quinta-feira, janeiro 16, 2014

Rolezinhos em Bariri

Lembro com carinho das minhas férias de infância e adolescência em Bariri.

Juntava a molecada toda. Tinha filho de fazendeiro com filho de bóia-fria, filho de médico com filho de bancário, filho de viúva com filho bastardo.
Ninguém se importava com a marca da roupa, o salário do pai etc. Ninguém era mais do que ninguém. Democraticamente moleques em busca de diversão para passar o tempo numa cidade de 25 mil habitantes.
Éramos um bando de moleques querendo arrumar um campinho para jogar bola quando o clube estava fechado ou quando o contingente de garotos que não eram sócios do clube era grande. De vez em quando esticávamos até a beira do Tietê para tentar pescar alguma coisa.
Era o nosso rolezinho.
Aprontávamos algumas, é claro. Fazíamos nossas molecagens, exagerávamos, algumas brigas rolavam.
Tinha a turma que caçava passarinho, na qual nunca me encaixei. Eu era da turma que tocava campainha e chutava porta de garagem, uma grande idiotice, mas que nos 12, 13 anos era uma aventura e tanto.

Fico imaginando isso hoje. Uma renca de 30, 40, apertando campainha e chutando porta. Que diria disso, escandalizada, Marilena Chauí?
Pichávamos alguns muros. Quem dava o azar de ser pego em ação tinha que pintar o muro pichado.

Pichador e dono do muro conviviam normalmente depois disso.

Certa vez, tomados pelo tédio de uma tarde infernal de dia primeiro de ano, resolvemos fazer uma guerra de água em pleno centro da cidade.

Providenciamos duas camionetes, uns barris enferrujados, muitas bexigas e demos início ao combate.

Não era bem um combate, porque fizemos uma invasão fulminante, subindo a Claudionor Barbieri e distribuindo água para todos os lados. Enquanto abastecíamos nosso arsenal no Lago Municipal subestimamos a estratégia dos adversários. Sobrou pó químico de extintor de incêndio para este escriba.

A vida seguiu normal no dia seguinte, sem teses acadêmicas para explicar o ocorrido.

Certa noite de baile no Umuarama, a rivalidade Ghererê e Laboratchos era palpável. Provocações de um lado e de outro. Formou-se uma fila de pais, avós, tios e amigos separando os dois blocos que estiveram à beira de resolver as diferenças não no samba, mas no tapa. Felizmente, nada passou de provocação e no mesmo baile dançavam todos juntos.

São versões do rolezinho. Uma brincadeira que os teóricos de plantão, os curadores da verdade acadêmica e do proselitimo pseudo-político transformaram em assunto de pauta nacional.

Quem não gosta de fazer bagunça quando é moleque? Quando forem pais, os idealizadores do rolezinho versão 2014 terão medo de ver seus filhos no meio da zona. Porque é assim que a banda da vida toca.

Eu fujo de aglomeração desde sempre. Não gosto, acho que é uma situação de alta octanagem. E sempre tem um idiota que acende um palito de fósforo no depósito de combustíveis.

O Brasil é um País paupérrimo em opções esportivas e culturais para os jovens. Sejam eles de qualquer faixa social. Sempre foi assim. Embora existam, são poucos os centros esportivos, as bibliotecas, os centros culturais. Mas eles existem. Gratuitos. Deveriam existir mais, às pencas.

Recordei recentemente o projeto das Ruas de Lazer, que eram muito bacana. Ruas eram fechadas aos finais de semana e transformadas em quadras esportivas improvisadas, com redes, traves etc. Sumiu, como quase toda boa ideia some.

Sempre houve versões dos rolezinhos.

Nos anos 70 houve a praga das turmas de brigas. Em São Paulo havia algumas que se tornaram lendárias. Barão, Tubo. Como eram formadas por jovens de classe média baixa e classe média, não chamaram a atenção dos teóricos de plantão. Não dava glamour. Recentemente li belas reportagens sobre o presente dos integrantes dessas turmas do passado. Nada glamouroso, diga-se.

Arrastão também é uma versão de rolezinho com um pé na criminalidade, ou não?

Alguém escreveu sobre os flashmobs, a versão, dizem, descolada, dos rolezinhos. Apesar de eu não ter ideia alguma do que é alguém descolado, do que isso significa.

Aqui perto de casa tem um rolezinho maneiríssimo chamado Meninos do Morumbi. Uma molecada que tira um som bacana, uma batucada do bem, e que vira e mexe anda pelas ruas do bairro, já fez show em estádio de futebol etc.

Um rolezinho tradicionalíssimo de São Paulo é o das sopas do bem. Pessoas que na madrugada distribuem um pouco de calorias e calor humano para excluídos e necessitados. Também não merecem tese acadêmica porque fazem algo, o que espanta qualquer filósofo partidário.

Vou dar um rolezinho e aproveitar os últimos dias de férias. Porque ainda preciso trabalhar.

3 comentários:

Fernando Gemignani disse...

Caramba Nori, você me fez voltar no tempo agora. Eita tempinho bom esse em que essas coisas não eram vistas como algum tipo de crime: apertar campainha, chutar portão de garagem, colocar cocô de cachorro num saquinho de papel, botar fogo nele, colocá-lo na porta de alguém, tocar a campainha e depois sair correndo, dentre tantas outras coisas que fazíamos e que hoje em dia são vistas como atentado por essa sociedade moralista. Com tanta coisa importante pra se preocupar e os caras dão uma ênfase pra esse 'rolezinho' como se fosse o maior problema do nosso país.

Matheus Trunk disse...

Noriega, parabéns pelo belo texto. Sou jornalista e estou fazendo um livro-reportagem sobre a Segunda Academia do Palmeiras. Gostaria de te entrevistar, enviando algumas perguntas sobre o assunto. Qual seu email para contato? Aguardo resposta, abraço, Matheus Trunk
mtrunk@bol.com.br

Luciano disse...

Norasca, Norasca, Norasca!
Na mosca! Na Mosca! Na Mosca!!!!