sexta-feira, julho 11, 2014

Diário da Copa - Aos meus amigos argentinos

Sim, eu tenho amigos argentinos.

Muitos, tenho orgulho em dizer.

Estive por baixo umas 15 vezes na Argentina. Sempre fui muitíssimo bem tratado.

Mas a maioria dos amigos argentinos que tenho a alegria de manter até hoje conheci ainda na adolescência, sabem onde? No Brasil, em Santa Catarina. 

Os irmãos Oliveira, um time de futebol de salão, todos muito bons de bola e pessoas da mais elevada educação. Apaixonados pelo Brasil e pelo futebol brasileiro. Filhos de um português chamado Américo, que se casou com uma argentina chamada Zulema, depois de ter chegado ainda criança a Buenos Aires. Ambos profundos conhecedores de futebol e admiradores da bola e da gente brasileiras.

Minha quase irmã Galatea, espiritualmente mais baiana e carioca que muitos de nascimento.

Temos muito mais em comum com os argentinos do que possa fazer pensar quem leva a rivalidade futebolística a um patamar próximo da idiotice.

Você acha que gosta e entende de futebol? É daqueles que se acha craque e profundo conhecedor? Tome um táxi em Buenos Aires e você povavelmente receberá uma aula, inclusive, de futebol brasileiro. Sim, senhor especialista, o argentino adora futebol e tem profunda admiração pelo nosso. Cita times e jogadores brasileiros históricos de memória. Atreva-se a falar de tática e levará uma sova.

Claro que temos imbecis dos dois lados da fronteira. Gente que leva a sério provocações infantis que são uma das muitas expressões de rivalidade entre adversários que, no fundo, não vivem um sem o outro. 

A mão pesada de setores e pessoas da mídia potencializa essa situação.

Enquanto iso, quem sabe levar a vida sai da Argentina e se diverte em Búzios, em Porto Belo, no Nordeste, convivendo em harmonia com os vizinhos. Em resposta educada, nos embriagamos com o marvilhoso vinho deles ou com as paisagens incríveis dos Andes e o churrasco sem igual (embora os imrãos uruguaios achem que o deles é melhor).

O velho e saudoso Américo me contava que jamais esqueceu do dia em que viu Pelé matar uma bola de queixo contra o Boca Juniors dele, na Bombonera. Quando seus filhos, em especial o Javier, o provocavam sobre Maradona, ele respondia: "Tchê, boludo, el Negro es único, no me hables de Maradona".

Fernando, também quase um irmão, treinador de futebol que revela e educa muitos talentos, sempre me fala maravilhas sobre a técnica apurada dos brasileiros com a bola nos pés e limão e cachaça nas mãos. Tanto que aprendeu a fazer caipirinha.

Rodolphito, nosso motorista na Copa América de 2011, ex-combatente da Guerra das Malvinas, capaz de chorar ao se despedir da nossa equipe, arriscar um português mambembe e lamentar pela decadência do Banfield como lamentou a eliminação brasileira diante do Paraguai.

Graciela e Bernardo, argentinos que escolheram o Brasil como casa e trabalham pela cultura dos dois países incessantemente.

Sempre estive ciente da rivalidade no futebol. Afinal, são os países que mais produziram grandes jogadores. Mas, sinceramente, acho que levamos a sério demais esse papo, nós, brasileiros. 
Estive em Buenos Aires uma semana após o Brasil ganhar o tetra e, acredite, houve festa por lá. Torceram por nós e reverenciaram Romário.

Meu amigos argentinos sabem que em Copas sou um cucaracha assumido. Torço pelos latino-americanos, sempre. 

Mas desta vez estou dividido. Ainda que Messi e todos vocês, mis hermanos, me façam ver com simpatia um tri argentino, sinto-me atraído pelo toque de bola hipnotizante dos alemães e sua incrível capacidade de organização, que me faz sentir uma gostosa inveja. 

Enquanto isso, na Granja Comary....

De qualquer modo, embora eu ainda ache que a Holanda merecesse estar na final e mereça um título pelo conjunto da obra, quem for campeão no domingo fará bem ao futebol.

A Alemanha, que soube se reinventar e jogar com talento, num prazo de 14 anos. Ou a Argentina, que mesmo sem ter um timaço como muitos que já teve na história, tem Messi, Di María e soube se reinventar em um mês, sem a arrogância e a prepotência que muita gente teima em colar na testa dos vizinhos mas anda sobrando em nossos "professores".

