terça-feira, outubro 02, 2007



O ABANDONO É A MAIOR

CRÍTICA DO TORCEDOR


São, no mínimo, estarrecedoras, as cenas de torcedores do Botafogo e do Corinthians ameaçando os jogadores de seus times. Nada de novo nisso e também não é exclusividade desses clubes. Todos os times chamados de massa já viveram esse drama. Jogadores encurralados em aeroportos, estradas, estacionamentos, ameaçados e até mesmo agredidos. Tudo sob o signo da revolta, da paixão, da suposta humilhação por que passam os torcedores. Digo suposta porque o torcedor verdadeiro, aquele que nutre autêntico amor pelo seu clube e pelo futebol, esse fica, sim, humilhado, ofendido, Mas jamais apela para o que fizeram esses vândalos.
Aliás, que teriam para fazer da vida essas figuras que encontram tempo, em dia de semana e horário comercial, para intimidar e amedontrar profissionais em seus locais de trabalho?
Futebol é paixão e não pode jamais ser analisado como economia. Se assim for, acaba, morre. O excesso de números e estatísticas, muitas vezes inúteis, aprisiona o futebol, tenta fazer dele algo asséptico como um corredor de hospital. Mas o exagero na dose do outro lado também contribui para levar esse esporte maravilhoso a um caminho praticamente sem volta, o do terror, da violência.
O que me causa mais espanto é ouvir de torcedores corretos, pais de família, figuras decentes e dignas de respeito, frases como "é isso mesmo, tem de ser na porrada", "se não dá no amor, tem que ser no terror", "precisa dar uma prensa nesses caras". Juro que ouvi isso de torcedores que são profissionais e seres humanos exemplares.
Xingar, vaiar, tudo bem. Quem já foi a uma arquibancada sabe que esse é, na verdade, um dos grandes baratos do futebol. Agora, a violência descabida, as ameaças e bravatas irascíveis de certos grupos de torcedores não têm cabimento. Seriam esses mais torcedores do que os outros?
Em tempos de crise, acho que o que mais deveria preocupar os jogadores e dirigentes de Corinthians e Botafogo, as bolas da vez, é aquele torcedor que é apaixonado, fanático, mas que decidiu simplesmente abandonar o clube por um tempo. Virou as costas, deixou de ir aos jogos, de acompanhar, de torcer. Esse é o pior aspecto de um torcedor em crise com seu time e a mais contundente forma de crítica. A partir do momento em que um torcedor entende que não vale mais a pena sair de casa para ver seu time jogar, aí sim a crítica chegou ao seu ápice. É esse o verdadeiro temor que deveria afligir os jogadores e dirigentes que ainda são sérios dos clubes brasileiros.
Sobre os vândalos, basta puni-los, se é que existe esse desejo. Como deve ocorrer com um dirigente de torcida que agrediu um técnico das categorias de base do Palmeiras. É sócio do clube? Que seja suspenso. Simples. Os que invadiram os treinos de Corinthians e Botafogo também são sócios? Que, idem, sejam suspensos pelo clube.
E os torcedores rivais que hoje riem das desgraças dos alvinegros paulista e carioca que não se esbaldem. Porque todos os grandes times já passaram por isso. O São Paulo que hoje nada de braçada rumo ao título já viu seus jogadores serem agredidos com pipocas e seus torcedores já xingaram o ídolo Rogério Ceni.
Tudo isso reforça a tese de que torcedor brasileiro não ama seu clube de verdade. Ele só ama seu clube quando esse está ganhando. Se começa a perder, vira ódio. Triste retrato de uma paixão chamada futebol.

5 comentários:

Iara Alencar disse...

Ahh a paixão, a torcida, sem hipocrisia carissimo Noriega, please!
Sabe o que diferencia o futebol dos demais? - é isso, é justamente isso.
É essa sensação que se pode tudo e não se pode nada.
É o desejo forte que fica dentro de si que justifica atos, fatos.

Nori disse...

Concordo, prezada Iara. Mas será que justifica alguns atos? Se for assim, então aceitamos quem mata por amor? Não acredito nisso. Mas muito obrigado pela visita.

Anônimo disse...

Parabéns Noriega.
Vc escreveu exatamente o que penso a respeito dos que se utilizam do futebol para propagar a violência, a maior ignorância do ser humano.
Quem prega a violência liberada no futebol está contribuindo para a mesma violência em nosso dia a dia. É a mesma coisa.
Por acaso os jogadores são pessoas de outro planeta? Acuados, aterrorizados, são sensiveis e têm familias, não merecem isso.
Tentar justificar a violência no futebol com a "paixão" dos torcedores é ser conivente com a truculência dos marginais.
abraço, amigo.

ronan disse...

hahah!! E ainda a imprensa tenta nos ensinar e tal "Fiel Democracia" baseada na ameaça a profissionais que saem para jogar em outros clubes, em jornalistas investigando a roubalheira, etc... A imprensa precisa ser mais cautelosa em saber o que divulgar e não glamourizar eternamente um fato que já não existe. Democracia corinthiana, alguém já viu isso? hahahaha!!

