terça-feira, dezembro 03, 2013

O dia em que joguei com Pedro Rocha


Já faz tempo o bastante para que a memória não seja suficientemente precisa quanto a datas ou locais. Mas sou um jornalista à moda antiga, daqueles que ainda preferem a qualidade das histórias e o valor dos personagens à frieza dos números e das estatísticas.

O que me lembro bem é do fato que motivou esse texto, que ganha vida agora em forma de homenagem.

Se foi no final dos anos 80 ou no início dos anos 90 pouco importa. Também é um mero detalhe se aconteceu em Vinhedo ou Valinhos, foi por ali. E aconteceu, asseguro.

Meu pai, Luiz Noriega, era amigo do dono de uma fábrica de bolas chamada Lance.  Um dia ele me chamou para ir com ele a um churrasco (é nessa parte que não me lembro se foi em Valinhos ou Vinhedo. Está mais para Valinhos quando vasculho a memória). Seria a inauguração da iluminação de um campo de futebol na chácara do proprietário da fábrica.

- Leva uma chuteira, uma roupa porque acho que vai ter uma pelada - aconselhou.

Lá fomos nós. Papo animado, churrasco delicioso, cerveja e muitos craques do passado, a maioria da região de Campinas.

Quando foi anoitecendo chegou a hora do jogo, de testar os novos holofotes. O dono da casa me chamou e pediu que eu e um outro garoto (eu deveria ter uns 19 anos, no máximo), que se não me engano era filho ou sobrinho dele, fôssemos completar um dos times.

Pois lá fui eu. Timidamente nos apresentamos, eu e o outro cara, para completar um time em cuja escalação havia, entre outros, "apenas" esses nomes: Tuta (ex-ponta da Ponte, irmão do Zé Maria), Vanderlei Paiva, Dicá e "Dom" Pedro Rocha. Houve uma rápida reunião no meio-campo e uma voz carregada de sotaque charrúa se fez ouvir, ordenando o seguinte:

- Garotos, vocês "dos" lá na frente, não necessita voltar, tá bom?

Quem éramos nós para contrariar uma ordem do Verdugo, de um estilista, do jogador que o Rei Pelé classificou como um dos cinco melhores do mundo?

Para um fã de esportes e apaixonado por futebol como eu, ao ponto de ainda insistir com as animadas peladas com os amigos aos 46 anos e um monte de "dolores", como dizia Dom Pedro, era como visitar a Disneylândia da bola.

Sem contar Pedro Rocha, havia Dicá. Ouvir o som da batida na bola do camisa 10 da Ponte e vê-lo virar o jogo buscando a matada perfeita de Pedro Rocha vale mais do que muitas aulas e milhares de minutos de futebol pela TV ou ao vivo.

Em certo momento, Dicá virou uma bola daquelas que todos nós, simples mortais peladeiros, chamamos de "torta". É uma espécie de tradição entre os jogadores lançar esses desafios, provocar a técnica do amigo. Eu estava sozinho na área, jogo em campo de society, sem impedimento. Quando vi a bola viajando, jamais poderia imaginar que o Pedro Rocha pudesse alcançar, estava muito alta e vinha girando como um globo terrestre na aula de ciência. Pois ele tirou da cartola uma jogada de mestre. Deixou que a redonda passasse um pouco por cima de seus ombros, levou um pé à frente e com o outro, de chaleira, jogou a bola exatamente na direção em que eu estava. Meio atônito, fiquei assistindo a jogada e perdi o ponto da matada de bola.

- Garoto, presta atenção, pô! - veio a bronca!

Generosos, Pedro Rocha, Dicá e os outros craques daquela pelada brindaram a mim e ao outro jovem com muitos gols. Daqueles fáceis, de empurrar a bola para dentro, porque eles deixavam o texto pronto e editado, era só colocar o ponto final.

Hoje pela manhã ouvi no rádio que Pedro Rocha se foi. Uns dias depois de outro gênio, Nilton Santos. Não por coincidência, ambos foram amigos do meu pai. Eu tive o privilégio de conviver com essa gente desde muito cedo. Eram outros tempos de futebol e de jornalismo esportivo. Havia mais educação, mais convivência, respeito. Os jogadores eram grandes ídolos, quase intocáveis, mas não eram celebridades mimadas, narcisistas e milionárias.

Pedro Rocha foi um estilista. Um meia de técnica apurada, força e conhecimento do jogo dentro de campo. Alto, elegante, pernas longas, domínio de bola absurdo, finalização precisa. Jogou demais no Peñarol, no São Paulo, teve lampejos da velha técnica no Palmeiras.

Alguns amigos são-paulinos falam dele com reverência protocolar. Muitos torcedores de outros times nos quais ele não jogou o respeitam profundamente.

Eu guardarei para sempre na minha memória de peladeiro o dia em que pude ver de perto Pedro Rocha jogando, ainda mais ao lado de outro grande, Dicá. Porque quem jogava eram eles, eu só estava tendo raro acesso a um mundo superior, a uma espécie de Asgard futebolístico.

Que os deuses da bola recebam Pedro Rocha com todo o respeito e as homenagens que ficaram faltando em alguns momentos de sua vida.

Um comentário:

Elenice Galizia disse...

como sempre voce me emociona, uma linda história, adorei parabéns pela brilhante narrativa que me encantou e me fez derramar lágrimas.