Pela grande quantidade de amigos argentinos apaixonados pelo Brasil que colecionei na vida, admito que, se eles terminarem o domingo felizes, abrirei um Malbec para celebrar essa gostosa vizinhança.

Sem antes deixar de lembrar que só nós temos cinco títulos e que só o Pelé fez mil gols. 

Saludos, mis queridos amigos argentinos. 

Disfrutemos.

5 comentários:

Robert Alvarez Fernández disse...

Nori, obrigado pelo texto, sempre com qualidade e sentimento. Compartilho de tuas idéias, que apenas se construíram por caminhos distintos; conheci a Argentina e sua galera pelo caminho do trabalho, tenho colegas e amigos por lá, e, como você, não são poucos.
Sempre usei a rivalidade e seus aspectos pitorescos como quebra-gelo, como forma de iniciar uma conversa e sempre assim minhas "brincadeiras" foram recebidas, ao final, sempre um ambiente bom de trabalho e "unos tragos" pra comemorar.

Comentar sobre gastronomia, cultura e futebol que vem de lá seria repetir teu texto.

Obrigado.

Robert

FRANCISCO disse...

Olá, Nori!

Sobre a final da Copa, desta vez sou alemão desde pequenino. Minha vingança pelas imagens de energúmenos mostrando espinha dorsal quebrada, como se fosse troféu.

Sobre a disputa de terceiro lugar, pela primeira vez (espero que seja a última) torcerei contra o Brasil. É que, pelo que tenho lido, Felipão e sua turma pretendem continuar faturando a grana da CBF, já que time nenhum contrataria a equipe técnica, que levou o Palmeiras à Série-B. Pior ainda, o futuro presidente da CBF já declarou que, se depender dele, o Felipão fica.

Creio que, só com a derrota da seleção para a Holanda, nos livraremos desses senhores.

Anônimo disse...

Parabéns pelo blog.
Uma pena vc ainda estar no sportv.
Abs.

Anônimo disse...

Mauricio

Sempre achei seus comentários no futebol coerentes e embasados em algum fato.
Hoje, ao ouvir voce falar que o Oscar evoluiu muito nesta copa, fiquei em dúvidas se vc realmente conhece o esporte....

FRANCISCO disse...


Nori,

Não queria a Copa no Brasil, para não ter entre nós cem mil argentinos estúpidos, gentalha de de baixíssimo nível cultural - o lixo da América latina. Seu grupo de amigos deve ser exceção.

Pergunto: O que é a imprensa esportiva argentina, se não um bando de palhaços-sem-graça, ridículos e mal educados?

Bem, se você me apontar um jornalista argentino decente, entenderei que é feijão, não digerido, no meio de fezes. Mas feijão misturado com m... é m... ainda que contra a vontade.

O texto abaixo é de Adriano Wilkson, repórter do UOL, em Buenos Aires.

Jaime Chmea, dona da loja de roupas e calçados Crescente, dá de ombros ao olhar para seu estabelecimento parcialmente destruído por vândalos depois que a Argentina perdeu a final da Copa. "É sempre assim, acontece quase todo mês. Tendo futebol, manifestação, qualquer reunião de gente, eles descem e fazem isso. Já nos acostumamos."

Dessa vez, segundo um cálculo preliminar, ele teve um prejuízo de cerca de R$ 40 mil em mercadorias roubadas. Fora o que terá de pagar para trocar a vitrine da loja, que veio abaixo com golpes de paus e pedradas na noite anterior. A reportagem presenciou o saque. Os vândalos tiraram sacos de lixo das lixeiras para carregar as mercadorias roubadas.

No momento da ação, não havia policiais por perto. "A polícia sabe que acontece e sabe que vai acontecer, mas eles não fazem nada para evitar", afirma Chmea

Uma lanchonete na Av. 9 de Julho, uma das mais importantes da cidade, amanheceu como se tivesse sido vítima de um terremoto: mesas e cadeiras de ponta-cabeça, lustres e vitrines no chão, vidro por todo o lado.

Um bar ficou sem todo seu estoque de bebidas alcóolicas. Uma loja de brinquedo, que também foi alvo de saques na madrugada, amanheceu fechada, apenas com uma placa em que os donos se queixam do vandalismo.

Os incidentes aconteceram por cerca de quatro horas. A maior parte da torcida se reunia no Obelisco, no centro da capital argentina, para festejar a campanha da seleção no Brasil.

Mais tarde, um grupo menor trocou agressões com a polícia, foi rechaçado da praça e promoveu quebra-quebra no caminho. Cerca de 75 pessoas ficaram feridas, entre civis e policiais