Marcelo Rayel disse...

Meu caro, Noriega, bom dia!

Não sou pauteiro, mas vão aqui algumas dicas... Se couber, dá um documentário...

1) A violência aumenta porque o mundo é do marketing? Consumismo em alta e a moral vai para as cucuias. Virou vale-tudo... Ainda fico com a impressão que o tipo de violência e pressão que encontramos no futebol dos nossos dias tem uma estreita relação com a transformação do torcedor em consumidor.

Se você comprar um pacote de macarrão com um inseto dentro, cabe um Procon ou delegacia. Se você compra um ingresso do seu time de coração e ele leva aquela sova, tem como reclamar com o Procon? Cabe proteção ao consumidor? Se um time vencer é acima de tudo uma questão de bom atendimento ao cliente, quando perde cabe o que?

Porque muito dessa reação estupidamente violenta das torcidas deixa a impressão que é menos paixão e mais marketing, porque é muito ruim para os negócios pintar uma Série B no ano seguinte. Acaba se transformando numa questão de status da marca Botafogo, ou Corinthians. O desespero do torcedor que o leva a atitudes de violência está me cheirando menos paixão e mais vergonha de ser torcedor de um Paraguayan trademark...

Nos quatro anos que morei em Belo Horizonte, vi isso a olhos nus com o meu Ameriquinha. Um deca-campeão mineiro, que representava a elite do futebol mineiro e belorizontino, por conta da segunda divisão do estadual, está fora da Série C. Estive em Belo Horizonte no último feriado prolongado e pude ver num salão de cabeleireiro do supermercado Extra no Santa Efigênia a paixão do dono-do-salão pelo América e sua tentativa de recuperar o valor da marca América. E tudo o que ele deve encontrar pela frente é sentimento de lamento e pena. Porque, hoje em dia, torcer para o América é a mesma coisa que você comprar um notebook da CCE. Certamente, vão rir na sua cara...

2) Digo isso baseado na informação do preço do ingresso na Inglaterra. Junto com leis duríssimas para conter os hooligans, subiram o preço dos ingressos. Em média, jogos de Arsenal, ManU e Chelsea tem sua arquibancada em torno de 25 libras. O que o torcedor brasileiro não sabe é que um preço razoável de um ingresso na Inglaterra (como num jogo do Barnett, por exemplo) gira em torno de 11 libras. Ou seja, 25 libras é caro até mesmo para padrões britânicos.

O que leva a crer que a o metro-quadrado de arquibancada num estádio na Inglaterra faz o IPTU do Leblon ser lugar de gente abaixo da linha da miséria. Tem torcedor de coração lá que por ser de baixa renda não vai a um estádio ver seu time jogar há anos. Acaba tendo que consumir um subproduto da arquibancada, o pay-per-view, para jogos em casa. Faz sentido quando o time do torcedor em questão joga fora. Mas em casa?!?

O futebol anda saindo tão caro que os clubes ingleses, cercados de libra por um lado e euro do outro, ainda assim, para tentar vaga na Champion's League, ou viram sociedade anônima ou encaram um patronato. Abramovic (Chelsea), Emirates (Arsenal) ou o Mr. Hicks (no ManU, da frustrada Hicks, Muse, Furst & Tate no Corinthians) são prova de que até eles correm o risco de trombar com uma MSI da vida.

3) A Semp Toshiba não escolheu o Santos porque o uniforme é branquinho ou porque o Pelé jogou lá. É porque tem notícia de que o Santos tem estrutura de clube europeu e participou desde 2003 de quatro Libertadores. Exposição garantida da marca em transmissões da Fox Sports.

Ou seja, o Santos é um time ou é uma marca? WL Academia de Futebol rolaria no Botafogo? Rola porque o Santos garante participação em competições internacionais. É uma marca interessante para quem quer expandir os negócios. Seria o caso do Luxemburgo encarar o Flamengo, seu time de coração?! E se ele topasse, haveria ambiente, acolhimento para a abertura de uma WL Academia de Futebol sendo técnico de um time que vive ensaiando participar da Série B? Sabemos que ele é um dos melhores técnicos do mundo, mas não opera milagres. Estaria se locupletando da marca Santos para expandir seus negócios?! Afinal, o Santos é um time ou uma marca?!

Porque se o Santos for uma marca, sua torcida certamente se orientará pelo Código de Defesa do Consumidor. E sendo consumidor, satisfação garantida ou tapa na cara de jogador. Violência dos tempos modernos ou desvio de função do torcedor? O torcedor, afinal, foi feito para torcer ou para consumir?

Porque se ele foi feito para torcer, cometerá agressão pela paixão clubística (hipoteticamente). Compra o ingresso sem a expectativa de satisfação garantida. Mas se ele é consumidor, cliente, ou o time dele ganha, ou ganha... Porque, afinal de contas, é muito chato torcer pela CCE.