente a ela.
Escrevo festejaria pois fica muito evidente que a grande maioria da imprensa é “contra”, mas torce para que o estádio se concretize.
Sinceramente não consigo entender como uma obra totalmente particular é colocada em quinto plano e um outro projeto amparado em todo tipo de favorecimento é destaque total por setores que aparentemente se mostram contrários ao mal uso de verbas públicas para a organização da Copa. O discurso não combina com a prática.
Em relação a você e aos programas que participa, tendo essa conduta que nos relata, só temos que agradecer.

obrigado pela atenção

Marcelo

Anônimo disse...

Noriega,
Completando as observações sobre a Arena Palestra Itália, especificando alguns casos:

Há poucos meses noticiou-se que a cidade de São Paulo tinha sido excluída da Copa das Confederações em 2013. A alegação das autoridades, da CBF e da FIFA era de que não haveria estádios na cidade para a realização da competição. Todos ignoraram a existência da Arena Palestra Itália e seu cronograma de obras. “Não sabiam” que a Arena do Palmeiras ficaria pronta em abril de 2013 e que o cronograma estava adiantando.
Algum veículo de imprensa ou algum jornalista colocou essa situação para o público? Eu não observei. Pode ser que tenham feito e não notei.

Durante a aprovação da lei que dava os incentivos fiscais ao Itaquerão, houve alguma citação por parte da imprensa comparando o tratamento dado aos dois estádios? Enquanto a viabilização do Itaquerão se deu única e exclusivamente em recursos que tinham origem direta ou indireta nos cofres públicos, a Arena do Palmeiras teve sua base em recursos particulares. Algum jornalista explorou e mostrou ao público essa diferença de realidades nos grandes meios de comunicação?

No período de “aprovação” do projeto do Itaquerão, se é que durante essa aprovação o projeto estava concluído, foi feito algum paralelo com o processo de aprovação da Arena Palestra Itália, estádio que enfrentou todo tipo de dificuldade burocrática e política e ainda foi obrigado a pagar a contrapartida de dez milhões de reais aos cofres públicos para as obras no seu “entorno”?

Nos últimos dias foi dado destaque especial pela imprensa para a cobertura em tempo real pela internet para o andamento das obras do Itaquerão, com o se fosse a maior novidade do mundo. Na Arena Palestra Itália essa cobertura existe desde o seu início e nunca foi noticiada. Não era para ser uma informação ao público, no mesmo formato?

Será que essas duas realidades muito opostas não deveriam ser mostradas ao público pela imprensa esportiva e pela imprensa em geral quando se discutia a preparação da cidade para a Copa? Por que a grande imprensa se comporta como se uma das obras não existisse e, quando é obrigada a noticiar, ainda trata a construção da Arena Palestra como REFORMA?
Há poucos dias o programa Globo Esporte da Globo São Paulo fez uma matéria sobre o andamento das obras tratando-a de forma pejorativa e jocosa.

Por tudo isso é que fica a dúvida sobre a real posição da imprensa em relação ao favorecimento público de uma obra. Será que a imprensa condena mesmo o uso de verbas públicas ou faz isso “da boca para fora”, torcendo para que o estádio saia por se tratar do seu time escolhido na cobertura esportiva? Atua parcialmente da mesma forma que faz no futebol quando se comporta muito mais como Assessoria de Imprensa do clube do que como jornalismo?

Para concluir, porque nunca houve uma discussão nos meios de comunicação sobre a opção de abrir ou não a Copa em São Paulo? A cidade poderia ser uma das sedes, sem ter a abertura e usar todos esses recursos públicos, essa lei de incentivo, para obras de infra-estrutura? Seria uma boa discussão, não acha? O estádio já estaria ganho pela cidade, sem precisar gastar um centavo!

Qual a sua avaliação após essas observações? Já tinha analisado por esses aspectos?

Marcelo

Anônimo disse...

Noriega,

Respondi esclarecendo o comentário e apresentando os fatos que os motivaram.
Você não vai publicar?


Marcelo