sexta-feira, junho 02, 2006

TIROS EM BARIRI


A Copa de 94 foi um pesadelo para mim. Primeiro, por que eu deveria estar lá, nos EUA, e só não fui por que meu chefe à época, no Diário Popular, preferiu atender aos interesses comerciais dele e enviou seu sócio. Segundo, por que trabalhei feito um mouro, sem ver a luz do dia, trancafiado numa redação dividida e sem um pingo de humor. Fora isso, a Copa foi um lixo tecnicamente e morreu pra mim com o doping do Maradona.
Tínhamos uma escala de folga que era escravocrata e a minha apontava justamente o dia da final como o homem que faz o meio de um ataque de três dias parado. Nem pensei duas vezes e dei de ombros para o apelo do chefe que ficou no Brasil para ajudar na cobertura da decisão: peguei minhas coisas e fugi para a laboriosa e hospitaleira Bariri, região central do Estado de São Paulo, terra das minhas raízes pelo lado materno.
Dormi o que pude, proseei com os amigos das antigas e, após um churrasco, me preparei para ver a final entre Brasil e Itália. A família se divide entre duas casas quando reunida em Bariri. A da minha avó e, ao lado, a dos meus pais, ambas unidas por um quintal comum. Ficou todo mundo na casa da minha avó e eu fui pra dos meus pais, pra ver o jogo sozinho. Joguinho chato, cochilei algumas vezes, mas eis que chegamos aos pênaltis. Quando o Baggio chutou na Lua, saí gritando feito um louco: “Fora! Fora! Brasil! Chupa, Baggio, Chupa, Baresi!” e fui correndo pro quintal. Ainda no corredor, ouço dois estrondos: PAM, PAM, seguidos de um eco impressionante. Chego ao quintal e vejo meu tio e padrinho Zeca Galizia com dois revólveres prateados à mão, voltados pra cima, descarregando os tambores, sorrindo de alegria e gritando é campeão!
Pergunto, assustado, se estava tudo bem. Ele responde: “claro! Não tinha mais rojão na cidade... Brasil, Brasil!, PAM, PAM”. E tome mais tiros no fim de tarde gelado de 17 de julho de 1994 em Bariri.

2 comentários:

Carlos Cereto disse...

Em 94 assisti a Copa do Mundo em Itapira, quer dizer n agrande Itapira. Tinha quase 18 anos e estava no auge da minha paixão pelo futebol. Me lembro de tudo com muita emoção. Ver o Brasil campeão era algo inédito para minha geração , por isso aquela copa foi especial. Hoje alguns dizem que o Brasil ganhou mas jogou feio. Não concordo. Romário e Bebeto formavam dupla no auge da forma, e o time marcava muito. Tudo muito deferente da seleção atual. Que saudade de 94.

andreia disse...

Hoje em dia essa atitude deles não pegaria muito bem não...